Mui
Entre o Veludo e a Nicotina
A recepção de gala da cúpula internacional era tudo o que China considerava um "mal necessário". O salão estava impregnado com o cheiro de perfumes caros, champanhe de safra e o som monótono de violinos que tentavam dar um ar de sofisticação à hipocrisia diplomática. Para ele, cada minuto ali era um exercício de paciência e autocontrole. Ele ajustou os óculos e verificou o relógio de pulso; já haviam passado duas horas, e tudo o que ele queria era voltar para a quietude de seu escritório e terminar de analisar os gráficos de crescimento do PIB.
No entanto, havia um fator de instabilidade naquele ambiente controlado. E esse fator atendia pelo nome de Brasil.
China percorreu o salão com seus olhos vermelhos escuros, procurando pela figura inquieta e barulhenta. Ele o encontrou perto de uma das grandes janelas de vidro que davam para o jardim suspenso. Brasil estava cercado por alguns representantes europeus, rindo de alguma piada que provavelmente era inadequada para o ambiente. O terno verde-escuro que China o ajudara a escolher (e a vestir) caía perfeitamente em seu corpo magro e atlético, mas a postura de Brasil era tudo menos formal.
E então, o que China mais temia aconteceu.
Com uma audácia que beirava o insulto, Brasil deslizou a mão para o bolso interno do paletó e retirou um cigarro. Sem qualquer hesitação, ele o acendeu, deixando uma nuvem de fumaça cinzenta flutuar em direção aos lustres de cristal.
As sobrancelhas de China se contraíram violentamente. Ele sentiu a mandíbula travar.
— Com licença — murmurou China para o embaixador com quem conversava, sua voz fria como o gelo.
Ele caminhou pelo salão com passos largos e decididos. A aura de autoridade que ele emanava era o suficiente para fazer as pessoas se afastarem involuntariamente. Quando ele chegou ao círculo onde Brasil estava, o brasileiro nem sequer se deu ao trabalho de esconder o cigarro. Pelo contrário, ele deu uma tragada profunda, soltando a fumaça lentamente enquanto olhava para China com um brilho desafiador nos olhos.
— Brasil — a voz de China era um sussurro perigoso. — Fora. Agora.
— Ah, qual é, Chininha? — Brasil sorriu, e aquele dente de morcego apareceu de forma provocante. — A festa estava começando a ficar chata. Eu só estou dando um pouco de "ar" ao ambiente.
— Você está violando três protocolos de segurança e higiene diferentes neste exato momento — retrucou China, ignorando os olhares curiosos ao redor. — Eu não vou repetir.
Brasil soltou uma risadinha, mas o olhar de China não era de quem estava brincando. Percebendo que o colega estava genuinamente no limite, Brasil deu de ombros, entregando uma desculpa esfarrapada aos diplomatas e seguindo China em direção aos corredores de serviço, que estavam desertos e silenciosos.
Assim que a porta pesada se fechou atrás deles, isolando o som da música, China se virou. Mas Brasil foi mais rápido. Ele se encostou na parede de mármore do corredor vazio, cruzando as pernas e levando o cigarro à boca novamente, com uma insolência que beirava o insuportável.
— Satisfeito, senhor Disciplina? — Brasil provocou, a fumaça saindo por seus lábios entreabertos. — Estamos sozinhos. Pode começar o sermão. Eu até trouxe o cigarro para você ter um motivo para me dar bronca.
China sentiu algo se romper dentro de si. Não era apenas o desrespeito às regras; era a forma como Brasil parecia se deleitar em testar cada milímetro de sua paciência, como se a sanidade de China fosse um brinquedo. Ele deu um passo à frente, invadindo o espaço pessoal de Brasil de uma maneira que nunca havia feito antes.
— Você acha que isso é uma brincadeira? — China perguntou, sua voz baixa e vibrante de uma raiva contida. — Você tem ideia da imagem que passa agindo como um adolescente rebelde em uma cúpula de alto nível?
— Eu acho que você se importa demais com o que os outros pensam — Brasil respondeu, inclinando a cabeça para o lado. Ele não recuou. Pelo contrário, ele soprou a fumaça diretamente no rosto de China. — E eu acho que você está morrendo de vontade de perder o controle pelo menos uma vez na vida.
O gesto foi o estopim.
Em um movimento rápido e fluido, China avançou. Antes que Brasil pudesse reagir, China segurou seus pulsos e os prendeu contra a parede fria de mármore, acima da cabeça do brasileiro. O impacto seco das costas de Brasil contra a parede ecoou pelo corredor.
Brasil soltou um suspiro de surpresa, seus olhos se arregalando. O cigarro ainda estava preso entre seus lábios, mas ele estava imóvel.
China estava tão perto que seus peitos se tocavam. A diferença de altura era evidente agora; China tinha que olhar levemente para baixo para encarar Brasil. A respiração de China estava pesada, e seus olhos vermelhos brilhavam com uma intensidade que Brasil nunca tinha visto.
— Você quer que eu perca o controle, Brasil? — China sibilou, seu rosto a centímetros do dele. — É isso que você quer? Me provocar até que eu não consiga mais seguir as regras?
Brasil sentiu o coração disparar contra as costelas. A força nas mãos de China era evidente, e o calor que emanava do corpo do chinês era quase sufocante. Pela primeira vez, a confiança irritante de Brasil vacilou. Ele tentou dizer algo, mas a proximidade era tanta que ele podia sentir o hálito de menta de China contra sua pele.
— Eu... — Brasil começou, mas a voz falhou.
O silêncio no corredor tornou-se denso, carregado de uma eletricidade que não tinha nada a ver com política ou trabalho. China olhou para os lábios de Brasil, para o cigarro que ainda fumegava ali, e depois voltou para os olhos esverdeados do outro. Por um momento eterno, pareceu que China iria encurtar a distância final. Ele se inclinou, o nariz roçando no de Brasil, seus lábios quase se tocando em uma promessa silenciosa de algo que ambos vinham ignorando há semanas.
Brasil fechou os olhos instintivamente, esperando pelo impacto.
Mas o impacto não veio.
Em vez disso, China soltou um dos pulsos de Brasil e, com uma precisão cirúrgica, retirou o cigarro da boca dele.
China afastou-se apenas alguns centímetros, o suficiente para que Brasil abrisse os olhos, confuso e com a respiração curta. China levou o cigarro de Brasil aos seus próprios lábios, dando uma tragada curta e rápida, antes de soltar a fumaça para o lado com um olhar de desdém.
— Isso é nojento — disse China, sua voz recuperando a frieza habitual, embora ainda houvesse um rastro de rouquidão nela.
Ele soltou o outro pulso de Brasil e deu um passo para trás, recuperando sua postura impecável. Ele apagou o cigarro na palma da mão enluvada, guardando o que restou em um pequeno lenço de seda que tirou do bolso.
Brasil permaneceu encostado na parede, os braços caindo lentamente ao lado do corpo. Ele parecia atordoado, suas bochechas queimando em um tom de vermelho que rivalizava com os olhos de China.
— Você... você roubou meu cigarro — Brasil finalmente conseguiu dizer, tentando recuperar seu tom brincalhão, embora sua voz estivesse trêmula.
— Eu confisquei uma propriedade inadequada — corrigiu China, ajustando a gravata de Brasil, que havia se desalinhado durante o breve confronto. Seus dedos tocaram o pescoço de Brasil novamente, e ele sentiu o pulso do brasileiro acelerado sob sua pele. — E se eu pegar você com outro desses hoje, as consequências não serão tão... diplomáticas.
Brasil engoliu em seco. Ele olhou para China, que agora agia como se nada tivesse acontecido, embora o brilho nos olhos vermelhos ainda estivesse lá, escondido atrás das lentes dos óculos.
— Você quase me beijou — Brasil acusou, um sorriso torto e nervoso começando a surgir em seu rosto.
China parou de ajustar a gravata e olhou-o diretamente nos olhos.
— Eu fiz o que foi necessário para silenciar você — respondeu China, sem negar nem confirmar. — Agora, recomponha-se. Temos uma recepção para terminar.
China virou-se e começou a caminhar de volta para o salão de festas, sua capa fluindo atrás dele com a elegância de sempre.
Brasil ficou parado no corredor por mais alguns segundos, levando a mão ao peito para tentar acalmar o coração. Ele passou a língua pelo dente de morcego, sentindo o gosto residual do tabaco e a lembrança do calor de China.
— Caramba... — sussurrou Brasil para as paredes vazias. — Acho que eu vou precisar de outro cigarro.
Mas, ao olhar para a porta por onde China havia saído, ele decidiu que, talvez, apenas por aquela noite, ele pudesse seguir as regras. Afinal, a punição de China era muito mais interessante do que qualquer vício que ele pudesse ter.
Ele ajeitou o paletó, respirou fundo e seguiu o chinês, com um novo tipo de brilho nos olhos e a certeza de que o jogo entre eles estava apenas começando.