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midia

Labirintos de Vidro e Paddock

O impacto da "confirmação não confirmada" de Max e George não foi apenas uma explosão momentânea; foi uma mudança tectônica no ecossistema da Fórmula 1. Se antes os fotógrafos buscavam o melhor ângulo da asa dianteira da Red Bull ou o desgaste dos pneus da Mercedes, agora as lentes de 600mm estavam permanentemente treinadas para qualquer interação entre o britânico e o holandês.

A segunda-feira após Monza foi um borrão de notificações. George, sempre o estrategista de imagem, passou a manhã em seu apartamento em Mônaco revisando os relatórios de engajamento que sua equipe de RP enviara. Os números eram astronômicos. A Mercedes nunca teve tanto tráfego orgânico em perfis que, normalmente, só se interessavam por moda ou lifestyle.

— É uma faca de dois gumes, George — disse sua assessora de imprensa através do viva-voz. — Por um lado, você é o homem mais falado do mundo hoje. Por outro, se você terminar em P8 em Baku, vão dizer que é porque você está... distraído.

George suspirou, observando a vista do Mediterrâneo.

— Eu sei, Sarah. Mas não é como se pudéssemos voltar para dentro do armário agora. O roupão do Max já tem sua própria conta no Twitter com cinquenta mil seguidores.

— Só tome cuidado — avisou ela antes de desligar. — Christian e Toto estão em uma trégua armada por enquanto, mas se isso começar a afetar os patrocinadores, a conversa muda.

George jogou o celular no sofá. Ele amava a Fórmula 1, amava a Mercedes, mas a burocracia do afeto era exaustiva.

A porta do apartamento se abriu com o som familiar da chave eletrônica. Max entrou, carregando uma sacola de padaria e parecendo estranhamente relaxado para alguém que tinha acabado de causar um colapso global na internet.

— Você viu o que o Lewis postou? — perguntou Max, sem nem dizer "bom dia", enquanto jogava um croissant no prato de George.

— Bom dia para você também, Max. E não, o que o meu companheiro de equipe fez agora?

George pegou o celular. Lewis Hamilton, o rei das redes sociais e do estilo, havia postado uma foto nos boxes com a legenda: "Finalmente o segredo mais mal guardado do paddock veio à tona. Já estava cansado de segurar vela nos jantares."

George gemeu, escondendo o rosto nas mãos.

— Ele não perde uma oportunidade.

— Eu achei engraçado — disse Max, sentando-se à mesa e abrindo o iPad para, previsivelmente, checar tempos de volta de simulador. — Pelo menos agora não precisamos fingir que nos odiamos quando as câmeras da Netflix estão por perto. Aquelas entrevistas ensaiadas eram um tédio.

— Nós nunca fingimos que nos odiávamos, Max. Nós apenas éramos... profissionais.

Max levantou uma sobrancelha, um sorriso enviesado surgindo.

— Profissionais? George, você quase jogou o carro em cima de mim em Barcelona e depois se recusou a falar comigo por três dias porque eu "respirei muito perto" do seu difusor.

— Isso foi corrida! — defendeu-se George, embora o rubor em suas bochechas o traísse. — E você sabe que eu sou competitivo.

— Eu sei. É por isso que eu gosto de você. Mas admita, o mistério era divertido, mas a liberdade é melhor.

A liberdade, no entanto, tinha um preço. O Grande Prêmio de Singapura estava chegando, a corrida mais fisicamente exigente do calendário. O calor úmido e as paredes próximas de Marina Bay não perdoavam erros, e a mídia estava sedenta por qualquer sinal de que o relacionamento estivesse "amolecendo" os pilotos.

Quando chegaram ao aeroporto de Changi, a recepção foi digna de estrelas do rock. Fãs seguravam cartazes com fotos de Jimmy, o gato, e montagens dos dois. George manteve a postura impecável, óculos escuros e passos largos. Max, por sua vez, parecia achar tudo uma grande piada interna, ocasionalmente cutucando George para apontar um cartaz particularmente criativo.

No paddock de Singapura, a tensão era palpável. A Red Bull estava sob pressão para manter a sequência de vitórias, e a Mercedes estava desesperada por um pódio.

— George, uma palavra! — gritou um repórter da Sky Sports enquanto George caminhava para a garagem.

George parou, o sorriso de relações públicas assumindo o controle.

— Como está a preparação para o calor, George? E como é dividir o foco entre o campeonato e a sua... nova visibilidade pessoal?

— A preparação é a mesma de sempre — respondeu George, a voz firme. — Muito treino cardiovascular e hidratação. Quanto ao resto, meu foco é 100% entregar o melhor resultado para a Mercedes. O que acontece fora das pistas é apenas a minha vida, como a de qualquer outra pessoa.

— Mas Max disse que você usa três shampoos diferentes... — o repórter tentou brincar.

— E ele usa apenas um sabonete para o corpo, o rosto e, provavelmente, para lavar o carro — rebateu George, arrancando risadas da equipe de filmagem. — Agora, se me dão licença, tenho uma reunião técnica.

Dentro da garagem, a atmosfera era mais séria. Toto Wolff estava lá, com os braços cruzados, observando os monitores. Ele fez um sinal para que George se aproximasse.

— George.

— Toto.

— As redes sociais estão em chamas — começou o austríaco, seu sotaque carregado dando um peso extra às palavras. — Eu não me importo com quem você dorme, desde que você acorde a tempo para a reunião de estratégia e não bata no carro azul na curva 1.

— Você sabe que isso não vai acontecer, Toto.

— Eu espero que não. Porque se você e o Verstappen baterem, eu não vou saber se é um incidente de corrida ou uma briga de namorados, e eu não quero ter que mediar isso com o Christian. Ele já é irritante o suficiente sem envolver romances.

George assentiu, sentindo o peso da responsabilidade. Ele sabia que, a partir de agora, cada manobra na pista seria analisada sob uma lente diferente.

A classificação de sábado foi um caos. Max pegou a pole por uma margem mínima, e George garantiu a segunda posição, batendo Charles Leclerc por milésimos. A primeira fila seria composta pelos dois. A internet, é claro, entrou em combustão. "A Primeira Fila do Amor", diziam as manchetes do Twitter.

Na noite de sábado, no hotel, o silêncio era um luxo. Max estava deitado na cama, com as pernas para cima contra a cabeceira, tentando aliviar o inchaço. George estava sentado na escrivaninha, revisando as notas da classificação.

— Você vai tentar me fechar na largada, não vai? — perguntou Max, sem abrir os olhos.

— É o meu trabalho, Max.

— Você sabe que se você me tocar e nós dois abandonarmos, o Toto vai ter um aneurisma.

— E o Christian vai pedir a sua cabeça em uma bandeja de prata — rebateu George, virando a cadeira para olhar para ele. — Mas eu não vou recuar. Você sabe disso.

Max abriu um olho e sorriu. Era aquele sorriso predatório que ele usava antes de uma corrida.

— Eu contaria com isso. Seria muito chato se você começasse a dirigir como um cavalheiro só porque estamos saindo.

— Eu nunca fui um cavalheiro na pista — disse George, levantando-se e caminhando até a cama. Ele se inclinou sobre Max, as mãos apoiadas em cada lado do corpo do holandês. — E você sabe que, amanhã, eu não sou o seu namorado. Eu sou o cara que vai tentar tirar aquela vitória de você.

Max puxou George pela nuca, aproximando seus rostos até que suas respirações se misturassem.

— Ótimo. Porque eu não pretendo facilitar. Mas se você ganhar... eu quero o seu roupão azul como troféu.

— Em seus sonhos, Verstappen.

O domingo em Singapura era um forno. A umidade grudava no macacão antes mesmo dos pilotos entrarem nos carros. No grid de largada, a tensão entre as equipes era visível. Mecânicos da Red Bull e da Mercedes trocavam olhares cautelosos.

Quando as luzes se apagaram, a reação de George foi perfeita. Ele saltou melhor que Max, emparelhando com a Red Bull antes da primeira curva. Foi uma dança de milímetros. Max manteve a linha interna, George tentou o contorno por fora. Por um segundo, os pneus quase se tocaram, um momento que fez o mundo inteiro prender a respiração.

— Deixe espaço, George! — gritou a voz de Bono pelo rádio de Lewis, que vinha logo atrás, observando a disputa de camarote.

Mas eles deixaram espaço. Foi uma pilotagem limpa, agressiva e técnica. Max manteve a liderança, mas George não o deixou escapar. Durante 62 voltas, a distância entre eles nunca passou de dois segundos. Era uma perseguição implacável.

Nas voltas finais, o desgaste dos pneus começou a cobrar seu preço. George sentia o carro escorregar, o suor arder em seus olhos. Ele via a luz traseira da Red Bull de Max, um farol constante no meio do caos de luzes de Singapura.

Max cruzou a linha de chegada em primeiro. George em segundo.

Ao saírem dos carros no parque fechado, ambos estavam exaustos, trêmulos pelo esforço físico extremo. Max tirou o capacete, o rosto vermelho e o cabelo grudado na testa. George se aproximou, tirando as luvas.

Diante de milhões de telespectadores, eles não se beijaram, nem fizeram nenhuma cena dramática. Eles apenas bateram os capacetes um contra o outro, um gesto clássico de respeito entre pilotos, mas Max deixou a mão repousar no ombro de George por um segundo a mais do que o necessário.

— Boa corrida, "shampoo boy" — sussurrou Max enquanto as câmeras se aproximavam.

— Você teve sorte com o tráfego, "sim-racer" — respondeu George, com um sorriso genuíno que não era para as câmeras, mas apenas para o homem à sua frente.

No pódio, enquanto o champanhe voava, a narrativa mudou. A mídia não falava mais apenas sobre o escândalo ou a fofoca. Eles falavam sobre a melhor batalha de pista da temporada.

Na coletiva de imprensa pós-corrida, um jornalista tentou novamente:

— Max, George, vocês provaram que podem correr um contra o outro sem incidentes. Isso é um alívio para as equipes?

Max olhou para George e depois para o jornalista.

— Nós somos profissionais. O que temos fora da pista não muda o fato de que ambos queremos vencer. Se George me der uma oportunidade, ele vai me ultrapassar. E se ele deixar a porta aberta, eu vou enfiar o carro lá. É assim que funciona.

George concordou.

— O respeito que temos um pelo outro fora da pista só aumenta a confiança que temos dentro dela. Eu sei que posso correr roda a roda com o Max a 300 km/h porque eu confio nele.

Naquela noite, depois de todas as obrigações mediáticas, eles finalmente estavam sozinhos no carro que os levava de volta ao hotel. George olhou para o seu celular. O Instagram estava inundado de fotos dos dois no pódio. Uma foto em particular, tirada de cima, mostrava o momento em que se cumprimentaram após a corrida. A legenda de uma conta de fã dizia: "Respeito é a base de tudo."

— Sabe o que é engraçado? — perguntou George, encostando a cabeça no vidro da janela.

— O quê?

— Que agora que todo mundo sabe, parece que eles estão prestando mais atenção na nossa pilotagem do que antes.

— É porque eles estão procurando uma falha — disse Max, pegando a mão de George e entrelaçando seus dedos. — Eles querem que a gente falhe para dizerem que o amor nos deixou lentos.

George apertou a mão de Max.

— Então acho que teremos que continuar sendo rápidos.

— Rápido na pista — corrigiu Max com um sorriso malicioso —, porque no banho, você ainda é um desastre cronometrado.

George riu, uma risada leve que dissipou todo o cansaço do fim de semana.

— Eu já disse, Max. É o processo. O mundo pode ter descoberto sobre nós por causa de um reflexo em um espelho, mas eles não têm ideia do quanto trabalho dá manter esse cabelo perfeito sob um capacete por duas horas.

— Eu posso pensar em algumas maneiras de bagunçar ele de novo — provocou Max.

George desligou o celular e o guardou no bolso. O mundo digital continuaria girando, os algoritmos continuariam processando cada curtida e cada comentário, e as teorias continuariam surgindo a cada nova postagem. Mas ali, no silêncio do carro cruzando as ruas iluminadas de Singapura, não havia pixels, nem RPs, nem telemetria.

Havia apenas o calor da mão de Max na sua e a promessa de que, na próxima corrida, eles fariam tudo de novo. Porque, no final das contas, o melhor reflexo não era o que aparecia em um espelho ou em uma tela de celular. Era o que viam nos olhos um do outro: o reflexo de alguém que entendia exatamente o que significava viver a 300 quilômetros por hora, dentro e fora das pistas.

— Próxima parada, Japão? — perguntou George.

— Próxima parada, Japão — confirmou Max. — Mas primeiro, o serviço de quarto. E eu vou chegar no chuveiro antes de você.

— Nem nos seus sonhos, Verstappen!

O carro parou em frente ao hotel, e enquanto os flashes dos paparazzi disparavam na calçada, George e Max saíram juntos. Eles não estavam mais se escondendo, mas também não estavam mais jogando para a plateia. Eles estavam apenas vivendo. E para a Fórmula 1, aquilo era a maior revolução de todas.