My dear
O Eco de um Silêncio Antigo
A luz do fim de tarde entrava pelas janelas da sala de Hyuna, tingindo o ambiente de um laranja suave que contrastava com a vibração caótica do quarto. Pilhas de almofadas estavam espalhadas pelo tapete, e o som baixo de uma playlist de rock indie, cortesia de Till, preenchia as pausas da conversa.
Sua estava sentada no centro de tudo, com o notebook de Hyuna apoiado nos joelhos. Na tela, um vídeo pausado mostrava uma instrutora fazendo o sinal para "saudade". Sua olhava para as próprias mãos, tentando repetir o movimento. Seus dedos, outrora ágeis e expressivos, agora pareciam pesados, como se estivessem aprendendo a dançar pela primeira vez.
— Quase isso, Sua — disse Mizi, sentada ao lado dela. Ela estendeu a mão e tocou levemente o pulso de Sua, guiando o movimento. — O polegar fica um pouco mais para dentro. Isso. Perfeito.
Sua olhou para Mizi e deu um pequeno aceno com a cabeça, um agradecimento silencioso. Ela pegou o caderno que nunca saía de seu lado e escreveu rapidamente:
"Meus dedos parecem burros."
Mizi soltou uma risadinha, mas havia um cansaço sutil em seus olhos dourados.
— Eles só estão com sono, igual ao resto de você. Quatro meses dormindo deixariam qualquer um enferrujado.
Do outro lado da sala, Hyuna e Till estavam jogados em um sofá, discutindo fervorosamente sobre o setlist do próximo show da banda da escola. Luka não tinha ido, pois tinha aulas extras de piano, e Ivan, para a surpresa de todos, tinha mandado uma mensagem curta no grupo dizendo que estava com febre — embora Till jurasse que era apenas preguiça de estudar para a prova de química.
— Eu estou te falando, Hyuna! — exclamou Till, gesticulando com um controle remoto. — Se a gente abrir com aquela música lenta, o público vai dormir antes do refrão. Tem que ser algo que exploda!
— Till, meu caro emo revoltado, você não entende nada de dinâmica — Hyuna rebateu, rindo e jogando uma pipoca nele. — A gente precisa criar tensão primeiro. A Sua concorda comigo, não concorda, Sua?
Sua levantou os olhos do notebook, sentindo o peso da atenção do grupo. Ela olhou de Hyuna para Till, confusa. Ela não lembrava das músicas da banda. Não lembrava do som da guitarra de Till ou da voz potente de Hyuna. Para ela, era como se estivessem discutindo sobre a cor de um vento que ela nunca sentiu.
Ela apenas deu de ombros, voltando a olhar para o vídeo de sinais.
O silêncio que se seguiu na conversa dos três foi breve, mas doloroso. Mizi, que observava a interação, sentiu um aperto familiar no peito. Ela estava ali, fisicamente ao lado de Sua. Podia sentir o calor do corpo dela, ver o brilho dos olhos roxos, mas a distância emocional parecia um abismo intransponível.
— Mizi, você viu o que o professor de artes postou? — perguntou Hyuna, tentando retomar o clima leve. — Ele quer que a gente entregue o portfólio até sexta.
— Vi sim... — Mizi respondeu, mas sua voz estava distante.
Ela olhava para Sua. A namorada — ou a garota que aceitara tentar ser sua namorada novamente — estava totalmente absorta no vídeo. Sua não ria das piadas internas, não revirava os olhos para as grosserias de Till, não participava daquela atmosfera de anos de amizade. Ela era uma observadora silenciosa de uma vida que deveria ser a dela.
Mizi sentiu uma súbita falta de ar. O conforto que ela tanto buscou durante os meses de coma, o desejo de ter Sua de volta nos braços, parecia uma faca de dois gumes. Ter o corpo de Sua ali, mas não ter a sua "Sua", era uma tortura lenta. Ela sentia falta do jeito que Sua a repreendia com um único olhar, ou de como ela sabia exatamente o que Mizi estava pensando antes mesmo de ela abrir a boca.
— Eu... eu já volto — disse Mizi, levantando-se abruptamente. — Vou pegar um copo de água.
Ela não esperou resposta. Caminhou apressada em direção à varanda da casa de Hyuna, passando direto pela cozinha.
O ar fresco da noite bateu em seu rosto. Mizi se apoiou no parapeito, fechando os olhos com força. As lágrimas, que ela tentava esconder com tanto afinco atrás de sorrisos encorajadores, finalmente começaram a escorrer. Ela se sentia egoísta. Sua tinha voltado dos mortos, tinha acordado de um coma milagroso, e Mizi estava ali, chorando porque a namorada não lembrava como era o seu beijo preferido.
— Que droga... — sussurrou Mizi para si mesma, limpando o rosto com as costas das mãos. — Seja forte, Mizi. Ela está aqui. Isso é o que importa.
A porta de vidro da varanda correu suavemente sobre o trilho. Mizi não precisou se virar para saber quem era. O silêncio tinha um peso específico, uma presença que ela reconheceria em qualquer lugar.
Sua parou ao lado dela. Ela não trazia o notebook, apenas o caderno e a caneta. Ela observou o perfil de Mizi, notando os olhos vermelhos e a ponta do nariz rosada pelo frio e pelo choro.
Sua tocou o ombro de Mizi. Quando a garota de cabelos rosa se virou, Sua já estava escrevendo.
"Por que você está triste? Eu fiz algo errado?"
Mizi leu a mensagem e forçou um sorriso que não enganaria nem uma criança.
— Não, Sua. Claro que não. Você é perfeita. Eu só... estou um pouco cansada. A escola, as provas... você sabe.
Sua franziu a testa. Ela deu um passo à frente, diminuindo a distância entre as duas. Ela olhou nos olhos de Mizi com uma intensidade que fez o coração da outra falhar uma batida. Era o mesmo olhar de antes do acidente. Analítico, profundo, capaz de enxergar através de qualquer mentira.
Sua escreveu novamente:
"Você mente mal. É por causa da memória? Por que eu não sou 'ela'?"
Mizi sentiu o impacto daquelas palavras como um soco no estômago. Ela soltou um soluço que estava preso na garganta e cobriu o rosto com as mãos.
— Não é isso, Sua! Não é que você não seja ela. Você é você! Mas é que... dói tanto. Eu passei meses falando com você enquanto você dormia, planejando tudo o que a gente ia fazer quando você acordasse. E agora você acordou, e eu sinto que sou uma estranha para você. Eu quero te abraçar e sentir que você me conhece, que você sabe que eu odeio café amargo e que eu choro em filmes de animação. Eu quero a minha namorada de volta, mas eu sei que não posso exigir isso de você.
Sua ficou imóvel, processando a explosão de dor de Mizi. Ela olhou para as próprias mãos, as mesmas mãos que Mizi guiava com tanta paciência. Ela percebeu, talvez pela primeira vez, o tamanho do fardo que Mizi carregava. Não era apenas a saudade; era o luto por alguém que ainda estava vivo.
Sua guardou a caneta no bolso e deu um passo final, fechando o espaço entre elas. Ela não usou o caderno. Em vez disso, ela envolveu Mizi em um abraço apertado, enterrando o rosto no pescoço da garota mais alta.
Mizi congelou por um segundo, antes de se entregar ao abraço, chorando abertamente no ombro de Sua.
— Desculpa, Sua... desculpa por ser assim — soluçava Mizi.
Sua se afastou apenas o suficiente para olhar para Mizi. Ela levou as mãos ao rosto da namorada, limpando as lágrimas com os polegares. Então, com movimentos lentos e deliberados, ela fez um sinal que Mizi tinha lhe ensinado naquela mesma tarde.
"Amigo."
Depois, ela apontou para si mesma e para Mizi, e fez o sinal de "Amor", cruzando os braços sobre o peito.
Ela pegou o caderno uma última vez e escreveu, com uma caligrafia firme:
"Eu não lembro daquela Sua. Mas essa Sua que está aqui agora... ela também gosta de você. Talvez eu não saiba do café ou dos filmes ainda, mas eu sei que meu coração bate mais rápido quando você segura minha mão. Me dá tempo?"
Mizi leu o papel e sentiu um calor reconfortante se espalhar pelo peito. A dor não sumiu, mas a solidão sim. Ela segurou as mãos de Sua e as beijou, uma por uma.
— Eu te dou todo o tempo do mundo, Sua. Todo o tempo do mundo.
Lá dentro, na sala, o som da discussão de Hyuna e Till tinha diminuído. Eles olhavam para a varanda através do vidro, em silêncio.
— Elas vão ficar bem, não vão? — perguntou Till, sua voz desprovida de qualquer sarcasmo pela primeira vez na noite.
Hyuna suspirou, encostando a cabeça no ombro do amigo.
— Vão sim, Till. Vai ser diferente, vai ser difícil... mas elas são a Mizi e a Sua. Algumas coisas nem um coma consegue apagar.
Sua e Mizi entraram na sala minutos depois. Mizi ainda tinha os olhos inchados, mas havia uma serenidade nova em seu rosto. Sua caminhou até o notebook, sentou-se e, antes de dar o play no vídeo, olhou para Hyuna e escreveu no caderno:
"Till está errado. A música lenta é melhor para começar. Cria suspense."
Till arregalou os olhos, indignado.
— Ah, não! Até você, Sua? Estão todos contra mim hoje!
Hyuna explodiu em uma gargalhada vibrante, puxando Sua para um abraço de lado.
— Viu só? A memória pode ter ido, mas o bom senso voltou intacto! Chupa essa, Till!
Mizi sentou-se ao lado delas, sentindo o peso da cabeça de Sua encostar em seu ombro. O silêncio de Sua não era mais um vazio assustador; era um espaço que elas estavam preenchendo, palavra por palavra, sinal por sinal, uma nova memória de cada vez.
A noite continuou, entre risadas, sinais errados e a promessa silenciosa de que, no final das contas, elas encontrariam o caminho de volta para casa — mesmo que a casa tivesse uma mobília nova.