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Meus amigos viraram vampiro (BTS)

O Eco do Pacto e as Sombras da Cidade

O silêncio que se seguiu àquela manhã de caos era denso, quase palpável. O apartamento, que antes ressoava com música, discussões bobas sobre quem lavaria a louça e o som de ensaios improvisados, agora parecia uma cripta luxuosa. As cortinas pesadas bloqueavam qualquer resquício do sol de Seul, criando um santuário de sombras onde o tempo parecia ter parado.

Eu estava deitada no sofá, sentindo minha cabeça leve e um formigamento persistente no braço enfaixado. Ao meu redor, os sete não se afastavam. Era como se tivessem medo de que, se desviassem o olhar por um segundo, eu desapareceria ou, pior, que a fragilidade humana que eu exalava os tentasse novamente.

— Você precisa comer algo sólido — disse Jin, quebrando o silêncio. Ele estava na cozinha, mas sua voz soava clara como se estivesse sussurrando no meu ouvido. — Fiz sopa de algas e bife. Você perdeu ferro, S/N. Muito ferro.

Eu me esforcei para sentar, sentindo a mão de Namjoon imediatamente apoiar minhas costas. O toque dele estava frio, mas a firmeza era a mesma de sempre.

— Eu estou bem, Jin. Só um pouco tonta — respondi, tentando forçar um sorriso que não chegou a alcançar meus olhos.

— Não, você não está bem — rebateu Yoongi, sentado em uma poltrona no canto mais escuro da sala. Seus olhos, agora de um castanho avermelhado profundo e fixo, não saíam do meu pescoço. — Você foi imprudente. Nós somos perigosos agora. Você sentiu... você viu como perdemos o controle.

— Eu vi amigos que estavam sofrendo — retruquei, olhando diretamente para ele. — E faria de novo.

Jungkook, que ainda estava sentado no chão perto dos meus pés, segurou minha mão não ferida. Seus dedos traçaram as linhas da minha palma com uma reverência quase religiosa.

— O gosto... — ele começou, a voz falhando. — S/N, o seu sangue não é como o que imaginamos. Não é apenas comida. É como se eu pudesse sentir seus pensamentos, sua bondade. Isso torna tudo mais difícil. Como vamos olhar para você e não desejar isso de novo?

— Vocês vão aprender — eu disse com convicção, embora meu coração disparasse. — Se essa é a nossa nova realidade, vamos estabelecer regras.

Namjoon se levantou e começou a andar de um lado para o outro. Seus movimentos eram diferentes agora; mais fluidos, mais silenciosos, como um predador em uma jaula pequena demais.

— Regra número um — declarou Namjoon, parando diante de nós. — Ninguém se alimenta da S/N sem o consentimento de todos e apenas em caso de extrema necessidade. Precisamos encontrar outra fonte. Não podemos drenar a vida da pessoa que mais amamos.

— Mas e o mundo lá fora? — perguntou Hoseok, que estava abraçado aos próprios joelhos no outro sofá. — Não podemos sair no sol. Eu tentei abrir a cortina um pouco mais cedo e minha pele começou a arder como se eu estivesse em um forno. E o cheiro das pessoas na rua... eu consigo ouvir o coração do vizinho do 402 daqui. É torturante.

— Temos que nos adaptar — disse Jimin, aproximando-se de mim e sentando-se ao meu lado. Ele parecia o mais calmo, mas a forma como suas narinas dilatavam levemente quando ele inspirava perto de mim entregava sua luta interna. — Somos o BTS. Sempre nos adaptamos a tudo o que o mundo jogou em cima da gente. Só que agora, o mundo é o nosso cardápio.

Um riso seco e sem humor escapou de Yoongi.

— Ótimo slogan, Jimin. "BTS: Além da Cena e Além da Vida".

— Não é hora para piadas, Yoongi — repreendeu Jin, trazendo uma bandeja com comida e colocando-a na mesa de centro. — Coma, S/N. Por favor.

Eu comecei a comer sob o olhar atento de sete vampiros recém-transformados. Era uma sensação bizarra. Eu me sentia como uma rainha protegida por guardas letais, mas também como uma presa em um ninho de lobos. No entanto, o amor que eu sentia por eles superava o instinto de sobrevivência.

Enquanto eu comia, o clima mudou. Taehyung, que estivera em silêncio absoluto desde que beijara meu curativo, levantou a cabeça. Suas orelhas se mexeram levemente.

— Tem alguém no corredor — sussurrou ele.

Instantaneamente, todos ficaram em alerta. Namjoon fez um sinal para que ficassem em silêncio. O som de passos pesados ecoou, seguido por uma batida firme na porta.

— Entrega para o senhor Kim Namjoon! — gritou uma voz masculina lá fora.

O pânico brilhou nos olhos de Hoseok. O cheiro do entregador, o som do sangue correndo nas veias daquele estranho através da porta de madeira... eu podia ver a luta nos rostos deles. As veias sob os olhos de Jungkook saltaram, tornando-se escuras.

— Eu vou — eu disse, levantando-me rapidamente. — Fiquem no quarto. Todos vocês. Agora!

Eles hesitaram, mas a autoridade na minha voz, misturada com o medo de que eles pudessem atacar um inocente, os fez recuar para as sombras do corredor. Esperei até que o último deles desaparecesse antes de abrir a porta apenas uma fresta.

O entregador era um rapaz jovem, provavelmente um estudante trabalhando meio período. Ele segurava um pacote grande.

— Assine aqui, por favor — disse ele, estendendo a prancheta.

Minhas mãos tremiam enquanto eu assinava. Eu sentia os olhos dos sete sobre nós, escondidos na escuridão do apartamento, observando a jugular do rapaz como se fosse o prêmio mais valioso do mundo.

— Obrigado — eu disse, pegando o pacote e fechando a porta o mais rápido possível, trancando-a com três voltas.

Encostei as costas na madeira, respirando fundo. Em segundos, eles estavam de volta à sala.

— Isso foi... difícil — admitiu Jin, limpando o suor frio da testa. — O cheiro dele era tão forte. Como se fosse um banquete sendo servido na nossa frente.

— Precisamos de sangue — disse Namjoon, a voz agora fria e pragmática. — Sangue de verdade. Não podemos depender da S/N e não podemos caçar humanos. Isso nos tornaria os monstros que a mídia sempre teme.

— Eu tenho um contato — falou Yoongi, surpreendendo a todos. — Um antigo produtor com quem trabalhei. Ele sempre teve hábitos estranhos, saía apenas à noite, tinha uma pele pálida demais. Na época, eu achava que ele era apenas um gótico dedicado, mas agora... as peças se encaixam. Se ele for o que eu acho que é, ele pode nos ajudar a conseguir bolsas de hospital.

— E por que ele nos ajudaria? — perguntou Taehyung, inclinando a cabeça.

— Porque nós somos muitos, Taehyung — respondeu Yoongi. — E vampiros solitários geralmente não querem problemas com um grupo de sete recém-criados famintos. É uma questão de sobrevivência mútua.

Namjoon assentiu.

— Yoongi, tente falar com ele. Mas vá com cuidado. Jimin e Jungkook, vocês vão com ele. São os mais rápidos se algo der errado.

— E quanto a mim? — perguntei, sentindo-me deixada de lado.

— Você fica aqui com o Jin, o Hoseok e o Taehyung — ordenou Namjoon, segurando meus ombros. — Você é o nosso coração, S/N. Se algo acontecer com você, nós perdemos a nossa humanidade de vez. Entenda isso.

Eu queria protestar, mas a intensidade no olhar de Namjoon me calou. Ele não estava apenas pedindo; ele estava implorando pela minha segurança.

As horas seguintes foram de uma tensão insuportável. Yoongi, Jimin e Jungkook saíram vestindo moletons pretos com capuz, máscaras e óculos escuros, parecendo idols tentando evitar o dispatch, mas o motivo era muito mais sombrio.

No apartamento, Jin tentava manter a normalidade limpando a cozinha, enquanto Hoseok e Taehyung se sentaram ao meu lado no sofá.

— Você está com medo da gente, não está? — perguntou Hoseok baixinho, olhando para as próprias mãos, que agora tinham unhas levemente mais afiadas.

— Não de vocês — respondi sinceramente. — Tenho medo do que esse mundo vai fazer com vocês. Se alguém descobrir...

— Nós vamos nos proteger — disse Taehyung, encostando a cabeça no meu ombro. — Eu sinto uma força que nunca imaginei ter. Eu poderia derrubar essa parede com um soco. Mas a única coisa que eu realmente quero é ter certeza de que você não vai nos olhar com nojo.

— Nunca — eu disse, abraçando-o de lado. — Vocês me protegeram daqueles morcegos. Vocês se sacrificaram por mim. Eu nunca poderia sentir nojo.

De repente, a porta se abriu. Yoongi e os outros voltaram. Eles carregavam uma caixa térmica preta. A expressão no rosto de Jimin era de um alívio misturado com repulsa.

— Conseguimos — disse Yoongi, colocando a caixa sobre a mesa. — O contato era real. Ele nos deu isso como um "presente de boas-vindas" à noite eterna.

Dentro da caixa, havia várias bolsas de sangue hospitalar, rotuladas com tipos sanguíneos. O ar na sala mudou instantaneamente. A fome, que havia sido apenas aplacada pelo meu sangue horas antes, voltou a rugir.

Namjoon distribuiu as bolsas. Eles bebiam com uma urgência que me partia o coração, mas, ao mesmo tempo, era um alívio ver que eles não precisariam mais me ferir. Quando terminaram, a transformação era visível. A palidez doentia deu lugar a um brilho aristocrático. Eles pareciam mais bonitos, se é que isso era possível, mas era uma beleza perigosa, como uma lâmina de diamante.

— Isso vai durar alguns dias — disse Namjoon, limpando um rastro de sangue do canto da boca. — Mas o meu contato disse algo preocupante.

— O quê? — perguntei, sentindo um frio na espinha.

— Ele disse que o ataque dos morcegos não foi um acidente — interveio Jungkook, os olhos brilhando intensamente. — Alguém nos escolheu. Alguém queria que o BTS se tornasse isso.

— Por quê? — perguntei, a voz trêmula.

— Influência — respondeu Yoongi. — Imagine ter o grupo mais influente do mundo sob o seu comando, com o poder de vampiros originais. Quem quer que tenha feito isso, virá atrás de nós.

Houve um silêncio pesado. A ideia de que eles eram alvos de algo ainda mais sombrio do que a própria transformação era aterrorizante.

— Deixem que venham — disse Jimin, sua voz agora carregada de uma confiança sobrenatural. — Eles cometeram um erro fatal.

— Qual? — perguntei.

Jimin olhou para mim, e os outros seis seguiram seu olhar. Havia uma união ali que transcendia a música, a fama e agora até a própria biologia.

— Eles nos deram poder, mas esqueceram que nós já tínhamos algo pelo qual lutar — disse Jimin, segurando minha mão. — Eles nos deram presas, mas nós já tínhamos a vontade de proteger o que é nosso.

— E você é nossa, S/N — completou Taehyung, sua voz vibrando em uma frequência que fez meu sangue cantar. — Quem quer que tenha feito isso, vai descobrir que não somos apenas vampiros. Somos uma alcateia. E ninguém toca na nossa protegida.

Naquela noite, não dormimos. Ficamos sentados na sala, planejando, conversando e aprendendo sobre as novas habilidades deles. Descobrimos que Taehyung conseguia se mover tão rápido que parecia teletransporte. Que a audição de Hoseok podia captar conversas a quilômetros de distância. Que a força de Namjoon era capaz de esmagar aço sem esforço.

Mas o mais surpreendente foi a conexão comigo. Quando eu ficava ansiosa, o coração de todos eles acelerava em sincronia. Eu era o metrônomo deles, a âncora que os impedia de se perderem na sede de sangue.

Perto do amanhecer, quando o céu começava a clarear atrás das cortinas, Jungkook se aproximou de mim enquanto eu cochilava.

— S/N? — sussurrou ele.

— Hum? — abri os olhos devagar.

— O pacto que fizemos... o pacto de sangue. Ele não é apenas sobre nos alimentar.

— O que você quer dizer, Kook?

Ele hesitou, olhando para os outros, que observavam com atenção.

— O seu sangue em nós... ele criou um vínculo. Nós podemos sentir onde você está. Podemos sentir se você está em perigo. Você nos deu uma parte de si, e agora somos parte de você.

Eu olhei para os sete homens magníficos e terríveis diante de mim. O mundo lá fora continuaria a girar, os fãs continuariam a esperar por músicas, a empresa continuaria a cobrar resultados. Mas nada seria igual.

— Eu não me arrependo — eu disse, sentindo uma estranha paz. — Se isso é o que precisamos para ficarmos juntos, que assim seja.

Namjoon se aproximou e colocou a mão sobre a de Jungkook, que ainda segurava a minha. Um por um, todos colocaram as mãos ali, formando uma pilha de promessas silenciosas no escuro.

— A cidade vai acordar em breve — disse Namjoon. — E nós teremos que aprender a viver nas sombras dela. Mas enquanto estivermos juntos, a noite não será nossa inimiga.

Eu fechei os olhos, sentindo a força deles me envolver. Eu era apenas uma humana no meio de sete predadores, mas, pela primeira vez na vida, eu me sentia absolutamente invencível. O sangue que corria em minhas veias era o mesmo que agora pulsava neles, e esse laço carmesim era a garantia de que, não importa o monstro que surgisse das trevas, nós o enfrentaríamos de frente.

A fome estava controlada, por enquanto. Mas a guerra pelo nosso futuro estava apenas começando. E em Seul, as luzes de neon nunca brilharam tanto quanto o vermelho nos olhos dos meus protetores.

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