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My dear little bully

O Eco de Sete Anos de Sangue e Veludo

A luz da manhã de quinta-feira era impiedosa. Ela entrava pelas frestas da persiana cara do quarto de Charlotte, cortando o ambiente em lâminas de claridade que denunciavam cada detalhe da noite anterior. Charlotte Austin abriu os olhos lentamente, sentindo o peso familiar de um braço possessivo sobre suas costelas. O calor que emanava do corpo ao seu lado era quase sufocante, mas era o único ancoradouro que ela conhecia.

Ao se sentar na cama, o lençol de seda escorregou, revelando o mapa de guerra em que sua pele se transformara. Ela caminhou até o espelho de corpo inteiro no canto do quarto. Suas mãos tocaram a própria cintura, onde as manchas arroxeadas de Engfa floresciam como orquídeas sombrias. Havia uma marca de mordida perto da clavícula, ainda sensível, e pequenos pontos vermelhos onde os dedos da Waraha haviam pressionado com força excessiva.

— Você está admirando meu trabalho ou contando as falhas? — A voz de Engfa surgiu rouca, vinda da cama.

Charlotte olhou pelo reflexo. Engfa estava apoiada nos cotovelos, o cabelo castanho-escuro caindo sobre os olhos, observando-a com uma devoção que beirava o religioso. Não havia arrependimento no olhar de Engfa; havia apenas um orgulho predatório. Ela amava ver aquelas marcas. Para Engfa, a pele de Charlotte era uma tela em branco que só ganhava valor quando ostentava as cores da Waraha.

— Eu ainda te odeio, Engfa — murmurou Charlotte, embora seus dedos traçassem o contorno de um hematoma com uma estranha reverência.

Engfa soltou um riso seco, levantando-se e caminhando até Charlotte. Ela parou atrás da garota, envolvendo-a em um abraço por trás, seus olhos encontrando os de Charlotte no espelho.

— Você diz isso há sete anos, Lotte. E a cada ano, sua voz soa menos convincente.

Charlotte fechou os olhos por um segundo. Sete anos. Elas estudavam juntas na St. Mary’s desde os doze. No início, Engfa era apenas a garota rica e arrogante que desdenhava de todos. Aos treze, a implicância se transformou em algo físico. Engfa começou a empurrá-la nos corredores, a trancá-la em salas vazias, a beliscar seus braços até que as lágrimas brotassem nos olhos de Charlotte.

Charlotte nunca pediu ajuda. Nunca contou aos professores ou aos pais. No começo, era por orgulho; ela não queria dar a Engfa o prazer de vê-la derrotada. Mas, com o passar do tempo, a percepção mudou. Charlotte começou a notar que Engfa não tratava mais ninguém daquela forma. A violência era exclusiva. A obsessão era dedicada. Ter a atenção total de alguém tão poderosa e inalcançável como Engfa Waraha começou a alimentar o ego de Charlotte de uma forma doentia. Ela se tornou o vício de Engfa, e Engfa se tornou sua necessidade.

Aos quinze anos, a linha entre o ódio e o desejo foi apagada para sempre. Charlotte se lembrou nitidamente do dia no vestiário da quadra, após uma briga aos gritos sobre um livro que Engfa havia rasgado. Engfa a prensara contra os armários de metal, e o que deveria ter sido um tapa tornou-se o primeiro beijo — um beijo que sabia a ferro e fúria. Engfa mordera o lábio de Charlotte até sangrar, e Charlotte, em vez de recuar, fincara as unhas nos ombros da Waraha, rasgando a pele até sentir o calor do sangue sob suas digitais.

— Lembra-se dos quinze anos? — perguntou Engfa, como se estivesse lendo os pensamentos de Charlotte, enquanto passava a ponta do nariz pelo pescoço marcado da garota. — Você tentou me bater com aquela raquete de tênis. E terminou implorando para que eu não parasse de te beijar.

— Eu não implorei — retrucou Charlotte, virando-se nos braços de Engfa. — Eu só queria que você sentisse o quanto eu te desprezava.

— E sentiu muito bem — Engfa sorriu, o brilho sádico voltando aos olhos. — Especialmente quando suas unhas deixaram cicatrizes que eu carrego até hoje.

Engfa pegou a mão de Charlotte e a levou até seu próprio ombro, guiando os dedos da garota pelas marcas esbranquiçadas que nunca sumiram. Era o troféu de Charlotte.

— Ontem, na escola... — Charlotte começou, sua voz ganhando um tom mais afiado — ...você parecia muito ocupada rindo com aquelas garotas do clube de debate.

O corpo de Engfa ficou tenso por um microssegundo. O ciúme de Charlotte era silencioso, mas cortante.

— Elas são apenas ruído, Charlotte. Você sabe disso.

— Ruído que você permitiu que chegasse perto demais — rebateu Charlotte, empurrando o peito de Engfa. — Você gosta de me mostrar que tem outras opções, não gosta? Gosta de me ver fervendo por dentro.

Engfa soltou uma gargalhada genuína, segurando os pulsos de Charlotte com uma força súbita.

— Eu mostrei a você ontem por que você é meu único brinquedo, não mostrei? — Engfa a empurrou levemente contra a penteadeira, fazendo os frascos de perfume chacoalharem. — Aquelas garotas não aguentariam um minuto do que nós temos. Elas querem flores e jantares. Você quer o meu pior, e eu quero a sua destruição.

— Você é um monstro, Engfa Waraha.

— E você é a minha jaula.

Engfa inclinou-se, capturando os lábios de Charlotte em um beijo que não tinha nada de suave. Era uma disputa por território. Charlotte revidou, mordendo o lábio inferior de Engfa com força, sentindo o gosto metálico familiar. Em resposta, Engfa apertou sua cintura, bem em cima dos hematomas frescos, arrancando um gemido de dor e prazer da garganta de Charlotte.

Era sempre assim. Um ciclo de retaliação e entrega. Charlotte odiava a forma como Engfa a controlava, o modo como ela conhecia cada detalhe de sua vida, desde o que ela dava de comer ao seu coelho Phalo até a cor exata da tinta que ela usava quando estava deprimida. Mas, ao mesmo tempo, a ideia de Engfa direcionar esse olhar obsessivo para outra pessoa era insuportável.

— Vamos chegar atrasadas — disse Charlotte entre beijos, embora suas mãos estivessem ocupadas puxando o cabelo de Engfa.

— Deixe-as esperar — murmurou Engfa. — A St. Mary’s é minha, e você é o meu segredo mais bem guardado.

Engfa a pegou no colo, levando-a de volta para a cama. O cuidado com que ela a depositou nos lençóis contrastava violentamente com a forma como, segundos depois, ela prendia os braços de Charlotte com uma autoridade bruta.

— Diga que você é minha, Charlotte. Diga para que eu não precise te marcar mais uma vez hoje.

Charlotte olhou para o rosto de Engfa, para a beleza aristocrática manchada pela luxúria e pela possessividade. Ela viu a garota que a fazia sangrar no banheiro do quarto andar e a garota que lia seus livros favoritos só para ter o que discutir com ela.

— Eu sou o seu pior pesadelo, Engfa — respondeu Charlotte, puxando o rosto da Waraha para baixo. — E você é a única dor que eu me permito sentir.

O beijo que selou aquela manhã foi a confirmação de um pacto assinado anos atrás, nos corredores frios da escola. Elas eram tóxicas, eram um desastre anunciado, mas nenhuma das duas estava disposta a ser salva. Enquanto Charlotte sentia os dentes de Engfa novamente em seu lábio, ela soube que, não importa quantas garotas tentassem se aproximar da herdeira dos Waraha, nenhuma delas jamais conheceria a Engfa que pertencia a ela: a fera que só se acalmava com o sabor do seu sangue e o som do seu nome dito em meio a um suspiro de agonia.

— Ótimo — sussurrou Engfa, separando-se apenas o suficiente para olhar nos olhos de Charlotte. — Agora, levante-se. Temos um teatro para encenar na escola. Eu serei a bully arrogante, e você será a vítima perfeita.

— E à noite? — perguntou Charlotte, ajeitando o cabelo.

— À noite — Engfa sorriu de forma predatória —, nós seremos apenas o que somos de verdade. Dois pedaços de um quebra-cabeça quebrado, tentando se encaixar até que não sobre nada além de nós duas.

Charlotte levantou-se, vestindo o uniforme da St. Mary’s com uma dignidade que escondia as marcas sob o tecido. Ela olhou para Engfa, que já estava de pé, abotoando a camisa com a calma de quem não acabara de ter uma explosão de violência passional.

— Engfa?

— Sim, Lotte?

— Não ouse falar com aquelas garotas hoje. Ou eu vou garantir que os arranhões nos seus braços precisem de pontos desta vez.

Engfa parou, olhou para Charlotte e seus olhos brilharam com um prazer quase sufocante.

— Eu adoro quando você me ameaça, Charlotte Austin. Isso me dá ideias maravilhosas para o nosso próximo "horário marcado" no quarto andar.

Elas saíram do apartamento lado a lado, a tensão vibrando entre elas como um fio de alta voltagem. No carro, o silêncio era preenchido pelo som rítmico de Engfa resolvendo um cubo mágico com uma mão, enquanto a outra repousava, possessiva, sobre a coxa de Charlotte. Elas eram um labirinto de dor e desejo, e nenhuma das duas pretendia encontrar a saída.

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