Mui
Entre o Aroma de Grãos e o Couro do Carro
A cafeteria era um refúgio de madeira escura e luzes amareladas, um contraste gritante com o cinza opressivo do céu de Pequim. Brasil estava sentado em uma mesa de canto, longe da janela para evitar o vento que começava a uivar lá fora. Ele segurava uma caneca grande de cerâmica, sentindo o calor do café com leite passar para suas mãos. O moletom cinza ainda o abraçava, e ele se sentia estranhamente leve, apesar da frustração de ter sido interrompido mais cedo no escritório de China.
Ele levou a caneca aos lábios, sentindo o gosto doce e reconfortante, quando seu celular vibrou violentamente sobre a mesa de madeira. O nome no visor fez seu coração dar um salto que ele jamais admitiria em voz alta: "China".
— Alô? — Brasil atendeu, sua voz carregada de uma preguiça provocante. — Já está com saudades, Chininha? A reunião foi tão chata assim?
— Onde você está? — A voz de China veio do outro lado da linha, firme e direta, mas havia um matiz de pressa que não passou despercebido pelo brasileiro.
— Estou em um café aqui perto do metrô da linha quatro — respondeu Brasil, olhando para a espuma que restava em sua caneca. — Por quê? Vai me mandar uma multa por não estar usando terno em público?
— Fique onde está — ordenou China, ignorando a piada. — A nevasca começou mais cedo do que o previsto. O transporte público vai entrar em colapso em trinta minutos. Eu vou te buscar.
— Ih, olha só! — Brasil riu, sentindo um calorzinho diferente no peito. — Meu cavaleiro de armadura de seda vem me salvar. Tá bom, estou no "Lotus Café". Não demora, ou eu vou acabar pedindo um cigarro pra garçonete.
— Não ouse — disse China, antes de desligar abruptamente.
Brasil guardou o celular, um sorriso bobo brincando em seus lábios. Ele passou a língua pelo dente de morcego, lembrando-se da sensação dos lábios de China em seu pescoço apenas uma hora antes. A provocação era seu jogo favorito, mas o que estava acontecendo entre eles estava começando a parecer algo muito mais viciante que qualquer substância que ele já tivesse experimentado.
Cerca de quinze minutos depois, um sedã preto de vidros fumegantes parou suavemente em frente à cafeteria. Era um carro oficial, elegante e discreto. Brasil deixou algumas notas sobre a mesa e saiu correndo para o frio, encolhendo-se dentro do moletom até alcançar a porta traseira do veículo.
Ao entrar, o calor do sistema de aquecimento o envolveu instantaneamente. O cheiro dentro do carro era o cheiro de China: sândalo, papel novo e uma pitada quase imperceptível de chá verde. China já estava sentado no banco de trás, com o notebook fechado sobre os joelhos. O carro era um modelo de última geração, com direção automática assistida, o que permitia que o interior fosse quase como uma pequena sala de estar privativa.
— Você demorou — provocou Brasil, jogando-se no banco de couro macio ao lado do chinês. — Quase congelei o nariz.
China olhou para ele, seus olhos vermelhos escuros percorrendo o rosto de Brasil antes de se fixarem no moletom cinza.
— Você está encharcado de neve — observou China, sua voz baixa. Ele estendeu a mão e puxou o capuz do moletom de Brasil, sacudindo os flocos de gelo que começavam a derreter.
— É o charme do inverno — Brasil sorriu, aproximando-se um pouco mais, invadindo o espaço de China como sempre fazia. — Mas e aí? A reunião foi produtiva ou você só ficou pensando em mim o tempo todo?
China soltou um suspiro pesado, mas não se afastou. Ele sinalizou para o painel do carro, e o veículo começou a se mover suavemente pelo tráfego já lento da cidade. A privacidade ali era absoluta; o vidro divisório entre a cabine e a frente estava fechado, e o silêncio era interrompido apenas pelo som abafado dos pneus na neve.
— Eu não consegui me concentrar em um único gráfico — confessou China, sua voz soando mais rouca do que Brasil esperava. — Você é uma distração constante e irritante, Brasil.
— Irritante, é? — Brasil inclinou a cabeça, os cabelos escuros caindo sobre os olhos. — Então por que você veio me buscar em vez de me deixar pegar o metrô lotado?
China virou o rosto para encará-lo. A luz dos postes de rua passava ritmicamente pelas janelas, iluminando e obscurecendo o rosto de China em intervalos regulares. A expressão do mais velho era de uma intensidade que fez Brasil prender a respiração.
— Porque eu não terminei o que comecei no escritório — disse China.
Antes que Brasil pudesse responder com uma de suas tiradas rápidas, China agiu. Ele segurou a nuca de Brasil com uma mão firme, enquanto a outra se apoiava no banco, encurralando o brasileiro contra o couro.
Desta vez, não houve hesitação. China o beijou com uma força que beirava o desespero. Não era o beijo contido do vestiário ou o beijo apressado do banheiro. Era algo profundo, faminto e possessivo. Brasil soltou um gemido abafado contra os lábios de China, suas mãos subindo para agarrar os ombros do terno de lã do outro, puxando-o para mais perto até que não houvesse mais ar entre eles.
A língua de China explorou a boca de Brasil com uma autoridade que fez os dedos do brasileiro se contraírem. O gosto de café ainda estava presente, misturado ao calor inebriante daquela conexão. Brasil sentia que estava derretendo, como a neve que antes cobria seu moletom.
— China... — Brasil ofegou quando o beijo se quebrou por um segundo, apenas para que China começasse a trilhar um caminho de beijos úmidos e quentes pela sua mandíbula até o pescoço.
— Eu odeio o quanto eu quero você — murmurou China contra a pele de Brasil, sua voz vibrando contra a jugular do mais novo. — Odeio o fato de que você ignora todas as minhas regras e, ainda assim, é a única coisa que eu consigo ver.
Brasil riu, um som trêmulo e carregado de emoção. Ele jogou a cabeça para trás, expondo-se totalmente ao toque de China.
— Então para de tentar seguir as regras por um minuto — sugeriu Brasil, as mãos descendo para a cintura de China. — Aqui não tem Conselho, não tem relatório, não tem ninguém vendo. É só a gente e esse carro inteligente que sabe o caminho de casa.
China subiu as mãos por baixo do moletom de Brasil novamente, encontrando a pele quente e nua que ele tanto desejava. O contato fez Brasil arquear as costas, um calafrio de prazer percorrendo sua espinha. As mãos de China eram grandes e fortes, mapeando cada costela, cada curva do abdômen atlético de Brasil com uma reverência quase religiosa.
— Você é tão quente — sussurrou China, seus lábios encontrando o lóbulo da orelha de Brasil. — Como se tivesse o sol guardado dentro de você.
— E você é frio como gelo por fora, mas por dentro... — Brasil puxou China pela gravata, forçando-o a olhar em seus olhos. — Por dentro você está pegando fogo, não está?
China não respondeu com palavras. Ele atacou os lábios de Brasil novamente, desta vez mais lento, mais exploratório. Ele sentiu o dente de morcego de Brasil roçar em seu lábio inferior, um detalhe que o levava à loucura. O espaço no banco de trás parecia ter encolhido; o calor corporal dos dois estava embaçando as janelas do sedã, isolando-os do mundo exterior.
Brasil se moveu, tentando se posicionar melhor, e acabou sentando-se parcialmente no colo de China, exatamente como fizera na cabine do banheiro, mas agora sem o medo de serem descobertos. O moletom cinza subiu, amontoando-se em seu peito, e China não perdeu tempo em acariciar a pele exposta.
— Você fuma demais — disse China entre beijos, sua mão subindo para o peito de Brasil, sentindo o coração dele batendo como um tambor.
— E você trabalha demais — rebateu Brasil, mordendo levemente o lábio de China. — Acho que a gente se equilibra, não acha?
China parou por um momento, observando Brasil sob a luz fraca do interior do carro. O brasileiro parecia radiante, os olhos brilhando de prazer e uma ponta de triunfo. Ele era o caos que China nunca soube que precisava.
— Talvez — admitiu China, sua mão acariciando o rosto de Brasil com uma ternura rara. — Talvez você seja a única desordem que eu estou disposto a aceitar na minha vida.
Brasil sorriu, um sorriso largo e genuíno que iluminou seu rosto. Ele abraçou o pescoço de China, escondendo o rosto na gola alta do suéter do chinês.
— Isso foi quase um poema, Chininha. Cuidado, ou eu vou acabar me apaixonando.
China soltou um suspiro, mas desta vez não foi de irritação. Ele envolveu Brasil em seus braços, apertando-o contra o peito, sentindo a respiração do outro se acalmar gradualmente enquanto o carro deslizava silenciosamente pela neve.
— Você já é um vício pior que o tabaco, Brasil — murmurou China.
— E você é a minha melhor dose de cafeína — respondeu Brasil, fechando os olhos e aproveitando o conforto daquele abraço.
Lá fora, a nevasca cobria Pequim de branco, paralisando a cidade e silenciando o mundo. Mas dentro daquele sedã preto, entre o cheiro de couro e o calor de dois corpos que finalmente haviam se encontrado, o inverno não tinha poder. Ali, entre beijos intensos e confissões sussurradas, China e Brasil haviam criado seu próprio clima, onde as regras não passavam de sugestões e a única diplomacia que importava era a do toque.