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Entre o Sussurro e o Aço
As Ruínas de Zalesia eram um esqueleto de pedra sob o luar de Eternia, um lugar onde o tempo parecia ter morrido há séculos. O ar ali era pesado, carregado com o cheiro de poeira antiga e o resquício de magias esquecidas. Adam esperava sob o arco desmoronado de um antigo templo, mas ele não precisava olhar para as sombras para saber que ela havia chegado. O vínculo pulsava em seu peito, uma vibração quente e elétrica que acelerava seu pulso antes mesmo de Maligna se materializar.
Desta vez, não houve sarcasmo imediato. Quando ela emergiu da névoa púrpura, seus olhos amarelos estavam acesos com uma urgência que Adam nunca vira. Ela caminhou até ele com passos predatórios, e o Príncipe, mestre em disfarçar suas intenções atrás de sorrisos bobos, não conseguiu sustentar a máscara. O desejo, amplificado pela conexão mística, era uma força física, uma gravidade que os puxava para o centro um do outro.
— Você está sentindo isso? — sussurrou Maligna, parando a centímetros dele. A mão dela, fria e pálida, subiu pelo peito de Adam, sentindo a batida descompassada de seu coração. — É como se o meu sangue estivesse pegando fogo.
— Eu sinto tudo, Maligna — respondeu Adam, a voz rouca. Ele segurou o pulso dela, mas não para afastá-la. — Sinto sua impaciência, sua raiva... e o que você está tentando esconder de si mesma.
— Eu não escondo nada — sibilou ela, embora tenha inclinado a cabeça quando Adam aproximou o rosto do seu pescoço.
O contato inicial foi como o rompimento de uma barragem. Adam a puxou para o abrigo das sombras das ruínas, onde as paredes de pedra ofereciam uma privacidade ilusória. O beijo não foi uma negociação; foi uma rendição. As mãos de Maligna se enroscaram nos cabelos loiros de Adam com uma força quase dolorosa, e ele sentiu cada centelha de magia que percorria o corpo dela como se fosse sua. O vínculo transformava o prazer em algo exponencial — cada toque que ele dava nela ecoava em seu próprio sistema nervoso, criando um ciclo infinito de sensações.
Eles se entregaram àquela loucura sobre um manto estendido no chão de pedra fria. No calor do momento, as identidades de príncipe e vilã se dissolveram. Ali, no escuro, não havia o herdeiro de Eternia nem a mestre da magia negra; havia apenas dois corpos ligados por um feitiço que se tornara algo muito mais perigoso do que qualquer maldição do Esqueleto. Adam sentia a pele dela contra a sua, um contraste de calor e frio, e cada gemido que escapava dos lábios de Maligna vibrava dentro dos pulmões dele. Era uma intimidade absoluta, uma invasão de privacidade que nenhum deles jamais permitira a outra pessoa.
Quando o ápice finalmente os atingiu, foi como uma explosão de luz branca na mente de ambos. Por um breve segundo, Adam viu as memórias dela — a solidão na Montanha da Serpente, a sede de poder — e Maligna sentiu o peso esmagador da responsabilidade que ele carregava.
Minutos depois, o silêncio das ruínas retornou, interrompido apenas pela respiração ofegante de ambos. Maligna foi a primeira a se afastar, recompondo sua armadura e sua dignidade com uma pressa que beirava o pânico.
— Isso não muda nada — disse ela, sem olhar para ele, enquanto invocava uma pequena chama mágica para iluminar o ambiente e ajeitar seu diadema.
— Você diz isso toda vez — Adam comentou, sentando-se e passando a mão pelo rosto, tentando processar o turbilhão emocional. — Mas o vínculo está ficando mais forte, Maligna. Você sabe disso.
— O vínculo é uma anomalia — retrucou ela, recuperando o tom frio. — E o que aconteceu aqui foi apenas... uma forma de aliviar a tensão. O Esqueleto está desconfiado. Se eu não demonstrar resultados logo, ele vai revirar minha mente. E se ele encontrar você nela, Adam, nenhum de nós sobreviverá.
— Então por que continua vindo? — perguntou ele, levantando-se e aproximando-se dela.
Maligna finalmente o olhou. Por um breve instante, a máscara de vilã caiu, revelando uma mulher exausta de mentiras.
— Porque é o único momento em que não sinto que estou morrendo por dentro — confessou ela, antes de desaparecer em uma fumaça densa e escura.
Adam ficou sozinho nas ruínas, o cheiro de sândalo e magia negra ainda impregnado em sua pele. Ele suspirou, sabendo que a parte difícil estava apenas começando: voltar para casa.
O retorno ao Palácio Real de Eternia foi tenso. Adam usou as passagens secretas, mas o destino parecia estar contra ele naquela noite. Ao emergir de um corredor oculto perto de seus aposentos, ele deu de cara com uma figura que ele esperava evitar a todo custo.
Teela estava encostada na parede, com os braços cruzados sobre a couraça dourada. Sua expressão era uma mistura de preocupação e uma fúria contida que fez Adam engolir em seco.
— Passeando novamente, Adam? — perguntou ela, a voz gélida. — O Capitão da Guarda teve que cobrir sua ausência no jantar com os delegados de Avion. Seu pai está furioso.
— Teela, eu... eu perdi a noção do tempo — Adam começou, forçando aquele sorriso de desculpas que costumava funcionar. — A floresta estava tão calma, e eu acabei pegando no sono perto do riacho.
Teela deu um passo à frente, estreitando os olhos. Ela não era apenas a Capitã da Guarda; ela era a mulher que cresceu ao lado dele, que conhecia cada tique e cada mentira de Adam. Ela se aproximou o suficiente para que ele sentisse o cheiro de óleo de espada e couro que sempre a acompanhava. Mas foi o cheiro dele que a fez parar.
— Você está mentindo — disse ela, a voz agora baixa e perigosa. — Você cheira a cinzas e... algo doce. Como incenso proibido.
— É o cheiro das flores noturnas, Teela. Você sabe como a flora de Eternia é exótica — tentou ele, recuando um passo.
— Não tente me fazer de boba, Adam! — Teela explodiu, dando um passo agressivo em sua direção. — Há semanas você está agindo como se vivesse em outro mundo. Você se distrai no meio dos treinamentos, sorri para o nada e desaparece por horas todas as noites. Eu pensei que... eu pensei que tínhamos algo. Que você confiava em mim.
Adam sentiu uma pontada aguda no peito. Não era dele; era a culpa de Maligna, que ele sentia através do vínculo, misturada com sua própria angústia por mentir para a pessoa que mais amava. A dualidade era torturante.
— Teela, eu confio em você mais do que em qualquer pessoa — disse ele, com sinceridade genuína. — Mas existem coisas que eu não posso explicar agora. Coisas que são perigosas demais para você se envolver.
— Perigosas? — Teela soltou uma risada amarga. — Eu luto contra monstros e robôs do Esqueleto todos os dias, Adam! Do que você está tentando me proteger? Ou será que você está se protegendo de mim?
Ela estendeu a mão e tocou o ombro dele, mas parou abruptamente. Adam sentiu um choque. No exato momento em que Teela o tocou, ele sentiu um flash de dor vindo de Maligna — a feiticeira devia estar sendo castigada ou testada pelo Esqueleto na Montanha da Serpente. Adam estremeceu visivelmente, uma careta de dor cruzando seu rosto.
— O que foi isso? — Teela perguntou, alarmada, segurando o rosto dele com as duas mãos. — Você está ferido? Adam, fale comigo!
— Não é nada... uma cãibra — mentiu ele, tentando se afastar, mas Teela era persistente.
— Seus olhos... eles brilharam por um segundo. Um tom de amarelo — sussurrou ela, o horror começando a surgir em sua expressão. — Adam, o que está acontecendo com você? Você está sob algum feitiço? É a Maligna, não é? Ela fez algo com você naquela missão nas Montanhas de Fogo!
— Teela, pare! — Adam pediu, a voz subindo de tom. — Você está imaginando coisas. Eu só estou cansado.
— Eu vou chamar o Mentor — declarou ela, afastando-se com determinação. — Se você está sob influência daquela bruxa, nós vamos descobrir como quebrar o encanto.
— Não! — Adam segurou o braço dela. — Teela, por favor. Se você me ama, se você confia em mim... não conte a ninguém. Nem ao Mentor, nem ao meu pai. Eu juro que estou sob controle. Eu só preciso de tempo para resolver isso.
Teela olhou para a mão de Adam em seu braço e depois para os olhos dele. Ela viu o desespero ali, mas também viu algo que partiu seu coração: um segredo que ele não estava disposto a compartilhar com ela. A confiança, que fora a base de toda a vida deles, estava rachando.
— Você está escolhendo o segredo em vez de mim — disse ela, a voz embargada. — De novo.
— Não é uma escolha, Teela. É uma necessidade — respondeu Adam, sentindo a dor de Maligna diminuir para um latejar constante em sua mente.
Teela se soltou do aperto dele com um movimento brusco. Ela limpou uma lágrima solitária antes que ela caísse, recuperando sua postura de comando.
— Vou cobrir sua ausência desta vez, Adam. Mas não pense que isso acabou. Eu vou descobrir o que você está escondendo. E se aquela feiticeira estiver machucando você... eu mesma vou atravessar o coração dela com a minha lança.
Ela virou as costas e marchou pelo corredor, o som de suas botas ecoando como batidas de um tambor de guerra. Adam ficou parado, sentindo-se mais sozinho do que nunca.
Dentro de sua mente, um sussurro sombrio surgiu através do vínculo. Era Maligna, sentindo a turbulência emocional dele.
— Ela é perspicaz, a sua capitã — a voz dela ecoou em seu subconsciente, carregada de um ciúme que ela jamais admitiria em voz alta. — Quase sinto pena dela. Ela ama um homem que pertence a outra... ou melhor, a um feitiço.
— Cale-se, Maligna — pensou Adam, fechando os olhos com força.
— A verdade dói, não é, principezinho? — provocou ela, embora Adam pudesse sentir o cansaço dela. — Mas não se preocupe. A dor é a única coisa que realmente compartilhamos.
Adam entrou em seu quarto e trancou a porta. Ele olhou para a Espada do Poder encostada no canto, o símbolo de tudo o que ele deveria ser. O herói de Eternia, o campeão da luz. E, no entanto, ali estava ele, com o corpo ainda quente do toque da vilã e o coração partido pela desconfiança daquela que deveria ser sua rainha.
Ele se deitou na cama, mas o sono não veio. Através do vínculo, ele sentiu Maligna se acomodando em seus aposentos frios na Montanha da Serpente. Por um momento, as mentes deles se tocaram suavemente, uma trégua silenciosa na tempestade.
— Adam? — o pensamento dela veio suave, quase um suspiro.
— Sim?
— Amanhã... no mesmo lugar?
Adam olhou para o teto, sabendo que estava caminhando direto para a destruição, mas incapaz de parar.
— No mesmo lugar — respondeu ele.
Enquanto a noite envolvia o palácio, o Príncipe Adam percebeu que a magia que o prendia a Maligna não era apenas feita de feitiços antigos. Era feita de algo muito mais potente e perigoso: a necessidade humana de ser compreendido, mesmo que fosse pela pessoa errada, no momento errado, sob o céu de um mundo em guerra. E enquanto Teela vigiava as muralhas, planejando como salvar Adam de si mesmo, ele se perdia cada vez mais no labirinto de sombras que o vínculo criara.
Não havia promessas. Não havia sentimentos. Apenas a queimação constante de uma ligação que nenhum deles queria, mas que nenhum deles conseguia mais quebrar. Em Eternia, o jogo de poder acabara de se tornar pessoal demais.