Mha
Entre Pólvora, Pimenta e Promessas
A primeira semana como "namorada oficial" de Katsuki Bakugou foi, para dizer o mínimo, uma experiência de sobrevivência. Não que eu esperasse buquês de flores diários ou mensagens melosas de bom dia — afinal, estávamos falando do garoto que usava "morra" como vírgula —, mas eu não estava totalmente preparada para o que significava ser o foco da atenção possessiva de um furacão loiro.
Naquela manhã de terça-feira, o despertador nem tinha tocado quando ouvi três batidas secas e violentas na minha porta.
— Acorda, idiota! — a voz de Bakugou ecoou pelo corredor, abafando o som do despertador. — Se você se atrasar para o café, eu vou comer a sua porção e você vai treinar de estômago vazio!
Abri a porta ainda tonta de sono, encontrando-o parado ali, já devidamente uniformizado, com os braços cruzados e aquela carranca que parecia permanentemente esculpida em seu rosto. No entanto, seus olhos varreram meu rosto com uma rapidez que denunciava que ele estava checando se eu estava bem.
— Bom dia para você também, Katsuki — resmunguei, encostando a cabeça no batente da porta. — Por que você é tão barulhento logo cedo?
— Porque o mundo não espera por gente lenta — ele rebateu, mas estendeu a mão e, de um jeito quase desajeitado, bagunçou ainda mais o meu cabelo. — Dez minutos. Se não descer, eu subo e te arrasto pelos pés.
— Você não faria isso.
— Tenta a sorte — ele deu um meio sorriso de canto, aquele que fazia meu estômago dar piruetas, e se virou para descer.
Quando finalmente cheguei à cozinha, o cenário era o caos habitual da Classe 1-A. Mina estava sentada em cima do balcão, balançando as pernas e fofocando com Uraraka e Tsuyu. Kirishima e Kaminari tentavam inutilmente convencer Bakugou a fazer panquecas extras.
— Nem pensar, seus extras inúteis! — Bakugou gritava, manejando a espátula como se fosse uma arma de combate. — Façam sua própria comida ou morram de fome!
Ao me ver entrar, Mina deu um pulo e correu em minha direção, sussurrando tão alto que metade da sala ouviu.
— E aí? Como está a vida de rainha das explosões? Ele já te deu um apelido fofo? "Bomba de açúcar"? "Minha pequena granada"?
— Mina, por favor — pedi, sentindo meu rosto queimar enquanto me sentava à mesa.
— O QUE VOCÊ DISSE, OLHOS DE GUAXINIM? — Bakugou se virou, apontando a espátula para Mina. — Se você falar mais uma merda dessas, eu vou te mandar para a órbita da Lua!
Ele caminhou até a mesa e bateu um prato na minha frente. Ovos mexidos perfeitos, torradas integrais e um copo de suco natural. Era visivelmente melhor do que o que ele tinha servido para os outros.
— Come — ordenou ele, sentando-se ao meu lado de um jeito que nossos ombros se tocavam.
— Obrigado, Katsuki — eu disse, pegando os talheres.
O silêncio na mesa durou exatamente três segundos, até Kaminari se inclinar para frente com um olhar malicioso.
— Sabe, Bakugou, é engraçado... você grita com todo mundo, mas o prato dela tem até tempero verde por cima. Isso é o que eu chamo de tratamento preferencial.
— Quer que eu tempere o seu com o meu suor de nitroglicerina, Pikachu falsificado? — Bakugou rosnou, e pequenas faíscas começaram a estalar em suas palmas.
— Calma, cara! — Kirishima riu, batendo no ombro de Bakugou. — A gente só está feliz por você. Você parece... menos propenso a explodir o prédio desde que começou a namorar.
— EU VOU EXPLODIR VOCÊ AGORA MESMO! — Bakugou levantou-se, mas antes que pudesse avançar em Kirishima, eu coloquei a mão sobre o seu braço.
— Katsuki, senta. Você ainda não terminou seu café.
Ele parou no meio do movimento. Seus olhos vermelhos encontraram os meus, brilhando com uma fúria que evaporou em questão de segundos, substituída por um aborrecimento resignado. Ele soltou um estalo alto com a língua e sentou-se novamente, cruzando os braços.
— Vocês são todos uns idiotas — resmungou, mas não se levantou de novo.
Mina piscou para mim, vitoriosa. Ela sabia que eu era a única pessoa na sala capaz de desarmar o pavio curto dele com apenas um toque.
Após as aulas teóricas cansativas com o professor Aizawa, tivemos um período livre antes do treinamento de resgate. Eu estava na biblioteca tentando terminar um relatório de ética heroica quando senti uma sombra se projetar sobre a mesa.
— Esse relatório está uma porcaria — a voz rouca de Bakugou soou acima de mim.
— Eu ainda nem terminei a introdução! — protestei, olhando para cima.
Ele puxou a cadeira ao lado da minha e sentou-se de qualquer jeito, virado para trás, apoiando os braços no encosto. Ele parecia inquieto, batendo o pé ritmadamente no chão.
— A estrutura está errada. Você está focando demais na teoria e pouco na aplicação prática da força — ele disse, pegando o meu caderno sem pedir e começando a riscar algumas linhas com uma caneta que ele tirou do bolso. — Se um vilão está ameaçando civis, você não para para pensar na "ética da contenção proporcional", você neutraliza a ameaça o mais rápido possível para minimizar danos.
— Mas o Aizawa disse que...
— O Aizawa quer que vocês pensem, mas eu quero que você sobreviva — ele me interrompeu, devolvendo o caderno. Seus olhos estavam sérios. — Não adianta ser a heroína mais ética do mundo se você estiver morta ou se deixarem alguém se ferir por hesitação.
Fiquei em silêncio por um momento, absorvendo suas palavras. Bakugou tinha um jeito bruto de ensinar, mas ele sempre via o cerne da questão. Ele não queria apenas que eu fosse boa; ele queria que eu fosse inabalável.
— Você se preocupa demais, sabia? — comentei, sorrindo de leve enquanto fechava o caderno.
— Eu não me preocupo — ele mentiu descaradamente, desviando o olhar para uma estante de livros qualquer. — Eu só não quero que minha namorada seja uma figurante inútil que precisa ser salva o tempo todo. Seria humilhante para a minha imagem.
— Ah, entendi. Então é tudo pela sua imagem?
— Exatamente — ele afirmou, mas então sua mão deslizou pela mesa e cobriu a minha. Seus dedos eram ásperos e calejados pelas batalhas, mas o aperto era protetor. — Se você se machucar por bobeira, eu mato você.
— Isso não faz o menor sentido, Katsuki.
— Cala a boca — ele murmurou, e pela primeira vez naquele dia, o ambiente estava calmo o suficiente para que eu visse o quanto ele estava relaxado na minha presença.
O treinamento de resgate à tarde foi intenso. Fomos divididos em duplas, e para a minha surpresa — e alegria de Mina, que provavelmente tinha manipulado o sorteio de alguma forma —, eu acabei com Bakugou. O cenário era uma zona urbana destruída, e nossa missão era localizar "vítimas" (robôs de teste) e levá-las para a zona segura enquanto enfrentávamos obstáculos.
— Fica atrás de mim e cuida da retaguarda — Bakugou ordenou assim que o sinal tocou. — Eu abro o caminho, você localiza os sinais de calor.
— Negativo — respondi, ativando minha individualidade e saltando para um escombro mais alto. — Eu localizo e você explode o que estiver no caminho. Se eu ficar atrás de você, vou perder metade do campo de visão por causa das suas explosões.
Ele parou por um segundo, olhando para cima onde eu estava. Um sorriso selvagem e orgulhoso cruzou seu rosto.
— Então não fica para trás, porra!
Trabalhamos em sintonia fina. Bakugou era como um míssil teleguiado, destruindo barreiras de concreto com precisão cirúrgica, enquanto eu usava minha agilidade e percepção para guiar nossos movimentos e garantir que os robôs não fossem atingidos pelos destroços. No final do exercício, éramos a dupla com o tempo mais rápido e o menor índice de danos colaterais.
Enquanto caminhávamos de volta para o vestiário, suados e ofegantes, fomos interceptados por Todoroki e Midoriya.
— Ótimo trabalho hoje — disse Midoriya, com aquele seu sorriso sincero. — Vocês dois realmente parecem entender o ritmo um do outro agora.
— É claro que entendemos, Deku de merda! — Bakugou rosnou, mas não tentou atacar o garoto, o que já era um progresso monumental. — Ela é a única que consegue acompanhar meu nível, ao contrário de vocês, extras.
— O trabalho de equipe foi eficiente — comentou Todoroki, com sua calma habitual. — Bakugou parece mais... focado quando está com você.
Bakugou bufou e me puxou pelo braço, apressando o passo.
— Vamos logo, o cheiro de meio-a-meio e de nerd está me dando náuseas.
À noite, o clima nos dormitórios estava mais calmo. Alguns alunos estudavam, outros jogavam cartas. Eu estava na varanda do meu quarto, observando as luzes distantes da cidade, quando ouvi a porta se abrir e fechar. Eu não precisava me virar para saber quem era. O cheiro de caramelo queimado e o passo pesado eram inconfundíveis.
Bakugou caminhou até a varanda e parou ao meu lado, apoiando os cotovelos no parapeito de metal. Ele tinha trocado a roupa de treino por um moletom largo e parecia exausto, mas satisfeito.
— O treino de hoje foi bom — ele disse, a voz quase sumindo no vento da noite.
— Foi. Nós formamos uma boa equipe, Katsuki.
Ele ficou em silêncio por um longo tempo. O orgulho dele sempre tornava as conversas profundas um desafio, mas eu aprendi a ler as entrelinhas. Ele esticou o braço e me puxou para perto, deixando que eu encostasse a cabeça em seu ombro.
— Eu não sou bom com conversas — ele começou, a voz áspera. — E eu sei que sou um desgraçado difícil de lidar. Eu grito, eu me irrito com tudo e eu não vou ser o tipo de cara que te leva para passear nos fins de semana e fica segurando sua bolsa.
— Eu sei disso — respondi baixinho.
— Mas — ele continuou, e senti o peito dele vibrar contra a minha têmpora — se alguém encostar um dedo em você, eu reduzo a pessoa a cinzas. E se você precisar de alguém para lutar ao seu lado, eu vou ser o primeiro e o último a sair de lá. Eu não sei ser "fofo", mas eu sei ser o melhor para você.
Eu me afastei um pouco para olhar nos olhos dele. Sob o luar, o vermelho de suas íris parecia mais profundo, quase como brasas vivas.
— Você não precisa ser fofo, Katsuki. Eu me apaixonei pelo garoto explosivo que sabe cozinhar curry e que se recusa a perder. Eu me apaixonei pela sua determinação.
Ele franziu a testa, as orelhas ficando levemente vermelhas.
— Você fala demais, sabia?
— E você reclama demais.
Ele soltou um suspiro, mas então, de forma surpreendentemente gentil, ele inclinou a cabeça e selou nossos lábios. Não foi um beijo apressado ou agressivo como os que às vezes trocávamos nos corredores quando ninguém estava olhando. Foi um beijo lento, que carregava todo o peso das palavras que ele não conseguia dizer. Era a sua promessa de lealdade, o seu jeito de dizer que, apesar de todo o barulho e fúria, ele pertencia a mim.
Quando nos separamos, ele manteve o rosto a centímetros do meu.
— Amanhã, às cinco da manhã. Treino de resistência — ele disse, tentando recuperar sua postura de durão.
— Cinco da manhã? — gemi. — Katsuki, tenha piedade.
— Sem piedade para os fracos — ele rebateu, mas me deu um último selinho rápido antes de caminhar em direção à porta. — E traz aquela sua faixa de cabelo azul. Fica menos pior em você.
Sorri, balançando a cabeça enquanto o via sair. Ele era impossível. Ele era barulhento, teimoso e absurdamente arrogante. Mas ele também era o garoto que prestava atenção em qual cor de faixa de cabelo eu usava e que se certificava de que eu estava comendo bem.
Deitei na cama naquela noite sentindo uma paz estranha. O caminho para ser uma heroína ao lado de Katsuki Bakugou seria pavimentado com explosões, gritos e desafios constantes, mas eu não escolheria nenhuma outra estrada.
Afinal, quem quer um namorado comum quando se pode ter um que brilha mais forte que qualquer supernova?
Fechei os olhos, já antecipando as batidas violentas na porta que viriam em poucas horas. E, pela primeira vez na vida, eu não me importaria nem um pouco em acordar cedo.