Meus olhos em voce
O Último Pôr do Sol e o Legado da Estrela
A manhã em Seul nasceu cinzenta, abafada por uma névoa que parecia se recusar a subir. No pequeno apartamento que Jungkook agora dividia com Namjoon e Yoongi — um lugar simples, mas mantido com o esforço mútuo para não voltarem às ruas —, o silêncio era absoluto. Jungkook estava sentado na beira da cama, as mãos entrelaçadas, os olhos fixos em um ponto qualquer do chão. Ele estava limpo. Cada segundo de sobriedade era uma batalha, mas ele a vencia por ela.
O toque do celular cortou o ar como uma lâmina. Jungkook estendeu a mão trêmula e viu o nome no visor: "Sr. Lencov".
O mundo pareceu parar. O ar fugiu de seus pulmões antes mesmo de ele atender. Ele sabia. No fundo daquela intuição sombria que persegue os que já perderam tudo, ele sabia que o telefone não traria boas notícias.
— Alô? — A voz de Jungkook saiu como um sussurro quebrado.
Do outro lado, houve um silêncio pesado, preenchido apenas por um soluço contido. Quando o pai de Mia falou, sua voz estava despojada de toda a arrogância e poder que o dinheiro costumava lhe conferir.
— Jungkook... ela se foi. — O homem desabou em um choro amargo. — Minha menininha... ela partiu esta manhã, enquanto dormia.
Jungkook não gritou. Ele não jogou o celular na parede. Ele apenas sentiu o impacto, como se um prédio inteiro tivesse desabado sobre seus ombros. Ele fechou os olhos e viu o rosto dela, o sorriso no Rio Han, o brilho nos olhos antes da última cirurgia. O "menino quebrado" sentiu o último pedaço de seu coração se transformar em pó.
— Eu estou indo para aí — disse ele, com uma calma que o assustava.
— Espere — pediu o Sr. Lencov. — Antes de vir... eu preciso que você saiba. Ontem, Mia passou o dia escrevendo. Ela disse que sentia que o tempo dela tinha acabado. Ela deixou um envelope para cada um de vocês. E ela mudou o testamento, Jungkook. Ela... ela deixou tudo para vocês.
Jungkook desligou o telefone mecanicamente. Ele não se importava com o dinheiro. Bilhões não trariam o calor da mão dela de volta. Mas ele sabia que aquele era o último ato de coragem de Mia: garantir que nenhum de seus amigos jamais precisasse passar fome, morar na rua ou se sentir invisível por falta de recursos. Ela havia comprado a liberdade deles com seu último fôlego.
Duas horas depois, o grupo estava reunido na sala de espera da funerária. O clima era de uma devastação silenciosa. Namjoon segurava os ombros de Taehyung, que chorava sem parar. Jin estava sentado em um canto, abraçado a Meilin, que parecia sentir a tristeza ao redor e permanecia estranhamente quieta. Yoongi e Hoseok estavam parados perto da janela, observando a chuva que começara a cair.
O Sr. Lencov entrou na sala carregando uma caixa de madeira entalhada. Ele não disse nada, apenas entregou um envelope para cada um. Namjoon recebeu o seu com as mãos trêmulas. Jin olhou para o envelope com o nome de Meilin escrito em letras pequenas ao lado do dele.
— Ela deixou instruções — explicou o pai de Mia, limpando as lágrimas. — O dinheiro será administrado por um fundo, mas cada um de vocês tem uma conta pessoal com uma quantia que... bom, vocês nunca mais precisarão se preocupar com nada. Ela queria que o Jin comprasse uma casa para a Meilin. Que o Namjoon voltasse a estudar. Que o Yoongi montasse o próprio estúdio.
Jungkook foi o último a receber o envelope. Era o mais grosso de todos. Ele se afastou do grupo, caminhando até um banco isolado no jardim de inverno da funerária. Seus dedos hesitaram antes de rasgar o papel, mas ele precisava ler. Ele precisava da voz dela uma última vez.
A carta dizia:
"Meu querido Kookie,
Se você está lendo isso, significa que eu finalmente virei uma estrela. Não fique triste, por favor. Eu sei que dói agora, eu sei que você sente como se o mundo estivesse desmoronando, mas olhe para as suas mãos. Elas estão limpas, não estão? Esse é o maior presente que você poderia ter me dado.
Eu escrevo esta carta enquanto o sol se põe pela última vez para mim. Eu sinto meu corpo ficando leve, Jungkook. A dor está indo embora, e o que sobra é apenas o amor que eu sinto por vocês. Por você, principalmente.
Eu vivi dezenove anos sendo a 'filha da modelo que morreu', a 'garota rica e solitária'. Mas nos últimos meses, graças a você e aos meninos, eu fui apenas a Mia. Eu fui livre. Eu corri, eu amei, eu tive uma família. Vocês me deram uma vida inteira em apenas alguns meses, e eu morro como a mulher mais rica do mundo, não por causa da herança do meu pai, mas porque eu tive o seu coração.
Estou deixando o dinheiro para vocês porque eu não suporto a ideia de que o talento do Yoongi seja desperdiçado por falta de um piano, ou que o Namjoon tenha que vender a própria alma em um posto de gasolina. Eu quero que o Jin veja a Meilin crescer sem medo do amanhã. Mas para você, Jungkook, eu deixo algo mais.
Eu deixo a minha coragem.
Sempre que você se sentir invisível, lembre-se de como eu te olhava. Sempre que o mundo tentar te quebrar, lembre-se de que você é a pessoa mais forte que eu já conheci. Você sobreviveu a tudo, Kookie. Você sobreviveu ao abandono, ao abuso e à dor. E agora, você vai sobreviver à minha partida.
Eu quero que você use o que eu te deixei para construir um lugar. Um lugar para meninos como nós. Um lugar onde ninguém seja invisível. Seja o farol que eu tentei ser para você.
Não se feche de novo. Não volte para os telhados. O horizonte é lindo, Jungkook, mas ele é muito mais bonito quando você o vê com os pés no chão, ao lado de quem te ama. Os meninos são seus irmãos. O Jin é o seu porto seguro. Não os deixe.
Eu te amo. Eu te amei desde o primeiro momento em que vi aquele garoto triste tentando se esconder do mundo. Eu te amei em cada beijo, em cada conversa, em cada lágrima. Se houver algo depois disso, eu estarei te esperando. Mas não tenha pressa. Viva uma vida longa, uma vida cheia de cores, uma vida que valha a pena ser contada para mim quando nos encontrarmos de novo.
Você não é mais o menino quebrado, Jungkook. Você é o homem que me ensinou que o amor é a única coisa que realmente vence a morte.
Com todo o meu amor, para sempre, sua Mia."
Jungkook terminou de ler com o rosto banhado em lágrimas. Ele apertou a carta contra o peito, soltando um soluço que ecoou pelo jardim. Era uma dor insuportável, mas era uma dor limpa. Não havia o amargor das drogas ou a névoa do álcool. Era a dor da perda de algo imensurável.
Ele se levantou e voltou para a sala. Os outros também haviam terminado de ler suas cartas. Namjoon estava abraçado a Yoongi, ambos chorando silenciosamente. Jin olhava para o envelope com uma expressão de determinação que Jungkook nunca vira antes.
— Ela salvou a gente — disse Jin, a voz firme apesar do choro. — Ela realmente salvou a gente.
— Ela não deixou apenas dinheiro — disse Namjoon, guardando a carta no bolso do casaco. — Ela deixou um propósito. Ela quer que a gente seja a família que ela nunca teve.
Jungkook caminhou até o centro do grupo. Ele olhou para cada um deles: os cacos que Mia havia reunido.
— Nós vamos fazer o que ela pediu — disse Jungkook, e sua voz não tremeu. — Nós vamos cuidar uns dos outros. Eu vou usar o que ela me deixou para abrir a fundação que ela queria. Ninguém mais vai ser invisível se eu puder evitar.
— Nós vamos te ajudar, Kookie — disse Hoseok, limpando o rosto. — Todos nós.
Naquela tarde, eles se despediram de Mia Lencov. O funeral foi pequeno, apenas o grupo, Sarah e o pai dela. Não houve grandes discursos, apenas o som do violino que Yoongi insistiu em tocar — uma melodia que falava de estrelas e de horizontes distantes.
Quando o caixão desceu, Jungkook sentiu uma paz estranha descer sobre ele. Ele olhou para o céu, onde as nuvens começavam a se abrir, revelando um pôr do sol de um laranja intenso, exatamente como o que eles viram no Rio Han.
— Eu te amo, Mia — sussurrou ele para o vento. — Obrigado por me ver.
Um ano depois.
O prédio da "Fundação Estrela Lencov" brilhava sob o sol da tarde. Era um centro para jovens em situação de risco, um refúgio com dormitórios, salas de música, estúdios de arte e acompanhamento psicológico. Namjoon era o diretor administrativo, Jin cuidava da nutrição e do bem-estar, Yoongi e Hoseok ensinavam música e dança, e Taehyung coordenava as oficinas de artes plásticas. Jimin, agora totalmente recuperado, era o instrutor de expressão corporal, ajudando jovens a superarem seus próprios traumas através do movimento.
Jungkook estava no telhado do prédio. Mas ele não estava na beirada. Ele estava sentado em um banco de madeira, observando o movimento lá embaixo. Ele estava vestindo um terno leve, o rosto mais maduro, os olhos carregando uma sabedoria que só a dor e a superação trazem.
Ele sentiu uma mão pequena puxar sua calça.
— Tio Kookie! Olha o desenho que eu fiz! — Meilin, agora com pouco mais de um ano e meio, estendia um papel cheio de rabiscos coloridos.
Jungkook a pegou no colo, sorrindo.
— É lindo, Meilin. É uma estrela?
— É a tia Mia — disse a menina, apontando para um borrão amarelo brilhante no topo do papel.
Jungkook sentiu um nó na garganta, mas era um nó de felicidade. Ele olhou para o horizonte, onde o sol começava a se pôr. Ele não se sentia mais invisível. Ele não se sentia mais quebrado. Ele era o guardião da memória de uma garota que transformou tragédia em esperança.
Os outros meninos subiram ao telhado logo depois, trazendo café e risadas. Eles se sentaram ao redor de Jungkook, observando o fim do dia juntos, como Mia sempre quisera.
— O que você está pensando, Jungkook? — perguntou Namjoon, colocando a mão em seu ombro.
Jungkook olhou para seus amigos, sua família real, e depois para a estrela que começava a brilhar no céu ainda claro.
— Estou pensando que ela tinha razão — disse ele, sorrindo. — O horizonte é muito mais bonito quando a gente tem alguém para segurar a nossa mão.
O vento soprou suave, trazendo consigo o cheiro de maresia e a sensação de um abraço quente. Jungkook fechou os olhos por um segundo, sentindo a presença dela ali, entre eles. Mia Lencov havia partido, mas ela nunca morreria. Ela vivia em cada nota tocada por Yoongi, em cada sorriso de Meilin e em cada jovem que entrava naquela fundação em busca de um futuro.
E, acima de tudo, ela vivia em Jungkook. O menino quebrado que ela consertou com amor, e que agora, inteiro e visível, caminhava em direção ao futuro, levando consigo o brilho eterno da sua estrela mais querida.
— Adeus, Mia — ele sussurrou para o pôr do sol. — E obrigado por tudo.
O sol se pôs, mas pela primeira vez na vida de Jungkook, a escuridão não trazia medo. Ela trazia apenas o brilho das estrelas. E ele sabia exatamente qual delas era a dele.