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midia

Pétalas, Piston e Pixels

O Grande Prêmio do Japão em Suzuka sempre foi o teste definitivo para qualquer piloto. As curvas em "S", a Degner, a icônica 130R; é um circuito que exige precisão cirúrgica e uma conexão quase espiritual com a máquina. Para George Russell e Max Verstappen, no entanto, Suzuka agora representava algo mais: o primeiro teste de como a dinâmica de um relacionamento público sobreviveria à intensidade de uma cultura tão respeitosa e, ao mesmo tempo, tão focada quanto a japonesa.

A chegada ao aeroporto de Narita foi, previsivelmente, um evento. Os fãs japoneses eram conhecidos por sua educação extrema, mas também por seus presentes criativos. George foi presenteado com um par de pantufas personalizadas com o rosto de seu gato (que ele nem sabia que os fãs conheciam tão bem) e Max recebeu um mini simulador feito de origami.

— Eles são incríveis — comentou George, enquanto entravam no carro da equipe Mercedes. — Mas eu juro que vi alguém segurando um banner com um print gigante do reflexo do roupão.

Max soltou uma risada curta, ajustando o boné da Red Bull.

— O roupão agora é patrimônio histórico da Fórmula 1, George. Aceite. Ele vai acabar no museu da FIA em Paris ao lado do carro do Senna.

— Não dê ideias a eles, Max. O Toto já está tendo dificuldades suficientes para explicar aos patrocinadores por que o engajamento da Mercedes subiu 400% em demografias que acham que "DRS" é uma marca de cosméticos.

Ao chegarem ao hotel em Nagoya, a rotina de treinos e reuniões técnicas tomou conta. Mas havia uma leveza nova. Não precisavam mais reservar mesas em horários diferentes ou entrar no hotel com dez minutos de intervalo. Ainda assim, a discrição era o norte de George. Ele era, afinal, o "Mr. Consistency", o homem que raramente tinha um fio de cabelo fora do lugar ou uma palavra mal dita.

Na quinta-feira, antes das atividades de pista começarem oficialmente, os dois decidiram caminhar pelas redondezas do circuito. O ar estava fresco, e as árvores ao redor de Suzuka começavam a mostrar os tons do outono.

— Você está muito quieto hoje — observou Max, chutando uma pequena pedra no caminho. — Pensando na estratégia de pneus ou no que vai postar no Instagram?

— Um pouco de cada — admitiu George, parando para observar a roda-gigante icônica do parque de diversões de Suzuka que se erguia contra o céu cinzento. — Eu estava pensando no que o Lewis disse em Singapura. Sobre segurar vela.

— O Lewis gosta de drama — Max deu de ombros. — Ele só está feliz porque agora tem alguém para irritar além do Bono.

— Não é só isso, Max. — George virou-se para ele, a expressão mais séria. — As pessoas estão começando a nos tratar como uma unidade. "Max e George". "George e Max". Eu amo o que temos, mas não quero perder quem eu sou na pista. Eu não quero ser apenas "o namorado do tricampeão".

Max parou de caminhar. Ele olhou para George com aquela intensidade direta que costumava desestabilizar os adversários antes das largadas.

— Você nunca vai ser só isso, George. Você é o cara que me faz suar em cada sessão de classificação. Você é o cara que estuda telemetria até as duas da manhã. Se alguém no paddock ou na internet pensa que você é menos piloto por estar comigo, o problema é a estupidez deles, não a sua realidade.

George sorriu, sentindo um peso sair de seus ombros.

— Você tem momentos de sabedoria surpreendentes para alguém que vive de Red Bull e iRacing.

— Eu tenho meus momentos — Max piscou, voltando a caminhar. — Agora, vamos. Se chegarmos atrasados para a caminhada na pista, o Christian vai achar que estamos ocupados demais sendo "românticos" e vai me dar outro sermão sobre foco.

A sexta-feira de treinos livres foi marcada pela chuva típica da região. Suzuka sob chuva era uma fera perigosa. George estava no topo da tabela de tempos durante o TL1, aproveitando a agilidade da Mercedes em condições de baixa aderência. Max, por outro lado, parecia estar testando os limites do carro, rodando na chicane final após tocar em uma zebra molhada.

No paddock, o feed do Twitter estava em polvorosa. Cada vez que um dos dois aparecia na transmissão oficial, os comentários disparavam.

"O George está voando porque quer impressionar o Max", dizia um tweet com 20 mil curtidas.

"O Max rodou porque estava olhando o telão para ver o tempo do George", dizia outro.

A narrativa era impossível de controlar. Durante a entrevista coletiva pós-treinos, a pergunta inevitável veio de um jornalista local.

— George, vimos o Max ter um pequeno susto na chicane hoje. Você sentiu alguma preocupação extra ao ver o carro dele rodar, ou o instinto de competidor falou mais alto?

George ajustou o microfone, mantendo o rosto neutro que treinara por anos.

— Na pista, todos os carros são apenas obstáculos ou alvos — respondeu ele com polidez. — Vi a bandeira amarela, verifiquei se o carro estava em uma posição perigosa e, ao ver que ele estava retornando à pista, voltei ao meu programa de testes. O Max sabe cuidar de si mesmo a 300 por hora.

Na garagem da Red Bull, Max assistia à entrevista por um monitor enquanto bebia água.

— Ele é bom nisso, não é? — comentou Checo Pérez, aproximando-se do companheiro de equipe. — Ele fala como se estivesse lendo um manual de instruções da Mercedes.

— É o jeito dele — disse Max, com um traço de orgulho na voz. — Ele gosta que tudo seja perfeito. Mas espere até ele entrar no motorhome e começar a reclamar que eu quase sujei a pista com brita na frente dele.

Dito e feito. Duas horas depois, no espaço compartilhado entre as equipes, George encontrou Max perto da área de hospitalidade.

— Brita, Max? Sério? — George cruzou os braços, embora houvesse um brilho de diversão nos olhos. — Eu tive que abortar uma volta de simulação de corrida porque o "Leão" decidiu fazer drift na chicane.

— Eu estava testando o limite, George — rebateu Max, aproximando-se o suficiente para que apenas George ouvisse. — Você deveria tentar às vezes. É mais divertido do que seguir a linha ideal como se fosse um trilho de trem.

— Eu prefiro meus trilhos de trem e meus tempos de volta consistentes, obrigado.

A noite de sábado trouxe a classificação. Suzuka sob luzes e nuvens carregadas era um cenário dramático. A disputa pela pole position foi uma das mais acirradas da década. Max Verstappen, George Russell e Charles Leclerc estavam separados por apenas 0.045 segundos após a primeira tentativa no Q3.

Na volta final, George estava absolutamente em transe. Ele passou pelo primeiro setor com a "pintura roxa" — o tempo mais rápido. No setor dois, ele perdeu um pouco de tração na saída da Spoon, mas recuperou na 130R. Ele cruzou a linha e viu o número 1 aparecer ao lado de seu nome no painel.

Por dez segundos, ele deteve a pole position.

Então, Max cruzou a linha logo atrás. Por apenas sete milésimos de segundo, o holandês tomou o primeiro lugar.

No rádio da Mercedes, o silêncio de George foi profundo por alguns instantes.

— P2, George. P2. Grande volta, cara. Perdemos por quase nada — disse a voz de seu engenheiro.

— Entendido — respondeu George, a voz rouca. — Foi por pouco.

Ao estacionarem os carros no grid para as fotos oficiais dos três primeiros, Max pulou de seu carro e foi direto até George. Ele não esperou as câmeras se posicionarem. Ele deu um tapa amigável no ombro de George e, em seguida, segurou o capacete do britânico com as duas mãos, aproximando suas viseiras.

— Sete milésimos, George — disse Max, a voz abafada pelo capacete, mas carregada de adrenalina. — Você quase me pegou.

— Na próxima vez, eu não vou "quase" — rebateu George, embora tenha retribuído o aperto no braço de Max.

A foto daquele momento — os dois pilotos, ainda de capacete, em um momento de respeito mútuo e competição feroz — tornou-se a imagem definitiva do fim de semana. Não era uma foto de "casal", era uma foto de pilotos de elite. E era exatamente isso que George precisava.

A corrida de domingo foi um épico. A largada foi limpa, com Max mantendo a liderança e George defendendo-se agressivamente de Leclerc. Durante 53 voltas, o que se viu foi um jogo de xadrez em alta velocidade. Max não conseguia abrir mais de um segundo e meio, e George não conseguia entrar na zona de DRS de forma consistente.

A tensão nos boxes era insuportável. Toto Wolff e Christian Horner mal se olhavam, cada um focado em suas próprias telas, calculando paradas nos boxes e desgaste de pneus.

Na volta 48, George viu sua chance. Max teve uma pequena hesitação ao ultrapassar um retardatário na entrada da Casio Triangle. George mergulhou. Foi uma manobra ousada, por dentro, os carros quase se tocando.

— Ele foi por dentro! — gritou o comentarista da TV.

Max, com reflexos de puro instinto, manteve o carro na pista, forçando George a usar cada centímetro da zebra. Eles saíram da chicane lado a lado, acelerando em direção à reta principal. No final, o motor Honda da Red Bull levou a melhor na aceleração, e Max manteve a ponta.

A bandeira quadriculada saudou Max Verstappen como vencedor, com George Russell em um segundo lugar monumental.

Desta vez, no pódio, a atmosfera era de celebração pura. Enquanto o hino holandês tocava, George olhou para a multidão japonesa, vendo milhares de bandeiras e rostos sorridentes. Ele sentiu uma mão tocar a sua, discretamente, atrás do troféu que ambos seguravam para a foto do pódio. Foi um toque rápido, um entrelaçar de dedos que durou apenas um segundo, mas disse tudo.

Mais tarde, no jato particular de volta para a Europa, o silêncio da cabine era um contraste bem-vindo ao rugido dos motores V6. George estava esparramado na poltrona, com um saco de gelo no pescoço. Max estava ao seu lado, analisando — mais uma vez — os dados da ultrapassagem na volta 48.

— Você quase me tirou da pista ali — comentou Max, sem tirar os olhos do iPad.

— Você deixou a porta aberta — rebateu George, bocejando. — Eu seria um péssimo piloto se não tentasse.

Max desligou a tela e olhou para George.

— Você foi incrível hoje. O paddock inteiro só fala daquela manobra. Ninguém está falando sobre shampoos ou roupões agora.

George sorriu, fechando os olhos.

— É bom saber. Mas eu ainda acho que o meu segundo setor foi melhor que o seu.

— Nos seus sonhos, Russell.

George esticou a mão e pegou o celular. Ele abriu o Instagram e, pela primeira vez, não hesitou. Ele postou a foto dos dois de capacete no grid de classificação, aquela que mostrava a tensão e o respeito.

A legenda foi simples: "7 milésimos na pista. Uma vida inteira fora dela. Grande batalha, @maxverstappen1."

— Você postou? — perguntou Max, ouvindo o som de notificação em seu próprio bolso.

— Postei.

Max olhou para a tela, sorriu e apenas comentou na foto: "Lento no banho, rápido na 130R. Nos vemos no Catar."

— Você é impossível — resmungou George, mas ele já estava se inclinando para o lado, apoiando a cabeça no ombro de Max.

— E você adora isso — respondeu Max, fechando os olhos e deixando o cansaço da vitória finalmente chegar.

O mundo lá fora continuaria a digitar, a especular e a criar memes. Mas ali, a dez mil metros de altura, entre o ronco suave das turbinas e o conforto do silêncio compartilhado, George Russell finalmente percebeu que não precisava escolher entre ser um grande piloto e ser feliz. Ele podia ser os dois. E se isso custasse alguns milésimos de segundo ou algumas manchetes sensacionalistas, era um preço que ele estava mais do que disposto a pagar.

Afinal, na Fórmula 1, tudo se resume a encontrar o equilíbrio perfeito. E George, pela primeira vez em sua carreira, sentia que tinha finalmente encontrado o seu.

— Max? — chamou George, já quase dormindo.

— Hmm?

— Não se acostume com o P1. No Catar, eu vou usar o shampoo novo. Dizem que ele melhora a aerodinâmica.

Max soltou uma risada abafada contra o cabelo de George.

— Durma, George. Você está delirando.

— Veremos, Verstappen. Veremos.

E assim, sob o céu estrelado que cobria o caminho de volta para casa, os dois pilotos descansaram, prontos para a próxima batalha, onde o cronômetro seria o juiz e o amor seria, silenciosamente, o combustível.