Mui
Entre Laços e Cabines
O salão de gala parecia ter ficado subitamente mais frio e vazio. China segurava uma taça de champanhe intocada, seus olhos vermelhos escuros varrendo cada canto do ambiente com uma precisão quase militar. Ele havia voltado para a festa esperando sentir o habitual alívio de estar sob as luzes da diplomacia, mas sua mente estava em outro lugar. Mais especificamente, estava presa naquele corredor de mármore, a poucos centímetros dos lábios de Brasil.
Ele se sentia um tolo. Pela primeira vez em seus vinte e cinco anos de vida pautada por lógica e disciplina, China experimentava o amargo sabor do arrependimento. Por que ele não havia avançado? A tensão entre eles era palpável, uma corda esticada ao ponto de ruptura, e ele, o mestre da estratégia, havia recuado no último segundo.
— Onde está aquele idiota? — resmungou China para si mesmo, sentindo uma irritação crescente que não tinha nada a ver com o protocolo.
Dez minutos se passaram. Depois quinze. A ausência de Brasil começou a incomodá-lo fisicamente, como uma peça faltando em um quebra-cabeça que ele precisava resolver. China deixou a taça em uma mesa lateral e, sem dar explicações a ninguém, retirou-se novamente do salão principal.
Ele percorreu os corredores laterais, o som de seus sapatos ecoando no chão polido. Ele verificou a varanda, o jardim e até a sala de fumo — que, para sua surpresa, estava vazia. Por fim, seus passos o levaram em direção aos banheiros luxuosos da ala leste.
Ao entrar no toalete masculino, o silêncio foi quebrado por um som de luta abafada e alguns xingamentos em português que China já havia aprendido a identificar como sinais de frustração extrema.
— Droga... desgraça de pano... solta, porra!
China caminhou até a área dos espelhos e encontrou a cena: Brasil estava diante do reflexo, o rosto vermelho de esforço, lutando contra a gravata verde e amarela que ele mesmo, China, havia dado o nó perfeito momentos antes. De alguma forma, Brasil conseguira transformar o nó em uma maçaroca apertadíssima que agora parecia estar, literalmente, sufocando-o.
— Pelo visto, você não consegue passar dez minutos sem tentar se autodestruir — disse China, cruzando os braços e observando a cena pelo espelho.
Brasil deu um pulo, assustado, e olhou para China com os olhos arregalados. Seu cabelo estava mais bagunçado que o normal e o paletó estava entreaberto.
— Chininha! Graças a Deus! — Brasil exclamou, a voz saindo um pouco esganiçada devido ao aperto no pescoço. — Eu fui tentar afrouxar um pouco porque tava calor, sabe? E aí eu puxei o lado errado e agora... eu acho que vou morrer enforcado por uma seda de grife. Que morte patética, né?
China soltou um suspiro longo, mas havia um brilho de diversão — e algo mais — em seus olhos. Ele se aproximou, ficando novamente no espaço pessoal de Brasil.
— Fique parado. Você só está piorando a situação ao puxar assim.
— É o que eu faço, né? Pioro as coisas — Brasil provocou, embora houvesse uma vulnerabilidade genuína em seu olhar enquanto China levava as mãos ao seu pescoço. — Mas você adora consertar minhas bagunças, não adora?
China não respondeu. Ele estava concentrado em desamarrar o nó cego que Brasil havia criado. O problema era que, com a adrenalina da busca e o arrependimento anterior ainda pulsando em suas veias, ter Brasil tão perto novamente era um teste de resistência. A diferença de altura dificultava o ângulo; China precisava se inclinar de forma desajeitada para ver o que estava fazendo sob o queixo do brasileiro.
— Você é muito baixo — murmurou China, seus dedos roçando a pele quente do pescoço de Brasil.
— E você é um poste — rebateu Brasil, sorrindo e exibindo o dente de morcego. — Mas é um poste bem bonito, eu admito.
Antes que China pudesse retrucar, o som de vozes altas e risadas ecoou do lado de fora. Passos pesados se aproximavam da porta do banheiro. Eram claramente diplomatas de alto escalão, provavelmente bêbados o suficiente para serem indiscretos.
China congelou. A última coisa de que precisavam era serem flagrados naquela posição comprometedora — o representante da China curvado sobre o representante do Brasil, cujas roupas estavam desalinhadas e o rosto corado. Os boatos destruiriam meses de trabalho diplomático.
— Droga — sussurrou China.
Sem pensar duas vezes, ele agarrou Brasil pelo braço e o puxou com força para dentro da cabine de banheiro mais próxima, trancando a porta silenciosamente apenas um segundo antes de os outros homens entrarem no toalete.
O espaço era minúsculo. China sentiu as costas contra a porta da cabine, enquanto Brasil estava prensado entre ele e o vaso sanitário. O som das vozes lá fora era abafado, mas perfeitamente audível.
— Precisamos esperar eles saírem — sussurrou China, o coração batendo forte.
— No banheiro? — Brasil sussurrou de volta, uma centelha de travessura brilhando em seus olhos apesar da situação. — Isso é bem mais emocionante do que a recepção, Chininha.
China olhou para baixo. O espaço no chão era reduzido. Se alguém olhasse por baixo da porta da cabine, veria quatro sapatos, o que denunciaria imediatamente que havia duas pessoas ali dentro.
— Sente-se — ordenou China em um sussurro imperioso, apontando para o vaso sanitário fechado.
Brasil arqueou uma sobrancelha. — O quê?
— Se virem dois pares de sapatos, vão desconfiar. Sente-se no vaso e levante os pés.
Brasil soltou uma risadinha abafada. — E você vai ficar em pé onde? Não tem espaço, cara.
China olhou para o espaço exíguo. Ele tomou uma decisão rápida, movido por uma audácia que não lhe pertencia. Ele se sentou sobre a tampa do vaso sanitário e olhou para Brasil.
— Sente no meu colo — mandou China, a voz firme, embora seu rosto estivesse queimando.
Brasil estacou. O rubor em suas bochechas intensificou-se instantaneamente. — O-o quê? Ficou maluco, China?
— É a única forma de esconder nossos pés e manter o silêncio — explicou China, embora soubesse que era uma desculpa conveniente. — Agora, ande logo antes que eles resolvam usar esta cabine.
Brasil hesitou, olhando para China como se o visse pela primeira vez. A seriedade no rosto do chinês não escondia a tensão em seus ombros. Lentamente, Brasil se aproximou. O espaço era tão pequeno que seus joelhos batiam nos de China.
— Você é muito mandão — murmurou Brasil, mas, pela primeira vez, ele parecia genuinamente envergonhado.
Ele fez menção de se sentar de lado, mas China, perdendo a paciência com a hesitação, segurou-o firmemente pela cintura e o puxou. Brasil soltou um arquejo baixo quando foi forçado a se sentar a cavalo no colo de China, com uma perna de cada lado do quadril do mais velho.
Nessa movimentação brusca, a gravata que China tentava desamarrar finalmente cedeu, mas não da forma esperada. O tecido escorregou completamente do pescoço de Brasil e caiu no chão da cabine, esquecida.
O silêncio entre eles tornou-se absoluto, quebrado apenas pelo som dos diplomatas lavando as mãos do lado de fora.
China segurava a cintura de Brasil com as duas mãos, sentindo a firmeza dos músculos do brasileiro através do tecido fino do paletó. Brasil, por sua vez, apoiava as mãos nos ombros de China para se equilibrar. A proximidade era total. Como a camisa de Brasil estava com os primeiros botões abertos e a gravata havia caído, uma boa porção de seu peito e a linha da clavícula estavam expostas aos olhos de China.
— China... — Brasil sussurrou, sua voz carregada de uma incerteza que ele raramente demonstrava.
China não conseguia desviar o olhar. A pele de Brasil parecia brilhar sob a luz fraca da cabine. Ele podia ver a pulsação rápida no pescoço do outro, sentir o calor que emanava daquele corpo atlético e magro. O cheiro de Brasil — cítrico, tabaco e algo puramente humano — preenchia seus sentidos.
— Eu disse para você não fumar — murmurou China, mas sua voz não tinha autoridade. Era quase um carinho.
— E eu disse que você precisava relaxar — Brasil respondeu, recuperando um pouco de sua coragem. Ele se inclinou para frente, reduzindo a distância entre seus rostos a milímetros. — Você ainda está segurando minha cintura com muita força.
China percebeu que seus dedos estavam cravados no tecido do terno de Brasil. Ele afrouxou o aperto, mas não soltou. Em vez disso, suas mãos subiram lentamente, subindo pelas costas de Brasil até pararem na nuca, onde os cabelos escuros eram macios ao toque.
Lá fora, a porta do banheiro finalmente se fechou. Os diplomatas haviam saído.
Mas nenhum dos dois se moveu.
— Eles já foram — disse Brasil, mas ele não fez menção de levantar. Seus olhos estavam fixos nos lábios de China.
— Eu sei — respondeu China.
O arrependimento que China sentira no corredor desapareceu, substituído por uma determinação feroz. Ele não cometeria o mesmo erro duas vezes. Se Brasil queria provocá-lo até que ele perdesse o controle, então Brasil teria exatamente o que desejava.
China inclinou a cabeça, seus olhos vermelhos escuros encontrando os esverdeados de Brasil.
— Você fala demais, Brasil — sussurrou China.
— Então me cala — desafiou o brasileiro, o canto da boca se elevando naquele sorriso de morcego que sempre levava China à loucura.
China não precisou de outro convite. Ele selou a distância entre eles, pressionando seus lábios contra os de Brasil em um beijo que não tinha nada de diplomático. Era um beijo carregado de toda a irritação, tensão e desejo que vinham se acumulando desde o primeiro dia em que trabalharam juntos.
Brasil soltou um gemido baixo contra a boca de China, suas mãos se entrelaçando nos cabelos escuros do chinês, puxando-o para mais perto, se é que isso era possível. O beijo era profundo, urgente, uma conversa que as palavras nunca seriam capazes de traduzir.
Quando se separaram por falta de ar, ambos estavam ofegantes. Brasil encostou a testa na de China, os olhos fechados, um sorriso genuíno e suave brincando em seus lábios.
— É... — Brasil ofegou. — Definitivamente melhor que um cigarro.
China soltou uma risada curta e rouca, algo que Brasil nunca o vira fazer. Ele apertou Brasil em seus braços por um momento, sentindo a realidade daquela conexão.
— Vamos sair daqui — disse China, recuperando um pouco de sua compostura, embora seus olhos ainda brilhassem. — Antes que alguém realmente precise usar o banheiro.
Brasil riu e se levantou, pegando a gravata caída no chão. Ele olhou para o pedaço de seda amassado e depois para China, que já estava de pé, ajeitando seu próprio terno impecável.
— Ei, China? — Brasil chamou, enquanto abria a porta da cabine.
China olhou para ele.
— Amanhã de manhã... você ainda vai me ajudar com a gravata?
China caminhou até ele, parando na porta. Ele estendeu a mão e ajeitou uma mecha rebelde do cabelo de Brasil.
— Amanhã, Brasil, eu vou te ensinar a fazer o nó. Mas — China inclinou-se e sussurrou perto do ouvido dele — se você "esquecer" como se faz... eu não me importaria de ajudar novamente.
Brasil piscou, surpreso com a confissão direta, e seguiu China para fora do banheiro com um passo muito mais leve. A noite de gala ainda não havia acabado, e embora o trabalho continuasse no dia seguinte, ambos sabiam que as regras do jogo haviam mudado para sempre. Entre a seda da gravata e a fumaça do cigarro, eles haviam encontrado algo muito mais viciante.