Minha garota
Segredos entre Mergulhos e Pedras
O sol de Derry começava a perder aquela força escaldante do meio-dia, transformando-se em um brilho dourado e suave que refletia na superfície da água da pedreira. O som das risadas dos meninos ecoava pelas paredes de pedra, misturando-se ao barulho dos insetos de verão. Eu estava sentada em uma das rochas mais lisas, secando meus cabelos pretos com as mãos, enquanto observava Richie Tozier fazer uma de suas imitações baratas, gesticulando freneticamente com os braços.
— Eu estou dizendo para vocês! — exclamou Richie, ajustando os óculos que insistiam em escorregar pelo nariz suado. — Se a gente ficar aqui tempo o suficiente, o Eddie vai desenvolver uma nova alergia apenas pelo contato visual com o musgo.
— Cala a boca, Richie! — Eddie resmungou, sentado ao lado dele, abraçando os próprios joelhos e olhando com desconfiança para uma mancha verde na pedra. — Musgo pode conter esporos perigosos. Você não sabe nada sobre biologia.
Eu ri, balançando a cabeça. Beverly, que estava sentada ao meu lado, me deu um cutucão com o cotovelo e sorriu. Era bom estar ali. Longe da rigidez da escola e da sombra pesada que Henry às vezes carregava, eu me sentia leve. Olhei de soslaio para Bill Denbrough. Ele estava um pouco mais afastado, observando o horizonte com aquele olhar pensativo e doce que sempre fazia meu coração dar um pequeno salto, embora eu tentasse esconder isso de todo mundo.
— Já chega de conversa fiada! — Richie anunciou, levantando-se e batendo as mãos nas coxas. — O tédio está me matando mais rápido do que qualquer bactéria do Eddie. Vamos jogar uma coisa. Verdade ou Desafio.
— Ah, não... — Stan murmurou, parecendo já prever o desastre.
— Ah, sim! — Richie insistiu, com um brilho travesso nos olhos. — É um clássico. E ninguém pode dar para trás.
Todos acabamos cedendo. Formamos um círculo improvisado sobre as pedras irregulares. O clima era de descontração, mas eu sentia uma pontada de nervosismo. Eu sabia que, com Richie no comando, as coisas raramente permaneciam "seguras". As primeiras rodadas foram bobas. Stan teve que confessar qual era o pássaro que ele achava mais feio, e Eddie foi desafiado a comer um pedaço de marshmallow que caiu no chão (ele quase teve um colapso nervoso antes de cumprir).
Até que a sorte — ou o destino — resolveu mudar o tom do jogo. A garrafa improvisada que estávamos usando parou apontando de Bill para Richie.
— B-B-Bill... — Richie sorriu como um predador. — Verdade ou d-d-desafio?
Bill, com sua calma habitual, embora houvesse um leve tremor em suas mãos, respirou fundo.
— D-D-Desafio.
Um silêncio se instalou por um segundo. Richie olhou para Bill, depois olhou para mim, e um sorriso malicioso cruzou seu rosto. Eu senti minhas bochechas esquentarem instantaneamente. Richie sabia ser irritante, mas ele também era perigosamente observador.
— Eu desafio você... — Richie fez uma pausa dramática — a dar um beijo na Hanna. Um beijo de verdade, Denbrough. Nada de selinho de vovó.
O mundo pareceu parar. Eu senti o olhar de Beverly queimar em minha direção; ela era a única que sabia que eu era completamente apaixonada pelo Bill. Por outro lado, vi Ben ficar visivelmente desconfortável. Ele se mexeu no lugar, desviando o olhar para a água. Todos sabiam que a Bev já tinha dado um beijo na bochecha do Bill uma vez, e Ben, com seu coração de ouro, sentia essa tensão no ar.
Bill me olhou. Seus olhos azuis pareciam buscar uma permissão silenciosa nos meus. Eu não conseguia falar, apenas assenti levemente, sentindo meu pulso acelerar tanto que eu podia ouvir as batidas nos meus ouvidos.
Bill se inclinou para frente. O espaço entre nós encurtou e, por um momento, o resto do mundo desapareceu. Quando seus lábios tocaram os meus, não foi algo bruto. Foi suave, mas carregado de uma intensidade que me fez esquecer onde eu estava. Foi um beijo de verdade, como Richie pediu, mas para mim, foi muito mais do que um desafio. Foi a confirmação de algo que eu sentia vibrar no ar há meses.
Quando nos separamos, Bill estava vermelho até a raiz dos cabelos, e eu provavelmente não estava diferente.
— U-U-Uau! — Richie gritou, quebrando o silêncio. — Alguém chama os bombeiros, porque a pedreira está pegando fogo! O Grande Bill finalmente mostrou serviço!
— Cala a boca, Richie! — eu disse, tentando recuperar a compostura, embora estivesse sorrindo por dentro.
Richie continuou a fazer piadas, imitando o que ele achava que eram sons de beijo e provocando Bill sobre sua performance. Ele estava sendo o típico Richie, mas dessa vez, a vergonha estava começando a dar lugar à irritação.
— Olha só o Bill, ele está até tonto! Hanna, você usou algum feitiço de sereia nele? — Richie continuava, rindo da própria piada.
Levantei-me de um salto, fingindo uma fúria que não era totalmente real, e fui até ele. Antes que ele pudesse fugir, agarrei sua orelha e dei um puxão firme.
— Ai! Ai! Hanna, socorro! Violência doméstica! — ele berrou, fazendo todo mundo explodir em gargalhadas, até mesmo o Eddie, que costumava ser a vítima principal.
— Peça desculpas por ser um idiota, Tozier — eu disse, rindo enquanto ele tentava se desvencilhar.
— Tá bom, tá bom! Eu peço desculpas! — ele exclamou, com uma careta cômica. — Você beija bem e é agressiva, Bill é um homem de sorte!
Eu o soltei com um empurrão leve e voltei para o meu lugar, mas o clima do jogo já tinha se dissipado. O pessoal começou a se preparar para entrar na água novamente. Beverly se aproximou de mim e sussurrou no meu ouvido:
— Eu vi esse sorriso, Hanna. O segredo está bem guardado, mas você está nas nuvens.
Eu apenas pisquei para ela, sentindo-me a garota mais sortuda de Derry.
Enquanto os outros começavam a pular da pedra mais alta, eu percebi que Bill ainda estava ali, sentado perto de onde eu tinha deixado meu roupão. Ele parecia estar processando o que tinha acontecido. Stanley, o único que sabia do segredo de Bill, deu um tapinha no ombro dele e pulou na água, deixando-nos sozinhos por um breve momento.
Aproximei-me dele devagar. O som dos gritos e dos mergulhos lá embaixo criava uma cortina sonora que nos isolava.
— Ei — eu disse baixinho.
Bill levantou o olhar. Ele parecia nervoso, mas havia uma doçura em sua expressão que sempre me desarmava.
— E-E-Ei, Hanna. Sinto m-m-muito pelo Richie. Ele é um...
— Um idiota? É, eu sei — interrompi, dando um passo para mais perto. — Mas Bill... sobre o desafio... eu não me importei. Na verdade, eu gostei.
Ele arregalou os olhos levemente, a surpresa estampada no rosto. Tomei coragem — a mesma coragem que eu usava para enfrentar o Henry quando ele passava dos limites. Inclinei-me e dei um selinho rápido nele, mas dessa vez, por iniciativa minha.
— Eu também gosto de você, Bill — sussurrei perto do seu rosto. — Se você quiser... a gente pode namorar. Mas vamos manter entre a gente por enquanto? Sem ninguém saber?
Bill abriu um sorriso largo, um daqueles sorrisos raros que iluminavam todo o seu rosto. Ele concordou com a cabeça vigorosamente.
— S-S-Sim. Eu adoraria, Hanna.
Ele se inclinou e me deu outro selinho, selando o nosso pacto silencioso. Foi um momento só nosso, escondido à plena vista no topo daquela pedreira.
— Agora, vamos — eu disse, sentindo uma energia renovada. — Eles vão desconfiar se ficarmos aqui muito tempo.
Levantei-me e comecei a desamarrar o meu roupão preto. Bill me observava e, por um segundo, vi a admiração em seus olhos. Eu sabia que meu corpo chamava atenção, mas o jeito que o Bill me olhava era diferente; não era como se eu fosse um objeto, mas como se eu fosse algo precioso.
Tirei o roupão, ficando apenas de biquíni, sentindo o ar fresco na pele. Antes de correr em direção à borda da pedra, olhei para trás, encontrei o olhar de Bill e dei uma piscadinha de um olho só, um gesto travesso que era só para ele.
— O último a chegar é a mulher do padre! — gritei, correndo e saltando no vazio.
A queda livre foi maravilhosa. O impacto com a água gelada foi como um batismo para essa nova fase. Emergi rindo, jogando o cabelo para trás. Logo depois, ouvi o barulho de outro mergulho: Bill tinha pulado logo atrás de mim.
Passamos o resto da tarde brincando na água. Richie tentava afogar o Eddie (de brincadeira, claro), Ben e Beverly conversavam sobre algo que parecia importante em um canto mais calmo, e eu e Bill... bem, nós agimos como se nada tivesse mudado. Jogamos água um no outro, rimos das piadas de mau gosto do Richie e nadamos competitivamente.
Mas, de vez em quando, nossos olhares se cruzavam por baixo da superfície ou por cima das ondas, e aquele segredo compartilhado queimava mais quente do que o sol de verão. Ninguém desconfiava. Para o resto do mundo, eu ainda era a Hanna brincalhona e ele era o Bill gago e corajoso. Mas ali, sob o céu de Derry, nós sabíamos a verdade.
E enquanto eu nadava, sentindo a liberdade da água e a segurança daquele novo amor secreto, eu pensava que, se o verão de Derry era feito de sombras e perigos, eu tinha acabado de encontrar a minha luz mais brilhante. E ela tinha o nome de Bill Denbrough.