Mudança de vida
O Labirinto de Vidro
O silêncio na mansão Alencar durante a noite de segunda-feira era cortante. Oliver estava deitado em seu quarto, encarando o teto trabalhado em gesso, enquanto o suor frio encharcava os lençóis de linho. A desintoxicação não era uma linha reta; era um labirinto de espelhos onde cada curva trazia uma lembrança dolorosa ou uma necessidade física avassaladora. Seus músculos doíam como se tivessem sido esticados até o limite, e o estômago protestava contra qualquer tentativa de nutrição sólida.
Ele ouviu batidas leves na porta. Não precisava perguntar quem era.
— Vá embora, Henrique — rosnou Oliver, sua voz pouco mais que um sussurro áspero.
A porta se abriu suavemente, revelando a silhueta do Diretor. Ele não trazia relatórios ou ordens, apenas uma bandeja com caldo quente e um copo de suco de cranberry. Henrique entrou e fechou a porta, ignorando o olhar hostil do filho.
— O médico disse que a segunda noite é a pior — disse Henrique, colocando a bandeja na mesa de cabeceira. — O seu sistema está tentando entender por que você parou de alimentá-lo com veneno.
— Eu não preciso de uma palestra de biologia — Oliver sentou-se com dificuldade, apoiando as costas na cabeceira da cama. Sua camiseta preta estava colada ao corpo pelo suor. — Eu preciso que você entenda que amanhã eu estarei naquela agência. O contador, Silas Vane, vai ser trazido para interrogatório. Eu encontrei a pista. Eu vou fechar o cerco.
Henrique sentou-se na beirada da cama, uma proximidade que Oliver normalmente não permitiria, mas que agora não tinha forças para combater.
— Você é assustador, sabia? — Henrique comentou, observando o tremor nas mãos do filho. — Mesmo nesse estado, sua mente está processando o interrogatório. Você já montou o cenário, não montou?
Oliver deu um sorriso fraco, desprovido de humor.
— Silas é um homem de números, Henrique. Ele acredita na segurança das colunas de crédito e débito. Quando eu mostrar a ele que o débito da vida dele não fecha com a lealdade que ele tem pelo chefe... ele vai quebrar. É matemática, não é psicologia.
— Beba o suco — ordenou Henrique, estendendo o copo. — Se você desmaiar na sala de interrogatório, o advogado dele vai alegar coerção ou incapacidade do investigador. Você quer que o caso Lótus morra de vez por causa de um desmaio?
Oliver aceitou o copo. O líquido gelado ajudou a acalmar a queimação na garganta. Ele bebeu tudo de uma vez, sentindo a glicose dar um leve suporte ao seu sistema trêmulo.
— Por que você mantém esse segredo, Henrique? — Oliver perguntou subitamente, os olhos fixos no líquido restante no copo. — Não o segredo de que somos pai e filho. O outro. Por que você nunca se casou de novo? Por que vive nesta mansão de vidro como um eremita cercado de troféus e arquivos?
Henrique desviou o olhar para a janela, onde a lua se refletia na piscina.
— Porque eu descobri cedo demais que não sou um bom companheiro, Oliver. Eu sou um caçador. E caçadores são péssimos em construir lares. Sua mãe entendeu isso. Ela foi a única inteligente o suficiente para se afastar antes que a minha obsessão pelo trabalho consumisse a ela também.
— E agora você está tentando "caçar" a minha salvação — Oliver ironizou.
— Eu estou tentando garantir que o meu único legado não termine em uma vala comum ou em uma clínica de reabilitação barata — Henrique levantou-se, recuperando sua postura de autoridade. — Durma. Se amanhã você não conseguir caminhar em linha reta, eu mesmo te algemo nesta cama.
***
Terça-feira, 08:00.
A sala de observação da Alencar Investigações estava na penumbra. Através do vidro unidirecional, Silas Vane parecia minúsculo na cadeira de metal. Ele ajustava o relógio de pulso — o mesmo que Oliver identificara na imagem — com um tique nervoso.
Henrique estava parado ao lado de Miller na sala de observação.
— Onde ele está? — perguntou Miller, olhando para o relógio. — O suspeito está aqui há dez minutos. O advogado está chegando.
— Ele está se preparando — respondeu Henrique, embora seu coração estivesse acelerado. Ele sabia que Oliver estava no banheiro do andar de baixo, jogando água gelada no rosto e tentando controlar os tremores.
A porta da sala de interrogatório se abriu. Oliver entrou.
Ele não levava pastas. Não levava café. Apenas uma caneta e um bloco de notas em branco. Ele caminhou com uma precisão cirúrgica, sentando-se à frente de Silas sem dizer uma palavra. O silêncio se estendeu por um minuto inteiro. Oliver apenas observava o homem, seus olhos captando cada microexpressão, cada gota de suor no lábio superior do contador.
— Sr. Mendes — começou Silas, tentando sorrir. — Eu não sei por que fui trazido aqui. Sou um cidadão cumpridor da lei. Sou o contador-chefe da...
— Você é o homem que esqueceu que luz se reflete em vidro, Silas — cortou Oliver. Sua voz era baixa, calma, mas carregada de uma ameaça latente. — O relógio. Edição limitada. Cinquenta peças.
Oliver inclinou-se para frente. Na sala de observação, Henrique notou que Oliver apoiava os antebraços na mesa para esconder o tremor das mãos. Era um truque de veterano.
— Você estava lá naquela noite — continuou Oliver. — Você viu o que aconteceu com o informante. Você viu o sangue no chão do galpão. E agora, você está preocupado porque sabe que o seu chefe, o Sr. Moretti, não gasta dinheiro com advogados para contadores. Ele gasta dinheiro com "limpezas".
Silas empalideceu.
— Eu... eu não sei do que você está falando.
— Vamos falar de números, então — Oliver abriu o bloco e desenhou uma cifra. — Este é o valor que Moretti desviou do fundo de pensão dos estaleiros. E este aqui — ele desenhou outro número — é o valor que foi para a sua conta pessoal nas Ilhas Cayman. Você achou que ele não descobriria que você estava roubando do ladrão?
O contador engasgou. Na sala de observação, Miller assobiou baixo.
— De onde ele tirou isso? — sussurrou Miller. — Esses dados não estavam no relatório.
Henrique sorriu de lado, um brilho de orgulho paternal que ele rapidamente escondeu.
— Oliver passou a noite de domingo hackeando os servidores de fachada. Ele não dorme quando está no rastro.
Dentro da sala, Oliver sentiu uma pontada aguda de náusea. O mundo girou por um segundo, as luzes da sala pareceram brilhar com a intensidade de mil sóis. Ele fechou o punho sob a mesa, cravando as unhas na palma da mão para que a dor física o mantivesse presente.
— Silas — Oliver sussurrou, aproximando o rosto do contador. — Moretti já sabe. Eu garanti que uma cópia desses extratos chegasse ao escritório dele dez minutos antes de você ser detido. Neste momento, ele não está mandando um advogado. Ele está mandando alguém para garantir que você nunca preste depoimento.
— Você está mentindo! — gritou Silas, o pânico finalmente quebrando sua fachada.
— Quer arriscar? — Oliver levantou-se. Suas pernas vacilaram por um milésimo de segundo, mas ele se segurou na cadeira. — Eu posso te colocar no programa de proteção. Posso garantir que você saia daqui com uma identidade nova e uma cela segura longe dos homens dele. Mas você tem cinco minutos. Depois disso, eu lavo as minhas mãos e deixo você com o "advogado" que Moretti enviar.
Oliver caminhou até a porta. Ele precisava sair. O ar estava acabando. Sua pele estava cinzenta sob a luz artificial.
— Espere! — Silas gritou, as lágrimas começando a descer. — Eu falo! Eu conto tudo sobre o caso Lótus! Moretti deu a ordem... eu tenho os registros das transferências para os executores!
Oliver parou com a mão na maçaneta. Ele não se virou. Não podia permitir que Silas visse o suor escorrendo por seu pescoço ou a palidez de seu rosto.
— Miller vai entrar para colher o depoimento — disse Oliver. — Não me faça perder tempo de novo, Silas.
Ele saiu da sala e caminhou rapidamente pelo corredor, indo direto para a escada de incêndio, longe dos olhos dos outros detetives. Ele empurrou a porta pesada e desabou contra a parede de concreto, escorregando até o chão. Ele enterrou o rosto nas mãos, respirando de forma irregular.
— Oliver.
Ele ergueu os olhos. Henrique estava lá. Ele devia ter seguido o filho assim que o interrogatório terminou. O Diretor fechou a porta da escada, garantindo a privacidade de ambos.
— Ele quebrou — disse Henrique, aproximando-se e agachando-se ao lado de Oliver. — Você conseguiu. O caso Lótus está oficialmente reaberto e, desta vez, temos o contador.
Oliver soltou um riso rouco que terminou em uma tosse seca.
— Eu quase... quase apaguei lá dentro, Henrique.
— Mas não apagou — Henrique colocou a mão na nuca de Oliver, um gesto de carinho que parecia estranho e novo para ambos. — Você foi brilhante. Mas agora, chega. Você vai para casa. Sem discussões.
— Eu tenho que redigir o relatório...
— Miller vai redigir. Você é o detetive encarregado, os créditos são seus. Mas você está fisicamente exausto.
Oliver olhou para o pai. A raiva que sentira no domingo parecia ter sido substituída por uma exaustão tão profunda que não sobrava espaço para o ressentimento.
— Você vai manter o segredo? — perguntou Oliver. — Miller e os outros... eles acharam que foi apenas uma jogada mestre.
— O segredo está seguro, Oliver — Henrique ajudou-o a se levantar. — Para a agência, você é o prodígio que voltou das cinzas para esmagar o crime organizado. Para mim...
Henrique hesitou, as palavras presas na garganta. Ele nunca fora bom com sentimentos, mas ver o filho lutar contra os próprios demônios para fazer justiça o havia transformado.
— Para mim — continuou Henrique —, você é apenas o meu filho que precisa de um banho, uma refeição e dez horas de sono.
Oliver permitiu que Henrique o conduzisse até o elevador privativo que levava à garagem. Enquanto desciam, o silêncio entre eles não era mais o silêncio tenso de dois estranhos, mas a quietude de dois aliados que haviam sobrevivido à primeira batalha de uma guerra muito longa.
Ao chegarem à mansão, Oliver não foi para o quarto. Ele caminhou até a sala de estar e sentou-se no sofá de couro, observando o jardim através das imensas paredes de vidro. Henrique apareceu pouco depois com um copo de água e alguns comprimidos de vitaminas prescritos pelo médico.
— Sabe o que é irônico? — perguntou Oliver, aceitando os comprimidos. — Eu passei anos tentando provar que era diferente de você. Tentei ser o detetive que não se envolvia, o homem que não tinha raízes. E acabei exatamente como você: sozinho, obcecado e destruindo a minha saúde por um caso.
Henrique sentou-se na poltrona oposta.
— Você não é como eu, Oliver. Você é melhor. Eu nunca teria tido a coragem de admitir que precisava de ajuda. Eu teria continuado bebendo até que meu coração parasse no meio de um tribunal. Você parou. Você aceitou o acordo.
— Eu aceitei porque não tinha escolha — Oliver retrucou, embora sem a agressividade de antes.
— Às vezes — disse Henrique —, o destino nos tira as escolhas para que possamos finalmente ver o que é essencial.
Oliver fechou os olhos, sentindo o peso do sono finalmente vencendo a ansiedade.
— Henrique?
— Sim?
— Se alguém na agência suspeitar... se Miller começar a fazer perguntas sobre por que você está me levando para casa todos os dias...
— Eu direi que você é um recurso valioso demais para ser deixado ao acaso — Henrique sorriu levemente. — E que eu sou um chefe extremamente exigente.
— Justo — murmurou Oliver, já quase adormecendo.
Henrique ficou ali por um longo tempo, observando o filho dormir. A mansão de vidro, que antes parecia um mausoléu de conquistas passadas, agora parecia ter um propósito. Pela primeira vez em décadas, Henrique Alencar não estava planejando a próxima prisão ou analisando um balanço financeiro. Ele estava apenas sendo um pai, protegendo o sono do homem que carregava seu sangue e sua teimosia.
A estrada para a recuperação de Oliver seria longa. Haveria recaídas, haveria dias em que o desejo pelo álcool seria um grito ensurdecedor, e haveria momentos em que o segredo entre eles pesaria como chumbo. Mas, enquanto o sol se punha sobre a cidade, iluminando a mansão com tons de laranja e ouro, ambos sabiam que o labirinto de vidro não era mais uma prisão. Era, finalmente, um começo.