Voltar ao resumo

Mudança de vida

Fragmentos de Vidro e Aço

A segunda-feira na Alencar Investigações sempre teve um ritmo próprio: o som de teclados frenéticos, o murmúrio de vozes ao telefone e o cheiro onipresente de café forte. Para Oliver, no entanto, aquele som era como uma lixa contra seus nervos expostos. Ele atravessou o saguão principal com o queixo erguido, os ombros imperturbáveis e o terno azul-marinho perfeitamente passado. Ninguém, ao olhar para ele, diria que quarenta e oito horas atrás ele estava desmaiado em uma poça de seu próprio fracasso e embriaguez.

Sua pele estava pálida, sim, e havia uma rigidez quase sobrenatural em sua postura, mas o olhar era o mesmo: gélido, analítico e impenetrável.

Henrique Alencar estava parado na porta de sua sala envidraçada, observando a chegada do filho. Ele sentiu um aperto no peito, uma mistura de admiração e puro terror. Ele vira Oliver naquela mesma manhã, na mansão, tremendo enquanto tentava segurar uma xícara de chá, o suor frio escorrendo pelas têmporas enquanto a abstinência começava a morder. Mas ali, sob as luzes fluorescentes da agência, Oliver parecia ter ligado uma chave interna. Ele era uma máquina novamente.

Oliver caminhou direto para sua mesa, ignorando os olhares curiosos de alguns colegas que sabiam do seu "incidente" no caso Lótus, embora não soubessem os detalhes do colapso.

— Bom dia, Mendes — disse um dos detetives seniores, aproximando-se com uma pasta. — Soube que tirou o fim de semana para... descansar. Temos o relatório da balística do caso dos estaleiros. Quer dar uma olhada?

Oliver nem sequer hesitou. Ele pegou a pasta, abriu-a e começou a ler enquanto ainda se sentava.

— Os ângulos de entrada não batem com o calibre sugerido, Miller — disse Oliver, sua voz saindo tão nítida quanto uma lâmina de barbear. — Peça uma reavaliação da trajetória. O atirador não estava no telhado, estava no segundo andar do prédio anexo.

Miller piscou, surpreso com a rapidez da análise.

— Mas... o relatório diz...

— O relatório está errado — cortou Oliver, devolvendo a pasta. — Refaça.

Henrique, que assistia à cena de longe, fez um sinal discreto para que Oliver fosse até seu escritório. O jovem detetive esperou exatos dois minutos — para não parecer que estava obedecendo a um comando imediato — e então se levantou.

Assim que a porta de carvalho se fechou atrás dele, a máscara de Oliver não caiu, mas rachou levemente. Ele se apoiou na mesa de Henrique, as pontas dos dedos pressionando a madeira com tanta força que os nós dos dedos ficaram brancos.

— Você está louco? — Henrique sussurrou, aproximando-se. — Eu vi você hoje cedo, Oliver. Você mal conseguia ficar de pé. Sua pressão deve estar nas alturas.

— Eu estou trabalhando, Diretor — Oliver respondeu, enfatizando o título. — Foi o que combinamos. Eu não vim aqui para ser monitorado como um paciente de UTI.

— Oliver, olhe para suas mãos — Henrique apontou.

Apesar do esforço hercúleo de vontade, a mão esquerda de Oliver tremia de forma rítmica e incontrolável. Era o corpo protestando contra a falta do álcool que o sustentara por meses. Oliver rapidamente fechou a mão em um punho e a escondeu atrás das costas.

— É apenas café em excesso — mentiu Oliver, embora ambos soubessem que ele não tinha tocado em uma gota de cafeína naquela manhã por ordem médica.

— Não minta para mim — Henrique disse, sua voz oscilando entre a autoridade do chefe e o desespero do pai. — Você está se fragmentando. É impressionante, eu admito. Nunca vi ninguém conseguir separar o físico do mental com tanta violência, mas isso vai te matar. Você vai ter um colapso no meio do escritório.

Oliver deu um passo à frente, estreitando os olhos.

— O que você quer, Henrique? Quer que eu chore no seu ombro? Quer que eu admita que cada fibra do meu corpo está gritando por um gole de uísque agora? — Ele soltou uma risada seca e sem vida. — Eu não vou te dar esse prazer. Eu vou fazer o meu trabalho. Vou provar que sou o melhor detetive desta agência, mesmo sendo um "alcoólatra quebrado". E você vai manter a sua parte do acordo. Ninguém sabe. Ninguém desconfia.

Henrique sentou-se em sua cadeira, passando a mão pelo rosto. Ele estava chocado. Ele conhecia a resiliência dos agentes de elite, ele próprio fora um, mas o que Oliver estava fazendo era diferente. Era uma dissociação deliberada. Oliver Mendes, o detetive brilhante, estava operando o corpo de Oliver Mendes, o homem doente, como se fosse um fantoche indesejado.

— Eu recebi uma ligação do Dr. Arantes — disse Henrique, tentando mudar de tática. — Ele disse que você foi... difícil durante a primeira sessão de terapia ontem à noite.

— Eu fui honesto — rebateu Oliver. — Eu disse a ele que não acredito em cura através da fala. Acredito em fatos. E o fato é que eu tenho trabalho a fazer.

— Você tem um novo caso? — Henrique perguntou, sabendo que não conseguiria mandá-lo para casa sem uma briga pública.

— Estou revisando o Lótus por conta própria — Oliver disse, e pela primeira vez naquela manhã, houve um brilho de algo real em seus olhos. Não era o brilho frio da lógica, era o fogo da obsessão. — Eu perdi o rastro daquela vez porque estava bêbado e arrogante. Não vou cometer o mesmo erro sóbrio.

— Oliver, o caso Lótus foi arquivado pela promotoria por falta de provas concretas — Henrique lembrou, preocupado. — Se você mexer nessa colmeia agora, sem autorização oficial...

— Quem vai me impedir? O meu pai? — Oliver sorriu ironicamente. — Ah, esqueci. Você não é meu pai aqui dentro. Você é o Diretor. E como Diretor, você sabe que se eu encontrar uma nova pista, você vai ter que reabrir o caso.

Henrique suspirou. Ele estava sendo encurralado pela própria lógica que ensinara ao filho através dos anos de convivência profissional.

— Duas horas, Oliver — disse Henrique, em tom de ultimato. — Você trabalha duas horas, depois vai para a sala de descanso, come algo e descansa por trinta minutos. Se eu vir você cambalear ou se Miller vier me dizer que você está agindo de forma errática, eu te mando de volta para a mansão em um carro de segurança. Fui claro?

Oliver endireitou o terno, a expressão voltando àquela neutralidade assustadora.

— Perfeitamente, Diretor Alencar.

Ele saiu da sala com passos firmes. Henrique ficou observando-o através do vidro. Ele viu Oliver parar no bebedouro, tomar um copo de água com uma calma estudada e depois retornar à sua mesa. O que os outros viam era um profissional focado. O que Henrique via era um homem equilibrando-se no fio de uma navalha, com um abismo de cada lado.

A manhã avançou. Oliver mergulhou nos arquivos digitais, cruzando dados de registros de imóveis e placas de veículos. Por dentro, ele sentia como se mil agulhas estivessem perfurando sua pele. Sua visão às vezes borrava, e o som dos telefones parecia martelar diretamente em seu cérebro. A sede não era apenas uma vontade; era uma dor física, uma cãibra na alma que exigia o anestésico que ele jurara não tocar.

— Ei, Mendes — chamou uma investigadora júnior, aproximando-se com um sorriso tímido. — Estamos indo almoçar no bistrô da esquina. Quer vir?

Oliver nem ergueu os olhos da tela.

— Tenho trabalho, Sarah. Aproveitem.

— Você precisa comer, Oliver — insistiu ela. — Você parece um pouco pálido.

Oliver finalmente ergueu o olhar. Foi um olhar tão gélido que a moça recuou um passo.

— Agradeço a preocupação, mas minha palidez não afeta minha produtividade. Pode ir.

Quando ela se afastou, Oliver fechou os olhos por cinco segundos. Ele sentiu uma onda de náusea e agarrou a borda da mesa. "Não aqui", pensou ele. "Não na frente dele. Não na frente de ninguém."

Henrique saiu de sua sala para ir a uma reunião externa, mas parou ao lado da mesa de Oliver. Ele não disse nada que pudesse levantar suspeitas, mas colocou uma barra de chocolate amargo e uma garrafa de água mineral sobre a mesa do detetive.

— Mantenha os níveis de açúcar estáveis, detetive — disse Henrique de forma impessoal, para quem quisesse ouvir. — Não quero ninguém desmaiando por excesso de trabalho sob minha gestão.

— Sim, senhor — respondeu Oliver, sem olhar para cima.

Assim que Henrique se distanciou, Oliver pegou a barra de chocolate. Seus dedos tremiam tanto que ele teve dificuldade para abrir a embalagem. Ele sentiu um ódio profundo de sua própria fraqueza. Ele odiava que Henrique tivesse que "alimentá-lo" como se fosse uma criança. Mas, ao mesmo tempo, o açúcar ajudou a aplacar a tontura por alguns minutos.

Ele voltou ao caso Lótus. Ele estava procurando por um erro, uma pequena rachadura no álibi do principal suspeito, algo que ele tivesse deixado passar enquanto sua mente estava nublada pelo uísque. Ele revisou os depoimentos, as fotos da cena do crime, as horas de vigilância.

De repente, ele parou. Seus olhos se fixaram em uma foto de um reflexo em uma vitrine, ao fundo de uma das imagens de vigilância. Era algo insignificante, um borrão que ele havia descartado anteriormente como ruído visual. Mas agora, com a mente forçada a uma sobriedade dolorosa, ele viu um padrão.

Ele começou a digitar furiosamente, isolando a imagem e aplicando filtros de nitidez. Seu coração batia rápido, não pela abstinência, mas pela adrenalina da caça.

— Achei você... — sussurrou ele.

Naquele momento, Miller passou por ele novamente.

— Ainda no Lótus, Mendes? Esquece isso, cara. O velho Alencar já deu o caso como encerrado.

Oliver virou a tela para o colega.

— O velho Alencar estava errado. E eu também estava. Veja isso.

Miller inclinou-se, franzindo a testa.

— É só um reflexo de uma luz de carro, Oliver.

— Não é uma luz de carro — Oliver apontou com uma caneta, a mão agora surpreendentemente firme devido ao foco absoluto. — É o reflexo de um relógio de pulso. Um modelo específico, edição limitada. Só existem cinquenta desses na cidade. Se eu cruzar a lista de compradores com a lista de funcionários da empresa de fachada do nosso suspeito...

Miller olhou para Oliver com uma mistura de respeito e estranhamento.

— Você é um monstro, sabia? Como consegue ver isso depois de tudo?

— Eu vejo melhor no escuro, Miller — respondeu Oliver, voltando-se para o monitor.

À tarde, quando Henrique retornou da reunião, ele encontrou Oliver ainda na mesma posição. O jovem não tinha ido à sala de descanso. Henrique sentiu a irritação crescer, mas antes que pudesse dizer algo, Oliver levantou-se e caminhou até ele.

Eles entraram no escritório de Henrique. Oliver jogou uma folha impressa sobre a mesa.

— O que é isso? — perguntou Henrique.

— O motivo pelo qual eu não vou para casa descansar — disse Oliver. — Eu identifiquei o terceiro homem na cena do crime. O relógio que ele usava o entregou. Já fiz o cruzamento. Ele é o contador do grupo. Se o pegarmos, ele entrega o esquema inteiro em troca de imunidade.

Henrique pegou o papel, analisando as provas. Era impecável. Era o trabalho de um gênio da investigação. Ele olhou para Oliver e viu que o filho estava suando novamente, que sua respiração estava curta e que ele parecia estar prestes a desmoronar a qualquer segundo.

— Isso é brilhante, Oliver — Henrique admitiu, baixando o papel. — Realmente brilhante. Mas olhe para você. Você está no seu limite físico.

— Eu trouxe um resultado — disse Oliver, a voz falhando levemente. — Agora, cumpra sua parte. Deixe-me continuar.

Henrique caminhou até Oliver e, pela primeira vez naquele ambiente, quebrou a barreira profissional. Ele colocou a mão no ombro do filho. Oliver tentou se esquivar, mas não tinha forças.

— Você provou seu ponto, Oliver. Você é o melhor. Mas até os melhores precisam de manutenção. Se você cair agora, essa prova não serve de nada, porque eu preciso de você para conduzir o interrogatório. Vá para casa. Durma. Deixe que eu cuido da burocracia para a ordem de prisão preventiva. Amanhã, se você estiver em condições, você assume a sala de interrogatório.

Oliver encarou o pai. O ódio pela própria vulnerabilidade ainda estava lá, mas a exaustão estava vencendo. Ele sabia que se tentasse dirigir, provavelmente sofreria um acidente.

— Amanhã — disse Oliver, sua voz quase um suspiro. — Às oito. Sem atrasos.

— Sem atrasos — concordou Henrique.

Oliver saiu da agência com a mesma dignidade com que entrou, mas assim que chegou ao estacionamento e entrou no banco de trás do carro que Henrique havia designado para levá-lo, ele desabou. Ele se encolheu contra a porta, fechando os olhos enquanto os tremores tomavam conta de seu corpo de forma violenta.

Henrique, observando da janela de seu escritório lá no alto, sentiu uma lágrima solitária queimar em seu rosto. Ele estava orgulhoso e desesperado. Oliver era um detetive formidável, capaz de fragmentar sua dor para entregar resultados impossíveis. Mas Henrique sabia que, se não tomasse cuidado, acabaria com um arquivo de caso resolvido e um filho morto.

A batalha pela alma de Oliver Mendes estava longe de terminar, mas naquela segunda-feira, entre tremores e relógios de luxo, o "prodígio" havia mostrado que, mesmo em pedaços, ele ainda era a arma mais afiada da Alencar Investigações. E Henrique faria qualquer coisa para garantir que essa arma não se voltasse contra si mesma.