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my girl

Entre Desafios e Carinhos ao Sol

A agitação no corredor foi diminuindo conforme o grupo se dispersava, mas a fome e o cansaço de ter acordado tão cedo começaram a bater. Eu e Lorena não tínhamos comido nada desde as cinco da manhã, e a adrenalina da revelação do namoro tinha consumido o resto das nossas energias. Como a cantina ainda estava meio devagar e o vento que soprava pelo pátio estava ficando gelado, decidimos ir para a quadra aberta.

— Amiga, vamos para o sol? — sugeriu Lorena, cruzando os braços para se proteger de uma lufada de vento. — Esse body de manga longa é lindo, mas o vento passa direto por ele.

— Vamos sim, também estou congelando — respondi, sentindo o Matheus Luiz ainda ao meu lado, como se ele tivesse medo de que, se me soltasse por um segundo, eu mudaria de ideia sobre o "sim".

Caminhamos até a quadra de cimento, onde o sol batia forte, criando um refúgio morno contra o vento da manhã. Sentamos nos degraus da arquibancada baixa, deixando o calor aquecer nossas costas. Não demorou nem dois minutos para que o resto da tropa aparecesse. Os meninos eram como sombras; onde a gente ia, eles iam atrás, especialmente agora que o clima de "casal" estava no ar.

Hanan estava mais quieto que o normal. Ele olhava para a Lorena de um jeito diferente, e eu dei um cutucão discreto nela com o cotovelo. Ela ficou vermelha na hora. O Hanan tomou coragem, limpou a garganta e se aproximou da gente.

— Lorena... — ele chamou, coçando a nuca, visivelmente nervoso. — Você quer ir ali no pátio rapidinho? Queria conversar uma coisa com você. A sós.

Lorena me olhou com os olhos arregalados, buscando uma última confirmação. Eu apenas pisquei para ela e dei um sorriso encorajador.

— Claro, Hanan. Vamos lá — ela disse, levantando-se e limpando o jeans.

Os dois se afastaram em direção ao pátio coberto, deixando um silêncio curioso para trás. Matheus Luiz aproveitou a deixa. Ele se sentou atrás de mim no degrau superior, me puxando para ficar entre as pernas dele. Eu me virei de frente, envolvendo meus braços em volta do pescoço dele, enquanto ele passava os braços com firmeza pela minha cintura. Era uma sensação nova, mas estranhamente confortável.

— E aí, dona Hanna? — ele disse, olhando bem nos meus olhos, com aquele sorriso de quem tinha ganhado na loteria. — Finalmente, hein? Achei que ia ter que esperar até o nono ano para ouvir esse "sim".

— Deixa de ser dramático, Matheus — brinquei, apertando de leve o pescoço dele. — Eu só queria ter certeza. E olha só, você sobreviveu à espera.

— Sobrevivi, mas foi difícil — ele riu, encostando a testa na minha. — Mas e aí, você acha que o Hanan vai se declarar para a Lorena agora?

— Com certeza — respondi, olhando de relance para onde eles tinham ido. — A Lorena estava doidinha para que eu aceitasse logo o seu pedido só para ela ter o caminho livre. Ela gosta dele faz tempo.

— Sério? O Hanan é gente boa, mas é meio lerdo — comentou Matheus, rindo. — Eles combinam. Dois lerdos se entendem.

Ficamos ali por um tempo, apenas curtindo o momento e falando da vida dos outros, como bons fofoqueiros que éramos. Mas a paz não durou muito, porque o Matheus Gois, o Gabriel e o Davi Henrique não aguentavam ficar parados.

— Ô, casal! — gritou Matheus Gois, sentado no chão da quadra com uma garrafa de plástico vazia. — Chega de melação. Vamos jogar Verdade ou Desafio. O Hanan e a Lorena já estão voltando.

Dito e feito. Os dois apareceram no portão da quadra com sorrisos tímidos e rostos levemente corados. Pelo jeito, a conversa tinha sido boa. Eles se juntaram ao círculo que se formava no chão.

Eu me mudei de posição. Agora, eu estava sentada entre as pernas do Matheus Luiz, de costas para o peito dele, abraçando a cintura dele enquanto ele começava a fazer um carinho suave no meu cabelo. Eu apoiei a cabeça no ombro dele, sentindo o cheiro do perfume dele misturado com o sol.

— Primeira rodada! — anunciou Gabriel, girando a garrafa.

A ponta parou para o Davi Henrique perguntar para o Matheus Gois.

— Verdade ou desafio, Gois? — Davi perguntou, com um brilho maligno nos olhos.

— Desafio, óbvio. Não sou covarde — respondeu Gois, estufando o peito.

— Desafio você a ir até o portão da diretoria e gritar "Eu amo a coordenadora" bem alto.

— Você tá maluco? Ela vai me dar suspensão no último dia! — Gois reclamou, mas a pressão dos outros foi maior.

Ele foi até lá, gritou de um jeito que todo mundo no pátio ouviu, e voltou correndo, vermelho de vergonha enquanto a gente chorava de rir.

O jogo continuou e os desafios foram ficando cada vez mais pesados. Teve gente tendo que beber mistura de refrigerante com salgadinho amassado, e teve o Hanan tendo que dar um selinho na bochecha da Lorena, o que fez todo mundo gritar "Uhhh!".

Em certo momento, Matheus Gois, que estava meio ranzinza por causa dos desafios que recebeu, olhou para mim e para o Matheus Luiz.

— Olha só esses dois — ele disse, apontando para nós. — Estão aí no mundo da lua, nem parece que o mundo está acabando aqui no jogo. Que melação, credo.

Matheus Luiz nem parou de mexer no meu cabelo. Ele apenas olhou para o xará com um sorrisinho debochado.

— Não tenho culpa se você é encalhado, Gois — ele disparou, curto e grosso.

A cara do Matheus Gois foi impagável. Ele abriu a boca, indignado, enquanto o resto do grupo caía na gargalhada.

— Encalhado? Eu? — Gois colocou a mão no peito, fingindo estar ofendido. — Eu sou um espírito livre, Matheus Luiz! É uma escolha consciente!

— Sei, uma escolha consciente que ninguém te quer — provocou Gabriel, levando um tapa no braço logo em seguida.

A discussão entre os meninos começou a esquentar, mas daquele jeito deles: muita gritaria, empurrões de brincadeira e xingamentos que não significavam nada. Eu só ficava ali, protegida no abraço do Matheus, rindo da cena. Eles pareciam crianças grandes, quase se matando por causa de uma rodada de jogo.

Matheus Luiz tirou um pirulito da boca — um de cereja que ele estava comendo fazia um tempo — e estendeu para mim.

— Quer? — ele perguntou, sem cerimônia.

— Quero — respondi, pegando o pirulito e colocando na boca.

Era um gesto simples, mas que selava aquela intimidade nova entre a gente. Os meninos viram e começaram a zoar de novo, mas a gente nem ligou.

— Ih, olha lá! Até o pirulito eles dividem agora — comentou Davi Henrique, rindo. — Daqui a pouco vão querer usar a mesma mochila.

— Inveja é feio, Davi — eu disse, tirando o pirulito da boca e dando língua para ele.

A manhã foi passando assim, entre o calor do sol na quadra e a energia caótica daquele grupo de amigos. Lorena e Hanan estavam em seu próprio mundinho, trocando olhares e risadinhas, enquanto eu me sentia mais feliz do que nunca.

As unhas grandes que eu tinha feito com tanto cuidado brilhavam sob o sol enquanto eu brincava com os dedos do Matheus Luiz, que estavam entrelaçados nos meus sobre a cintura dele. Ele continuava fazendo carinho no meu cabelo longo, e eu sentia que poderia ficar ali o dia inteiro.

— Sabe, Hanna — ele sussurrou perto do meu ouvido, para que os outros não ouvissem a discussão que ainda rolava sobre quem tinha roubado no jogo —, eu realmente achei que você ia dizer não hoje.

— E por que eu diria não? — perguntei, virando um pouco o rosto para olhá-lo.

— Porque você é marrenta. Gosta de fazer charme — ele riu, me dando um beijo na ponta do nariz.

— Eu não sou marrenta, sou seletiva — corrigi, rindo junto. — E eu escolhi você, não escolhi?

— Escolheu. E agora não tem mais volta.

A discussão entre o Gois e o Gabriel subiu de tom porque alguém tinha girado a garrafa "com muita força", e eles quase saíram rolando no chão da quadra. Eu e Lorena trocamos um olhar de "quem aguenta esses meninos?", e caímos na risada juntas.

O último dia de aula estava longe de ser um dia comum. Era o começo de algo novo. Olhei para o céu azul, senti o braço do Matheus me apertando um pouco mais forte, e tive a certeza de que aquelas seriam as melhores férias da minha vida.