Mha
O Plano de Mina e a Estratégia do Coração
A manhã de domingo na U.A. começou com um brilho diferente. O sol atravessava as janelas do dormitório da Classe 1-A, mas para mim, a luz parecia vir de dentro. Eu ainda conseguia sentir o calor dos braços de Bakugou ao redor da minha cintura, um fantasma de sensação que me fazia sorrir para o teto enquanto eu ainda estava deitada na cama. No entanto, o alívio do abraço da noite anterior não tinha resolvido tudo. Na verdade, tinha aberto uma porta que eu não sabia como atravessar: agora que sabíamos que o sentimento era mútuo, como é que a gente "namorava"?
Uma batida frenética na porta interrompeu meus pensamentos. Eu nem precisei perguntar quem era.
— Amiga, acorda! Temos uma estratégia de guerra para montar! — A voz de Mina Ashido atravessou a madeira da porta antes mesmo que ela entrasse, saltitando com sua pele rosada vibrante e um brilho maníaco nos olhos.
Eu me sentei na cama, esfregando os olhos.
— Mina, são oito da manhã de um domingo. O Bakugou provavelmente já correu dez quilômetros e está na terceira série de flexões.
— Exatamente! — Mina sentou-se na ponta da minha cama, gesticulando dramaticamente. — O ferro se molda enquanto está quente! Ontem foi um avanço histórico. O "Rei das Explosões" se rendeu ao afeto em público. Mas agora precisamos oficializar. Você não quer só abraços de vez em quando, quer? Você quer o pacote completo: encontros, mãos dadas — o que vai ser difícil porque ele explode as coisas, mas a gente dá um jeito — e, claro, o pedido oficial.
Senti meu rosto arder.
— Eu não sei se ele é do tipo que faz pedidos oficiais, Mina. Você conhece o Katsuki. Ele é... direto, mas também é absurdamente orgulhoso.
— Por isso mesmo você vai tomar a iniciativa, mas do jeito certo — disse ela, piscando um olho. — Ele gosta de força, determinação e, acima de tudo, ele gosta de quem não recua. Se você ficar com vergonha agora, ele vai achar que você está hesitando. Vamos descer, tomar café e você vai agir como se ele fosse seu território.
— Meu território? — gaguejei, horrorizada e intrigada ao mesmo tempo.
— Confia na sua ala direita! — Mina me puxou pelo braço, arrastando-me para o banheiro.
Vinte minutos depois, descemos para a área comum. O cheiro de café fresco e ovos mexidos pairava no ar. Bakugou estava lá, como previsto, mas não estava treinando. Ele estava na cozinha, de costas, mexendo uma frigideira com uma eficiência assustadora. Ele usava uma regata preta que deixava seus ombros definidos à mostra, e o cabelo loiro claro parecia ainda mais espetado sob a luz da manhã.
— Vai lá — sussurrou Mina, me dando um empurrão nada sutil nas costas. — Bom dia, Bakugou! — gritou ela, acenando enquanto se sentava à mesa com Kirishima e Sero.
Caminhei em direção à bancada, sentindo como se minhas pernas pesassem uma tonelada cada. Quando parei ao lado dele, Bakugou nem sequer desviou o olhar da frigideira, mas o canto de sua boca se contraiu.
— Demorou para acordar, cara de sono — resmungou ele. O tom não era agressivo; era quase íntimo.
— Eu estava... pensando — respondi, tentando manter a voz firme como Mina sugerira. — O cheiro está ótimo. Você realmente sabe o que faz na cozinha.
Ele soltou um "tsk" audível, mas notei uma leve coloração rosada subindo por seu pescoço.
— É claro que eu sei. Eu sou o melhor em tudo o que eu me proponho a fazer, inclusive em não deixar vocês morrerem de fome com a comida horrível do Satō.
Ele desligou o fogo e virou-se para mim. Seus olhos vermelhos eram intensos, queimando com uma determinação que sempre me deixava sem fôlego. Ele estendeu um prato com omelete perfeitamente dobrado e temperado.
— Come logo. Você precisa de energia se quiser treinar comigo mais tarde. Não quero parceira de treino molenga.
— Parceira de treino? — perguntei, pegando o prato. Nossos dedos se tocaram por um segundo, e uma faísca de eletricidade — daquela que não vinha da individualidade do Kaminari — passou entre nós.
— Você ouviu o que eu disse, não ouvi? — Ele se aproximou um pouco, invadindo meu espaço pessoal. — Se você vai ficar por perto, tem que aguentar o tranco.
Mina, da mesa ao lado, tossiu alto, o que soou suspeitamente como "beija logo". Bakugou lançou um olhar mortal na direção dela, e pequenas explosões estalaram em sua mão livre.
— ASHIDO! EU VOU EXPLODIR ESSA SUA CARA DE ALIENÍGENA!
— Calma, Bakugou! — Kirishima interveio, rindo. — Ela só está engasgada com o suco!
Aproveitei a distração dele para respirar fundo. Eu precisava falar. Eu precisava dizer o que estava entalado na minha garganta desde o abraço de ontem.
— Katsuki — chamei, baixinho.
Ele parou de rosnar para Mina e voltou a atenção para mim. O olhar dele suavizou instantaneamente, uma mudança que só ocorria quando estávamos a sós ou quando ele achava que ninguém estava olhando.
— O quê?
— Depois do treino... você quer fazer alguma coisa? Só nós dois? Sem os "extras"?
O silêncio caiu sobre a cozinha. Bakugou piscou, surpreso. Ele cruzou os braços sobre o peito, os músculos se contraindo. Ele parecia estar travando uma batalha interna entre seu orgulho colossal e o que quer que estivesse sentindo.
— Você está me chamando para um encontro, é isso? — perguntou ele, a voz desafiadora, mas havia uma nota de incerteza ali.
— Sim — respondi, sentindo meu coração martelar. — Estou.
Ele soltou um suspiro pesado, descruzando os braços e passando a mão pelo cabelo loiro.
— Você é realmente irritante. Já disse isso?
— Umas dez vezes só ontem.
— Pois bem. Esteja pronta às seis. E não se atrase, ou eu vou embora sem você.
Ele se virou e saiu da cozinha a passos largos, mas eu vi. Eu vi o sorriso de canto que ele tentou esconder. E, mais importante, vi que ele não disse "não".
Mina apareceu ao meu lado como um raio.
— VIU SÓ?! — Ela estava praticamente pulando. — "Esteja pronta às seis"! Isso é um sim em Bakugou-nês! Amiga, temos muito o que fazer. Precisamos escolher uma roupa que diga "sou uma heroína incrível", mas também "sou a única pessoa que consegue te aguentar".
O resto do dia passou como um borrão. O treino com Bakugou foi, previsivelmente, intenso. Ele não pegou leve só porque tínhamos um "encontro" marcado. Ele me empurrou ao meu limite, gritando instruções sobre como melhorar minha postura de ataque e como prever os movimentos do adversário.
— Mais rápido! — gritava ele, lançando uma explosão controlada que me obrigou a rolar para o lado. — Se você não conseguir acompanhar o meu ritmo, vai acabar ficando para trás!
— Eu não vou ficar para trás! — respondi, usando minha individualidade para contra-atacar.
Em um momento, acabamos derrubados no chão do Ginásio Gamma, ofegantes, com ele por cima de mim, segurando meus pulsos contra o solo. O suor brilhava em sua pele e o cheiro de nitroglicerina era quase inebriante.
— Você melhorou — admitiu ele, a voz rouca pela exaustão. Ele soltou meus pulsos, mas não saiu de cima de mim imediatamente. Seus olhos vasculharam meu rosto, descendo por um segundo para meus lábios antes de ele se levantar bruscamente, oferecendo a mão para me ajudar. — Agora vai tomar um banho. Você está fedendo a suor.
— Você também está, Katsuki — brinquei, aceitando a ajuda.
— Eu não fedo. Eu cheiro a vitória — retrucou ele, embora houvesse um brilho divertido em seus olhos.
Quando as seis horas da tarde chegaram, eu estava uma pilha de nervos. Mina tinha me ajudado a escolher uma roupa casual, mas bonita: uma saia escura, uma blusa confortável e botas. Nada muito exagerado, porque eu sabia que Bakugou odiaria algo que parecesse "frufru" demais.
Eu estava esperando perto da saída dos dormitórios quando ele apareceu. Ele tinha trocado o uniforme de treino por uma calça cargo preta e uma camiseta de gola alta que o deixava ridiculamente bonito. Ele parou a alguns passos de distância, me avaliando de cima a baixo.
— Você está... aceitável — disse ele, o que, vindo dele, era o equivalente a um elogio de nível mundial.
— Você também não está nada mal — respondi, sorrindo.
Caminhamos em direção à área comercial próxima à U.A. O silêncio entre nós não era desconfortável, mas estava carregado de uma antecipação nervosa. Bakugou mantinha as mãos nos bolsos, caminhando com sua postura habitual de quem era o dono da rua, mas ele se certificava de manter o passo lento o suficiente para que eu ficasse ao seu lado.
— Onde estamos indo? — perguntei.
— Tem um lugar de comida apimentada que abriu por aqui. Eles dizem que o nível cinco de pimenta deles é para profissionais. Vou provar que eles estão errados.
Ri baixo. É claro que o nosso primeiro encontro envolveria um desafio culinário.
O jantar foi surpreendentemente agradável. Entre garfadas de um curry que faria uma pessoa comum chorar, Bakugou falou sobre suas ambições, sobre como ele pretendia superar o legado de All Might e se tornar o número um. Eu o ouvia fascinada. A determinação dele era contagiante, uma chama que nunca se apagava.
— E você? — perguntou ele, de repente, limpando o canto da boca. — O que você quer fazer quando formarmos?
— Eu quero ser uma heroína que as pessoas olham e se sentem seguras — respondi sinceramente. — Como você disse... eu não quero ficar para trás. Quero estar ao seu lado, Katsuki. Não atrás de você.
Ele parou de comer. Seus olhos vermelhos se fixaram nos meus com uma intensidade que parecia ler minha alma.
— Ao meu lado, hein? — Ele soltou um ruído que parecia uma risada abafada. — Você sabe que isso é um trabalho difícil. Eu sou exigente. Eu não aceito nada menos que a perfeição.
— Eu sei. E eu não aceitaria nada menos que o seu melhor também.
Depois do jantar, caminhamos de volta para a U.A. sob o céu estrelado. Quando chegamos aos jardins do campus, longe das luzes da cidade e dos olhos curiosos dos nossos colegas, Bakugou parou de andar.
— Ei — chamou ele.
Eu me virei para ele. O vento soprava suavemente, balançando seus cabelos loiros. Ele parecia estar lutando com as palavras, algo raro para alguém tão vocal.
— Ontem... na cozinha. E depois na sala — ele começou, desviando o olhar para as árvores. — Eu não sou bom com essas merdas sentimentais. Você sabe disso. Eu sou barulhento, eu sou irritante e eu vou te dar trabalho.
Aproximei-me dele, diminuindo a distância entre nós.
— Eu sei de tudo isso, Katsuki. E eu ainda estou aqui, não estou?
Ele voltou a olhar para mim, e a vulnerabilidade que vi em seus olhos me desarmou.
— Eu não quero que você esteja "aqui" só por enquanto — disse ele, a voz baixa e firme. — Se for para fazer isso, vamos fazer do jeito certo. Sem hesitação. Você é minha, ouviu? E eu sou... — ele fez uma careta, como se a palavra fosse difícil de pronunciar — ... seu. Entendeu, idiota?
Senti meu coração disparar. Não era um pedido de namoro tradicional, mas era o pedido mais "Bakugou" que eu poderia imaginar. Era uma declaração de posse, de parceria e de lealdade.
— Entendi perfeitamente — respondi, sorrindo.
Antes que eu pudesse dizer mais nada, ele deu um passo à frente, segurando meu rosto com as duas mãos. Suas palmas eram quentes, e eu podia sentir o leve tremor de sua energia. Ele se inclinou, e por um momento, o mundo parou.
O beijo foi exatamente como ele: intenso, quente e cheio de uma determinação avassaladora. Tinha gosto da pimenta do jantar e o cheiro sutil de açúcar queimado que sempre o acompanhava. Eu entrelacei meus dedos em sua nuca, puxando-o para mais perto, sentindo a força de seus braços me envolvendo, exatamente como no abraço da noite anterior, mas agora com uma certeza nova.
Quando nos separamos, ele encostou a testa na minha, a respiração pesada.
— Não me faça me arrepender disso — murmurou ele, embora seu tom fosse suave.
— Você não vai — prometi.
Voltamos para os dormitórios de mãos dadas — ele reclamou que minhas mãos eram pequenas demais, mas não soltou nem por um segundo. Quando entramos na sala comum, o "Bakusquad" estava lá, é claro. Mina deu um pulo do sofá, pronta para começar o interrogatório, mas Bakugou apenas levantou nossas mãos unidas e lançou um olhar desafiador para todos.
— Se alguém disser uma única palavra, eu explodo o dormitório inteiro — anunciou ele, com sua voz de comando habitual.
Mina apenas sorriu, fazendo um sinal de "V" com os dedos para mim. Eu tinha conseguido. Entre explosões, treinos intensos e o temperamento difícil do garoto mais explosivo da U.A., eu tinha encontrado o meu lugar.
E enquanto Katsuki me puxava em direção às escadas, resmungando sobre como precisávamos dormir para o treinamento de amanhã, eu soube que aquele era apenas o começo da nossa maior aventura.