Mugiwaras
Laços de Prata e o Brilho de um Novo Horizonte
O convés do Thousand Sunny nunca esteve tão barulhento. O cheiro de carne assada, temperada com as especiarias secretas de Sanji, flutuava pelo ar, misturando-se à brisa salgada de Kairus. Canecos de suco e sake batiam uns nos outros enquanto a música de Brook preenchia cada fresta do navio. Luffy, como era de se esperar, estava no centro de tudo, com um pedaço enorme de carne em cada mão e os olhos brilhando como estrelas.
— Uma festa! Uma festa para a Azuri! — gritava o capitão, mastigando e falando ao mesmo tempo, o que resultava em alguns pedaços de comida voando em direção a Usopp.
— Ei, Luffy! Cuidado com o molho! — reclamou o atirador, limpando o rosto, mas logo voltando a rir enquanto Franky fazia poses exageradas atrás dele.
— É uma recepção SUPER para uma lanceira de elite! — exclamou o ciborgue, disparando pequenos fogos de artifício de seus ombros.
Azuri Yakamani estava sentada em um barril, observando a cena com uma mistura de choque e fascínio. Em todos os seus anos no Exército Revolucionário, as celebrações eram raras, contidas e sempre carregadas de uma tensão subjacente de que o inimigo poderia atacar a qualquer momento. Ali, no Sunny, parecia que o mundo lá fora não existia. Havia apenas a alegria pura e caótica de um bando de piratas que parecia mais uma família disfuncional.
— Você se acostuma — disse Robin, aproximando-se com uma taça de vinho e um sorriso compreensivo. — Eles são intensos, mas o coração de cada um aqui é tão vasto quanto o oceano.
— Eu nunca vi nada parecido — confessou Azuri, apertando o cabo de sua lança que permanecia ao seu lado. — Como ele consegue ser tão... despreocupado?
— É o Luffy — respondeu Zoro, encostado no mastro principal com uma garrafa de sake. — Ele não se preocupa com o amanhã porque sabe que, se o amanhã trouxer um problema, ele vai simplesmente socá-lo até ele ir embora.
Luffy, percebendo que Azuri estava um pouco afastada, saltou em sua direção com a agilidade de um macaco. Ele pousou bem na frente dela, quase encostando os narizes.
— Azuri! Por que você não está comendo? O Sanji fez aquela coisa de carne que derrete na boca! Você tem que ficar forte se vai ser minha companheira!
— Eu vou comer, Luffy, eu só... — Ela hesitou, olhando para as luzes da cidade de Kairus que começavam a brilhar no crepúsculo. — Eu preciso descer. Preciso falar com o meu povo. Com o comando. Eles precisam saber que eu não vou estar aqui amanhã.
— Ah, entendi! — Luffy abriu um sorriso enorme. — Então eu vou com você!
— O quê? Não, Luffy, é uma base revolucionária, é um assunto interno e...
— Eu vou com você! — insistiu ele, já começando a empurrá-la em direção à prancha de desembarque. — Um capitão não deixa sua nova companheira andar por aí sozinha, especialmente se os caras de máscara voltarem!
Azuri suspirou, percebendo que discutir com Luffy era como tentar parar uma avalanche com as mãos. O jeito teimoso e a energia inesgotável dele trouxeram uma memória repentina à sua mente. O brilho nos olhos, a risada fácil, a determinação cega...
— Você me lembra muito o meu irmão — murmurou ela, quase para si mesma, enquanto caminhavam pelas ruas de pedra de Kairus.
Luffy inclinou a cabeça, curioso.
— Você tem um irmão? Ele é legal? Ele luta com um palito gigante também?
Azuri riu, uma risada suave que suavizou as linhas de seu rosto marcado pela cicatriz.
— Não, ele não usava uma lança. Ele era um idealista, como eu. Mas ele tinha esse mesmo jeito... essa forma de fazer todo mundo ao redor acreditar que o impossível era apenas um detalhe. Ele morreu em uma das primeiras purgas do Governo nesta ilha. Foi por ele que me juntei ao Dragon.
Luffy parou de caminhar por um segundo, seu chapéu de palha sombreando seus olhos.
— Entendi. Então ele era um herói.
— Para mim, ele era — disse ela, voltando a caminhar. — E ver você lutando na praça hoje... por um momento, eu não vi um pirata. Eu vi aquele mesmo fogo.
Eles chegaram ao Quartel-General da Resistência, um edifício de pedra robusto escondido atrás de uma fábrica de fundição. Os guardas, ao reconhecerem Azuri, baixaram as armas imediatamente, mas olharam com desconfiança para o garoto de chapéu de palha que vinha saltitando atrás dela.
Luffy não parecia notar os olhares. Ele examinava tudo — os mapas nas paredes, as armas empilhadas, os cartazes de procurados — com a curiosidade de uma criança em um museu.
— Azuri! — Um homem alto, com o rosto coberto de fuligem e o braço em uma tipóia, correu ao encontro dela. — Soubemos do ataque na praça. Disseram que piratas intervieram...
— Sim, Kael. Estes são os piratas de que falaram — disse Azuri, colocando a mão no ombro do amigo. — E este é o capitão deles, Monkey D. Luffy.
O silêncio que se seguiu foi denso. O nome "Luffy" e o sobrenome "Monkey D." carregavam um peso imenso ali, especialmente por ser o filho do homem que eles seguiam.
— O filho de Dragon... — sussurrou Kael, olhando para Luffy, que estava tentando equilibrar uma caneta no nariz enquanto esperava.
— Eu vim me despedir, Kael — continuou Azuri, sua voz ganhando uma firmeza solene. — Estou deixando a Terceira Divisão. Vou partir com eles.
Um murmúrio de choque percorreu a sala. Estrategistas pararam de mover peças nos mapas, e soldados baixaram seus relatórios.
— Mas por quê? — perguntou Kael, genuinamente confuso. — Você é a nossa melhor lanceira, Azuri. Sua vida é a Revolução! Kairus precisa de você para a reconstrução.
Azuri olhou para Luffy. O capitão agora estava observando uma grande bandeira revolucionária pendurada no teto. Ele não estava interferindo, não estava tentando convencê-la novamente. Ele apenas estava lá, uma presença sólida e vibrante.
— Eu passei minha vida inteira olhando para os muros desta ilha — começou Azuri, falando para Kael, mas de forma que todos no salão pudessem ouvir. — Eu lutei por cada centímetro deste chão. Mas hoje, quando eu estava caída na praça, prestes a morrer, eu percebi uma coisa. A Revolução não é apenas sobre libertar ilhas. É sobre libertar o mundo. E o mundo é muito maior do que Kairus.
Ela deu um passo à frente, a luz das tochas refletindo em seus cabelos brancos trançados.
— Luffy me ofereceu um lugar no navio dele. Ele me ofereceu o horizonte. Eu sinto que, se eu ficar aqui, minha lança vai enferrujar na burocracia da vitória. Mas se eu for com ele... eu poderei levar a chama que acendemos aqui para todos os cantos do mar. Eu não estou abandonando a causa. Estou expandindo-a.
Kael olhou para Azuri por um longo tempo, e depois para Luffy. Ele viu a cicatriz sob o olho do garoto e a confiança inabalável em sua postura.
— Dragon-sama sempre disse que o destino sopra onde quer — disse Kael, com um suspiro de resignação e respeito. — Se você acredita que seu caminho é com o Chapéu de Palha, quem somos nós para impedi-la? Mas saiba que Kairus sempre terá um porto aberto para você, Capitã Yakamani.
Vários soldados bateram no peito em saudação. Azuri retribuiu o gesto, o coração apertado, mas estranhamente leve.
— Pronto! — exclamou Luffy, que parecia ter decidido que a parte séria já tinha durado tempo demais. — Agora que resolvemos isso, vamos voltar! O Sanji disse que ia fazer um bolo gigante se você aceitasse!
— Luffy, eu já aceitei antes de virmos para cá — riu Azuri, permitindo que ele a puxasse pelo braço novamente.
Enquanto caminhavam de volta para o porto, o clima entre os dois mudou. A tensão da despedida havia passado, e uma nova dinâmica começava a se formar. Luffy não parava de falar sobre as aventuras que tiveram, sobre a ilha no céu e sobre o peixe gigante que eles comeram uma vez.
— E tem o Jinbe! Ele é um tubarão muito legal! E o Brook é um esqueleto que faz piadas de osso! Você vai adorar! — Luffy saltava sobre as poças d'água. — Ah, e tem a Nami. Ela é brava às vezes, mas é uma ótima navegadora. Só não peça dinheiro emprestado para ela.
Azuri ouvia tudo com um sorriso constante. A energia de Luffy era contagiosa, quase terapêutica. Ela percebeu que, ao lado dele, não havia espaço para o luto ou para o peso das perdas passadas. Havia apenas o presente e a promessa de um futuro eletrizante.
— Sabe, Luffy — disse ela, enquanto o Thousand Sunny aparecia no horizonte, iluminado por lanternas coloridas — meu irmão sempre dizia que o Rei dos Piratas seria a pessoa mais livre do mundo.
Luffy parou e olhou para o mar, o vento agitando as abas de seu chapéu.
— É isso mesmo. Eu vou ser o Rei dos Piratas porque quero ser o mais livre de todos! E meus companheiros vão ser livres comigo!
Azuri sentiu um arrepio percorrer sua espinha. Pela primeira vez em muito tempo, a tatuagem em seu pescoço não parecia um símbolo de um fardo, mas a marca de uma nova identidade.
Ao subirem a prancha, foram recebidos por um grito uníssono de "BEM-VINDA!".
Sanji apareceu com um prato de canapés sofisticados, ajoelhando-se diante de Azuri.
— Uma deusa das lanças e das tranças de prata! Minha alma de cozinheiro está em chamas para servi-la, Azuri-swan!
— Sai daí, cozinheiro tarado! — gritou Zoro, embora houvesse um brilho divertido em seus olhos.
Chopper correu até ela, pulando em seu colo.
— Azuri! Eu verifiquei seus curativos mentalmente e acho que você precisa de mais uma rodada de vitaminas! Mas primeiro, coma o bolo!
Nami aproximou-se e colocou a mão no ombro de Azuri, dando-lhe um sorriso de boas-vindas genuíno.
— Não ligue para a bagunça. Mas agora você é uma de nós. Isso significa que cuidamos uns dos outros.
Azuri olhou para cada um deles. Robin, Franky, Brook, Usopp, Jimbe... e, finalmente, para Luffy, que já estava tentando roubar um pedaço de carne do prato de Sanji e sendo chutado por isso.
Ela pegou sua lança, cravou a base no convés de grama do Sunny e olhou para o céu estrelado de Kairus.
— Eu estou pronta — disse ela, a voz clara e audível por cima da música de Brook. — Vamos para o próximo horizonte, capitão.
Luffy limpou a boca com as costas da mão e deu sua risada característica.
— Shishishi! É assim que se fala! Próxima parada... o fim do mundo!
A festa continuou pela madrugada adentro. Entre risadas, canções e histórias de batalhas, Azuri Yakamani finalmente sentiu que a lança que carregava não servia apenas para derrubar tiranos, mas para abrir caminho para os sonhos de um bando de piratas que, contra todas as probabilidades, haviam se tornado seu novo lar. A Revolução continuaria em Kairus, mas a lenda da Lança de Prata estava apenas começando a ser escrita nas águas do Novo Mundo.