My dear little bully
Território Marcado e o Êxtase da Posse
O sol da tarde atravessava as janelas altas da St. Mary’s Academy, criando faixas de luz dourada que dançavam sobre o piso de mármore. Para a maioria, era o fim de mais um dia exaustivo de aulas. Para Engfa Waraha, era o momento de caça. Ela caminhava pelos corredores com uma elegância predatória, a mochila jogada displicentemente sobre um ombro e os dedos longos brincando com um cubo mágico, girando as faces coloridas com uma velocidade mecânica que denunciava sua impaciência.
Ela estava irritada. Não, irritada era um eufemismo. Engfa estava consumida. Havia terminado o capítulo final de "O Retrato de Dorian Gray" e precisava desesperadamente confrontar Charlotte sobre a decadência da alma do protagonista. Ela sabia que Charlotte teria uma visão artística e filosófica sobre a beleza corrompida, algo que Engfa queria dissecar enquanto observava as reações da garota. Mas Charlotte não estava na biblioteca. Nem no ateliê de artes.
Quando Engfa dobrou o corredor que levava ao pátio leste, o som do cubo mágico parou abruptamente. O plástico estalou sob a pressão de seus dedos.
Lá estava ela. Charlotte Austin, com seus cabelos castanho-claros ondulados caindo suavemente sobre os ombros e aquelas sardas que Engfa contava mentalmente todas as noites antes de dormir. Mas ela não estava sozinha.
Três rapazes do curso de Engenharia, veteranos que se achavam donos do campus por causa de seus times de rúgbi e carros esportivos financiados pelos pais, cercavam Charlotte. Um deles, um loiro alto chamado Thomas, estava inclinado demais, o braço apoiado na parede logo acima da cabeça de Charlotte, invadindo o espaço que Engfa considerava solo sagrado.
— Qual é, Austin? — Thomas sorria, um sorriso que Engfa queria arrancar do rosto dele com um estilete. — Um jantar no centro não vai matar você. Eu sei que você gosta de caras que sabem o que querem.
Charlotte mantinha a expressão neutra, mas Engfa via o leve arqueado de sua sobrancelha — o sinal clássico de que ela estava começando a perder a paciência.
— Eu já disse que tenho planos, Thomas — respondeu Charlotte, sua voz firme, embora a proximidade física do rapaz fosse claramente incômoda.
— Planos com quem? Com aqueles seus livros ou com suas tintas? — O outro rapaz riu, dando um passo à frente.
O sangue de Engfa ferveu. Não era apenas raiva; era uma possessividade física, uma dor aguda no peito que só se acalmava quando ela tinha Charlotte sob seu controle. A ideia de que qualquer outra pessoa pudesse respirar o mesmo ar, ou pior, flertar abertamente com o que era *dela*, fazia o monstro dentro de Engfa rugir.
Ela não caminhou; ela avançou.
Charlotte só percebeu a presença de Engfa quando o ar ao redor pareceu esfriar dez graus. Antes que qualquer um pudesse reagir, Engfa já estava no centro do grupo. Com um movimento fluido e brutal, ela agarrou o colarinho de Thomas e o puxou para trás com uma força que ninguém esperaria de sua estrutura elegante.
O baque do corpo do rapaz contra o chão foi seguido pelo som úmido de algo quebrando. Engfa não parou. Antes que os outros dois pudessem intervir, ela chutou a perna de Thomas, fazendo-o dobrar, e o agarrou pelos cabelos, forçando-o a ficar de joelhos.
O nariz do rapaz jorrava sangue, manchando a camisa branca do uniforme.
— Você tem algum problema de audição, seu verme? — A voz de Engfa era um sussurro letal, desprovido de qualquer humanidade. — Ela disse que não.
— Waraha! O que é isso? Solta ele! — um dos amigos tentou se aproximar, mas o olhar que Engfa lançou sobre ele foi tão carregado de promessas de violência que o rapaz estancou no lugar.
Engfa apertou mais os cabelos de Thomas, forçando a cabeça dele para trás até que ele fosse obrigado a olhar para Charlotte, que observava a cena com os olhos arregalados e a respiração curta.
— Peça desculpas — ordenou Engfa, a voz vibrando de ódio. — Peça desculpas por respirar perto dela. Peça desculpas por achar que tem o direito de dirigir a palavra a alguém que pertence à família Waraha.
— Desculpa... desculpa, Austin... — Thomas gaguejou, o sangue escorrendo pelo lábio e pingando no mármore.
Engfa o empurrou para o lado como se fosse lixo descartável. Ela limpou as mãos na calça, embora não houvesse sangue nelas, e virou-se para Charlotte. Os olhos de Engfa estavam escuros, as pupilas tão dilatadas que o castanho quase desaparecera.
— Para o carro. Agora — disse ela, sem um pingo de sarcasmo, apenas autoridade pura.
Charlotte sentiu uma onda de choque percorrer seu corpo. Ela deveria sentir repulsa. Deveria gritar com Engfa por ser uma psicopata possessiva que acabara de desfigurar um colega por nada. Mas, enquanto olhava para a figura dominante de Engfa, para a proteção violenta e absoluta que ela emanava, Charlotte sentiu aquele prazer doentio e familiar. Era a validação de que ela era o centro do universo de Engfa, o único puzzle que a herdeira nunca conseguiria resolver completamente.
— Você é louca, Engfa — Charlotte murmurou, mas seus pés já se moviam, seguindo a outra garota em direção ao estacionamento.
O trajeto até o condomínio de luxo onde Charlotte morava foi silencioso e tenso. Engfa dirigia seu carro esportivo com uma agressividade controlada, os nós dos dedos brancos no volante. Assim que entraram no apartamento de Charlotte — Engfa tinha a chave, é claro, uma concessão que Charlotte fizera meses atrás após uma briga exaustiva —, a tensão explodiu.
Engfa nem sequer esperou a porta fechar completamente antes de prensar Charlotte contra ela.
— O que você estava fazendo, Charlotte? — Engfa sibilou, seu rosto a centímetros do de Austin. — Por que deixou que ele chegasse tão perto? Você gosta da atenção? Gosta de me ver perder o controle?
— Eu não fiz nada, Engfa! — Charlotte revidou, empurrando os ombros da outra. — Ele simplesmente apareceu. Eu não controlo o mundo ao meu redor como você faz com o seu dinheiro!
— Você é minha! — Engfa gritou, a voz falhando em uma nota de desespero. — Cada centímetro, cada pensamento, cada gota de sangue. Eu não admito que esses idiotas olhem para você.
Engfa segurou a cintura de Charlotte com força, seus dedos cravando-se no tecido fino da blusa. Charlotte gemeu, não apenas de dor, mas de uma antecipação que a envergonhava. Ela sabia o que vinha a seguir. A dualidade.
Engfa a puxou para o quarto, jogando-a sobre a cama larga. Charlotte tentou se levantar, mas Engfa subiu sobre ela, prendendo seus pulsos acima da cabeça com uma das mãos, enquanto a outra mão subia para a garganta de Charlotte, apertando o suficiente para que ela sentisse o pulso de Engfa contra o seu.
— Você precisa ser lembrada — sussurrou Engfa, o sarcasmo voltando a brilhar nos olhos, mas agora misturado com uma luxúria sombria. — Precisa de marcas novas para não esquecer a quem você volta no final do dia.
Engfa desceu os beijos pelo pescoço de Charlotte, mordendo a pele macia com uma ferocidade que beirava a crueldade. Charlotte arqueou as costas, suas unhas arranhando as costas de Engfa por cima da camisa, deixando marcas que ela sabia que ficariam vermelhas e inchadas em minutos.
— Isso... dói... — Charlotte arquejou, fechando os olhos enquanto sentia os dentes de Engfa em seu ombro.
— Eu sei que dói — Engfa murmurou contra a pele dela. — E eu sei que você ama.
Engfa levantou a blusa de Charlotte, revelando a pele pálida da cintura. Com uma precisão quase cirúrgica, ela começou a deixar marcas ali. Não eram apenas beijos; eram sucções fortes, mordidas pequenas que faziam Charlotte soluçar. Engfa estava marcando seu território, criando um mapa de posse que ninguém mais veria, mas que Charlotte sentiria a cada movimento que fizesse no dia seguinte.
A cintura era o lugar favorito de Engfa, logo depois do rosto. Ela adorava como a pele ali era sensível, como Charlotte estremecia sob seu toque.
Depois de longos minutos de uma violência silenciosa e compartilhada, Engfa parou. Ela se sentou na beira da cama, a respiração ainda pesada, observando Charlotte, que estava deitada com o cabelo espalhado pelos travesseiros, o lábio inferior trêmulo e a cintura coberta de manchas arroxeadas.
O monstro recuou, dando lugar à cuidadora.
Engfa levantou-se e foi até o banheiro, voltando com uma bacia de água morna e um pano macio. Ela se ajoelhou entre as pernas de Charlotte, que a observava com um olhar nublado, uma mistura de exaustão e uma devoção que ela se recusava a verbalizar.
— Deixe-me ver — disse Engfa, sua voz agora suave, quase doce.
Ela começou a passar o pano úmido sobre as marcas que acabara de criar. O toque era leve, quase uma carícia, limpando qualquer vestígio de suor ou desconforto.
— Por que você faz isso? — perguntou Charlotte, a voz rouca. — Por que me machuca para depois cuidar de mim?
Engfa parou o movimento do pano por um segundo. Ela olhou nos olhos de Charlotte, e por um breve momento, a máscara de arrogância caiu, revelando a profundidade assustadora de sua obsessão.
— Porque eu sou a única que tem o direito de te ferir, Charlotte. E, por consequência, a única que tem o direito de te curar. Eu quero que você sinta a minha falta em cada dor e em cada alívio.
Charlotte estendeu a mão e tocou o rosto de Engfa, traçando a linha da mandíbula da garota rica.
— Você é doente, Waraha.
— E você adora o diagnóstico — Engfa retrucou, um sorriso sarcástico voltando aos lábios enquanto ela beijava a testa de Charlotte.
Engfa terminou de limpar as marcas e deitou-se ao lado de Charlotte, puxando-a para o seu peito. O silêncio voltou a reinar, mas desta vez era um silêncio confortável, preenchido pelo som rítmico de dois corações que batiam em uma sintonia distorcida.
— O livro — disse Charlotte depois de um tempo, a voz abafada contra o pescoço de Engfa. — O que você achou do final?
Engfa sorriu, acariciando os cabelos de Charlotte com uma ternura que faria qualquer um que a visse no corredor da escola duvidar de sua sanidade.
— Achei que Dorian foi fraco — respondeu Engfa. — Ele tentou destruir o retrato para se livrar da culpa. Eu nunca faria isso. Se eu tivesse um retrato que mostrasse todos os meus pecados por você, eu o colocaria em uma moldura de ouro e o penduraria na minha sala de estar. Eu não tenho vergonha do que sinto, Lotte.
Charlotte apertou o braço de Engfa, sentindo os arranhões que ela mesma fizera mais cedo.
— Você é possessiva demais. É tóxico. É perigoso.
— Eu sei — sussurrou Engfa, fechando os olhos e inalando o perfume de baunilha de Charlotte. — Mas você não iria a lugar nenhum, mesmo se eu deixasse a porta aberta. Iria?
Charlotte não respondeu. Ela não precisava. O modo como ela se aninhava no abraço de sua bully, aceitando o peso daquela obsessão, era resposta suficiente. Elas eram um quebra-cabeça de peças afiadas que só se encaixavam quando se cortavam.
— Amanhã — disse Engfa, sua voz já carregada pelo sono — eu vou te buscar para a aula. E se eu vir aquele Thomas a menos de dez metros de você, eu juro que o nariz dele será a menor das preocupações dele.
— Você vai acabar sendo expulsa — Charlotte murmurou, embora houvesse um traço de diversão em sua voz.
— Meu pai é o maior doador da St. Mary’s, querida. Eu sou a dona daquele lugar. E você... você é a dona de quem manda em tudo.
Engfa deixou um último beijo na têmpora de Charlotte antes de mergulhar no sono, mantendo a mão firmemente possessiva sobre a cintura marcada da garota. Charlotte ficou acordada por mais alguns minutos, observando as sombras no teto. Ela sentia a ardência na pele, o peso do braço de Engfa e a certeza absoluta de que sua vida era um caos glorioso.
Ela odiava Engfa Waraha. E, com a mesma intensidade, ela não conseguia imaginar existir sem a dor e o carinho que só a Waraha sabia infligir. No final, o orgulho de ambas era apenas o combustível para uma paixão que queimava tudo ao redor, deixando apenas as marcas de uma propriedade que nenhuma delas ousaria renunciar.