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Meus olhos em voce

O Alvorecer das Estrelas e o Pacto do Silêncio

A cobertura de Mia Lencov, que antes parecia um monumento à solidão e ao luxo frio, havia se transformado no centro gravitacional de sete vidas destruídas. O sol de Seul começava a se pôr, tingindo as janelas panorâmicas com tons de violeta e âmbar, mas o ambiente lá dentro era denso. Mia estava sentada no sofá de couro branco, a palidez de seu rosto contrastando com o lenço de seda vibrante que agora escondia a perda de seus fios mel. Ao seu lado, Jungkook segurava sua mão com uma força que beirava o desespero, como se pudesse transferir sua própria vitalidade para ela através do contato da pele.

Namjoon, Yoongi, Hoseok, Jimin, Taehyung e Jin estavam espalhados pela sala. Meilin, a pequena filha de Jin, dormia um sono pesado em um berço improvisado no canto, alheia à tempestade emocional que envolvia os adultos. O silêncio foi quebrado pelo som seco de uma tosse que Mia tentou abafar contra o ombro de Jungkook.

— Precisamos falar sobre o amanhã — disse Mia, a voz fraca, mas carregada daquela autoridade natural que sua riqueza nunca conseguiu comprar, mas sua coragem sim. — O tempo não é mais um conceito abstrato para mim. Ele tem data de validade.

— Não diga isso — sussurrou Jungkook, os olhos escuros nublados pela dor. — Nós estamos aqui. O Jin está ajudando, o Namjoon conseguiu o emprego... as coisas estão mudando.

— As coisas estão mudando porque a morte está batendo na porta, Kookie — ela rebateu com um sorriso triste, acariciando o rosto do rapaz. — E eu não vou deixar que, quando eu partir, vocês voltem para os becos, para os hospitais ou para o topo daqueles prédios.

Jin, que mantinha os olhos fixos na filha, levantou a cabeça. Seu rosto estava marcado pelas noites mal dormidas e pela responsabilidade esmagadora de ser um pai solo aos vinte e poucos anos.

— O que você quer dizer com isso, Mia? Você já fez mais por nós do que qualquer um. Você nos deu um teto hoje. Você nos deu comida.

— Eu quero dar a vocês um futuro — ela disse, fazendo um sinal para que Namjoon se aproximasse. — Eu mudei meu testamento ontem. Meu pai não sabe, e ele vai odiar, mas eu não me importo. A fortuna da família Lencov não vai servir para construir mais um arranha-céu corporativo. Ela vai servir para manter vocês juntos.

Um murmúrio de choque percorreu a sala. Yoongi, que até então permanecia encostado na parede com os braços cruzados, soltou um suspiro pesado.

— Mia, nós não queremos o seu dinheiro. Nós queremos você.

— Yoongi — ela o encarou com intensidade —, você perdeu sua mãe em um incêndio e quase se perdeu na depressão porque não tinha apoio. Jimin foi trancado em um hospital porque o mundo não sabia como lidar com o trauma dele. Hoseok desmaia nas ruas porque não pode pagar um tratamento decente. Vocês acham que eu vou levar meu ouro para o caixão enquanto meus irmãos estão sangrando?

Jungkook sentiu um nó na garganta. Ele era o "menino quebrado", aquele que Mia resgatou da borda do abismo. Sentir-se amado era uma novidade dolorosa; sentir-se protegido por alguém que estava morrendo era quase insuportável.

— Eu comprei um prédio antigo perto do Rio Han — continuou ela, a respiração ficando mais curta. — Está em nome de uma fundação que eu criei. "Fundação Estrela Lencov". Jin, haverá uma creche e um andar para você e Meilin. Namjoon, você será o administrador. Yoongi, Hoseok e Jimin... haverá estúdios e salas de terapia. Taehyung, sua irmã terá a melhor escola que o dinheiro puder pagar.

— E o Jungkook? — perguntou Taehyung, olhando para o caçula.

Mia olhou para Jungkook com uma adoração que fez o coração do rapaz falhar uma batida.

— O Jungkook será o coração do lugar. Ele vai garantir que nenhum outro "menino invisível" ande sozinho por Seul. Ele vai ser o guardião da nossa história.

Jungkook abaixou a cabeça, as lágrimas caindo silenciosamente sobre o tecido caro do sofá.

— Eu não consigo fazer isso sem você, Mia — soluçou ele. — Eu vou quebrar de novo. Eu sei que vou.

— Não, você não vai — ela disse, forçando-o a olhá-la. — Porque você prometeu. E porque agora você tem eles. Olhe ao seu redor, Jungkook. Esta é a sua família.

A conversa foi interrompida quando Hoseok subitamente cambaleou. Sua condição, agravada pelo estresse emocional, o fez perder o equilíbrio. Namjoon e Jimin foram rápidos em segurá-lo antes que ele atingisse o chão.

— Está tudo bem — disse Hoseok, recuperando a consciência segundos depois, o rosto pálido. — Eu só... eu só me emocionei.

— Viu? — Mia apontou para Hoseok. — É disso que eu estou falando. O mundo não vai cuidar de vocês. Vocês precisam cuidar uns dos outros.

Naquela noite, o grupo fez um pacto. Sob a luz das estrelas que começavam a surgir no céu de Seul, eles deram as mãos em um círculo. Era um pacto de silêncio e de sobrevivência. Eles aceitariam o legado de Mia, não como uma caridade, mas como uma missão.

— Se um cair, todos caem — declarou Namjoon, sua voz de líder ecoando com uma nova determinação. — Se um se perder, todos saem para procurar.

— E a Mia estará em cada tijolo daquele lugar — completou Jin, emocionando-se.

As semanas seguintes foram um borrão de dor e preparação. Mia definhava a olhos vistos, mas sua mente permanecia afiada. Ela passava horas ensinando Namjoon sobre finanças e conversando com Jimin sobre como transformar a dor em arte. Com Jungkook, os momentos eram diferentes. Eles não falavam de negócios. Eles falavam de sonhos.

— Sabe o que eu queria? — perguntou ela em uma tarde chuvosa, deitada no peito de Jungkook enquanto ele lia para ela.

— O que, meu amor?

— Eu queria ver o mar uma última vez. Não o mar de Incheon, mas o mar aberto. Onde o horizonte não tem prédios.

Jungkook sentiu um aperto no peito. Ele sabia que ela não aguentaria a viagem.

— Eu vou te levar — ele mentiu, a voz embargada. — Assim que você se sentir um pouco melhor.

— Kookie... não minta para uma garota que está partindo — ela riu baixinho, uma risada que terminou em uma crise de tosse com sangue.

Jungkook limpou o lábio dela com um lenço, as mãos tremendo.

— Por que você não me deixa ir no seu lugar? — ele perguntou em um sussurro desesperado. — Eu não tenho nada para oferecer ao mundo. Você tem tudo.

— Você tem tudo, Jungkook — ela rebateu, segurando o rosto dele. — Você tem a capacidade de sentir o que os outros ignoram. Você vê os invisíveis. Isso é mais valioso do que qualquer fortuna. Prometa-me uma coisa.

— Qualquer coisa.

— Nunca mais suba na beira de um prédio para testar a vida. A vida é curta demais para ser testada. Ela precisa ser protegida.

— Eu prometo — ele disse, e pela primeira vez, ele realmente quis cumprir aquela promessa por si mesmo, não apenas por ela.

O conflito final com o mundo exterior veio na forma do pai de Mia, o Sr. Lencov. Ele invadiu a cobertura em uma manhã de terça-feira, acompanhado por advogados. Ao ver o grupo de jovens "marginalizados" vivendo com sua filha, ele explodiu.

— O que é isso? — gritou o homem, apontando para Yoongi e Taehyung. — Mia, você perdeu o juízo? Esses delinquentes estão se aproveitando da sua doença!

Namjoon deu um passo à frente, mas Mia levantou a mão, pedindo silêncio. Ela se levantou da cadeira de rodas com uma força que ninguém sabia de onde vinha.

— Eles são meus amigos, pai — disse ela, a voz gélida. — Algo que você nunca foi. Eles estiveram aqui quando eu tossi sangue sozinha. Eles estiveram aqui quando eu tive medo do escuro. Você estava em Tóquio fechando contratos.

— Eu estava pagando seus tratamentos! — rebateu o pai, o rosto vermelho.

— Você estava pagando para não ter que olhar para a minha morte — ela disse, aproximando-se dele. — Agora saia. Esta cobertura é minha. E esses homens são a minha família. Se você tentar contestar o que eu fiz, eu farei questão de que cada jornal de Seul saiba como você abandonou sua filha única no leito de morte.

O Sr. Lencov recuou, intimidado pela determinação nos olhos da filha. Ele olhou para Jungkook, que estava parado como um sentinela ao lado de Mia, e viu algo que o dinheiro nunca poderia comprar: lealdade absoluta. Ele saiu sem dizer mais uma palavra.

Quando a porta se fechou, Mia desabou. Jungkook a pegou nos braços antes que ela caísse.

— Acabou — ela sussurrou contra o pescoço dele. — Eu garanti o lugar de vocês. Agora eu posso descansar.

Os dias que se seguiram foram marcados por uma despedida lenta e silenciosa. O grupo não saía do lado dela. Yoongi tocava melodias suaves em um teclado eletrônico; Jin trazia Meilin para que Mia pudesse sentir o cheiro de bebê uma última vez; Taehyung desenhava o rosto dela repetidamente, tentando capturar a luz que ainda restava em seus olhos.

Na última noite, apenas Jungkook ficou no quarto. A respiração de Mia era um som ruidoso e difícil, o som de uma vela lutando contra o vento.

— Jungkook... — ela chamou, quase inaudível.

— Estou aqui, estrela. — Ele beijou a palma da mão dela.

— Olhe para a janela — ela pediu.

Jungkook olhou. O céu de Seul estava excepcionalmente claro, e uma estrela solitária brilhava intensamente acima do Rio Han.

— Aquela é você — disse ele, as lágrimas escorrendo sem parar.

— Não — ela sussurrou, fechando os olhos pela última vez. — Aquela é a luz que eu deixei em você. Use-a, Kookie. Não deixe o mundo ficar escuro de novo.

Quando o monitor cardíaco emitiu o som longo e contínuo, Jungkook não gritou. Ele apenas abraçou o corpo frágil de Mia e chorou um choro silencioso que carregava anos de abandono, mas também a promessa de um novo começo.

O funeral foi pequeno. Apenas os sete amigos, a pequena Meilin e Sarah. Eles não enterraram apenas Mia; enterraram suas versões "quebradas".

Meses depois, o prédio da Fundação Estrela Lencov abriu suas portas. Na entrada, havia uma placa de bronze com uma frase que Mia costumava dizer: *"Para os que se sentem invisíveis: as estrelas só brilham na escuridão."*

Jungkook estava no telhado, observando o pôr do sol. Ele não estava na beirada. Ele estava sentado em um banco, segurando a mão de Meilin, que agora dava seus primeiros passos. Namjoon estava lá embaixo, recebendo um novo grupo de jovens que haviam sido abandonados pelas famílias. Yoongi e Jimin estavam ensinando música no segundo andar.

— Ela ficaria orgulhosa, não ficaria, tio Kookie? — perguntou a pequena Meilin, olhando para o céu.

Jungkook sorriu, um sorriso real que finalmente alcançava seus olhos. Ele olhou para a cicatriz em seu pulso, um lembrete do menino que ele costumava ser, e depois para o horizonte vasto e cheio de possibilidades.

— Ela está orgulhosa, pequena — respondeu ele, sentindo o vento soprar como um carinho em seu rosto. — Ela nos ensinou que, mesmo quando somos apenas cacos de vidro, se estivermos juntos, ainda podemos refletir a luz.

O pacto do silêncio havia se tornado um pacto de vida. Eles não eram mais os meninos invisíveis de Seul. Eram o legado de uma garota que amou o mundo o suficiente para curá-lo, mesmo enquanto o mundo a deixava partir. E Jungkook, o menino quebrado, finalmente entendeu que a maior aventura de todas não era fugir da vida, mas ter a coragem de vivê-la por aqueles que não puderam ficar.