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My dear

O Mosaico do Silêncio e das Cores

O sol da tarde atravessava as janelas amplas do apartamento, banhando o piso de madeira clara com uma luz quente e nostálgica. O ambiente era preenchido pelo som rítmico de teclas sendo pressionadas e pelo riso cristalino que vinha da sala de estar.

Sua estava sentada em sua escrivaninha, cercada por pilhas de livros e cadernos de anotações. Aos vinte e cinco anos, ela havia se tornado uma escritora de renome, conhecida por suas narrativas introspectivas que exploravam a memória, o silêncio e a reconstrução do eu. Seus dedos voavam pelo teclado, mas seus olhos roxos frequentemente se desviavam da tela do computador para observar a cena que se desenrolava a poucos metros dali.

No centro do tapete felpudo, Mizi — agora uma atriz e cantora cuja voz e rosto estampavam cartazes por toda a cidade — estava em uma missão muito séria: construir um castelo de blocos que fosse alto o suficiente para abrigar um dragão de pelúcia.

— Não, mamãe! O dragão tem que ficar no topo, senão ele não consegue ver as estrelas! — A voz pequena e decidida pertencia a Sumi.

Sumi tinha três anos e era, nas palavras de Hyuna, "um milagre estatístico". Adotada pelo casal ainda bebê, a menina parecia uma fusão impossível das duas: os cabelos negros curtos e a pele pálida de Sua, mas com os olhos dourados vibrantes e a energia inesgotável de Mizi.

Sua parou de digitar, um sorriso suave brincando em seus lábios. Ela pegou o tablet de comunicação que ficava sempre ao seu lado — embora agora ela dominasse a língua de sinais com perfeição, o dispositivo ainda era útil para momentos em que queria "falar" com Sumi à distância ou quando Mizi estava distraída.

Ela digitou rapidamente e a voz sintetizada ecoou pela sala:

— O dragão vai cair se você não reforçar a base, Sumi.

Mizi olhou para trás, os cabelos rosas agora cortados em um estilo moderno, e piscou para a esposa.

— Ouviu a mamãe Sua, pequena? Ela entende de estrutura. Ela constrói mundos inteiros com palavras, lembra?

Sumi olhou para Sua, inclinou a cabecinha e soltou um suspiro dramático que era a cópia fiel dos trejeitos de Mizi.

— Mamãe Sua é muito séria — disse a menina, correndo em direção à escrivaninha com os braços abertos.

Sua a pegou no colo, sentindo o cheiro de xampu de morango e infância. Ela não precisava de palavras para expressar o amor avassalador que sentia; o modo como encostava a testa na de Sumi e fechava os olhos dizia tudo.

— Ela não é séria, ela é uma observadora — corrigiu Mizi, aproximando-se e sentando-se no braço da cadeira de Sua. Ela passou o braço pelos ombros da esposa, beijando-lhe a têmpora. — Como foi a escrita hoje? O capítulo novo está saindo?

Sua sinalizou com uma das mãos, enquanto a outra segurava Sumi:

— "Está fluindo. Escrever sobre o passado é mais fácil quando o presente é tão brilhante."

Mizi sorriu, aquele sorriso que Sua nunca cansava de ver, o mesmo que a guiara para fora da névoa da amnésia anos atrás.

— Ivan ligou — comentou Mizi, mudando de assunto enquanto brincava com uma mecha do cabelo de Sumi. — Ele e o Till querem vir jantar aqui na sexta. Parece que o Till finalmente vai lançar o álbum novo e o Ivan está se gabando de ser o muso inspirador de todas as letras de revolta.

Sua soltou uma risadinha silenciosa, os ombros balançando. Ela sinalizou rapidamente:

— "Algumas coisas nunca mudam. Ivan continua sendo um provocador e Till continua caindo em todas as armadilhas dele."

— Exatamente — riu Mizi. — E a Hyuna disse que vai trazer o Luka. Ela quer que a Sumi teste os novos brinquedos educativos que o Luka desenvolveu na empresa dele.

— Tio Luka traz robô? — perguntou Sumi, os olhos dourados brilhando de expectativa.

— Traz sim, meu amor — respondeu Mizi, pegando a menina do colo de Sua. — Mas agora, é hora da missão 'guardar os blocos' antes que a mamãe Sua decida que o nosso castelo é um risco para a segurança da sala.

Sumi protestou, mas logo foi distraída por Mizi, que começou a cantar uma melodia improvisada sobre a arrumação. Sua observou as duas, sentindo uma paz profunda.

Houve um tempo em que o silêncio era uma prisão para Sua. Um tempo em que acordar era um pesadelo de rostos desconhecidos e memórias fragmentadas. Ela se lembrava, vagamente agora, do medo de nunca mais se encontrar. Mas, olhando para Mizi e Sumi, ela percebia que a identidade não era algo que se recuperava, mas algo que se construía dia após dia.

Ela voltou sua atenção para a tela do computador. O livro que estava escrevendo era seu projeto mais ambicioso: uma biografia ficcionalizada sobre o poder do toque.

— Mizi — sinalizou Sua, chamando a atenção da esposa.

Mizi parou de guardar os blocos e olhou para ela.

— "Você se lembra de quando eu acordei? De quando eu não sabia quem você era?"

O olhar de Mizi suavizou, perdendo um pouco da vivacidade brincalhona para dar lugar a uma profundidade melancólica, mas grata.

— Como eu poderia esquecer? — Mizi caminhou até ela, deixando Sumi entretida com o dragão de pelúcia no canto. — Foi o dia mais feliz e o mais triste da minha vida. Feliz porque você estava viva. Triste porque eu tive que me apaixonar por você tudo de novo, sem saber se você me aceitaria.

Sua pegou a mão de Mizi e a levou ao rosto, repetindo o gesto que se tornara a assinatura do amor delas: o círculo na bochecha, o toque na orelha, o ponto na testa.

— "Eu sempre aceitaria você" — sinalizou Sua, com os olhos úmidos. — "Mesmo que eu vivesse mil vidas e perdesse a memória em todas elas, meu coração saberia que a sua voz é a música que ele precisa para bater."

Mizi se inclinou e a beijou, um beijo que carregava o peso de anos de superação e a leveza de um futuro garantido.

— Mamães, olha! — gritou Sumi, apontando para a janela.

O céu estava tingido de um roxo profundo, exatamente da cor dos olhos de Sua, com pinceladas de dourado que lembravam os olhos de Mizi e da pequena Sumi. O pôr do sol era um espetáculo que elas sempre paravam para ver juntas.

— É lindo, não é? — Mizi pegou Sumi no colo novamente e estendeu a mão para Sua.

Sua se levantou, deixando o livro e as palavras de lado por um momento. Ela entrelaçou seus dedos nos de Mizi. As três ficaram ali, diante da janela, observando o dia se apagar para dar lugar às estrelas.

— O que você está pensando, Sua? — perguntou Mizi em voz baixa.

Sua olhou para a esposa, para a filha e para a vida que haviam criado a partir dos destroços de um acidente que parecia destinado a terminar em tragédia. Ela sinalizou com uma mão, o rosto iluminado pelos últimos raios de sol:

— "Estou pensando que o silêncio nunca foi tão cheio de som."

Mizi encostou a cabeça no ombro de Sua, e Sumi abraçou o pescoço das duas.

— É — concordou Mizi — é o som da nossa família.

Naquela noite, enquanto colocavam Sumi para dormir, Sua leu uma história para a filha. Ela não usou o tablet. Ela usou as mãos, contando a história de uma estrela que se perdeu no céu e encontrou o caminho de casa seguindo o brilho de uma lua cor-de-rosa. Sumi acompanhava cada movimento com os olhos arregalados, aprendendo a linguagem que era, na verdade, a herança mais preciosa de sua mãe.

Quando a menina finalmente adormeceu, Sua e Mizi voltaram para a varanda. O ar da noite estava fresco.

— Você acha que ela vai querer ser escritora ou cantora? — perguntou Mizi, dividindo uma taça de vinho com Sua.

Sua sorriu e sinalizou:

— "Acho que ela vai ser o que quiser. Ela tem o seu fogo e a minha calma. É uma combinação perigosa."

— Pobre do mundo — riu Mizi, encostando-se na grade da varanda. — Mas, falando sério... obrigada por ter voltado, Sua. Por ter lutado contra aquele vazio.

Sua olhou para as próprias mãos, as mesmas mãos que um dia tremeram de medo no hospital e que agora criavam mundos e acalentavam uma criança. Ela sinalizou com firmeza:

— "Eu não voltei sozinha. Você me buscou. Você nunca soltou a minha mão, mesmo quando eu não sabia quem você era. O mérito é seu, Mizi. Você foi o fio que me impediu de flutuar para longe."

Mizi a puxou para um abraço, sentindo a batida do coração de Sua contra o seu peito. Era um ritmo constante, seguro, uma melodia que não precisava de notas musicais para ser a mais bela canção que Mizi já ouvira.

— Nós conseguimos, não conseguimos? — Mizi sussurrou contra o cabelo escuro de Sua.

Sua se afastou apenas o suficiente para olhar nos olhos dourados da esposa. Ela não precisou do caderno ou do tablet. Ela usou o sinal que haviam criado anos atrás, mas adicionou um novo movimento ao final: um toque suave no próprio coração e depois no de Mizi.

— "Sim" — sinalizou Sua. — "Nós vencemos o silêncio."

E enquanto as luzes da cidade brilhavam lá embaixo, a escritora e a cantora permaneceram juntas, sob o céu que um dia fora o teto de um jardim de vidro, celebrando a vida que, contra todas as probabilidades, florescera em cores vibrantes a partir do mais absoluto branco.

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