Mha
Cinzas e Consolo sob o Luar
O relógio digital na cabeceira da cama marcava 03h14. O silêncio do dormitório da U.A. era absoluto, mas dentro da minha cabeça, o som das explosões e o eco de gritos distorcidos ainda ressoavam. Eu estava ofegante, com o suor frio colando os fios de cabelo na testa e o coração batendo tão forte que parecia querer romper as costelas. O pesadelo tinha sido vívido demais: uma batalha onde a fumaça era tão espessa que eu não conseguia encontrar ninguém, e quanto mais eu gritava pelo nome de Katsuki, mais o chão se abria em abismos de escuridão.
Sentei-me na cama, abraçando os joelhos. Tentei usar as técnicas de respiração que Recovery Girl nos ensinara, mas a sensação de isolamento era sufocante. O quarto parecia pequeno demais, as sombras nos cantos pareciam se mover. Eu sabia que era apenas o estresse do treinamento e a ansiedade residual, mas o medo — aquele medo primitivo de perder quem amamos — não ia embora.
Sem pensar muito, levantei-me. Meus pés descalços tocaram o chão frio, enviando um calafrio pelo meu corpo. Peguei meu cobertor, enrolando-o nos ombros como uma armadura improvisada, e saí do quarto. O corredor estava mergulhado em uma penumbra azulada. Cada estalo da estrutura do prédio me fazia sobressaltar. Caminhei em direção ao quarto de Bakugou, o número da porta gravado na minha mente como um porto seguro.
Parei diante da madeira escura. E se ele estivesse dormindo profundamente? Ele odiava ser acordado. E se ele me achasse fraca por não conseguir lidar com um simples sonho ruim? Hesitei, a mão pairando sobre a superfície da porta. Mas então, a imagem dele desaparecendo na fumaça do meu pesadelo voltou com força total.
Bati levemente. Três batidas curtas.
— Katsuki? — sussurrei, minha voz saindo falha.
Silêncio. Por um momento, achei que ele não ouviria. Mas então, ouvi o som de lençóis se mexendo e passos pesados se aproximando. A porta se abriu abruptamente, revelando um Bakugou de cabelos ainda mais bagunçados que o normal, vestindo apenas uma calça de moletom cinza. Seus olhos vermelhos estavam semicerrados pelo sono, e ele parecia pronto para explodir quem quer que fosse o infeliz que ousara interromper seu descanso.
— Que merda... — ele começou, mas parou no instante em que me viu.
Ele não precisou de um detector de mentiras ou de uma individualidade de empatia para entender. Ele viu meus olhos vermelhos de choro, o tremor nas minhas mãos e o jeito que eu me encolhia sob o cobertor. Sua expressão de raiva suavizou-se em algo que beirava a preocupação, embora ele tentasse esconder com um franzir de sobrancelhas.
— O que foi? — perguntou ele, a voz rouca e baixa, desprovida de sua agressividade habitual. — Algum extra invadiu o prédio? Alguém te machucou?
— Não... — respondi, engolindo em seco. — Foi só um pesadelo. Eu... eu tive medo. Posso ficar aqui com você?
Bakugou soltou um suspiro longo, passando a mão pelo rosto. Ele olhou para o corredor vazio e depois de volta para mim.
— Você é uma idiota mesmo — resmungou ele, mas deu um passo para o lado, abrindo espaço. — Entra logo antes que algum fofoqueiro apareça.
Entrei no quarto dele. O ambiente cheirava a ele: uma mistura de detergente de roupa limpo, o sutil aroma de nitroglicerina e algo quente, como canela. Era um quarto organizado, muito mais do que o de qualquer outro garoto da sala, com livros de táticas empilhados e o uniforme perfeitamente pendurado.
Ele fechou a porta e trancou-a. O som do trinco me trouxe um alívio imediato.
— Senta aí — ele gesticulou para a cama.
Sentei-me na beirada, ainda envolta no meu cobertor. Bakugou ficou parado na minha frente por um momento, parecendo desconfortável com a situação, mas então ele se sentou ao meu lado. O calor que emanava do corpo dele era como um aquecedor ligado no máximo, dissipando o frio que o pesadelo tinha deixado em mim.
— Quer falar sobre essa merda de sonho ou vai ficar aí parecendo um fantasma? — perguntou ele, cruzando os braços.
— Eu não conseguia te encontrar — confessei, olhando para as minhas próprias mãos. — Tinha muita fumaça e explosões, mas não eram as suas. Eram de outra pessoa. Eu te chamava e você não respondia. Parecia que você tinha sumido para sempre.
Senti uma mão pesada e quente pousar no topo da minha cabeça. Bakugou não era de fazer carinhos delicados, mas o peso de sua mão era reconfortante, uma âncora me prendendo à realidade.
— Eu não vou a lugar nenhum, sua tonta — disse ele, com uma firmeza que não admitia réplicas. — Já te disse que ninguém me vence. E eu certamente não vou deixar um pesadelo idiota me tirar de perto de você. Entendeu?
— Entendi.
— Ótimo. Agora deita e dorme. Eu tenho treino daqui a poucas horas e não vou ficar acordado cuidando de assombração.
Ele se deitou, virando-se para o lado da parede, deixando um espaço generoso na cama para mim. Deitei-me timidamente, ainda mantendo uma pequena distância. O silêncio voltou a reinar, mas desta vez não era assustador. No entanto, o medo ainda espreitava nas bordas da minha mente.
— Katsuki? — chamei baixinho.
— O que é agora? — ele resmungou, sem se virar.
— Posso... posso chegar mais perto?
Ouvi-o soltar um estalo com a língua, o som clássico de sua impaciência, mas então ele se virou. Sem dizer uma palavra, ele estendeu o braço e me puxou para junto dele. Minha cabeça descansou no peito largo dele, e eu pude ouvir o batimento rítmico e forte de seu coração. Era um som poderoso, a prova viva de que ele estava ali, sólido e real.
— Você é muito carente, sabia? — ele murmurou contra o meu cabelo. — Se o Kirishima ou o Kaminari souberem disso, eu mato os dois e depois me enterro.
— Prometo que não conto para ninguém — respondi, sentindo-me finalmente relaxar. — Obrigado, Katsuki.
— Cala a boca e dorme.
Passei meu braço pela cintura dele, sentindo os músculos firmes de suas costas. Bakugou hesitou por um segundo antes de envolver meus ombros com o braço, protegendo-me em um abraço possessivo. Ele era quente, tão quente que parecia que eu estava dormindo perto de uma lareira.
Ficamos assim por um tempo, envoltos pela penumbra. O medo que antes me paralisava começou a derreter sob o calor de sua pele. Eu me sentia segura, protegida pelo garoto que o mundo via como uma força da natureza destrutiva, mas que para mim era o único lugar onde eu podia ser vulnerável.
— Ei — ele chamou, a voz tão baixa que era quase um sussurro perdido na escuridão.
— Oi?
— Se você tiver outra dessas merdas de sonho... não fica sofrendo sozinha no seu quarto. Bate na minha porta de novo. Eu prefiro perder o sono do que ver você com essa cara de quem viu um vilão de ranking S.
Levantei a cabeça levemente para olhar para ele. Seus olhos estavam fechados, mas a expressão em seu rosto era de uma suavidade rara, algo que ele só permitia que eu visse na calada da noite.
— Você é muito fofo quando quer, Katsuki — provoquei, não resistindo.
— Repete isso e eu te jogo no corredor agora mesmo — ele ameaçou, mas me apertou um pouco mais contra si, desmentindo suas próprias palavras.
Ri baixinho, fechando os olhos. O cheiro de pólvora e açúcar agora era o meu calmante. Com o som do coração de Bakugou funcionando como uma canção de ninar, o sono finalmente veio, mas desta vez não trazia fumaça ou gritos. Desta vez, o sonho era apenas de um campo aberto, onde o sol brilhava tão intensamente quanto as explosões do garoto que segurava meu mundo nas mãos.
Na manhã seguinte, a luz do sol começou a filtrar pelas cortinas do quarto de Bakugou. Acordei lentamente, sentindo o peso reconfortante de um braço sobre a minha cintura. Por um segundo, esqueci onde estava, até que o cheiro familiar me atingiu. Olhei para cima e vi Bakugou ainda dormindo. Sem a carranca habitual, ele parecia quase jovem demais, as feições relaxadas e a respiração calma.
Fiquei ali por alguns minutos, apenas observando-o. Era um privilégio que ninguém mais na U.A. tinha: ver o Rei das Explosões em seu estado mais pacífico. Estendi a mão e toquei levemente os fios loiros e espetados de seu cabelo. Surpreendentemente, eram macios.
De repente, os olhos vermelhos de Bakugou se abriram. Ele não pulou de susto; ele apenas me encarou por alguns segundos, processando a realidade de ter alguém em sua cama.
— Já é de manhã? — ele perguntou, a voz rouca pelo sono, o que a tornava perigosamente atraente.
— Sim. O sol já saiu.
Ele olhou para o relógio e soltou um xingamento baixo.
— Droga, perdi o horário da corrida matinal.
— Desculpa, Katsuki. Eu te prendi aqui.
Ele se sentou na cama, espreguiçando-se e fazendo os ossos estalarem. Ele olhou para mim, e por um breve momento, vi um brilho de ternura antes que ele colocasse sua máscara habitual de irritação.
— Tanto faz. Eu recupero o tempo no treino de combate. Como você está? Ainda está com aquela cara de quem vai desmaiar?
— Não. Estou bem melhor. Obrigada por me deixar ficar.
Ele se levantou e caminhou até o armário, pegando uma camiseta.
— Vê se não se acostuma, idiota. Minha cama não é abrigo para refugiados de pesadelos.
— Sei... — respondi, levantando-me também e arrumando meu cobertor. — Mas você disse que eu podia voltar se acontecesse de novo.
Ele parou com a camiseta no meio do caminho, as costas musculosas voltadas para mim. Vi suas orelhas ficarem vermelhas.
— Eu disse isso porque estava com sono e não sabia o que estava falando! — ele gritou, voltando ao seu tom normal. — Agora sai daqui antes que o Kirishima apareça para me chamar e veja você saindo do meu quarto. Eu não quero ouvir as piadinhas daquele cabelo de espeto o dia inteiro!
Caminhei até ele e, antes que ele pudesse reclamar, dei um beijo rápido em sua bochecha.
— Até o café da manhã, "Kacchan".
— NÃO ME CHAMA ASSIM, SUA MALDITA! — ele berrou, mas não fez nada para me impedir enquanto eu saía do quarto correndo e rindo.
Ao chegar no corredor, dei de cara com Mina, que saía do quarto dela com os cabelos todos bagunçados. Ela parou, olhou para mim saindo do quarto de Bakugou, olhou para o meu cobertor e depois para o meu sorriso.
— Amiga... — ela disse, os olhos se arregalando em círculos perfeitos. — Você... ele... naquela porta?
— Foi só um pesadelo, Mina — expliquei, tentando manter a calma, embora meu rosto estivesse em chamas. — Ele me deixou dormir lá.
— Dormir? Só dormir? — ela perguntou, com um sorriso malicioso crescendo em seu rosto rosado. — Ah, eu não acredito! O Bakugou é um cavalheiro protetor! Isso é melhor do que qualquer dorama que eu já vi!
— Mina, se você contar para alguém, ele realmente vai explodir o prédio!
— Meu lábios estão selados! — ela fez um gesto de zíper na boca, mas saiu saltitando pelo corredor. — Mas eu vou querer todos os detalhes no almoço!
Voltei para o meu quarto para me trocar, sentindo que, não importava o quão difíceis fossem os treinos ou o quão assustadores fossem os pesadelos, eu tinha encontrado algo precioso. Katsuki Bakugou podia ser feito de pólvora e fúria, mas para mim, ele era o porto seguro onde o medo não tinha permissão para entrar. E enquanto eu vestia meu uniforme, eu sabia que enfrentaria qualquer vilão ou qualquer sombra, desde que soubesse que, ao final do dia, o calor de suas explosões estaria lá para me aquecer.