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Meus amigos viraram vampiro (BTS)

O Sussurro da Fome e a Harmonia das Sombras

A primeira semana após a transformação foi um borrão de adaptação forçada e sentidos sobrecarregados. O dormitório, que antes era o epicentro de risadas e o aroma constante de café, havia se transformado em um laboratório de sombras. Cada um deles lidava com a nova natureza de uma forma diferente, mas todos compartilhavam o mesmo olhar faminto sempre que eu entrava na sala. Não era um desejo de me machucar, eu sabia disso, mas a biologia agora falava mais alto que a vontade.

Eu estava sentada no chão da sala, cercada por livros de medicina e folclore que Yoongi havia conseguido através de seu contato misterioso. O curativo no meu pulso já não era mais necessário — a cicatrização deles, ao se alimentarem, parecia ter acelerado a minha própria cura —, mas a marca ainda estava lá, uma cicatriz pálida que servia como lembrete do nosso pacto.

— S/N, você está pensando demais. O som das suas engrenagens mentais está me dando dor de cabeça — murmurou Yoongi, pendurado de cabeça para baixo no sofá, os olhos fechados, mas as orelhas movendo-se a cada pequeno ruído da rua.

— Estou tentando entender o que somos agora, Yoongi — respondi, fechando um tomo pesado sobre hematologia. — Se esse contato do seu produtor está certo, vocês não são vampiros comuns. O ataque dos morcegos foi... cirúrgico.

— Cirúrgico ou não, eu ainda odeio o fato de que não posso comer um hambúrguer decente — reclamou Jin, saindo da cozinha com uma expressão de desgosto. Ele segurava uma bolsa de sangue hospitalar como se fosse um suco de caixinha, mas seus olhos brilhavam com uma satisfação involuntária ao dar o primeiro gole. — O gosto é metálico, frio e sem alma. O seu, S/N... o seu tinha gosto de sol.

O silêncio caiu sobre a sala. Todos os outros, espalhados pelos cantos escuros, pareceram congelar ao ouvir a descrição de Jin.

— Não fale assim — sibilou Namjoon, surgindo das sombras do corredor. Ele parecia ter crescido alguns centímetros, sua presença agora emanando uma autoridade física que fazia o ar vibrar. — Não podemos ficar obcecados pelo sangue dela. As bolsas são o suficiente para nos manter funcionais.

— Funcionais, mas não fortes — retrucou Jungkook, que estava em um canto fazendo flexões com uma velocidade que o tornava um vulto borrado. Ele parou subitamente, o suor brilhando em sua pele agora excessivamente pálida. — Eu sinto que estou operando com 10% da minha capacidade. Sempre que tento usar minha velocidade, meu estômago queima.

Eu me levantei, sentindo o peso do olhar de sete predadores sobre mim.

— Talvez seja porque vocês estão lutando contra o que são — eu disse, caminhando até o centro da sala. — Vocês estão tentando agir como se nada tivesse mudado, mas mudou. Precisamos treinar. Se alguém nos escolheu para isso, como o Yoongi disse, eles vão voltar. E se vocês estiverem fracos por causa de uma dieta de bolsas de sangue velhas, não teremos chance.

— Treinar? — Hoseok riu, uma nota de histeria em sua voz. Ele estava sentado perto da janela fechada, ouvindo o mundo lá fora. — S/N, se eu perder o controle durante um treino, eu posso arrancar um braço sem querer. Eu sinto a força nas minhas mãos, é como se eu estivesse segurando um trovão o tempo todo.

— Então aprendam a soltar o trovão sem destruir tudo — desafiei.

Naquela noite, decidimos usar o porão do prédio, um espaço amplo e isolado que servia de depósito para equipamentos de turnê antigos. Descemos as escadas em silêncio, uma procissão de sombras. A temperatura lá embaixo era baixa, mas para eles, parecia não fazer diferença.

— Namjoon, tente me atacar — eu disse, parando no meio do salão vazio.

— Você ficou louca? — Namjoon deu um passo atrás, os olhos arregalando-se. — Eu posso te matar com um movimento errado.

— Você não vai. Use sua audição. Sinta meu coração. Ele está calmo, não está? — Perguntei, abrindo os braços. — Eu confio em você. Use essa confiança como âncora. Se você perder o controle, foque no som do meu batimento.

Os outros se afastaram, formando um círculo nas bordas do salão. A tensão era elétrica. Namjoon respirou fundo, um som que pareceu um rosnado baixo. Suas pupilas dilataram até que seus olhos fossem poços negros.

Em um piscar de olhos, ele se moveu. Eu não vi o deslocamento, apenas senti o deslocamento de ar. Mas, em vez de um impacto, senti apenas a ponta de seus dedos roçando meu pescoço, parando a milímetros da minha pele.

— Rápido demais — ele sussurrou, sua voz vibrando contra minha garganta. — Eu quase não consegui parar.

— Mas parou — sorri, embora minhas pernas estivessem tremendo. — Agora, de novo. Todos vocês.

O treinamento durou horas. Eles aprenderam a controlar a força, a medir a velocidade e, o mais importante, a lidar com a presença do meu sangue sem entrar em frenesi. Taehyung descobriu que podia hipnotizar pequenos animais que entravam no porão, o que o deixou fascinado e horrorizado ao mesmo tempo. Jimin aprendeu a mascarar sua presença tão perfeitamente que até os outros vampiros o perdiam de vista.

Porém, a fome constante era uma sombra que não ia embora.

— Não aguento mais — rosnou Jungkook, caindo de joelhos após uma sessão de corrida de alta velocidade. Seus olhos estavam vermelhos vivos, e ele cravou as unhas no chão de concreto, rachando-o. — O sangue da bolsa... é como beber água suja quando se está morrendo de sede no deserto.

Eu me aproximei dele, ignorando o aviso de Yoongi. Ajoelhei-me à sua frente e levei a mão ao pescoço, onde a pulsação era mais forte.

— Jungkook, olhe para mim.

Ele levantou a cabeça, o rosto transformado pela fome. As presas estavam totalmente expostas, e ele parecia um animal ferido.

— S/N... saia. Por favor.

— Eu sou a âncora, lembra? — Eu disse suavemente. — Se vocês precisam de um pouco mais para se estabilizarem, eu dou. Mas vocês têm que aprender a tirar apenas o necessário. É uma troca. Minha vida pela segurança de vocês.

— Isso é doentio — disse Yoongi, aproximando-se, embora sua própria expressão denunciasse a necessidade. — Estamos nos tornando parasitas da pessoa que deveríamos proteger.

— Não são parasitas se eu estou oferecendo — retruquei. — Somos uma família. Se um de nós estivesse doente e precisasse de uma doação de órgão, não hesitaríamos. Isso é apenas... uma doação mais frequente.

Jungkook hesitou, mas a proximidade do meu cheiro foi o estopim. Ele envolveu minha cintura com os braços, puxando-me para perto com uma força desesperada, mas controlada. Seus lábios tocaram a pele do meu pescoço, e eu senti um arrepio percorrer minha espinha.

— Só um pouco... — ele murmurou contra minha pele.

A picada foi rápida, uma dor aguda que logo se transformou em uma dormência morna. Eu senti a vitalidade sendo sugada, mas ao mesmo tempo, senti a conexão se fortalecendo. Eu podia ver flashes das memórias dele, a dor da transformação, o medo de me perder, o amor avassalador que ele sentia por todos nós.

Quando ele se afastou, seus olhos estavam limpos, a vermelhidão substituída pelo castanho quente que eu tanto amava. Ele parecia revigorado, a aura de perigo substituída por uma calma absoluta.

— Obrigado — ele sussurrou, escondendo o rosto no meu ombro.

Um por um, os outros se aproximaram. Desta vez, não houve caos. Foi um ritual. Um sacrifício compartilhado que selava nossa nova existência. Jin foi o último, e ele segurou minha mão com uma delicadeza extrema enquanto se alimentava.

Quando terminamos, eu me senti fraca, mas meu coração estava leve. Eles estavam em pé, formando uma linha defensiva ao meu redor, parecendo deuses da noite.

— Agora — disse Namjoon, sua voz ressoando com uma força nova —, estamos prontos.

— Prontos para quê? — Perguntei, sentando-me no chão enquanto Hoseok me entregava uma garrafa de água e uma barra de ferro (suplemento).

— Para descobrir quem nos transformou — respondeu Yoongi, olhando para a escada do porão. — Eu recebi uma mensagem do meu contato. Ele não quer apenas nos ajudar. Ele disse que "o mestre" quer uma audiência com os novos príncipes de Seul.

— Mestre? — Franzi a testa. — Isso soa como um filme de terror ruim.

— É a realidade deles agora, S/N — disse Jimin, sentando-se ao meu lado e passando o braço pelos meus ombros. — E parece que eles não contavam com você no meio do caminho. Eles achavam que teríamos matado você na primeira noite.

— Eles subestimaram o quanto nós a amamos — disse Taehyung, seus olhos brilhando no escuro. — Eles nos deram o poder, mas nós escolhemos como usá-lo.

De repente, o som de algo quebrando no andar de cima ecoou pelo porão. O silêncio que se seguiu foi absoluto. Os sete se moveram em uníssono, as cabeças viradas para o teto.

— Eles chegaram — sussurrou Hoseok, sua audição captando o que nenhum humano conseguiria. — Não é apenas um. São vários. E eles não cheiram como nós. Cheiram a terra úmida e morte antiga.

Namjoon se virou para mim, sua expressão séria.

— S/N, fique atrás de nós. Não importa o que aconteça, não saia do centro do círculo.

— Eu não vou a lugar nenhum — respondi, sentindo a adrenalina expulsar a fraqueza do meu corpo.

Subimos as escadas com uma graça sobrenatural. Ao entrarmos na sala principal do dormitório, o cenário era de devastação. As janelas estavam estraçalhadas, e o vento frio da noite de Seul soprava para dentro, trazendo consigo o cheiro de ozônio.

No centro da sala, parado sobre os destroços da mesa de centro, estava um homem vestido com um terno impecável, mas cujos olhos eram fendas de um amarelo doentio. Atrás dele, três figuras encapuzadas permaneciam imóveis como estátuas.

— Kim Namjoon e seus discípulos — disse o homem, sua voz soando como o arranhar de unhas em uma lousa. — Vocês sobreviveram à transição com uma dignidade impressionante. Mas vejo que ainda carregam o fardo da sua humanidade.

Ele apontou para mim com um dedo longo e pálido.

— A garota deveria estar morta. Ela é o elo fraco que os mantém presos ao passado.

— Ela é a razão de ainda termos uma alma — rosnou Namjoon, dando um passo à frente. — Quem é você e o que quer com a gente?

— Eu sou apenas um mensageiro — o homem sorriu, revelando dentes que não eram humanos. — O Mestre está impressionado. Ele esperava monstros sedentos de sangue, mas encontrou guerreiros. Ele lhes oferece um lugar na Nova Corte. Sangue infinito, poder sobre as massas e a imortalidade sem as restrições da moralidade humana.

— E qual o preço? — Perguntou Yoongi, as mãos nos bolsos, mas o corpo tenso como uma mola.

— O preço é simples — o mensageiro olhou para mim. — Entreguem a garota. Ela será o primeiro banquete da Nova Corte para selar o pacto de vocês. Um sacrifício necessário para que o BTS se torne verdadeiramente eterno.

O rosnado que saiu da garganta de Jungkook foi algo que eu nunca esquecerei. Foi um som primal, carregado de um ódio tão puro que até o mensageiro vacilou.

— Vocês têm três segundos para sair da nossa casa — disse Namjoon, sua voz baixa e mortal. — Antes que eu decida testar se a sua "imortalidade" sobrevive a ter a cabeça arrancada.

O mensageiro riu, um som seco.

— Vocês são tolos. Estão famintos, fracos e presos a um pedaço de carne mortal.

— Nós não estamos famintos — disse Jimin, aparecendo subitamente atrás de um dos encapuzados com uma velocidade que fez o homem de terno arregalar os olhos. — Nós acabamos de jantar.

Em um movimento coordenado que havíamos praticado no porão, os sete atacaram. Não era uma briga de rua; era uma dança macabra. Taehyung e Hoseok cuidaram dos encapuzados com uma eficiência assustadora, enquanto Jin e Yoongi flanqueavam o mensageiro.

Eu observava do centro do círculo, protegida por Namjoon e Jungkook, que permaneciam como sentinelas. O mensageiro tentou revidar, movendo-se com uma rapidez sobrenatural, mas ele estava enfrentando sete mentes que trabalhavam como uma só, ligadas pelo meu sangue e por anos de irmandade.

Em questão de minutos, os encapuzados estavam no chão, inconscientes ou mortos — eu não queria saber —, e o mensageiro estava prensado contra a parede por Namjoon, cujas mãos apertavam seu pescoço com uma força que fazia o osso estalar.

— Diga ao seu mestre — disse Namjoon, os olhos brilhando com uma fúria ancestral — que o BTS não aceita ordens. E diga que, se ele chegar perto da S/N novamente, nós não apenas recusaremos a oferta. Nós caçaremos cada um de vocês até que não reste nada além de cinzas.

Namjoon o arremessou pela janela quebrada. O homem caiu de uma altura de três andares, mas eu o vi se levantar e desaparecer nas sombras do beco, correndo como um animal ferido.

O silêncio voltou ao apartamento, interrompido apenas pelo som da respiração pesada dos meninos. Eles se viraram para mim, a adrenalina da luta ainda correndo em suas veias.

— Você está bem? — Perguntou Jungkook, correndo para o meu lado e verificando se eu tinha algum arranhão.

— Estou — respondi, meu coração batendo forte. — Mas isso foi apenas o começo, não foi?

— Sim — disse Yoongi, olhando para a janela destruída. — Eles não vão desistir. Agora somos inimigos de algo muito antigo e muito poderoso.

— Deixem que venham — disse Jin, limpando um pouco de poeira do ombro. — Nós temos algo que eles nunca terão.

— O quê? — Perguntei.

— Um motivo para permanecerem humanos no meio da escuridão — respondeu Jin, olhando para mim com um carinho que me fez esquecer, por um momento, que ele era um predador da noite.

Naquela noite, não houve mais sono. Limpamos os destroços, cobrimos as janelas com tábuas e nos sentamos juntos no centro da sala. O perigo era real, e o mundo que conhecíamos havia desaparecido para sempre. Mas, enquanto eu olhava para os sete rostos ao meu redor — meus amigos, meus protetores, meus monstros —, eu sabia que não importava o quanto a noite fosse longa ou faminta.

Nós éramos o BTS. E, com o meu sangue correndo em suas veias, eles eram invencíveis.

— S/N — chamou Taehyung, deitando a cabeça no meu colo.

— Sim, Tae?

— O seu sangue... ele tem gosto de coragem.

Eu sorri, passando a mão por seus cabelos. A guerra estava à porta, mas, por enquanto, éramos apenas nós oito, unidos por um laço carmesim que nem a morte poderia quebrar. E, em algum lugar nas sombras de Seul, o "Mestre" logo descobriria que havia cometido o maior erro de sua existência eterna: ele havia nos dado as ferramentas para destruí-lo.

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