Voltar ao resumo

MM

O Eco da Traição e o Gosto do Veneno

O sol de Eternia ainda não havia se posto completamente, pintando o céu com tons de laranja e violeta, mas o clima dentro do campo de treinamento do palácio era de tempestade. O som do metal colidindo ecoava contra as paredes de pedra. Adam, movendo-se com uma agilidade que ele raramente mostrava em público, desviou de um golpe lateral da lança de Teela, mas seus pensamentos estavam a quilômetros dali, na Montanha da Serpente.

Através do vínculo, ele sentia uma pressão incômoda na base do crânio. Maligna estava tramando algo, ou talvez estivesse apenas sendo observada pelo Esqueleto. Aquela distração custou caro. Teela girou a lança com maestria e atingiu o peito de Adam com a haste, derrubando-o de costas na areia.

— Sua mente não está aqui, Adam! — Teela exclamou, ofegante, a ponta da arma apontada para o pescoço dele. — Se eu fosse um soldado de Skelétor, você estaria morto agora. Ou pior, capturado.

Adam suspirou, limpando o suor da testa enquanto se levantava. — Eu sei, Teela. Só tive uma noite ruim. O sono não veio.

— O sono não veio ou você estava ocupado demais pensando naquela...quela bruxa? — Teela cravou a lança no chão, os olhos brilhando com uma indignação que ela não conseguia mais conter. — Eu vi como você reagiu ontem à noite. Eu não sou cega, Adam. O Mentor acha que você está apenas estressado, mas eu conheço o cheiro da magia negra. Maligna está envenenando você. Ela é uma manipuladora fria, uma assassina que destruiria este reino sem piscar se isso lhe desse um centímetro a mais de poder.

Adam sentiu uma pontada no peito. Não era o golpe da lança. Era uma reação instintiva ao ouvir Maligna ser descrita daquela forma. Ele sabia que Teela tinha razão — teoricamente. Mas o vínculo mostrava a ele as nuances, as rachaduras na armadura da feiticeira, a solidão que ela escondia sob camadas de crueldade.

— Você não a conhece, Teela — disse Adam, a voz saindo mais fria do que ele pretendia.

Teela recuou, como se tivesse levado um tapa. — Eu não a conheço? Ela tentou matar meu pai! Ela tentou escravizar Eternia uma dúzia de vezes! O que há para conhecer além da maldade pura? Você está defendendo um monstro, Adam. Uma mulher que usa a dor como moeda de troca.

— As pessoas são complexas — retrucou Adam, cerrando os punhos. Ele sentia a indignação de Maligna vibrar em sua própria espinha, como se ela estivesse ouvindo a conversa através dele. — Às vezes, as circunstâncias transformam as pessoas em algo que elas não queriam ser. Nem tudo é tão simples quanto "bem" e "mal".

— Para você, parece que tudo se tornou cinza — Teela deu um passo à frente, invadindo o espaço pessoal dele. Sua raiva se transformou em algo mais profundo, uma dor que ela tentava esconder com agressividade. — Por que você não me deixa ajudar? Por que prefere o segredo dela à minha lealdade?

— Não é sobre preferência, Teela. É sobre proteção — murmurou ele.

— Proteção de quem? — Ela jogou as mãos para o alto. — Eu amo você, seu idiota! Eu sempre estive aqui!

Antes que Adam pudesse responder, Teela o puxou pela túnica. O beijo foi desesperado, carregado de uma tentativa de "reivindicar" o que ela sentia que estava perdendo. Foi um beijo familiar, com gosto de infância e de uma promessa de futuro que eles sempre acreditaram ser inevitável. Mas, para Adam, foi um choque de realidade doloroso.

No momento em que os lábios dela tocaram os dele, o vínculo místico reagiu violentamente. Ele sentiu uma onda de repulsa e náusea que não era sua — vinha de Maligna. A feiticeira, em algum lugar distante, sentiu a intimidade e reagiu com um ciúme gélido que queimou as veias de Adam como ácido.

Adam se afastou bruscamente, quebrando o beijo. Ele tropeçou para trás, cobrindo a boca com a mão, os olhos arregalados.

— Eu não posso — disse ele, a voz falhando. — Teela, eu sinto muito. Eu não posso fazer isso.

Teela ficou estática, a expressão de choque transformando-se rapidamente em uma humilhação profunda. — É ela, não é? De alguma forma, ela possuiu você. Ela está dentro da sua cabeça.

— Não é posse, Teela. É... — Ele parou, percebendo que qualquer explicação soaria como loucura. — Eu preciso ir.

Ele saiu do campo de treinamento quase correndo, ignorando o chamado furioso de Teela. Ele precisava de ar. Ele precisava de silêncio. Mas, acima de tudo, ele precisava confrontar a mulher que agora habitava seus sentidos com mais força do que sua própria vontade.

***

A noite caiu sobre as Montanhas de Vidro, um local desolado onde as formações cristalinas refletiam a luz das estrelas, criando um labirinto de reflexos distorcidos. Adam esperava no centro de uma clareira de quartzo. Ele não precisou esperar muito.

Uma espiral de energia roxa rasgou o ar, e Maligna surgiu. Ela não parecia majestosa como de costume. Seus cabelos estavam levemente desgrenhados e havia uma palidez doentia em seu rosto. No momento em que ela o viu, seus olhos brilharam com um ódio que fez o vínculo latejar.

— Você tem coragem de me chamar aqui depois daquela... exibição grotesca? — disparou ela, caminhando em direção a ele. — Eu senti cada segundo daquele sentimentalismo barato. O gosto do batom dela na minha boca, Adam. A sensação das mãos dela em você. Foi nauseante.

— Eu não planejei aquilo, Maligna! — Adam rebateu, sentindo a própria frustração ferver. — Ela está preocupada. Ela sabe que algo está errado.

— Ela sabe porque você é um péssimo mentiroso! — Maligna parou na frente dele, o peitoral de sua armadura subindo e descendo com a respiração acelerada. — Se ela descobrir, se o Mentor descobrir... eles virão atrás de mim com tudo o que têm. E eu não poderei revidar sem ferir você, seu tolo!

— Então é isso? — Adam riu, um som amargo. — Você está preocupada com a sua pele?

— Estou preocupada com a nossa sobrevivência! — Ela gritou, e então, num gesto impensado, empurrou o peito dele.

Adam segurou os pulsos dela, prendendo-os. A proximidade física disparou o vínculo novamente, mas desta vez não houve náusea. Houve uma atração magnética, violenta e inevitável. Eles ficaram ali, ofegantes, os reflexos nos cristais ao redor multiplicando a imagem daquele confronto mil vezes.

— Ela disse que você é um monstro — sussurrou Adam, os olhos fixos nos dela. — Disse que você é maldade pura.

— E ela está errada? — Maligna desafiou, embora sua voz tivesse perdido a força. — Eu sou a mão direita do Esqueleto. Eu destruí cidades. Eu não sou a pequena capitã que te espera para o jantar, Adam.

— Eu sei o que você é — disse ele, soltando os pulsos dela apenas para envolver sua cintura e puxá-la para perto. — Eu sinto o que você é. Sinto a sua sede de poder, sim. Mas também sinto o medo que você sente quando o Esqueleto te ameaça. Sinto o vazio que você tenta preencher com magia. Teela vê a vilã. Eu vejo... o resto.

Maligna estremeceu. O toque de Adam era quente, um contraste gritante com o frio eterno da Montanha da Serpente. Ela odiava como ele conseguia desarmá-la sem usar uma espada. Ela odiava como o otimismo dele, mesmo agora, tentava encontrar luz nas sombras dela.

— Você é um idiota, Príncipe Adam — murmurou ela, mas suas mãos encontraram o pescoço dele, puxando-o para baixo.

Desta vez, não houve resistência do vínculo. O beijo foi uma colisão de necessidades. Se com Teela parecia uma traição à sua natureza atual, com Maligna parecia a única verdade possível. Era um beijo com gosto de perigo e de um segredo que os consumia. Através da conexão mística, Adam sentiu a guarda de Maligna baixar por um instante efêmero. Ele sentiu uma onda de alívio vinda dela, uma aceitação silenciosa de que, naquele pequeno espaço de tempo, eles não precisavam ser inimigos.

Eles se sentaram na base de um grande pilar de cristal, o silêncio da noite de Eternia apenas quebrado pelo som do vento soprando entre as rochas. Maligna encostou a cabeça no ombro de Adam, um gesto de vulnerabilidade que ela jamais permitiria que qualquer outra alma viva visse.

— O que vamos fazer? — perguntou Adam, olhando para as luas. — Teela não vai parar. Ela vai investigar.

— Eu posso lançar um feitiço de confusão nela — sugeriu Maligna, embora sem a malícia habitual. — Apenas o suficiente para que ela perca o rastro.

— Não — Adam negou imediatamente. — Não quero mais magia entre nós e o resto do mundo. Já temos o bastante com este vínculo.

Maligna soltou um suspiro pesado. — O Esqueleto está planejando um ataque ao Castelo de Grayskull em três dias. Ele quer que eu lidere a vanguarda.

Adam ficou tenso. — Você sabe que eu estarei lá. Como He-Man.

— Eu sei. E eu sei que, quando você desembainhar aquela espada, eu vou sentir o peso dela na minha alma — ela olhou para as próprias mãos, onde resíduos de energia roxa ainda dançavam. — Se eu te ferir no campo de batalha, eu sentirei o golpe. Se você me derrubar, você cairá comigo.

— É um impasse perfeito — Adam comentou, com um sorriso triste.

— É uma sentença de morte — corrigiu ela.

Ela se levantou, recuperando sua postura gélida, mas antes de partir, ela tocou o rosto de Adam com as pontas dos dedos. Foi um toque leve, quase carinhoso, que enviou uma onda de calor reconfortante através do vínculo.

— Tente não ser beijado por mais ninguém até lá, Adam — disse ela, com um brilho de sarcasmo voltando aos olhos. — Eu detesto o gosto do desespero alheio.

— Vou tentar me comportar — ele respondeu, observando-a desaparecer na névoa.

Adam permaneceu nas Montanhas de Vidro por um longo tempo. Ele pensou em Teela, na mágoa que causara a ela e na vida simples que poderia ter tido. Mas então ele sentiu o eco da presença de Maligna em sua mente — uma batida sombria, complexa e fascinante.

Ele sabia que estava brincando com fogo, e que o incêndio provavelmente consumiria todo o reino. Mas, enquanto caminhava de volta para o palácio, Adam percebeu que não trocaria aquela agonia mística pela paz mais absoluta do mundo. Ele e Maligna estavam condenados, ligados pela dor e pelo desejo, e o jogo de Eternia nunca mais seria o mesmo.

Ao longe, o grito de um monstro alado ecoou, e Adam sentiu um calafrio percorrer a espinha de Maligna. Ele fechou os olhos e enviou um pensamento de força através do elo. "Eu estou aqui", ele sussurrou para o vazio. E, pela primeira vez, ele sentiu que ela não estava lutando contra a mensagem. Ela apenas a aceitou.