My dear
O Labirinto de Silêncio e Papel
Dois dias no hospital pareceram uma eternidade, mas o retorno à escola foi um choque térmico. O barulho dos armários batendo, o eco das risadas nos corredores e o cheiro de cera de assoalho misturado com comida de cantina eram estímulos demais para alguém que passou quatro meses no silêncio absoluto do inconsciente.
Sua caminhava pelo corredor principal, sentindo-se como uma turista em um país cujo idioma ela não falava. Mizi estava ao seu lado, a mão pairando perto do seu ombro, mas sem tocá-la, como se tivesse medo de que Sua pudesse quebrar ou, pior, se afastar.
— Vai ficar tudo bem, Sua. Se você se sentir tonta ou se o barulho for demais, a gente vai direto para a enfermaria — disse Mizi, a voz carregada de uma preocupação que ela tentava disfarçar com um sorriso vibrante.
Sua apenas assentiu. Ela segurava um pequeno caderno de capa dura contra o peito, sua nova "voz". Ela ainda não entendia por que seu corpo se recusava a emitir sons, mas a sensação de impotência na garganta era uma frustração constante que a fazia querer gritar — se ao menos pudesse.
Ao chegarem no pátio, o grupo já estava lá. Era o intervalo, e a mesa de cimento sob a árvore de carvalho parecia ser o território deles.
— Olha só quem resolveu dar as caras no hospício! — Hyuna exclamou, levantando-se com um brilho nos olhos azuis. Ela usava uma jaqueta jeans cheia de bottons e parecia a pessoa mais legal que Sua já tinha visto, embora ainda fosse uma estranha.
— Vê se não desmaia de novo, hein? Não quero ter que carregar ninguém até o estacionamento — resmungou Till, encostado no tronco da árvore. Ele parecia irritado, mas Sua notou como ele desviou o olhar rapidamente, as orelhas ficando levemente vermelhas.
— Ignora ele, Sua. O Till é um brutamontes por fora e uma manteiga derretida por dentro — Luka disse, fechando o livro que estava lendo. Ele deu um sorriso gentil, o tipo de sorriso que passava segurança.
Ivan, sentado na ponta da mesa, girava uma caneta entre os dedos longos. O dente canino apareceu quando ele sorriu de lado.
— E aí, pequena muda? Já recuperou o juízo ou ainda vai fingir que não somos as melhores pessoas que você já conheceu?
Sua olhou para Ivan. Havia algo no jeito dele que a fazia querer revirar os olhos, um instinto muscular que ela não sabia de onde vinha. Ela abriu o caderno e escreveu rapidamente:
"Você continua sendo irritante, eu acho."
Ivan soltou uma risada curta, genuína.
— É, ela definitivamente está voltando. A memória pode ter ido, mas o mau gosto para amigos continua intacto.
Mizi se sentou ao lado de Sua, puxando uma cadeira e virando-a de frente para ela.
— Esquece o Ivan por um segundo. Vamos praticar? — Mizi perguntou, as mãos já se posicionando no ar.
Sua assentiu, atenta. Mizi começou a mover os dedos com uma agilidade impressionante.
— Este é o sinal para "escola" — explicou Mizi, batendo as palmas das mãos uma na outra horizontalmente. — E este aqui, que eu te mostrei no hospital, é para "amigo".
Sua tentou imitar. Suas mãos estavam rígidas, os movimentos desengonçados.
— Não, assim, olha — Mizi tocou suavemente os dedos de Sua, ajustando a posição. O toque fez Sua sentir um calafrio estranho, uma sensação de familiaridade que seu cérebro não conseguia processar, mas que seu corpo parecia reconhecer. — Isso, perfeito. Você é rápida, Sua. Sempre foi a melhor nisso.
— A Mizi passou o segundo ano inteiro praticamente vivendo em cima de dicionários de Libras só pra poder fofocar com você durante a aula de história — Hyuna comentou, roubando um pedaço do sanduíche de Luka. — Era até nojento de ver o quanto vocês eram grudadas.
Mizi ficou subitamente em silêncio. O sorriso dela vacilou por um milésimo de segundo antes de voltar, mas agora parecia mais frágil.
— É... a gente era bem próxima — Mizi disse, baixando o olhar para as mãos de Sua.
O clima na mesa mudou. Till começou a batucar um ritmo nervoso na mesa, e Luka trocou um olhar significativo com Hyuna. Sua percebeu que havia um elefante na sala, algo que todos sabiam, menos ela.
Depois de alguns minutos de tentativas frustradas de Sua em sinalizar frases completas, Mizi suspirou e se levantou.
— Gente, vou levar a Sua para dar uma volta no jardim dos fundos. Está meio barulhento aqui, acho que ela precisa de ar.
Eles caminharam em silêncio até uma área mais afastada, onde as roseiras mal cuidadas da escola tentavam sobreviver. Mizi parou diante de um banco de madeira descascada e suspirou fundo, o ar saindo pesado de seus pulmões.
— Sua — começou Mizi, sem olhar nos olhos dela —, eu andei pensando muito desde que você acordou.
Sua inclinou a cabeça, esperando. Ela abriu o caderno, mas Mizi colocou a mão sobre a página, impedindo-a de escrever.
— Eu não quero que você se sinta pressionada. Todo mundo está agindo como se você devesse simplesmente voltar a ser quem era, mas eu vejo como você olha para a gente... como você olha para *mim*.
Mizi finalmente levantou os olhos. Havia lágrimas presas ali, brilhando como ouro sob o sol da tarde.
— Para você, eu sou uma garota de cabelo rosa que não para de falar e que está tentando te forçar a aprender uma língua que você não lembra. Você não lembra das nossas piadas, das músicas que a gente ouvia, ou de como a gente se sentia.
Sua sentiu um aperto no peito. Ela queria dizer que não era bem assim, que Mizi era a única coisa que a fazia se sentir segura naquele caos, mas o silêncio a traía.
— Antes do acidente... — Mizi fez uma pausa, a voz falhando — ...nós éramos namoradas.
O mundo de Sua pareceu girar. Ela olhou para Mizi, os olhos roxos arregalados. *Namoradas?* Aquela garota radiante, inteligente e gentil era sua? Ela olhou para as mãos de Mizi e depois para as suas, tentando imaginar o encaixe delas.
— Mas eu percebi que não é justo com você — continuou Mizi, limpando uma lágrima que escapou. — Você não tem essa memória. Você não tem esses sentimentos agora. Eu não quero que você sinta que tem a obrigação de me amar só porque a "antiga Sua" amava. Então... eu acho que a gente deveria terminar. Pelo menos por enquanto. Quero que você tenha espaço para descobrir quem você é agora, sem o peso de um relacionamento que você nem lembra de ter começado.
Sua ficou estática. O termo "terminar" soou como uma nota desafinada em seus ouvidos. Ela olhou para Mizi e, pela primeira vez desde que acordou, sentiu uma onda de clareza. Ela não lembrava dos beijos, dos encontros ou das promessas, mas ela sabia de uma coisa: o jeito que Mizi a tratava, a paciência infinita, o modo como ela a defendia de Ivan ou como seus olhos brilhavam toda vez que Sua conseguia fazer um sinal correto... ninguém fazia aquilo por uma simples desconhecida.
Mizi se virou para sair, os ombros caídos, parecendo menor do que realmente era.
Sua agiu por instinto. Ela agarrou o pulso de Mizi, impedindo-a de dar o segundo passo.
Mizi se virou, surpresa, com o rosto banhado em lágrimas.
— Sua?
Sua abriu o caderno com pressa, a caneta quase rasgando o papel pela força da escrita. Ela escreveu em letras grandes, ocupando a página inteira, e virou para Mizi.
"VOCÊ É MINHA NAMORADA?"
Mizi leu e soluçou, confirmando com a cabeça.
— Era. Nós éramos.
Sua negou com a cabeça veementemente. Ela começou a escrever de novo, as mãos tremendo um pouco.
"Eu não lembro de nada. Mas eu não sou burra. Eu vejo como você olha pra mim. Ninguém olha pra alguém assim se não for por amor."
Sua fez uma pausa, olhou para Mizi e escreveu a última frase na parte de baixo da folha:
"Não termina comigo. Por favor. Me ensina a ser sua namorada de novo."
Mizi soltou um som que foi metade riso, metade choro. Ela cobriu a boca com as mãos, os ombros sacudindo.
— Você é tão teimosa — Mizi murmurou entre os soluços. — Mesmo sem memória, você continua sendo a pessoa mais teimosa que eu já conheci.
Sua deu um passo à frente e, com uma coragem que ela não sabia que possuía, envolveu Mizi em um abraço. O cheiro de Mizi — morango e algo que lembrava chuva — inundou seus sentidos. Foi como se uma peça de um quebra-cabeça invisível finalmente clicasse no lugar. Sua não lembrava do passado, mas naquele momento, o presente parecia o suficiente.
Mizi retribuiu o abraço, apertando Sua como se ela fosse desaparecer a qualquer momento.
— Tudo bem — Mizi sussurrou contra o cabelo preto de Sua. — A gente vai devagar. Passo a passo.
Elas ficaram ali por um longo tempo, até que o sinal para o fim do intervalo tocou, ecoando estridente pelo pátio. Elas se separaram, e Mizi limpou o rosto, tentando recompor a máscara de garota descolada.
Quando voltaram para perto do grupo, Ivan estava chutando uma pedrinha, enquanto Till e Hyuna discutiam sobre alguma banda de rock. Ivan olhou para as duas e estreitou os olhos.
— Ué, a Mizi parou de chorar? O que aconteceu? A Sua te deu um soco?
Sua olhou para Ivan, pegou seu caderno e escreveu:
"Ela tentou fugir, mas eu capturei ela."
Ivan arqueou uma sobrancelha, lendo o papel.
— Captureu, é? E o que você vai fazer com a refém?
Sua olhou para Mizi, que estava com as bochechas coradas, mas sorrindo de um jeito que Sua ainda não tinha visto — um sorriso que chegava aos olhos e os fazia brilhar como ouro puro.
Sua sinalizou o que tinha acabado de aprender: "Amigo". E depois apontou para Mizi e fez um coração com as mãos.
— Ah, pelo amor de Deus — Till resmungou, revirando os olhos, mas havia um alívio visível em sua expressão. — Vocês duas são melosas demais. Até com amnésia, isso não muda.
— Cala a boca, Till — Hyuna disse, dando um tapa no braço dele. — Isso é fofo. Luka, por que você não é romântico assim?
Luka apenas riu, ajeitando os óculos.
— Acho que a Sua já deu emoção suficiente para todos nós por hoje. Vamos para a aula antes que o professor de física resolva dar falta na gente.
Enquanto caminhavam de volta para o prédio principal, Mizi estendeu a mão, hesitante. Sua a segurou firmemente, entrelaçando seus dedos.
Não era a mesma conexão de antes. Não havia a profundidade de anos de convivência e segredos compartilhados. Mas, enquanto caminhavam lado a lado, Sua sentiu que, talvez, perder a memória não fosse o fim do mundo. Era apenas a oportunidade de se apaixonar pela garota de cabelo rosa pela segunda vez.
E, desta vez, ela prestaria atenção em cada detalhe, para nunca mais esquecer.