Mugiwaras
O Despertar do Oceano e o Brilho do Aço
O sol nasceu no Novo Mundo não como uma esfera dourada e gentil, mas como uma explosão de laranja e púrpura que parecia incendiar as águas. Para Azuri Yakamani, aquele era o primeiro amanhecer em muitos anos em que o cheiro de pólvora e o som de marteladas metálicas não eram os primeiros a saudar seus sentidos. Em vez disso, havia o ranger rítmico do casco do Thousand Sunny cortando as ondas e o riso distante de uma rena que tentava pescar um peixe maior que ela mesma.
Azuri estava de pé na proa, as mãos apoiadas no parapeito de madeira. O vento marinho soprava forte, fazendo com que suas tranças brancas e prateadas dançassem freneticamente ao redor de seu rosto. Ela fechou os olhos por um momento, inspirando profundamente. Em Kairus, o ar era pesado, carregado com o peso da responsabilidade e da vigilância constante. Ali, no meio do nada azul, o ar parecia... leve.
— O mar tem um gosto diferente quando você não está fugindo de um navio de guerra, não é? — Uma voz profunda e calma quebrou seu transe.
Azuri abriu o olho direito e virou a cabeça levemente. Zoro estava ali, encostado no mastro, com os braços cruzados sobre o peito e as três espadas presas à cintura. Ele não a olhava diretamente; seus olhos estavam fixos no horizonte, mas havia uma espécie de reconhecimento silencioso em sua postura.
— É mais do que o gosto — respondeu Azuri, voltando a olhar para o mar. — É a falta de paredes. Em Kairus, mesmo quando vencíamos, sentíamos que o mundo estava se fechando sobre nós. Aqui, parece que ele está se abrindo.
Zoro deu um meio sorriso, quase imperceptível.
— Luffy tem esse efeito. Ele não entende o conceito de paredes. Para ele, se algo está no caminho, é apenas algo para ser atravessado.
— Notei isso ontem — comentou ela, tocando a cicatriz em seu olho esquerdo. — Ele luta com uma pureza que eu nunca vi em nenhum soldado revolucionário. Nós lutamos por uma causa. Ele luta porque... bem, porque ele quer.
— Ele luta porque é livre — corrigiu Zoro, finalmente olhando para ela. — E agora você também é. Mas não baixe a guarda. Este mar não perdoa quem se distrai com a paisagem.
Azuri sorriu e, em um movimento fluido, girou a lança que estava encostada ao seu lado, prendendo-a firmemente sob o braço.
— Eu não cheguei ao posto de capitã sendo distraída, espadachim. Se você quiser testar meus reflexos, sinta-se à vontade.
Zoro soltou uma risada curta e seca, seus olhos brilhando com um desafio repentino.
— Talvez mais tarde. Primeiro, você precisa sobreviver ao café da manhã do cozinheiro. Ele costuma ser... barulhento.
Como se fosse um sinal, o som de um gongo ecoou pelo navio, seguido pelo grito eufórico de Luffy.
— CARNEEEEE! SANJI, EU QUERO MAIS CARNE!
Azuri seguiu Zoro até a cozinha, onde a cena era o mais puro caos organizado. Sanji girava entre o fogão e a mesa com uma graça acrobática, servindo pratos que pareciam obras de arte. Luffy estava praticamente mergulhado em uma tigela de sopa, enquanto Usopp e Chopper discutiam animadamente sobre as propriedades medicinais de uma alga que haviam encontrado.
— Bom dia, Azuri-swan! — Sanji deslizou até ela, equilibrando um prato de omelete de ervas finas e um café fumegante. — Preparei algo leve para sua primeira manhã conosco. Uma rainha guerreira precisa de nutrição de primeira classe!
— Obrigada, Sanji — disse ela, sentando-se entre Nami e Robin. — O cheiro está incrível.
— Não deixe o Luffy chegar perto do seu prato, ou ele vai desaparecer em três segundos — avisou Nami, dando um gole em seu suco de laranja e conferindo um mapa estendido sobre a mesa.
— Eu ouvi isso, Nami! — protestou Luffy, com a boca cheia. — Eu só ia... experimentar um pedacinho!
— Fique longe do prato da nossa nova companheira, seu capitão esfomeado! — gritou Usopp, protegendo o seu próprio café com os braços.
Azuri observava a interação com uma curiosidade crescente. No Exército Revolucionário, as refeições eram momentos de estratégia e silêncio. Ali, cada conversa era uma explosão de personalidade. Ela sentiu uma mão suave em seu ombro e viu Robin sorrindo para ela.
— Você parece estar processando muita coisa, Azuri-san — disse a arqueóloga. — É uma mudança drástica de estilo de vida.
— É — admitiu Azuri, saboreando a omelete. — Eu passei dez anos recebendo ordens de Dragon ou dando ordens aos meus subordinados. Ver vocês agindo assim... é como se não houvesse hierarquia.
— Oh, há uma hierarquia — disse Jimbe, que estava sentado na ponta da mesa, com sua presença calma e imponente. — Mas ela não é baseada em patentes. É baseada em confiança. Luffy é o capitão, mas ele confia a vida dele a cada um de nós, e nós confiamos a nossa a ele. É o que nos torna um bando.
Luffy, que parecia ter terminado sua montanha de comida em tempo recorde, inclinou-se sobre a mesa, olhando fixamente para Azuri.
— Ei, Azuri! O que você quer fazer hoje?
A pergunta pegou a lanceira de surpresa.
— O que eu quero fazer? Bem... eu achei que haveria tarefas, ou patrulhas...
— Não, não! — Luffy riu, balançando as pernas no banco. — O Sunny está indo para a próxima ilha, mas até lá, o tempo é nosso! Você quer pescar? Quer ver o laboratório do Franky? Ou quer lutar com o Zoro? Ele está querendo lutar com você desde que viu sua lança!
— Eu não disse isso! — resmungou Zoro do canto da sala, embora sua mão estivesse coçando no punho da espada.
Azuri olhou para Luffy e viu a sinceridade absoluta em seus olhos. Ele não queria uma subordinada; ele queria uma amiga. Ele queria que ela fosse feliz. Aquilo tocou um lugar em seu coração que ela achava que estava enterrado sob camadas de dever militar.
— Eu gostaria de conhecer o navio — disse ela, finalmente. — E talvez... talvez eu aceite o desafio do Zoro mais tarde. Quero ver se as espadas dele são tão rápidas quanto dizem as lendas.
— SHISHISHI! Viu, Zoro? Ela é das nossas! — Luffy saltou da mesa. — Vamos! Eu vou te mostrar o lugar mais legal de todos!
O resto da manhã foi um borrão de cores e sons. Luffy a levou para o topo do mastro, onde a vista do oceano era infinita e assustadora. Ele a levou para o "Soldier Dock System", onde Franky explicou, com muitas poses e gritos de "SUPER", como o navio funcionava. Ela passou algum tempo com Brook, que tocou uma melodia suave no violino enquanto ela contava histórias sobre as lendas de Kairus.
À tarde, o calor do sol estava no auge, e o convés gramado do Sunny tornou-se o palco para o que todos estavam esperando.
Zoro e Azuri se posicionaram em extremidades opostas do convés principal. O bando se reuniu para assistir, alguns com apostas (Nami), outros com cadernos de anotações (Chopper) e Luffy, sentado no topo da cabeça do Sunny, assistindo com um sorriso de expectativa.
— Regras? — perguntou Azuri, ajustando a lança em suas mãos. O metal da ponta dupla brilhava intensamente.
— Não morra — respondeu Zoro, amarrando o lenço preto na cabeça. Ele desembainhou as três espadas, o peso de sua aura mudando instantaneamente de um preguiçoso para um predador.
— Justo — disse ela.
Azuri não esperou. Ela avançou com uma velocidade que surpreendeu até mesmo Sanji. Sua lança não era apenas uma arma de estocada; ela a girava como um moinho, criando uma barreira de vento e metal. Zoro bloqueou o primeiro golpe com a Shusui e a Wado Ichimonji, mas sentiu o impacto vibrar até seus ombros.
— Haki de Armamento... — murmurou Zoro, sentindo a dureza da lança. — Nada mal.
— Você ainda não viu nada! — Azuri saltou, usando a haste da lança para se impulsionar no ar. Ela desceu como um falcão, a ponta da lança envolta em uma aura prateada. — Estilo Yakamani: Presa do Vento!
Zoro girou, suas espadas tornando-se um borrão de aço.
— Santoryu: Kokujo O-Tatsu Maki! — Um enorme redemoinho de vento cortante surgiu, colidindo com o ataque de Azuri.
O impacto criou uma onda de choque que fez as velas do Sunny enfunarem. Azuri aterrissou com leveza, deslizando pela grama até parar na borda. Ela estava ofegante, mas seus olhos brilhavam com uma alegria selvagem que ela não sentia há anos.
— Você é realmente forte, Roronoa — disse ela, limpando uma gota de suor da testa. — Minha lança raramente encontra um obstáculo que não pode perfurar.
— E as minhas espadas não costumam ser paradas por um "palito" — retribuiu Zoro, embora houvesse um respeito profundo em sua voz.
Luffy saltou do seu posto de observação, aterrissando entre os dois.
— ISSO FOI INCRÍVEL! — gritou ele, socando o ar. — Azuri, você é super rápida! E Zoro, você quase cortou o mastro de novo!
— Quase não conta, Luffy! — gritou Nami lá de cima.
A luta terminou ali, não por cansaço, mas porque a tensão havia se dissipado, substituída por um novo entendimento. Azuri provou seu valor, não como uma revolucionária, mas como uma guerreira.
Ao cair da noite, o Sunny navegava sob um céu coalhado de estrelas. O bando estava espalhado pelo convés. Usopp contava uma de suas mentiras mirabolantes para Chopper, que acreditava em cada palavra com os olhos arregalados. Franky e Brook tentavam harmonizar uma canção nova.
Azuri estava sentada na escada que levava ao convés superior, polindo sua lança com um pano macio. Luffy aproximou-se e sentou-se ao lado dela, balançando as pernas curtas.
— Ei, Azuri — disse ele, olhando para as estrelas. — Você está gostando?
Ela parou de polir a arma e olhou para o grupo à sua frente. Ela viu a alegria, a liberdade e, acima de tudo, a aceitação. Ela pensou em seu irmão, que morreu sonhando com um mundo onde as pessoas pudessem rir assim, sem medo do que o amanhã traria.
— Sim, Luffy — respondeu ela, sua voz suave e carregada de emoção. — Eu estou gostando muito. Eu passei tanto tempo lutando por um futuro melhor que esqueci como era viver o presente.
Luffy olhou para ela e sorriu, aquele sorriso que parecia capaz de iluminar o oceano inteiro.
— O futuro é chato se você não se divertir no caminho! — Ele se levantou e esticou os braços. — Amanhã vamos encontrar uma ilha de doces, ou talvez uma ilha que flutua! Quem sabe?
— Quem sabe — repetiu ela, rindo.
Pela primeira vez em sua vida, Azuri Yakamani não sabia o que o próximo dia traria, e pela primeira vez, ela não estava com medo. Ela era uma pirata, uma companheira do futuro Rei dos Piratas, e o horizonte nunca pareceu tão brilhante. Ela guardou sua lança, levantou-se e juntou-se ao resto do bando, deixando que a música de Brook e o som das ondas a guiassem para sua nova vida.