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Minha garota

Pijamas, Pipoca e a Doçura do Inverno em Derry

A noite em Derry havia caído com um manto de silêncio que raramente se sentia naquela cidade. O ar estava úmido, prenunciando a chuva que as nuvens carregadas prometiam há horas. Eu caminhei apressada pelas calçadas, sentindo o peso da minha mochila nas costas. Meus pais e os pais de Henry ainda estavam naquela bolha romântica, o que me deu a desculpa perfeita para dizer que passaria a noite na casa de uma "amiga" para estudar. A verdade, porém, era muito mais doce: eu estava indo para a casa de Bill.

Ele estaria sozinho. Seus pais haviam saído para uma viagem longa, daquelas que durariam meses, e Georgie estava passando uns dias na casa de uma tia para que Bill pudesse ter um pouco de paz para estudar — ou assim eles acreditavam. Quando cheguei à varanda da casa dos Denbrough, notei que a porta estava destrancada, apenas encostada. Sorri com a confiança dele. Entrei silenciosamente, sentindo o cheiro familiar de madeira e canela que aquela casa sempre tinha.

Subi as escadas na ponta dos pés e fui direto para o quarto dele. O som do chuveiro vindo do banheiro adjacente indicava que ele estava no banho. Joguei minha mochila em um canto e me espalhei na cama de casal dele, que parecia imensa agora que o quarto estava na penumbra, iluminado apenas por um abajur de luz quente. Peguei meu celular e comecei a rolar o feed de notícias, mas minha mente estava em outro lugar. Eu estava feliz. Genuinamente feliz.

Alguns minutos depois, a porta do banheiro se abriu, liberando uma lufada de vapor quente e o cheiro de sabonete de menta. Bill saiu apenas de calça de moletom, secando o cabelo com uma toalha. Quando seus olhos encontraram os meus, ele parou por um segundo, e um sorriso largo e sincero iluminou seu rosto.

— V-V-Você chegou — disse ele, vindo em minha direção. — Achei que a chuva fosse te a-a-atrasar.

— Eu fui mais rápida que as nuvens — respondi, sorrindo de volta.

Ele se jogou na cama ao meu lado, ainda com a pele levemente úmida e fria do pós-banho. Eu já tinha tomado meu banho em casa, então só precisei ir até o banheiro dele para me trocar. Tirei da mochila o meu pijama favorito: um macacão de pelúcia do Stitch, azul vibrante, com orelhas caídas e tudo. Quando saí do banheiro, Bill soltou uma risadinha.

— V-V-Você está adorável, Hanna.

— Eu sei, eu sou um monstrinho fofo — brinquei, pulando na cama e me agarrando ao braço dele.

Bill retribuiu o abraço, deixando um beijo no topo da minha cabeça.

— Espera aí, vou t-t-trancar as portas lá embaixo. Já v-v-volto.

Ele desceu rapidamente e eu ouvi o som metálico da tranca girando. Quando ele voltou, o clima de isolamento do mundo exterior parecia completo. Ele deitou de novo e eu me aninhei em seu peito, sentindo as batidas ritmadas de seu coração.

— O que vamos a-a-assistir? — perguntou ele, pegando o controle remoto.

— Eu trouxe uma coisa que a minha prima brasileira me mandou — eu disse, animada. — Chama-se "Minha Mãe é uma Peça". É uma comédia. Você não vai entender metade das gírias, mas a energia daquela mulher é universal.

Colocamos o filme com legendas. Em poucos minutos, estávamos os dois gargalhando. Bill tentava repetir algumas falas da Dona Hermínia, tropeçando nas palavras de um jeito que me fazia rir até perder o fôlego.

— Ela é m-m-muito brava! — comentou Bill, rindo de uma cena onde a protagonista perseguia os filhos. — Me lembra um pouco a m-m-mãe do Eddie, mas de um jeito e-e-engraçado.

— Exatamente! — concordei, limpando uma lágrima de riso.

Depois que o primeiro filme acabou, o clima ficou mais calmo. Colocamos a sequência para rodar, mas o volume estava baixo, servindo apenas como ruído de fundo. Começamos a conversar sobre a vida, sobre o grupo e, inevitavelmente, sobre nossos amigos.

— Você viu o jeito que o Ben olha para a B-B-Beverly hoje na pedreira? — Bill perguntou, acariciando meu ombro por cima do tecido macio do pijama.

— Como não ver? O Ben é um poeta sem rimas, Bill. Ele é tão transparente. Eu queria tanto que eles namorassem logo... eles combinam de um jeito tão puro.

— O Ben m-m-merece ser feliz. E a Bev... ela precisa de alguém que a valorize de verdade — completou Bill, com um olhar pensativo.

— Eles são fofos demais — suspirei, olhando para Bill. — Quase tão fofos quanto a gente.

Ele sorriu e eu me inclinei para lhe dar um selinho demorado. Senti o calor de seus lábios e a doçura do momento. Mas então, uma ideia me atingiu. Levantei-me da cama de um salto, puxando-o pela mão.

— Ei! O que f-f-foi? — perguntou ele, confuso.

— Você não vai ficar só de moletom enquanto eu estou de Stitch. Eu trouxe um presente para você.

Fui até a minha mochila e tirei outro macacão de pelúcia. Este era preto, com detalhes de escamas e asas pequenas nas costas.

— É o Banguela, de "Como Treinar o Seu Dragão". E o meu branco, que eu vou colocar agora, é da Fúria da Luz, a namorada dele. Vamos, Bill! Veste!

Bill olhou para a fantasia com uma mistura de incredulidade e diversão.

— Hanna, eu vou p-p-parecer um bobo.

— Um bobo que eu amo. Vai logo!

Ele acabou cedendo. Fui para o banheiro trocar o meu azul pelo branco, e quando saí, Bill já estava vestido com o pijama preto. Ele era um pouco mais alto que eu, e o pijama ficava perfeito nele, ressaltando seus ombros, mas dando aquele ar infantil e aconchegante que o momento pedia. Corri e o abracei com força.

— Viu só? Agora somos um par de dragões.

— E-E-Eu me sinto ridículo — ele confessou, mas estava sorrindo. — Mas é um r-r-ridículo confortável.

— Bill? — chamei, fazendo uma cara de pidona. — Eu queria leite quente com chocolate.

— Seus d-d-desejos são ordens, Fúria da Luz — brincou ele.

Descemos para a cozinha, os pés descalços fazendo pouco barulho no chão de madeira. Bill preparou o leite com a habilidade de quem já cuidou muito do irmão mais novo. Bebi o leite ali mesmo, sentada no balcão, observando-o. Voltamos para o quarto e nos acomodamos novamente sob os cobertores.

Eu fiz uma carinha fofa, daquelas que eu sabia que ele não conseguia resistir, e Bill começou a me dar vários selinhos rápidos no rosto, me fazendo rir. O cansaço finalmente começou a bater, embalado pelo som da chuva que agora caía pesada lá fora, batendo contra o vidro da janela. Dormimos abraçados, o calor dos nossos pijamas de pelúcia criando um casulo perfeito contra o mundo hostil de Derry.

No dia seguinte, acordamos tarde. O tempo continuava cinzento e chuvoso, o tipo de dia que convida à preguiça. Sabíamos que ninguém do grupo sairia de casa hoje. Estávamos em nossa própria bolha temporal. Os pais dele só voltariam dali a oito meses, o que nos dava uma liberdade que parecia surreal.

Passamos o dia inteiro agarradinhos. Tomamos banho juntos — um banho demorado e carinhoso, onde a água quente parecia lavar qualquer preocupação — e voltamos a vestir os mesmos pijamas de dragão. Eu deitei por cima de Bill, usando seu peito como travesseiro.

— Carinho? — pedi, olhando para ele de baixo para cima.

Bill não disse nada, apenas começou a passar os dedos pelos meus cabelos longos, desembaraçando as mechas com uma paciência infinita. Assistimos ao resto dos filmes brasileiros e alguns desenhos animados, conversando sobre tudo e sobre nada.

Em algum momento da tarde, eu acabei pegando no sono novamente em cima dele. Acordei sentindo o cheiro de comida. Bill tinha descido e preparado algo simples para beliscarmos. Comemos ali mesmo na cama, como dois fugitivos da realidade.

— Você v-v-vai ficar mal acostumada, Hanna — disse ele, limpando uma migalha do canto da minha boca e deixando um beijo no lugar.

— Eu já estou mal acostumada, Bill Denbrough. E a culpa é toda sua.

Ele desceu novamente para o andar de baixo para organizar algumas coisas que eu não sabia o que eram. Eu fiquei no quarto, mexendo nas suas prateleiras de livros, olhando seus cadernos de escola. Quando ouvi seus passos voltando, eu estava em pé perto da janela, observando a chuva.

Assim que ele entrou, fui ao seu encontro. Eu queria um beijo, algo que selasse aquele dia perfeito. Mas quando nossos lábios se encontraram, algo mudou. O beijo, que começou doce e lento, ganhou uma intensidade nova. Senti as mãos de Bill descerem pelas minhas costas, apertando levemente minha cintura até chegarem à minha bunda por cima do tecido grosso do pijama.

Meu coração disparou. Bill não costumava ser tão ousado. Ele desceu o beijo para o meu pescoço, e eu soltei um suspiro baixo. Senti uma leve pressão, uma mordida suave que se transformou em um chupão. Quando ele se afastou, eu levei a mão ao local, sentindo a pele formigar.

— Nossa, Bill... — eu disse, com a voz um pouco falha. — Eu achava que você era o gago tímido do grupo. Parece que eu estava bem enganada.

Bill deu um sorriso de lado, um olhar de confiança que eu raramente via nele. As bochechas estavam levemente coradas, mas seus olhos estavam fixos nos meus.

— E-E-Eu também tenho minhas surpresas, Hanna.

Eu ri, dando mais um selinho nele antes de me puxar de volta para a cama.

— Vem aqui, dragão preto. Ainda temos filme para ver.

Ele deitou e eu me acomodei com a cabeça em seu peito, ouvindo seu coração acelerado. Bill voltou a fazer carinho no meu cabelo, e o silêncio que se seguiu não era pesado. Era o silêncio de duas pessoas que se conheciam além das palavras, que encontravam um no outro o refúgio necessário para enfrentar os monstros — os reais e os imaginários.

Derry podia ser uma cidade amaldiçoada, cheia de segredos sombrios e perigos em cada esquina, mas ali, naquele quarto, sob o som da chuva e o calor de um pijama de dragão, o mundo parecia, pela primeira vez, absolutamente perfeito. E enquanto Bill continuava seu carinho suave, eu soube que não importava o que acontecesse lá fora, eu sempre voltaria para aquele porto seguro.