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Mui

Entre Cicatrizes e Confissões

A nevasca lá fora havia transformado Pequim em um deserto de marfim, mas dentro do apartamento de China, o ar era denso e carregado de um calor que não vinha dos aquecedores. O sedã oficial os deixara na garagem privativa, e o trajeto até a cobertura fora feito em um silêncio tenso, interrompido apenas pelo som das respirações ainda descompassadas.

Assim que a porta blindada se fechou, China não acendeu as luzes principais. Apenas os reflexos da cidade cobertos pela neve filtravam-se pelas enormes janelas de vidro, banhando a sala em tons de azul e prata.

Brasil jogou a mochila em um canto qualquer, sentindo-se estranhamente vulnerável naquele ambiente tão minimalista e organizado. Era a primeira vez que entrava no santuário pessoal de China. Tudo ali cheirava a ordem: os livros perfeitamente alinhados, os móveis de linhas retas, a ausência total de cinzeiros.

— Você quer um chá? — perguntou China, retirando o paletó de lã e pendurando-o com uma precisão mecânica no mancebo.

— Eu quero que você pare de agir como se estivéssemos em uma reunião de cúpula — respondeu Brasil, a voz saindo mais baixa do que pretendia. Ele caminhou até China, parando a poucos centímetros. — O carro foi real, ou foi só a falta de oxigênio da nevasca?

China virou-se lentamente. Seus olhos vermelhos pareciam emitir um brilho próprio na penumbra. Ele estendeu a mão, tocando a lateral do rosto de Brasil, o polegar roçando o lábio inferior onde o dente de morcego costumava cutucar.

— Foi a coisa mais real que fiz em anos — confessou China — e, provavelmente, a mais imprudente.

Brasil sorriu, aquele sorriso que costumava irritar China, mas que agora parecia um convite. Ele segurou a barra do moletom cinza e, com um movimento fluido, puxou-o para cima, descartando a peça no chão. O peito bronzeado e a barriga definida ficaram expostos novamente, mas desta vez, sem a barreira do banco de couro de um carro.

China sentiu a garganta secar. Ele deu um passo à frente, as mãos encontrando a cintura de Brasil, mas parou abruptamente quando seus olhos captaram algo na lateral das costelas do brasileiro. Sob a luz pálida da lua, uma cicatriz longa e irregular marcava a pele de Brasil, subindo em direção às costas.

— O que é isso? — perguntou China, a voz suavizando-se em uma nota de preocupação que ele raramente demonstrava.

Brasil olhou para baixo, um pouco desconfortável.

— Ah, isso? Ossos do ofício, Chininha. Uma lembrança de um protesto que ficou meio... quente demais há uns anos. Coisa de país jovem, sabe como é. A gente cai, sangra, mas levanta com um sorriso.

China traçou o contorno da cicatriz com a ponta dos dedos. O toque era leve, quase um sussurro, mas Brasil sentiu um arrepio percorrer toda a sua espinha. Para China, aquela marca era um lembrete de que, por trás de todas as piadas e da fumaça de cigarro, havia um país que lutava, que sofria e que tinha uma resiliência que ele, em sua milenar estrutura, às vezes esquecia de valorizar.

— Você se arrisca demais — murmurou China, aproximando o rosto da marca e deixando um beijo casto sobre o tecido cicatrizado.

— E você se protege demais — rebateu Brasil, sentindo o coração martelar contra as costelas. — Às vezes, a gente precisa de um pouco de caos para saber que está vivo.

Brasil não esperou por uma resposta. Ele envolveu o pescoço de China com os braços e o puxou para um beijo profundo. A diferença de altura ainda estava lá, mas agora Brasil se impunha, guiando o ritmo. China respondeu com uma intensidade avassaladora, as mãos descendo para as coxas de Brasil e levantando-o do chão com uma facilidade atlética.

Brasil entrelaçou as pernas na cintura de China, soltando um gemido baixo quando sentiu a firmeza do corpo do outro contra o seu. China o carregou em direção ao quarto, sem nunca romper o contato dos lábios.

O quarto de China era tão sóbrio quanto o resto da casa, com lençóis de seda escura que pareciam convidar ao pecado. China o depositou na cama com cuidado, mas logo se posicionou sobre ele, as mãos prendendo os pulsos de Brasil contra o colchão, repetindo a pose do corredor do Ministério, mas com uma intenção muito mais definitiva.

— Sem cigarros? — provocou Brasil, arquejando, os olhos brilhando de luxúria.

— Sem cigarros — confirmou China, descendo os beijos para a curva do pescoço de Brasil. — Só você.

A noite avançou enquanto o mundo lá fora desaparecia sob o gelo. Entre lençóis de seda e suspiros abafados, as barreiras diplomáticas ruíram completamente. Não havia mais o "certinho" e o "rebelde", apenas dois homens descobrindo os pontos cegos um do outro. China descobriu que Brasil era mais sensível do que aparentava, e Brasil descobriu que China, sob toda aquela casca de gelo, era um vulcão capaz de consumir tudo ao seu redor.

Horas depois, quando a respiração de ambos já havia voltado ao normal, eles estavam deitados de lado, observando a neve cair lá fora. Brasil estava aninhado contra o peito de China, sentindo o braço forte do mais velho ao redor de sua cintura.

— China? — chamou Brasil em um sussurro.

— Hum?

— Você sabe que amanhã, quando a gente chegar no Ministério, eu vou acender um cigarro só para ver você ficar bravo, né?

China soltou um riso baixo, um som que agora parecia familiar e quente.

— Eu sei. E eu vou confiscar o seu isqueiro e te levar para o arquivo morto para te dar uma bronca de trinta minutos.

Brasil virou-se, apoiando o queixo no peito de China, o dente de morcego aparecendo em um sorriso vitorioso.

— Trinta minutos? Acho que a gente pode negociar esse tempo para algo mais... produtivo.

China revirou os olhos, mas não conseguiu esconder o sorriso. Ele puxou o cobertor para cobrir os ombros de Brasil e o beijou na testa.

— Durma, Brasil. Amanhã temos relatórios e crises internacionais.

— E gravatas — lembrou Brasil, fechando os olhos. — Não esquece que eu ainda não sei fazer o nó.

— Eu nunca esqueceria — murmurou China, fechando os olhos também.

Ali, no silêncio da noite de Pequim, entre o cheiro de café que ainda impregnava a memória de Brasil e a disciplina que China tanto prezava, eles encontraram um equilíbrio improvável. O mundo continuaria girando, as tensões políticas continuariam existindo, mas, por enquanto, a única fronteira que importava era o espaço entre seus corpos, e essa, eles haviam decidido, estaria sempre aberta.