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Minha garota

Segredos sob a Superfície e o Sorriso de Georgie

A água da pedreira estava deliciosa, mas o que realmente fazia minha pele formigar não era o frio do rio, e sim a eletricidade que parecia emanar de Bill toda vez que ele chegava perto. Estávamos todos espalhados, aproveitando os últimos momentos de luz. Richie estava tentando convencer Eddie de que havia uma espécie de piranha mutante em Derry, o que resultava em Eddie chutando a água freneticamente toda vez que algo encostava em sua perna.

— Richie, se você não calar a boca, eu vou te afogar e dizer para a polícia que foi um acidente trágico! — gritou Eddie, ajeitando os óculos enquanto nadava para longe.

Eu ri, boiando tranquilamente, sentindo o sol aquecer meu rosto. Foi então que senti. Bill passou nadando por trás de mim, seus dedos roçando de leve, quase imperceptivelmente, na curva da minha cintura. Foi um toque rápido, um segredo tátil que ninguém mais viu, mas que me fez perder o fôlego por um segundo. Olhei para trás e ele me deu aquele sorriso de canto, os olhos brilhando de um jeito que ele nunca mostrava para os outros.

— T-T-Tudo bem aí, Hanna? — perguntou ele, a voz baixa o suficiente para que apenas eu ouvisse, disfarçando com um mergulho logo em seguida.

— Melhor agora — sussurrei para o nada, sorrindo como uma boba.

Enquanto nadávamos, meus olhos se voltaram para um canto mais afastado da margem. Beverly e Ben estavam sentados em uma pedra baixa, com as pernas balançando na água. Eles pareciam imersos em um mundo só deles. Ben falava com as mãos, gesticulando de forma tímida, mas apaixonada, e Bev o ouvia com uma atenção que me deixou curiosa. O que será que eles tanto conversavam? Ben sempre foi o mais culto de nós, cheio de fatos sobre a história de Derry, mas o olhar dele para a Bev... ah, aquele olhar entregava tudo.

— Eles f-f-fazem um par legal, não acha? — Bill apareceu ao meu lado novamente, seguindo o meu olhar.

— Acho sim, Bill. O Ben é um doce, e a Bev precisa de alguém que a trate como a rainha que ela é — respondi, sentindo uma pontada de carinho por meus amigos.

O tempo passou sem que percebêssemos, e as sombras das árvores começaram a se alongar sobre a pedreira. Era hora de ir. Saímos da água, tremendo um pouco conforme o vento batia nos nossos corpos molhados. Eu me enrolei na toalha, tentando secar meus cabelos pretos, enquanto observava a dinâmica do grupo.

Beverly e Ben decidiram ir embora juntos. Eles ainda estavam naquela conversa profunda, caminhando lado a lado pela trilha de terra. Bev me deu um tchauzinho de longe, e eu retribuí com um joinha, piscando para ela, o que a fez dar uma risadinha e balançar a cabeça.

— Bom, eu vou para c-c-casa — disse Bill, pegando sua mochila. — Você q-q-quer vir comigo, Hanna? George está com s-s-saudades de você.

— Eu adoraria, Bill. Só preciso passar em casa rápido para avisar minha mãe e pegar as minhas coisas de desenho que deixei lá.

Nos despedimos do resto dos Perdedores. Richie ainda tentou fazer um comentário engraçadinho sobre "casais que fogem juntos", mas um olhar mortal de Bill e um empurrão de Stan o fizeram ficar quieto. Caminhamos em direção à casa do Bill, mantendo uma distância segura para que ninguém desconfiasse, mas nossos dedos se buscavam ocasionalmente no caminho.

Quando chegamos à casa dos Denbrough, o ambiente parecia calmo. A luz da tarde entrava pelas janelas da sala, criando padrões de poeira dourada no ar. Assim que entramos, ouvimos barulhos de batidas vindos do andar de cima.

— G-G-Georgie? — Bill chamou.

— No quarto, Bill! — a voz fina e animada do pequeno George ecoou pelo corredor.

Subimos as escadas e, assim que abrimos a porta do quarto, vi o pequeno sentado no tapete. Ele estava cercado de brinquedos, mas o que estava em suas mãos era um dos carrinhos de metal que eu tinha dado a ele no mês passado. Era um modelo clássico, vermelho brilhante, que ele dizia ser o "carro de corrida mais rápido de Derry".

Assim que Georgie me viu, seus olhos se iluminaram. Ele largou o carrinho e correu em minha direção com os braços abertos.

— Hanna! Você voltou! — gritou ele, enterrando o rosto na minha cintura em um abraço apertado.

— Oi, meu pequeno astronauta! — Eu me abaixei para ficar da altura dele, retribuindo o abraço com todo o carinho do mundo. — Como você está? Estava brincando com o bólido vermelho?

— Sim! Ele ganhou todas as corridas hoje — disse ele, puxando-me pela mão para mostrar a pista improvisada que tinha feito com livros e pedaços de papelão. — Olha só, Hanna, o Bill me ajudou a fazer a rampa, mas eu que ganhei.

Bill observava a cena encostado no batente da porta, com um olhar tão terno que meu coração quase derreteu. Ele amava aquele garoto mais do que tudo, e ver o carinho de Georgie por mim parecia deixá-lo ainda mais feliz.

— V-V-Viu só? Eu disse que ela vinha — comentou Bill, entrando no quarto e sentando-se na cama.

— Você quer ver meus desenhos novos, Hanna? — perguntou Georgie, já correndo para a escrivaninha.

— Claro que quero! Mas antes, deixe-me pegar meu estojo. Eu trouxe umas canetinhas novas que brilham no escuro, acho que você vai gostar.

Passei o resto da tarde ali, sentada no chão entre os dois irmãos Denbrough. Era um contraste tão grande com a agressividade do grupo de Henry ou com a tensão constante que sentíamos nas ruas de Derry. Ali, naquele quarto cheio de brinquedos e desenhos, eu me sentia segura.

Eu abri meu caderno de desenhos e comecei a esboçar algo para Georgie — um barco de papel que se transformava em um navio pirata gigante. Georgie acompanhava cada traço com uma curiosidade genuína, comentando sobre as cores que eu deveria usar.

— Coloca uma bandeira de t-t-caveira, Hanna! — sugeriu ele, empolgado.

— Uma bandeira de caveira bem grande — concordei, usando uma das minhas canetas pretas.

Enquanto eu desenhava, Bill se aproximou e sentou atrás de mim, apoiando o queixo no meu ombro para ver o desenho. Eu podia sentir o calor do corpo dele e o cheiro suave de sabonete e rio que ainda emanava de sua pele. Georgie estava tão concentrado nas suas próprias canetinhas que nem percebeu quando Bill deixou um beijo casto na curva do meu pescoço.

— Ficou l-l-lindo, Hanna — sussurrou Bill.

— Você é uma artista, Hanna — disse Georgie, sem levantar a cabeça do papel. — Quando eu crescer, quero desenhar que nem você.

— Você vai ser muito melhor que eu, Georgie. Você tem uma imaginação incrível.

Depois de um tempo, a mãe de Bill nos chamou para um lanche. Comemos biscoitos e bebemos leite na cozinha, rindo das histórias que Georgie contava sobre a escola. Por um momento, foi fácil esquecer que vivíamos em uma cidade onde crianças desapareciam e onde o mal parecia espreitar em cada bueiro.

Quando o sol finalmente se pôs e a noite começou a cair, eu soube que precisava ir. Henry e os meninos provavelmente já estariam se perguntando onde eu estava, e eu não queria causar problemas desnecessários, especialmente agora que tinha algo tão precioso para proteger: o meu segredo com Bill.

— Eu preciso ir, pessoal — anunciei, guardando meus estojos na mochila.

— Ah, já? — Georgie fez um biquinho triste. — Fica mais um pouco.

— Eu volto logo, prometo. E da próxima vez, vamos terminar aquela frota de barcos, ok?

Dei um beijo na testa de Georgie e ele me deu mais um abraço apertado. Bill se ofereceu para me acompanhar até a porta.

No corredor escuro, longe dos olhos de Georgie ou de seus pais, Bill me puxou para um canto. Ele colocou as mãos no meu rosto, os polegares acariciando minhas sardas.

— O-O-Obrigado por hoje, Hanna. Foi o m-m-melhor dia do meu verão.

— O meu também, Bill. De verdade.

Ele me beijou novamente, um beijo de despedida que carregava todas as promessas que ainda não tínhamos coragem de dizer em voz alta.

— Toma c-c-cuidado no caminho — disse ele, a preocupação brilhando em seus olhos.

— Eu sempre tomo. E o Henry não vai me incomodar, ele sabe que eu sei me defender.

Saí da casa dos Denbrough sentindo-me flutuar. A noite de Derry estava fresca, e as luzes dos postes começavam a piscar. Enquanto eu caminhava em direção à minha casa, não conseguia parar de pensar no toque de Bill na pedreira, no abraço de Georgie e na sensação de que, apesar de tudo o que havia de errado naquela cidade, eu tinha encontrado o meu lugar.

Eu era a garota de saia rodada e desenhos fofos, a ponte entre os brutos e os sonhadores. E, pela primeira vez, eu não me importava com o que os outros falavam do meu corpo ou da minha vida. Eu tinha o meu segredo, o meu Bill, e um caderno cheio de páginas em branco esperando para serem preenchidas com a nossa história.

Abri a porta de casa e vi que a luz da sala ainda estava acesa. Minha mãe e o pai de Henry ainda estavam conversando, o clima de romance ainda pairando no ar. Sorri para eles, sentindo uma empatia nova. O amor, afinal, era a única coisa que tornava Derry suportável.

Subi para o meu quarto, joguei a mochila na cama e peguei meu caderno. Antes de dormir, desenhei uma pequena cena: um barco de papel navegando em um mar de estrelas, com dois nomes entrelaçados na vela.

Hanna e Bill.

Fechei o caderno com um suspiro satisfeito. O verão estava apenas começando, e eu mal podia esperar pelo que o amanhã me reservaria. Porque agora, eu não estava mais sozinha nas sombras de Derry; eu tinha alguém para segurar minha mão, mesmo que fosse apenas por um momento fugaz sob a superfície da água.