Voltar ao resumo

Meus olhos em voce

O Sal das Lágrimas e a Promessa do Horizonte

A cobertura de Mia nunca pareceu tão silenciosa quanto naquela manhã. O sol entrava pelas janelas de vidro do chão ao teto, iluminando as partículas de poeira que dançavam no ar, indiferentes ao caos que se instalara em sua vida. O diagnóstico ainda ecoava em sua mente como um zumbido constante, mas o encontro no posto de gasolina na noite anterior havia mudado algo fundamental. Pela primeira vez em meses, o peso no seu peito não era apenas o tumor; era a esperança desesperada de ver seus amigos inteiros novamente.

Ela se sentou à mesa de carvalho maciço, um contraste gritante com a vida precária que Namjoon e os outros levavam. Mia abriu um caderno de capa de couro desgastada, um presente que seu avô lhe dera anos atrás, quando ela ainda acreditava que o mundo era um lugar seguro. A ponta da caneta hesitou sobre o papel branco antes de começar a traçar letras firmes, apesar do leve tremor em seus dedos.

No topo da página, ela escreveu: *“O que resta de mim antes do fim”*.

Mia não queria uma lista de desejos clichê. Ela não precisava saltar de paraquedas ou ver a Torre Eiffel; ela já tinha visto o mundo e descoberto que as vistas mais bonitas eram aquelas compartilhadas com pessoas que amamos. Seus itens eram simples, mas carregavam o peso de uma vida inteira de renúncias em favor da liberdade.

*1. Ver o Yoongi tocar piano novamente, sem medo das sombras.* *2. Ajudar o Jin a encontrar um berço que não balance tanto para a Meilin.* *3. Ver o sorriso real do Hoseok, aquele que não é forçado pela doença.* *4. Levar o Taehyung e a irmã dele para um lugar onde ninguém levante a mão para eles.* *5. Garantir que o Jimin saiba que as paredes brancas não definem quem ele é.* *6. Fazer o Namjoon entender que ele é o pilar, não o peso.*

Ela parou. O coração batia forte contra as costelas, uma dor aguda e latejante que a lembrava de sua mortalidade. Seus olhos se voltaram para o último item, aquele que ela vinha adiando até para si mesma. A caneta deslizou pelo papel, as letras saindo um pouco menores, como se estivessem escondidas.

*7. Tomar coragem e me declarar para o Jungkook.*

Mia fechou o caderno abruptamente, o som ecoando pela sala vazia. Ela sentia o gosto metálico de sangue no fundo da garganta e tossiu levemente, limpando a boca com o dorso da mão. O tempo era um luxo que ela não possuía, e a cada segundo que passava sentindo medo, era um segundo roubado de Jungkook.

Ele era o "menino quebrado", o garoto que buscava na dor física uma prova de que ainda existia. Mia sabia que, para Jungkook, ela era uma espécie de farol, mas ele nunca se permitiu chegar perto demais, temendo que seu próprio escuro apagasse a luz dela. Mal sabia ele que a luz de Mia estava se apagando por conta própria, e que ele era o único combustível que a mantinha acesa.

— Se eu esperar pelo momento perfeito, o momento vai me levar antes — sussurrou ela para as paredes de vidro.

Ela pegou as chaves do carro, vestiu um casaco leve para esconder a magreza que as roupas largas já não conseguiam mais ocultar totalmente, e saiu. Ela não ligou para nenhum deles. Precisava de um momento de paz antes do confronto final com a verdade.

A estrada para a praia de Incheon parecia mais longa do que o normal. O céu estava começando a ganhar tons de laranja e violeta, o prelúdio de um pôr do sol que prometia ser magnífico. Quando Mia finalmente estacionou, o cheiro de maresia a atingiu como uma lembrança de infância. Ela caminhou pela areia, sentindo os grãos finos entrarem em seus sapatos, mas logo os abandonou, preferindo o contato gelado da areia úmida sob os pés descalços.

Ela se sentou perto da água, observando as ondas quebrarem. O câncer de pâncreas era uma sentença solitária, mas ali, diante da imensidão do oceano, ela se sentia pequena de uma forma confortante. Se o mundo era tão grande, talvez sua dor não fosse tão absoluta.

— Eu sabia que te encontraria aqui.

A voz era suave, carregada de uma timidez que Mia reconheceria em qualquer lugar. Ela se virou e viu Jungkook parado a poucos metros de distância. Ele usava o mesmo moletom escuro da noite anterior, o capuz caído, revelando o rosto jovem marcado pelas brigas de rua e pela negligência doméstica. Seus olhos, no entanto, estavam fixos nela com uma intensidade que a fez perder o fôlego.

— Você está me seguindo, Jeon Jungkook? — perguntou ela, tentando manter o tom leve, embora seu coração estivesse disparado.

— Jin me disse que você saiu de casa com cara de quem ia fazer uma loucura — ele respondeu, aproximando-se e sentando-se ao lado dela, mantendo uma distância respeitosa. — E, conhecendo você, a praia é o lugar onde você vem quando o mundo fica pequeno demais.

Eles ficaram em silêncio por um longo tempo, observando o sol mergulhar lentamente no horizonte. O céu era agora um incêndio de cores, refletindo no mar como se a água estivesse em chamas.

— Você está com medo? — Jungkook perguntou de repente, a voz quase um sussurro.

Mia olhou para as próprias mãos, entrelaçadas sobre os joelhos.

— De morrer? Às vezes. Mas tenho mais medo de deixar vocês para trás sem que saibam o quanto são importantes. Tenho medo de que, quando eu me for, você volte para aquele teto de prédio, Jungkook.

Jungkook apertou os punhos, cravando as unhas nas palmas das mãos.

— Por que você se importa tanto comigo? Eu sou só um garoto quebrado, Mia. Eu não tenho nada a oferecer. Meu pai foi embora, meu padrasto me odeia, e eu nem sequer consigo olhar no espelho sem querer quebrar o vidro.

Mia se inclinou para ele, eliminando a distância que os separava. Ela tocou o rosto dele, forçando-o a olhar para ela.

— Você não é o que eles fizeram com você — disse ela com uma firmeza que o calou. — Você é a pessoa mais gentil que eu já conheci. Você cuida de todos nós, mesmo quando está desmoronando. Você sente tudo tão intensamente que dói, e isso não é uma fraqueza, Jungkook. É o que te torna real.

Ela respirou fundo, sentindo o ar salgado queimar seus pulmões. Era agora ou nunca. O item número sete da lista queimava em sua mente.

— Eu fiz uma lista hoje — ela começou, a voz tremendo levemente. — Coisas que eu quero fazer antes... antes de não poder mais.

Jungkook a observava, imóvel.

— E o que tem nessa lista?

— Muitas coisas sobre os meninos. Sobre o Jin, o Yoongi, o Namjoon... — Ela fez uma pausa, os olhos brilhando com lágrimas que se recusavam a cair. — Mas a última coisa era sobre você.

— Sobre mim?

— Eu escrevi que precisava tomar coragem para dizer que sempre fui apaixonada por você, Jungkook.

O silêncio que se seguiu foi preenchido apenas pelo som rítmico das ondas. Jungkook parecia ter parado de respirar. O mundo ao redor deles desapareceu; não havia mais hospitais, nem brigas, nem pobreza, nem câncer. Havia apenas os dois, sob o céu que se tornava cada vez mais escuro.

— Mia... — ele começou, mas a voz falhou.

— Não precisa dizer nada — interrompeu ela, sentindo uma onda de alívio por ter finalmente libertado aquelas palavras. — Eu sei que é complicado. Eu sei que eu estou doente e que o tempo é curto, e talvez seja injusto dizer isso agora, mas eu não podia ir embora sem que você soubesse que, em todos os momentos em que eu me senti livre, era porque você estava por perto.

Jungkook não respondeu com palavras. Ele se moveu rapidamente, envolvendo-a em um abraço tão apertado que Mia sentiu como se ele estivesse tentando fundir suas almas. Ele escondeu o rosto no ombro dela, e Mia sentiu a umidade das lágrimas dele atravessar o tecido de seu casaco.

— Você não é invisível — sussurrou ela, retribuindo o abraço com toda a força que lhe restava. — Nunca foi.

— Eu também amo você — ele confessou contra a pele dela, a voz abafada pelo choro. — Eu tive tanto medo de te amar porque tudo o que eu amo acaba indo embora. Eu achei que, se eu ficasse longe, você ficaria segura. Que se eu fosse invisível, a dor não me encontraria.

— A dor sempre nos encontra, Jungkook — disse ela, afastando-se apenas o suficiente para olhar nos olhos dele. — O segredo é ter alguém para segurar sua mão enquanto dói.

Jungkook limpou o rosto com a manga do moletom, um pequeno sorriso triste surgindo em seus lábios.

— Então eu vou segurar a sua mão. Até o fim. E depois também.

Mia sorriu, sentindo uma paz que não experimentava há meses. Ela se levantou, estendendo a mão para ele.

— O sol já se pôs. Agora eu quero fazer outra coisa da minha lista, mesmo que eu não tenha escrito.

— O quê?

— Quero nadar.

Jungkook franziu a testa, preocupado.

— Mia, a água está gelada. Você pode ficar resfriada, e com a sua saúde...

— Jungkook — ela o interrompeu, rindo levemente enquanto começava a tirar o casaco. — Eu tenho câncer de pâncreas. Um resfriado é a menor das minhas preocupações. Eu quero sentir o mar. Quero sentir que ainda estou viva e que o mundo é vasto.

Ele hesitou por um momento, mas a determinação nos olhos dela era contagiante. Ele tirou os sapatos e o moletom, ficando apenas de camiseta.

— Tudo bem. Mas eu não vou te soltar.

Eles correram em direção à água, os pés afundando na areia molhada. Quando a primeira onda atingiu suas pernas, Mia soltou um grito de surpresa e alegria. A água estava congelante, um choque térmico que fez seu coração disparar e seus sentidos despertarem. Eles avançaram até que a água chegasse à cintura.

Mia mergulhou, deixando que o sal lavasse suas preocupações e que o frio anestesiasse a dor em seu abdômen. Quando emergiu, Jungkook estava bem ao seu lado, o cabelo molhado grudado na testa, observando-a como se ela fosse a coisa mais preciosa do universo.

— É maravilhoso, não é? — perguntou ela, ofegante.

— É — respondeu ele, mas não estava olhando para o mar. Estava olhando para ela.

Eles ficaram ali, flutuando na penumbra, cercados pela imensidão do oceano. Naquele momento, Mia não era uma paciente terminal e Jungkook não era um menino quebrado. Eles eram apenas dois jovens descobrindo que, mesmo em meio aos destroços de suas vidas, ainda havia espaço para a beleza.

— Promete uma coisa para mim? — Mia perguntou, enquanto as ondas os balançavam suavemente.

— Qualquer coisa.

— Prometa que, quando as coisas ficarem difíceis, você vai se lembrar deste momento. Da água, do sal e do fato de que você é amado. Prometa que vai ajudar os outros a se encontrarem de novo. O Jin precisa de você, o Taehyung precisa de um irmão que não o machuque, o Jimin... todos eles.

Jungkook segurou as mãos dela sob a água.

— Eu prometo, Mia. Eu vou manter o grupo unido. Por você. E por nós.

Eles saíram da água tremendo de frio, mas com os corações aquecidos. Jungkook envolveu Mia em seu moletom seco, abraçando-a por trás enquanto caminhavam de volta para o carro. O céu agora estava cravejado de estrelas, as mesmas estrelas que brilhavam sobre o posto de gasolina de Namjoon, sobre o hospital de Jimin e sobre o quarto silencioso de Yoongi.

Mia sabia que os dias que viriam seriam difíceis. Haveria hospitais, tratamentos dolorosos e o adeus inevitável. Mas, enquanto olhava para o perfil de Jungkook sob a luz do luar, ela sentiu que sua lista estava começando a ser cumprida. Ela não era mais apenas a garota rica fugindo de casa; ela era o fio que estava costurando novamente os retalhos daquela família de amigos.

E Jungkook, o menino que se sentia invisível, finalmente tinha sido visto. E, ao ser visto por Mia, ele finalmente começou a ver a si mesmo.

— Vamos para casa? — perguntou ele, abrindo a porta do carro para ela.

— Vamos — disse Mia, dando uma última olhada para o mar. — Temos muito trabalho a fazer. Amanhã, vamos visitar o Jimin. Todos nós.

Jungkook sorriu, um sorriso que chegou aos olhos e iluminou a escuridão da noite.

— Todos nós — repetiu ele.

A jornada deles estava longe de ser fácil, e as cicatrizes ainda estavam lá, profundas e doloridas. Mas naquela noite, à beira do oceano, eles aprenderam que, embora o vidro estivesse quebrado, os cacos ainda podiam brilhar se houvesse