Meus olhos em voce
O Eco do Silêncio no Rio Han
Um mês pode ser uma eternidade quando se conta o tempo pelas gotas de um soro quimioterápico. Para Mia Lencov, os últimos trinta dias foram uma sucessão de cores desbotadas, cheiros de hospital e uma fraqueza que parecia ter raízes em seus ossos. O câncer de pâncreas, aquele inquilino implacável, não era mais apenas uma sombra; era um incêndio que consumia sua energia, deixando para trás apenas a determinação feroz de uma garota que se recusava a apagar antes de ver seus amigos seguros.
O grupo, milagrosamente, estava mantendo as pontas unidas. Namjoon agora tinha um emprego melhor, graças a uma indicação que o pai de Mia fizera — um raro gesto de presença de um homem que vivia submerso em planilhas e reuniões internacionais para ignorar a morte iminente da única filha. Yoongi voltara a compor, embora suas melodias fossem tristes e profundas como o oceano em Incheon. Taehyung conseguira tirar a irmã de casa em alguns finais de semana, e Jimin, com a ajuda de Jin e das visitas constantes de Sarah, estava começando a processar o trauma que o mantinha prisioneiro de sua própria mente.
Mas o preço da união parecia ser a saúde de Mia.
Naquela tarde de outono, o vento soprava frio sobre as águas do Rio Han. Jungkook caminhava devagar, ajustando o passo ao ritmo arrastado de Mia. Ela usava um lenço de seda colorido na cabeça para esconder as falhas onde o cabelo loiro e longo, que antes batia no quadril, agora caía em tufos. Ela estava muito mais magra; o rosto bronzeado dera lugar a uma palidez quase translúcida, e as maçãs do rosto estavam tão proeminentes que pareciam esculpidas em mármore.
— Você está muito quieto, Kookie — disse ela, a voz fraca, mas mantendo aquele tom de brincadeira que ele tanto amava. — Se continuar me olhando assim, vou começar a achar que estou com algo no dente.
Jungkook forçou um sorriso, embora seu coração estivesse sendo esmagado pela visão dela. Ele segurava o braço de Mia com uma delicadeza extrema, como se ela fosse feita de papel de arroz.
— Só estou admirando a vista — ele respondeu, desviando o olhar para o rio. — O sol está refletindo na água de um jeito bonito hoje.
— Mentiroso — sussurrou ela, parando de caminhar. — Você está contando meus passos, calculando quanto tempo eu aguento antes de desmaiar.
Jungkook parou e a encarou. Ele não era mais aquele garoto que se escondia em telhados de prédios. Ele havia crescido meses em poucas semanas. Seus olhos, antes perdidos, agora focavam nela com uma devoção protetora.
— Eu só quero que você fique bem, Mia. Se você se cansar, a gente para. Não precisa provar nada para ninguém.
— Eu preciso provar para mim mesma que ainda posso andar ao seu lado — ela rebateu, mas o esforço de falar a fez tossir.
Ela levou a mão à boca, e Jungkook imediatamente se aproximou, oferecendo apoio. Mia sentiu aquela dor aguda e familiar no abdômen, uma pontada que parecia um gancho puxando suas entranhas. Ela avistou um banco de madeira a poucos metros e apontou para ele.
— Ok, você venceu. Vamos sentar um pouco.
Eles se acomodaram no banco. Mia respirava fundo, tentando recuperar o fôlego que o câncer insistia em roubar. O Rio Han estava movimentado; casais caminhavam, crianças corriam e a vida parecia seguir seu curso indiferente à tragédia silenciosa que acontecia naquele banco.
— Como está o Jin? — perguntou Mia, tentando mudar de assunto. — Meilin já começou a dormir a noite toda?
— Mais ou menos — Jungkook riu baixo, grato pela mudança de foco. — Ele disse que ela é uma pequena ditadora. Ontem ele apareceu no posto do Namjoon com a camisa do avesso e um rastro de papinha no ombro. Mas ele parece... feliz. De um jeito cansado, mas feliz.
— Isso é bom — Mia sorriu, fechando os olhos por um momento. — E o Yoongi?
— Ele terminou aquela música. Aquela que ele começou a escrever no dia em que nos reunimos no posto. Ele não deixa ninguém ouvir ainda, diz que falta "o toque final". Mas o Namjoon disse que ouviu ele tocando no piano velho da escola e que chorou por meia hora.
Mia encostou a cabeça no ombro de Jungkook. O contato físico era o que a mantinha ancorada.
— Nós conseguimos, não conseguimos? — ela perguntou em um sussurro. — Eles estão se curando.
— Você conseguiu, Mia — corrigiu Jungkook, passando o braço pelos ombros dela e puxando-a para mais perto. — Você foi a cola. Sem você, eu ainda estaria pulando de prédios e o Jimin ainda estaria olhando para as paredes brancas sem falar nada.
— Sarah ajudou muito — lembrou Mia. — Ela é incrível. Ela não desiste de ninguém.
— Ela está preocupada com você — disse Jungkook, o tom de voz caindo uma oitava. — Todos nós estamos. Seu pai... ele ligou para o Namjoon ontem.
Mia abriu os olhos, uma faísca de irritação cruzando seu rosto pálido.
— O que ele queria? Pedir para o Namjoon me convencer a voltar para a clínica?
— Ele está assustado, Mia. Ele não sabe como lidar com isso. Ele acha que se você ficar internada, vai ter mais chances.
— Mais chances de quê? — ela perguntou amargamente. — De morrer cercada por paredes brancas e bipes de máquinas? Não. Eu prefiro o cheiro de rio e o seu braço ao redor de mim. Eu prefiro ver o Taehyung sorrir porque a irmã dele ganhou um desenho na escola. Meu pai acha que o dinheiro dele pode comprar tempo, mas o tempo é a única coisa que ele nunca teve para me dar.
Jungkook apertou o ombro dela, sentindo a estrutura óssea sob o casaco pesado.
— Eu não vou deixar ele te levar se você não quiser. Eu prometo.
Mia olhou para ele, e por um segundo, a fragilidade dela desapareceu, dando lugar àquela garota corajosa que ele conhecera anos atrás.
— Jungkook, olhe para mim.
Ele obedeceu.
— Eu sei que estou piorando — disse ela, a voz firme apesar da fraqueza. — Eu sinto o câncer se movendo dentro de mim. A quimioterapia é como tentar apagar um incêndio jogando veneno nas chamas. Eu não sei quanto tempo eu tenho, mas eu não quero passar esse tempo sendo uma "paciente". Eu quero ser a Mia. A Mia que ama vocês.
— Você sempre vai ser a Mia — ele disse, as lágrimas começando a embaçar sua visão. — Mas dói ver você sofrendo. Dói saber que eu não posso brigar com essa doença por você. Eu bateria em qualquer um, eu enfrentaria qualquer gangue, mas eu não posso bater no que está te matando.
— Você está fazendo algo muito mais difícil — ela tocou o rosto dele, o polegar acariciando a pele macia. — Você está ficando. Você está sendo meu porto seguro. Isso é mais corajoso do que qualquer briga de rua.
Eles ficaram ali por um longo tempo, apenas sentindo a presença um do outro. O sol começou a baixar, tingindo o céu de um rosa melancólico.
— Sabe o que eu mais sinto falta? — perguntou Mia, olhando para os próprios pés.
— De quê?
— De correr. De sentir o vento batendo no meu rosto sem sentir que meus pulmões vão explodir. De sentir que o mundo é enorme e que eu posso ir a qualquer lugar.
Jungkook levantou-se e parou na frente dela, estendendo as mãos.
— Então vamos voar.
— O quê? — ela riu, confusa.
— Sobe nas minhas costas. Eu vou correr com você.
— Jungkook, não seja bobo, eu sou pesada e...
— Você está pesando o mesmo que a Meilin, Mia — ele disse com uma tristeza súbita que tentou disfarçar com um sorriso. — Vamos lá. Confia em mim.
Com dificuldade e algumas risadas fracas, Mia se acomodou nas costas de Jungkook. Ele a segurou firme pelas pernas, sentindo o calor do corpo dela contra o seu. Ele começou a caminhar rápido, e depois a trotar, aumentando a velocidade gradualmente pela calçada do Rio Han.
Mia soltou o ar, fechando os olhos. O vento cortante da noite que chegava batia em seu rosto, e por alguns segundos, a ilusão de liberdade era completa. Ela não sentia a dor no pâncreas, não sentia a fraqueza nas pernas. Ela era apenas uma garota voando sobre os ombros do menino que amava.
— Mais rápido, Kookie! — ela gritou, a voz saindo mais alta do que ela esperava.
Jungkook correu. Ele correu até que seus próprios pulmões ardessem, até que o suor escorresse por sua nuca, ignorando o cansaço. Ele correria até o fim do mundo se isso significasse que Mia poderia sorrir daquele jeito por mais um minuto.
Quando ele finalmente parou, ambos estavam ofegantes. Ele a colocou de volta no banco com cuidado. Mia estava radiante, as bochechas com um leve toque de cor devido ao esforço e ao frio.
— Obrigada — sussurrou ela, inclinando-se para frente e selando os lábios nos dele em um beijo suave, com gosto de sal e despedida antecipada.
Jungkook retribuiu o beijo com uma ternura desesperada. Ele queria congelar aquele momento, guardá-lo em uma caixa de vidro onde o tempo não pudesse tocar.
— Eu faria isso todos os dias — ele disse, encostando a testa na dela.
— Eu sei que faria.
Eles foram interrompidos pelo toque do celular de Mia. Era uma mensagem no grupo. Sarah havia postado uma foto de todos eles reunidos no posto de Namjoon, com uma legenda simples: *"Esperando por vocês para o jantar. O Jin trouxe frango frito e o Yoongi trouxe a música."*
Mia olhou para a foto. Sarah parecia exausta, mas seus olhos brilhavam com uma satisfação silenciosa. Ela estava conseguindo o que queria: manter a família unida, custasse o que custasse.
— Precisamos ir — disse Mia, tentando se levantar. — Eles estão esperando.
— Você tem certeza de que aguenta? — perguntou Jungkook, preocupado com a palidez que voltava ao rosto dela.
— Eu não perderia isso por nada no mundo. Se esse for um dos nossos últimos jantares, eu quero estar lá. Quero ouvir a música do Yoongi e ver a Meilin tentar comer frango.
Jungkook a ajudou a caminhar até o carro. Enquanto dirigia em direção ao posto, ele olhava para ela pelo canto do olho. Mia parecia tão frágil, quase etérea sob as luzes da cidade. Ele sabia que a batalha dela estava chegando a um ponto crítico. Ele sabia que, em breve, as caminhadas no Rio Han seriam substituídas por quartos de hospital e conversas em voz baixa.
Mas, enquanto ela segurava sua mão no console do carro, Jungkook fez uma promessa silenciosa. Ele não seria mais o "menino quebrado". Ele seria o homem que Mia precisava que ele fosse. Ele cuidaria do grupo, cuidaria dela e, quando o momento chegasse, ele teria coragem suficiente para deixá-la ir, sabendo que ela havia cumprido sua missão.
Ao chegarem ao posto, o cheiro de comida e o som de risadas os receberam. Namjoon estava gesticulando enquanto contava uma história, Taehyung estava brincando com Meilin, e Jimin estava sentado ao lado de Sarah, parecendo mais presente do que nunca. Yoongi estava em um canto, afinando um violão antigo que Namjoon encontrara no depósito.
Quando viram Mia e Jungkook, o silêncio caiu por um segundo, carregado de uma preocupação que todos tentavam esconder. Mas Mia abriu um sorriso largo, o tipo de sorriso que iluminava até os cantos mais escuros de suas almas.
— O que estão esperando? — perguntou ela, sentando-se na cadeira que Hoseok rapidamente puxou para ela. — Eu ouvi dizer que tem frango frito e uma música nova para ouvirmos.
— Você está atrasada, Lencov — brincou Yoongi, embora seus olhos estivessem úmidos. — Estávamos quase começando sem você.
— Você não ousaria, Min Yoongi — ela rebateu, pegando um pedaço de frango com as mãos trêmulas.
A noite seguiu entre risos e histórias. Por algumas horas, a doença de Mia foi colocada em segundo plano. Eles eram apenas sete rapazes e uma garota, uma família forjada na dor e soldada pelo amor.
No final da noite, Yoongi pigarreou e pegou o violão.
— Esta música... — ele começou, olhando para Mia e depois para Jungkook. — Ela não tem nome ainda. Mas ela é sobre o que a gente tem aqui. Sobre como, mesmo quando tudo pega fogo, a gente ainda consegue encontrar o caminho de casa.
As notas do violão ecoaram pelo pátio do posto, uma melodia melancólica, mas cheia de uma força indescritível. Mia fechou os olhos, deixando a música envolvê-la. Ela sentiu a mão de Jungkook apertar a sua e o peso da cabeça de Sarah em seu ombro.
Ela estava cansada. Estava com dor. Mas, enquanto ouvia a música de Yoongi e sentia o calor de seus amigos ao redor, Mia Lencov soube que tinha vencido. O câncer podia tirar seu corpo, mas ele nunca tocaria naquilo que ela havia construído.
Ela olhou para Jungkook, que a observava com uma adoração que transcendia a vida.
— Eu te amo — ela sussurrou, apenas para ele ouvir, em meio aos acordes finais da música.
— Eu te amo — ele respondeu, com a voz embargada. — Hoje, amanhã e sempre.
E ali, sob a luz fluorescente do posto de gasolina, entre o cheiro de asfalto e o som de uma música que falava de cura, o menino quebrado e a garota que estava partindo encontraram sua eternidade. O Rio Han continuaria correndo, o mundo continuaria girando, mas para eles, aquele momento era tudo o que importava. A promessa do horizonte ainda estava lá, e eles a enfrentariam juntos, até que a última nota silenciasse.