🟣 Moço das rendas | Tapas e Beijos
Samba, Suor e Saudade
A segunda-feira chegou com o peso de uma bigorna em Copacabana. Para Gisele, o fim de semana não tinha trazido descanso, mas sim um nó de ansiedade que se instalara em seu estômago. A confissão de Lucas na noite de sábado reverberava em sua mente como o refrão de uma música insistente, bagunçando a melodia simples e agradável que a perspectiva de um café com Ricardo havia começado a compor.
A hora do almoço foi um alívio e um tormento. Como de costume, o ponto de encontro era o restaurante de Seu Chalita, um oásis de comida caseira e fofoca fresca. Assim que se sentaram, Fátima e Sueli, que pareciam ter um sexto sentido para o drama alheio, iniciaram o interrogatório.
— E então? — Fátima começou, mal esperando o garçom anotar os pedidos. — Já marcou o café com o príncipe encantado das rendas? Ou o lobo mau do Leme te fez mudar de ideia?
Gisele remexeu no guardanapo de papel sobre a mesa.
— Não chama ele de lobo mau, Fátima. E não, não marquei nada ainda.
— Como assim, não marcou? — Sueli interveio, os olhos arregalados de incredulidade. — Gisele, o homem te deu o cartão! Isso no século vinte e um é o equivalente a te entregar a chave da cidade! Você tem que mandar mensagem! É a lei da selva do flerte!
— Eu sei, mas... as coisas ficaram confusas no sábado. — Gisele admitiu, a voz baixa.
Fátima suspirou, assumindo uma postura de conselheira amorosa.
— Amiga, escuta a voz da experiência. O Lucas é um capítulo que você já leu mil vezes. É divertido, dá um frio na barriga, mas você sabe que o final é sempre o mesmo: ele some e você fica com o livro na mão, esperando a continuação que nunca vem. O Ricardo... o Ricardo é um livro novo, em branco. Pode ser uma obra-prima, pode ser um porre, mas pelo menos é uma história que você ainda não conhece.
— A Fátima tem razão — concordou Sueli, surpreendendo Gisele. — Eu sei que eu adoro uma bagunça, mas até eu sei a diferença entre uma bagunça divertida e um furacão que destrói a casa toda. O Lucas é categoria cinco.
Gisele riu, apesar da angústia. As metáforas de suas amigas eram sempre exageradas, mas, no fundo, carregadas de verdade.
— Eu sei, gente. Eu sei de tudo isso. Mas ouvir ele falando daquele jeito... foi diferente. Parecia... real.
— Ah, parecia real! — Fátima zombou, revirando os olhos. — Querido diário, hoje o galinha do bairro disse que está com medo de me perder. Isso é tão original quanto pedir um PF no Chalita. Eles falam isso pra todas, Gisele! É o truque mais velho do manual do cafajeste arrependido!
— Não foi assim... — Gisele tentou defender, mas sua voz vacilou. Será que Fátima estava certa?
— Olha, amiga — Sueli pegou na mão dela por cima da mesa. — A gente só quer o seu bem. Você passa a vida inteira cuidando da gente, apagando os nossos incêndios com o Armani e o Jorge. A gente quer te ver feliz, com alguém que te traga paz, não mais um problema pra você administrar.
O prato de Gisele chegou: um filé de frango grelhado com salada. De repente, ela perdeu completamente o apetite. A paz. Era isso que Ricardo parecia oferecer. Uma calmaria que ela secretamente desejava, mas que, ao mesmo tempo, a assustava por sua simplicidade. Ela estava tão acostumada com o caos que a tranquilidade parecia um território desconhecido e perigoso.
— Vamos mudar de assunto — pediu Gisele, forçando um sorriso. — Como foi o resto do fim de semana de vocês?
Fátima e Sueli trocaram um olhar, percebendo que era melhor recuar. A conversa desviou para os planos da semana, para uma promoção de sapatos que Fátima viu na internet e para o novo plano infalível de Sueli para fazer Jorge ajudar mais em casa.
— ...e é por isso que a gente PRECISA ir! — Sueli concluiu um raciocínio que Gisele tinha perdido completamente.
— Ir aonde? — perguntou Gisele, confusa.
— No pagode, Gisele! Presta atenção! — Fátima exclamou. — Na pracinha, depois do expediente. O grupo do Zeca vai tocar. É pra relaxar, dançar, beber uma cerveja e esquecer os homens. Ou, no seu caso, pensar em qual deles vale a pena.
— Ah, gente, hoje não... Tô cansada, com a cabeça cheia...
— Nem pensar! — Sueli foi taxativa. — É exatamente por isso que você vai. Você vai colocar uma roupa bonita, vai dançar até a perna doer e vai deixar esses dois marmanjos de molho. Eles que lutem! A sua única preocupação hoje vai ser não deixar a cerveja esquentar. É uma ordem!
Gisele sabia que era inútil discutir. Quando Fátima e Sueli entravam em "modo missão", não havia força na Terra capaz de detê-las. Ela apenas suspirou e concordou, resignada.
***
De volta à Djalma Noivas, a tarde se arrastou. Gisele atendeu duas clientes, organizou um mostruário de tiaras e respondeu e-mails com uma eficiência robótica. Sua mente, no entanto, estava a quilômetros de distância, presa na encruzilhada entre a Rua Domingos Ferreira, onde Lucas morava, e algum café chique que Ricardo poderia sugerir.
Por volta das cinco da tarde, a loja estava vazia. Djalma havia saído mais cedo para uma "reunião de networking" que Gisele sabia ser, na verdade, uma aula de tango. Era o momento de paz que ela precisava. Sentou-se em sua cadeira, pegou o celular e abriu a foto do cartão de visitas de Ricardo. *Ricardo Alves*. O nome era sólido, confiável.
Seu polegar pairou sobre o ícone de mensagem. *O que eu escrevo? "Oi, Ricardo, aqui é a Gisele da loja de noivas. Topa aquele café?" Não, muito direto. "Oi, tudo bem? Sobre o seu convite..." Pior ainda, parece um comunicado oficial.*
Enquanto ela travava sua batalha interna de etiqueta digital, o celular vibrou em sua mão com uma nova mensagem. O coração dela deu um salto. Era ele. Ricardo.
*"Oi, Gisele. Desculpe a insistência, mas a imagem de você domando aquelas duas feras na loja não sai da minha cabeça. E a sua calma com a noiva indecisa também. Pensei se você estaria livre para aquele café amanhã, no fim da tarde. Conheço um lugar com um bolo de fubá que, dizem, resolve qualquer dúvida existencial. O que me diz?"*
Gisele leu a mensagem três vezes. Era perfeita. Leve, engraçada, específica e sem pressão. O oposto exato da intensidade de Lucas. Um sorriso genuíno, o primeiro do dia, brotou em seus lábios. Fátima e Sueli estavam certas. Era isso. Um livro novo. Uma chance de paz.
Ela começou a digitar a resposta, o coração mais leve. *"Oi, Ricardo! Adorei a proposta. Um bolo de fubá que resolve dúvidas existenciais é exatamente o que eu preciso! Amanhã está ótimo pra mim. Onde a gente se encontra?"*
Seu dedo estava a um milímetro do botão "enviar" quando a campainha da loja tilintou.
Gisele levantou a cabeça bruscamente, o susto fazendo seu coração disparar. Parado na porta, com o sol do fim de tarde criando uma aura dourada ao seu redor, estava Lucas. Ele usava a mesma camiseta branca do sábado e um jeans, e carregava nas mãos um sorriso que era ao mesmo tempo culpado e irresistivelmente charmoso.
— Esqueci as chaves, Djalma não atende. Pensei que talvez você ainda estivesse aqui — ele disse, a desculpa mais esfarrapada do mundo, mas dita com uma confiança que quase a tornava crível.
Gisele baixou o celular, a tela ainda acesa com a mensagem não enviada. Ela sentiu o sangue subir ao rosto.
— Lucas... O que você está fazendo aqui?
Ele se aproximou do balcão, apoiando os cotovelos e se inclinando na direção dela. O cheiro dele, uma mistura de maresia e perfume amadeirado, a envolveu.
— Eu vim te ver. — ele admitiu, a voz mais baixa, mais séria. — Não consegui parar de pensar na nossa conversa. Na verdade, não consegui parar de pensar em você.
Os olhos dele caíram para o celular na mão dela. Ele não precisava ler a mensagem para saber. A expressão no rosto de Gisele dizia tudo.
— Era ele, não era? — a pergunta foi suave, quase um sussurro.
Gisele não respondeu. Apenas bloqueou a tela do celular e o colocou virado para baixo sobre o balcão, num gesto definitivo.
Lucas entendeu o recado. Uma sombra de dor passou por seu rosto, mas ele a disfarçou rapidamente com um sorriso forçado.
— Entendi. Cheguei tarde, então.
— Não é uma competição, Lucas.
— Eu sei que não é. — ele se endireitou, passando a mão pelos cabelos. — Mas parece que eu perdi do mesmo jeito.
O silêncio entre eles era denso, pesado com anos de quase-acontecimentos e palavras não ditas. Gisele sentia um aperto no peito. A lógica mandava enviar a mensagem para Ricardo. A lógica mandava escolher a paz, o bolo de fubá, o começo tranquilo. Mas seu coração, aquele órgão traiçoeiro e ilógico, doía ao ver a derrota estampada no rosto de Lucas.
Com um suspiro que parecia carregar todo o cansaço do mundo, ela pegou o celular novamente. Lucas observou cada movimento. Sob o olhar intenso dele, ela abriu a conversa com Ricardo. Apagou a resposta que havia escrito. E digitou outra, rápida e curta, antes que perdesse a coragem.
*"Oi, Ricardo. Adoraria, de verdade. Mas essa semana está muito complicada pra mim. Será que podemos nos falar depois com mais calma?"*
Enviou. A mensagem soou fria, distante. Uma porta que não se fechava completamente, mas que também não se abria. Um "talvez" que era quase um "não".
Ela largou o celular no balcão como se ele queimasse.
— Pronto. — disse ela, sem olhar para Lucas.
Ele ficou em silêncio por um momento, processando.
— Você... recusou?
— Eu disse que a semana estava complicada. — ela respondeu, a voz neutra.
— Por minha causa?
Gisele finalmente levantou os olhos e o encarou.
— Não seja convencido. Eu recusei porque estou confusa. Porque você apareceu e bagunçou tudo, como sempre. E eu não consigo tomar uma decisão sobre um café quando minha cabeça está um furacão.
Ele deu um passo, contornando o balcão até ficar ao lado dela.
— Então me deixa ajudar a acalmar esse furacão. — ele disse, a voz cheia de uma ternura que a desarmava. — As meninas me falaram do pagode hoje. Vamos. Como amigos. Sem pressão. Só pra... relaxar. Como a Sueli disse.
"Como amigos". A maior mentira que os dois poderiam contar um ao outro naquele momento. Gisele sabia, e ele também. Mas ela estava cansada demais para lutar. Cansada de ser sensata.
— Tudo bem, Lucas. Como amigos. — ela concordou, e a palavra soou como uma rendição.
***
O pagode na pracinha fervia. O som do tantã e do pandeiro criava uma pulsação que parecia sincronizar com os corações da multidão. Pessoas dançavam na calçada, casais se abraçavam nos cantos, e o cheiro de cerveja e espetinho de carne dominava o ar.
Fátima e Sueli já estavam em seu elemento, com um copo na mão e o corpo balançando no ritmo da música. Quando viram Gisele chegar acompanhada de Lucas, elas pararam de dançar e se entreolharam. Fátima com uma expressão de "eu não acredito nisso" e Sueli com um sorriso de "isso vai ser interessante".
— Olha só quem resolveu aparecer junto! — Fátima alfinetou, sem rodeios.
— Coincidência. A gente se encontrou no caminho. — mentiu Lucas, com a maior naturalidade do mundo, passando um braço pelos ombros de Gisele.
Gisele não o corrigiu. Ela se sentia estranhamente protegida ali, sob o braço dele, mesmo sabendo que ele era a fonte de toda a sua confusão.
A noite avançou. Eles beberam, conversaram, riram das palhaçadas de Armani e Jorge, que haviam chegado mais tarde. Gisele tentava se manter à distância de Lucas, dançando com Sueli, conversando com Fátima, mas era como se um ímã a puxasse constantemente para perto dele. Ela sentia o olhar dele queimando em suas costas, seguindo cada movimento seu.
Em certo momento, o calor e o barulho se tornaram sufocantes.
— Gente, eu vou ali pegar uma água. Já volto. — anunciou Gisele.
— Quer que eu vá com você? — Lucas se ofereceu de imediato.
— Não precisa. Eu sei o caminho. — ela respondeu, talvez com mais rispidez do que pretendia, e se embrenhou na multidão.
A fila para a barraca de bebidas estava enorme. Frustrada, Gisele deu a volta, procurando um lugar mais calmo para respirar. Ela acabou atrás de uma das barracas de comida, um beco improvisado, mais escuro e relativamente silencioso. O som do pagode chegava ali abafado, uma batida distante. Ela se encostou na parede de lona, fechando os olhos por um instante, tentando colocar os pensamentos em ordem.
— Te achei.
A voz dele, perto de seu ouvido, a fez dar um pulo. Lucas estava ali, parado na entrada do pequeno beco, bloqueando a saída. A luz fraca do poste da rua desenhava sua silhueta.
— O que você quer, Lucas? — ela perguntou, a voz trêmula.
— Eu já te disse. Eu quero você. — ele deu um passo à frente, diminuindo o espaço já mínimo entre eles. — Eu vi você recusando o convite dele, Gisele. Eu vi você tentando fugir de mim a noite toda. Mas você não consegue, consegue?
Ele estava perto demais. O mundo dela se resumiu ao rosto dele, aos olhos escuros e intensos, à boca que ela conhecia tão bem.
— Isso não é justo. — ela sussurrou, a respiração presa na garganta.
— Não é mesmo. — ele concordou, a voz rouca. — Não é justo o que você faz comigo. Não é justo eu ter sido idiota por tanto tempo. E não é justo a gente ficar nesse dois pra lá, dois pra cá, sem nunca dançar de verdade.
Ele levantou a mão e, como na outra noite, tocou o rosto dela. Mas desta vez não havia hesitação. O polegar dele traçou o contorno de seus lábios, e um arrepio percorreu o corpo inteiro de Gisele. Toda a sua resolução, toda a sua lógica, todo o seu bom senso se dissolveram no ar quente da noite.
— Eu não quero mais ser seu amigo, Gi. — ele sussurrou, a testa colada na dela. — Eu nunca quis.
E então, ele a beijou.
Não foi um beijo gentil ou hesitante. Foi um beijo faminto, desesperado. Um beijo que carregava a urgência de anos de oportunidades perdidas e o medo de um futuro sem ela. As mãos de Lucas foram para a cintura dela, puxando-a com força contra seu corpo, eliminando qualquer espaço que restasse. As mãos de Gisele, que a princípio tentaram empurrá-lo, se renderam e subiram para o pescoço dele, os dedos se embrenhando em seus cabelos.
Era um beijo para matar a saudade. A saudade do que eles foram, do que nunca foram e do que ainda poderiam ser. Era caótico, apaixonado e profundamente familiar. Era o gosto do perigo, o som do coração dela batendo descontrolado nos ouvidos, o cheiro dele que era quase um lar. Era a bagunça que ela tanto temia e, naquele momento, a única coisa que fazia sentido no mundo.
Quando eles finalmente se separaram, ambos estavam ofegantes, os lábios inchados, os olhos brilhando na penumbra. O som do pagode parecia ter voltado, mais alto, mais vivo.
Lucas a encarou, um milhão de emoções passando por seu rosto: alívio, paixão, medo.
— E agora? — a voz de Gisele era um fio, mal passando de um sussurro.
Ele não respondeu com palavras. Apenas a beijou de novo, desta vez mais devagar, um beijo de promessa, de posse. Um beijo que dizia que o jogo de "amigos" havia acabado.
Gisele se entregou completamente. Naquele beco escuro, com o samba ao fundo, ela fez sua escolha. Não com a cabeça, mas com o corpo, com o coração, com a alma. Ela escolheu o furacão.
E enquanto os lábios de Lucas exploravam os seus, uma única e aterrorizante certeza se formou em sua mente: a calmaria teria que esperar. A tempestade mal havia começado.