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🟣 Moço das rendas | Tapas e Beijos

Dois Pra Lá, Dois Pra Cá

A noite de sábado em Copacabana pulsava com uma energia contagiante. O ar salgado se misturava ao cheiro de milho cozido e ao som distante de um samba que escapava de algum quiosque na orla. No bar escolhido para a reunião semanal — um boteco de esquina com mesas de plástico na calçada e a melhor porção de bolinho de bacalhau do bairro —, o clima era de pura celebração. As crises da semana haviam sido, se não resolvidas, ao menos temporariamente arquivadas.

Armani, expansivo como sempre, contava uma história sobre um cliente da importadora com uma teatralidade que faria Shakespeare sentir inveja. Jorge, ao seu lado, concordava com tudo, mais interessado no chopp gelado do que nos detalhes da trama. Fátima e Sueli, sentadas de frente para os maridos, trocavam olhares cúmplices, enquanto Gisele, no meio delas, sentia uma rara e bem-vinda sensação de paz.

— ...e então eu disse a ele: 'Meu caro, este vinho não 'respira', ele declama poesia!' O homem ficou tão impressionado que comprou duas caixas! — Armani concluiu, estufando o peito, como se tivesse salvado a economia nacional.

— Grande Armani! Vendedor do ano! — Jorge brindou, batendo sua tulipa na de Armani com um baque surdo.

— Se ele fosse bom mesmo, tinha conseguido o vinho de graça pra gente — resmungou Sueli, baixo o suficiente apenas para as amigas ouvirem.

Fátima riu. — Deixa ele, Sueli. Pelo menos hoje ele não está tendo um ataque de ciúmes de um garçom. É um avanço.

Gisele sorriu, tomando um gole de seu guaraná. Era bom vê-los assim, relaxados e felizes. Por alguns instantes, ela se permitiu esquecer o cartão de visita que parecia queimar em sua bolsa e a promessa de um café que pairava em sua mente.

Foi nesse momento de calmaria que uma voz familiar cortou o ar.

— Falando em gente bonita, olha só a realeza de Copacabana reunida!

Todos se viraram. Parado ao lado da mesa, com um sorriso que poderia desarmar uma bomba, estava Lucas. Alto, bronzeado, com os cabelos pretos ligeiramente bagunçados pela brisa do mar e vestindo uma simples camiseta branca que parecia ter sido feita sob medida para ele. O "efeito Caio Castro", como Fátima e Sueli o apelidaram, era inegável. Ele irradiava uma confiança descontraída que era, ao mesmo tempo, irritante e irresistível.

— Lucas! Some, mas aparece! — Jorge o cumprimentou com um abraço de lado.

— Tô na área, meu amigo. A gente roda, roda, mas sempre acaba no mesmo boteco. — Ele cumprimentou a todos com acenos e sorrisos, seus olhos demorando um segundo a mais em Gisele. — E aí, Gi? Tudo em ordem?

— Tudo tranquilo, Lucas. E você, aprontando muito? — Gisele respondeu, o tom amigável escondendo a pequena agitação que a presença dele sempre causava.

Eles tinham história. Uma história curta, não oficial, de algumas festas, uns beijos trocados, uma noite que quase aconteceu mas foi interrompida por uma ligação de emergência de Sueli. Lucas era divertido, era charmoso, mas também era um furacão. Gisele, que vivia apagando os incêndios dos outros, nunca teve coragem de começar um fogo próprio com ele. Era mais seguro manter a amizade.

— Eu? Sempre no bom caminho. — Ele piscou para ela, puxando uma cadeira de uma mesa vazia e se espremendo entre Gisele e Jorge. — Mas e as novidades? Armani, já faliu a loja com seus vinhos caros? Fátima, ainda sonhando em ser primeira-dama de Copacabana?

— Muito engraçadinho você — retrucou Fátima, mas sem conseguir esconder um sorriso. A verdade é que todos gostavam de Lucas. Ele era como um primo distante e bagunceiro que aparece de vez em quando para animar a festa.

A conversa fluiu, animada pela chegada dele. Falaram de futebol, de trabalho, das fofocas do bairro. Gisele se manteve mais quieta, participando aqui e ali, mas sua mente estava dividida. A presença de Lucas, tão perto, o cheiro familiar de seu perfume, a forma como seu braço roçava o dela de vez em quando... tudo isso a transportava para um lugar de "e se?". Um lugar que ela tentava arduamente evitar.

E foi no meio dessa confusão interna que Sueli, movida pela empolgação e talvez por um chopp a mais, cometeu a indiscrição.

— Ah, gente, vocês estão falando de novidade? Novidade de verdade tem a Gisele! — ela anunciou, com um sorriso que ia de orelha a orelha.

Gisele congelou, o copo de guaraná a meio caminho da boca. Ela lançou um olhar fuzilante para Sueli, um "não-se-atreva" silencioso e desesperado.

Mas era tarde demais. A semente da curiosidade havia sido plantada.

— Gisele? — Armani se inclinou sobre a mesa, os olhos brilhando. — Que novidade? Você foi promovida? Ganhou na loteria? Diz pra gente!

— Não é nada, gente. A Sueli que bebeu e tá vendo coisa — Gisele tentou desconversar, rindo de nervoso.

— Nada? — Fátima entrou na dança, incapaz de resistir a uma boa fofoca, mesmo que fosse sobre a melhor amiga. — Não é o que parecia outro dia lá na loja! Tinha um clima, um olhar...

— Que clima? Que olhar? — Jorge perguntou, finalmente prestando atenção em algo que não fosse seu copo.

Gisele sentiu o rosto esquentar. Ela queria abrir um buraco no chão da calçada e se enterrar nele.

— Um moço, Jorge! Um moço novo na praça! — Sueli continuou, ignorando os sinais de fumaça que Gisele enviava. — Bonito, educado, bem vestido...

— O homem das rendas! — Fátima completou, como se fosse o título de um filme de suspense.

Um silêncio curioso caiu sobre a mesa. Todos os olhos se voltaram para Gisele. Inclusive os de Lucas. O sorriso dele havia diminuído um pouco, a expressão agora era de pura e atenta curiosidade.

— Homem das rendas? — ele repetiu, a voz mais baixa. — Que história é essa, Gi? Tá montando seu enxoval e não me contou?

— Parem com isso, vocês duas! — Gisele finalmente explodiu, mas em um sussurro irritado. — Não tem história nenhuma. É só um fornecedor da loja.

— Um fornecedor que te chamou pra tomar café! — Sueli soltou a bomba final.

— SUELI!

O grito de Gisele foi abafado pelo "Ooooooh" coletivo de Armani e Jorge. Fátima cobriu a boca com a mão, fingindo choque, mas seus olhos dançavam de alegria.

— A nossa Gisele! Desencalhou! — Armani comemorou, levantando o copo. — Um brinde ao homem das rendas! Que ele seja digno da nossa madrinha!

— É isso aí! — Jorge concordou. — Mas vê lá, hein, Gisele. Tem que passar pela nossa aprovação. A gente faz uma sabatina com o sujeito.

Gisele afundou na cadeira, o rosto da cor de um pimentão. Ela queria rir e chorar ao mesmo tempo. Suas amigas eram impossíveis.

Em meio à zombaria e à celebração, ela sentiu um olhar fixo nela. Era Lucas. Ele não estava rindo. Havia algo diferente em seu rosto, uma seriedade que ela raramente via. O sorriso de playboy tinha desaparecido, substituído por uma expressão indecifrável.

— Um encontro, então? — ele perguntou, e a pergunta pareceu pesar no ar.

— Não é um encontro. É um café. — Gisele se defendeu, sentindo uma necessidade súbita de minimizar a situação.

— Café, encontro... dá no mesmo. — Lucas deu de ombros, mas seus olhos não desgrudavam dos dela. — E você vai?

A pergunta era direta. E por alguma razão, a resposta pareceu mais importante do que deveria.

— Eu... eu ainda não sei. — mentiu ela.

A mentira saiu antes que ela pudesse pensar. Por que ela mentiu? Ela tinha decidido que iria. Mas dizer isso na frente de Lucas, sob seu olhar intenso, pareceu... complicado.

— Ah, qual é, Gisele! É claro que você vai! — Fátima interveio. — O homem é um gato! E pareceu tão... decente! Uma raridade hoje em dia.

A palavra "decente" pareceu atingir Lucas, que forçou um sorriso.

— É, tem que aproveitar as raridades. — Ele se recostou na cadeira, cruzando os braços. O clima leve havia se dissipado completamente para ele. — Bom saber que a concorrência tá forte.

A noite continuou, mas algo havia mudado. A dinâmica do grupo se alterou. Lucas ficou mais quieto, observando Gisele de longe, mesmo estando perto. Gisele, por sua vez, sentia-se presa entre a excitação secreta pelo convite de Ricardo e a estranha tensão que a presença de Lucas agora gerava.

Eventualmente, a noite começou a minguar. Fátima e Armani foram os primeiros a se levantar, alegando que precisavam "descansar para um domingo produtivo". Sueli e Jorge foram logo depois, com Jorge já reclamando do jogo do dia seguinte.

— A gente se fala amanhã, amiga! E me conta tudo! Quero detalhes! — Sueli sussurrou no ouvido de Gisele antes de sair.

Quando Gisele se deu conta, só restavam ela e Lucas na mesa. O garçom já recolhia os copos vazios ao redor deles.

— Parece que só sobramos nós dois. — Lucas disse, quebrando o silêncio.

— É. Acho que é a minha deixa também. — Gisele começou a pegar sua bolsa.

— Espera. — Ele colocou a mão sobre a dela, impedindo-a de se levantar. O toque era quente e firme. Familiar. — Eu te acompanho. A gente mora perto.

Não era um pedido. Era uma afirmação. Gisele hesitou por um segundo. Uma parte dela queria dizer não, ir para casa sozinha e pensar em paz. Mas outra parte, a parte que ela sempre tentava ignorar, estava curiosa.

— Tudo bem. — ela concordou.

Eles caminharam em silêncio por alguns metros, o som de seus passos ecoando na calçada quase deserta da rua secundária. As luzes dos postes criavam longas sombras à frente deles. O silêncio não era confortável; estava carregado de palavras não ditas.

— Então... — Lucas começou, as mãos nos bolsos da calça jeans. — Homem das rendas, hein?

Gisele suspirou. — Você não vai parar com isso, né?

— Estou curioso. — ele admitiu. — O que ele tem de tão especial pra fazer a Gisele, a mulher mais discreta que eu conheço, virar o assunto da mesa?

— Eu não virei o assunto. A Sueli e a Fátima me fizeram de assunto. E ele não tem nada de "especial". Ele só foi... gentil.

— Gentil. — Lucas repetiu a palavra como se ela tivesse um gosto estranho. — E desde quando "gentil" é o suficiente pra você?

Gisele parou de andar, virando-se para encará-lo sob a luz amarelada de um poste.

— E o que seria suficiente, Lucas? Um cara que aparece de seis em seis meses, flerta com tudo que se move e some de novo?

A acusação o atingiu. Ele teve a decência de parecer culpado.

— Ai. Essa doeu.

— Mas é a verdade, não é? — ela cruzou os braços, protegendo-se não do frio da noite, mas da vulnerabilidade que sentia.

Lucas deu um passo à frente, diminuindo a distância entre eles. O ar ficou mais denso.

— É. É a verdade. — ele confessou, a voz rouca. — Eu sei que eu sou um galinha, Gi. Eu sei que eu nunca te dei a segurança que... que talvez você merecesse. Eu sempre achei que a gente tinha tempo. Que você estaria sempre aí.

— As pessoas não ficam "aí" pra sempre, Lucas. Elas seguem em frente.

— Eu sei. — ele disse, e seus olhos pareciam mais sombrios, mais sérios do que ela jamais vira. — E ouvir a Sueli e a Fátima falando desse cara... desse "homem das rendas"... me fez perceber uma coisa.

Ele deu mais um passo. Agora estavam tão perto que Gisele podia sentir o calor que emanava dele. Ela podia ver as pequenas nuances em seus olhos castanhos.

— O quê? — ela sussurrou, o coração batendo descontroladamente.

— Que a ideia de você seguir em frente com outra pessoa... — ele fez uma pausa, engolindo em seco. — A ideia de te perder de vez... eu não gostei dela. Não gostei nem um pouco.

A confissão pairou entre eles, tão real e pesada quanto a umidade da noite. Gisele ficou sem palavras. Isso era o que ela sempre quis ouvir dele? Ou era apenas um capricho, um instinto de competição masculino porque outro cara havia aparecido no radar?

— Lucas, eu...

— Não fala nada. — ele a interrompeu, levantando a mão e tocando seu rosto com uma delicadeza que contrastava com sua imagem de bad boy. O polegar dele acariciou sua bochecha. — Eu sei que eu complico tudo. Eu sei que sou um idiota na maior parte do tempo. Mas aquela vez... na festa da Bia... não foi só mais uma ficada pra mim. E eu sei que pra você também não foi.

Ele estava se referindo à última vez que ficaram juntos, meses atrás. Uma noite em que a conexão entre eles pareceu mais profunda, mais real. Uma noite que terminou com o telefone dela tocando e a realidade os puxando de volta.

Lágrimas teimosas brotaram nos olhos de Gisele. Por que ele estava fazendo isso agora? Justo quando algo novo e descomplicado parecia possível?

— Por que agora, Lucas? — sua voz saiu embargada. — Por que esperar até aparecer outra pessoa pra dizer isso?

— Porque eu sou um idiota. — ele repetiu, o rosto a centímetros do dela. — Porque às vezes a gente só percebe o valor de alguma coisa quando tem medo de perder. E eu tô com medo de te perder, Gisele.

Ele se inclinou, e Gisele prendeu a respiração. O mundo inteiro pareceu se resumir àquele pequeno espaço entre os lábios deles. O cheiro dele, o calor do seu toque, a intensidade do seu olhar... tudo era um convite para o caos que ela sempre tentou evitar. Um caos delicioso e perigoso.

Ela fechou os olhos, esperando o beijo, uma parte dela ansiando por ele, outra parte aterrorizada. Mas ele não a beijou. Em vez disso, ele encostou a testa na dela, um gesto de uma intimidade ainda maior.

— Eu não vou te beijar. — ele sussurrou, a voz trêmula. — Porque se eu te beijar agora, vai ser só uma reação, uma competição. E você merece mais do que isso. Eu só quero que você saiba. Que pra mim, nunca foi só brincadeira. E que eu tô disposto a parar de brincar. Se você me der uma chance.

Ele se afastou lentamente, deixando um vácuo frio onde seu corpo estava. Seus olhos procuraram os dela na penumbra.

— Pensa nisso, Gi. Antes de tomar seu café com o homem das rendas. Pensa se é a gentileza de um estranho que você quer, ou a bagunça de alguém que, no fundo, sempre foi um pouco seu.

Com isso, ele deu um pequeno sorriso triste, virou-se e caminhou na direção oposta, deixando-a sozinha na calçada.

Gisele ficou parada por um longo tempo, sentindo o lugar em seu rosto onde ele a havia tocado. O vento da noite parecia sussurrar seu nome. Ela estava tremendo, mas não de frio.

Ela caminhou o resto do caminho para casa em modo automático. Abriu a porta, jogou a bolsa no sofá e se encostou na porta fechada, deslizando até o chão.

Sua vida, que até poucos dias atrás era um mar de tranquilidade previsível, onde ela era a boia de salvação para todos, havia se transformado em um oceano de possibilidades turbulentas.

De um lado, Ricardo. O novo, o gentil, o porto seguro. Um convite para um futuro calmo e, talvez, feliz. Um café. Uma página em branco.

Do outro, Lucas. O familiar, o apaixonado, o furacão. Uma declaração que bagunçava tudo o que ela achava que sabia sobre eles. Uma história cheia de rasuras, mas com um potencial para uma paixão avassaladora.

Ela pegou o celular de dentro da bolsa. Na tela, o cartão de visitas de Ricardo, que ela havia fotografado, e a conversa antiga com Lucas, cheia de piadas e planos nunca concretizados.

Dois homens. Duas possibilidades. Um encontro para marcar e uma decisão para tomar.

Pela primeira vez na vida, o problema era inteiramente dela. E, céus, era o problema mais assustador e maravilhoso que ela já tivera. O sorriso que brotou em seus lábios era um misto de pânico e excitação. O jogo, finalmente, era seu.