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My dear

O Eco das Paredes e a Alvorada de Vidro

A casa de Mizi estava mergulhada em um silêncio que parecia vibrar. Com os pais fora e a porta do quarto trancada, o mundo exterior — com suas amnésias, hospitais e cadernos de notas — deixou de existir. Ali, sob a luz âmbar do abajur, o tempo não era medido em meses de coma, mas em batimentos cardíacos e na respiração pesada que preenchia o espaço entre as duas.

Mizi não era mais a garota doce que trazia flores ao hospital. Havia algo predatório em seu olhar dourado, uma fome acumulada por quatro meses de vigília silenciosa à beira de uma cama fria. Ela encurralou Sua contra a cabeceira da cama, as mãos prendendo os pulsos pálidos da menor com uma firmeza que beirava a possessão.

— Você disse que queria relembrar, não foi? — sussurrou Mizi, a voz descendo a tons que faziam o corpo de Sua arquear instantaneamente. — Então eu vou garantir que cada centímetro do seu corpo saiba exatamente a quem ele pertence.

O primeiro round foi uma explosão de urgência. Mizi a tomou com uma necessidade febril, como se estivesse tentando fundir suas almas para que Sua nunca mais pudesse esquecê-la. O silêncio de Sua era preenchido por gemidos abafados contra o ombro de Mizi, enquanto a maior a dominava com beijos famintos e toques que despertavam memórias musculares latentes.

Quando o segundo round começou, Mizi mudou o ritmo. Ela foi lenta, torturante, explorando cada curva do corpo de Sua com uma maestria que beirava a crueldade. Ela queria que Sua sentisse cada faísca, cada milímetro de prazer, negando-lhe o ápice até que a menor estivesse tremendo, os olhos roxos revirando em busca de alívio. Mizi sorria, um sorriso sombrio e belo, enquanto sussurrava promessas de que a noite estava apenas começando.

No terceiro e quarto rounds, a exaustão começou a flertar com o desejo. Sua sentia-se flutuar, sua mente desconectada da realidade, focada apenas na pressão das mãos de Mizi em sua cintura e no modo como a garota de cabelos rosa parecia ter uma energia inesgotável. Mizi era um monstro de adoração; ela exigia tudo de Sua, cada resposta física, cada arquejo, transformando a cama em um altar onde o passado e o presente se colidiam.

O quinto round trouxe uma nova onda de intensidade. Mizi a virou, prendendo-a de costas, sussurrando em seu ouvido o quanto ela havia sofrido enquanto Sua dormia no hospital. A dor da perda transformou-se em uma luxúria voraz. Mizi a marcava com mordidas leves e sucções, deixando rastros de que Sua estava, finalmente, de volta ao lugar onde deveria estar.

No sexto e sétimo rounds, o tempo tornou-se uma abstração. Sua já não sabia onde terminava seu corpo e onde começava o de Mizi. Suas pernas estavam bambas, sua garganta ardia pelo esforço de conter os sons que não podiam sair, e suas mãos agarravam os lençóis com uma força desesperada. Mizi não dava trégua. Ela a buscava repetidamente, como se estivesse bebendo de uma fonte que temia ver secar novamente.

Quando o oitavo e último round terminou, o quarto estava envolto pela penumbra da madrugada. Mizi desabou sobre Sua, o peito subindo e descendo em uma sincronia exausta. Ela beijou a têmpora suada de Sua, um gesto final de domínio e amor absoluto, antes de ambas sucumbirem a um sono profundo e sem sonhos.

***

A manhã seguinte não chegou com suavidade; ela chegou com a claridade impiedosa do sol de domingo e a realidade física do que haviam feito.

Sua tentou se mexer e soltou um arquejo silencioso. Ela sentia-se como se tivesse sido desmontada e montada novamente por alguém que não leu o manual. Cada músculo de suas pernas protestava, suas costas pareciam feitas de vidro rachado e seus braços pesavam como chumbo. Ela era, literalmente, um caco.

Mizi já estava acordada, sentada na beira da cama, vestindo apenas uma camiseta larga. Ela parecia radiante, embora tivesse olheiras leves. Ao ouvir o movimento de Sua, ela se virou com um sorriso que misturava doçura e uma malícia triunfante.

— Bom dia, meu milagre — disse Mizi, aproximando-se para beijar a testa de Sua.

Sua tentou alcançar o caderno na mesa de cabeceira, mas seu braço falhou no meio do caminho, caindo pesadamente sobre o colchão. Ela olhou para Mizi com uma expressão de ultraje cômico, os olhos roxos brilhando com uma mistura de choque e adoração.

Mizi soltou uma risadinha deliciosa, pegando o caderno e a caneta para ela.

— Desculpe, eu perdi um pouco a mão? — Mizi perguntou, embora não parecesse nem um pouco arrependida.

Sua pegou a caneta com os dedos trêmulos e escreveu, as letras saindo tortas e enormes:

"VOCÊ É UM MONSTRO. OITO VEZES, MIZI? EU ESTOU MORTA. EU SOU UM CADÁVER QUE SÓ RESPIRA."

— Mas é um cadáver muito bonito — brincou Mizi, inclinando-se para dar um selinho nos lábios de Sua.

Sua tentou empurrá-la, mas o gesto não passou de um toque fraco no ombro de Mizi. Ela escreveu novamente:

"EU NÃO CONSIGO ANDAR. MINHAS PERNAS SÃO FEITAS DE GELATINA. COMO VOCÊ AINDA ESTÁ DE PÉ?"

— Eu tive muita motivação acumulada — respondeu Mizi, acariciando o rosto de Sua com o polegar. — Eu passei quatro meses imaginando como seria ter você nos meus braços de novo. Eu acho que meu corpo simplesmente se recusou a parar.

Sua suspirou, fechando os olhos enquanto aproveitava o carinho. A dor física era real, mas a sensação de pertencimento era ainda maior. Ela sentia-se preenchida, não apenas fisicamente, mas emocionalmente. A amnésia ainda estava lá, um buraco negro em sua mente, mas a noite anterior havia construído uma ponte nova e indestrutível sobre esse abismo.

Ela escreveu mais uma nota:

"EU QUERO CAFÉ. E QUERO QUE VOCÊ ME CARREGUE ATÉ O BANHEIRO. É O MÍNIMO QUE VOCÊ PODE FAZER DEPOIS DE ME QUEBRAR."

Mizi riu alto, um som que preencheu o quarto e fez Sua sorrir involuntariamente.

— Seu desejo é uma ordem, minha rainha.

Mizi a pegou no colo com uma facilidade que fez Sua se sentir minúscula. Enquanto era carregada, Sua enterrou o rosto no pescoço de Mizi, inalando o cheiro de pele e do sabonete que Mizi usava. Ela não precisava de memórias para saber que aquele era o seu lugar.

Depois de um banho quente onde Mizi teve que ajudá-la em cada movimento, elas se acomodaram na cozinha. Sua estava enrolada em um cobertor, sentada em uma cadeira acolchoada, observando Mizi preparar torradas.

O silêncio entre elas era confortável, carregado de uma intimidade que não precisava de palavras. Sua observava o modo como a luz do sol batia no cabelo rosa de Mizi, e sentiu uma pontada de algo profundo. Ela pegou o caderno e escreveu:

"OBRIGADA."

Mizi parou o que estava fazendo e olhou para ela, confusa.

— Pelo quê?

"POR ME LEMBRAR DE QUE EU ESTOU VIVA. EU ACORDEI NO HOSPITAL E TUDO PARECIA UM SONHO RUIM. MAS AGORA... AGORA EU SINTO TUDO. ATÉ A DOR NAS MINHAS COSTAS É BOA PORQUE SIGNIFICA QUE EU ESTOU AQUI COM VOCÊ."

Mizi deixou as torradas de lado e atravessou a cozinha, ajoelhando-se entre as pernas de Sua. Ela pegou as mãos da menor e as beijou.

— Eu nunca vou deixar você esquecer o quanto você é amada, Sua. Nunca mais.

Sua largou o caderno e, com um esforço hercúleo, inclinou-se para frente, envolvendo o pescoço de Mizi com os braços. Ela não queria apenas café ou descanso; ela queria o contato contínuo. Ela queria os beijos doces que agora substituíam a voracidade da noite.

Mizi correspondeu, abraçando-a pela cintura, tomando cuidado com os pontos doloridos. Elas ficaram ali por muito tempo, uma âncora para a outra.

Mais tarde, o grupo de amigos apareceu. Hyuna e Luka trouxeram donuts, enquanto Till e Ivan entraram discutindo sobre algum jogo de videogame. Quando viram Sua envolta em cobertores, com olheiras profundas e mal conseguindo se mexer para pegar um donut, o silêncio caiu sobre a sala.

— Caramba, Sua — disse Hyuna, arregalando os olhos. — Você parece que sobreviveu a uma guerra.

— Ou que a Mizi finalmente liberou a fera — comentou Ivan com um sorriso malicioso, ganhando um chute na canela de Till.

— Cala a boca, Ivan! — Till resmungou, embora estivesse olhando para Sua com uma preocupação genuína. — Você está bem, Sua? Quer que a gente chame um médico ou algo assim?

Sua olhou para Mizi, que estava tentando (e falhando) esconder um sorriso atrás de sua caneca de café. Sua pegou o caderno e escreveu para o grupo:

"ESTOU BEM. SÓ PRECISO DE TRÊS DIAS DE SONO E QUE A MIZI SEJA PROIBIDA DE ME TOCAR POR PELO MENOS 24 HORAS."

— Vinte e quatro horas? — Mizi perguntou, fingindo ofensa. — Isso é muito tempo, Sua!

Sua apenas apontou para as próprias pernas e fez um sinal de "não" com o dedo, fazendo todos na sala caírem na gargalhada.

— É, Mizi — disse Luka, sorrindo gentilmente. — Acho que você exagerou na dose de "boas-vindas".

— Valeu cada segundo — sussurrou Mizi para Sua, recebendo em troca um olhar derretido que dizia que, apesar dos protestos, Sua concordava plenamente.

A tarde passou entre risadas e histórias. Sua ouvia tudo, absorvendo cada pedaço da vida que ela havia esquecido. Ela sentia a dor em seu corpo como um lembrete constante da noite épica que tiveram, um marco de que a "nova Sua" e a "velha Sua" estavam finalmente se tornando uma só através do amor de Mizi.

Quando os amigos finalmente foram embora e o crepúsculo começou a tingir o céu, Sua e Mizi voltaram para o sofá. Sua deitou a cabeça no colo de Mizi, sentindo os dedos da namorada acariciarem seus cabelos.

Ela pegou o caderno uma última vez naquele dia.

"MIZI?"

— Sim?

"NÃO PRECISA SER OITO DA PRÓXIMA VEZ. MAS NÃO DEMORE PARA ME BEIJAR DE NOVO."

Mizi sorriu, inclinando-se para dar um beijo longo e terno nos lábios de Sua.

— Eu nunca vou demorar, Sua. Eu esperei quatro meses por você. Agora, eu tenho todo o tempo do mundo.

E ali, sob a luz suave do entardecer, Sua adormeceu novamente. Ela ainda era um caco físico, sua memória ainda era um quebra-cabeça incompleto, mas em seu coração, ela sabia que a parte mais importante já havia sido recuperada. Ela era de Mizi, e Mizi era dela. E isso era mais do que suficiente para reconstruir qualquer mundo.

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