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my girl

Verdades, Mentiras e o Caos Amigável

O relógio da escola, aquele antigo que ficava pendurado perto do mastro da bandeira, parecia estar em câmera lenta, mas de um jeito bom. Como era o último dia, a direção tinha liberado um recreio especial de três horas. Três horas de liberdade total antes do sinal final tocar e a gente sumir pelo portão rumo às férias. Já tinham se passado uns trinta minutos desde que toda aquela confusão do meu namoro com o Matheus Luiz começou, e o clima na quadra ainda estava elétrico.

O sol estava cada vez mais alto, mas a gente nem ligava. O grupo continuava ali, sentado em círculo no cimento áspero da quadra. Eu ainda estava acomodada entre as pernas do Matheus Luiz, sentindo o calor do braço dele no meu pescoço, enquanto minhas unhas compridas tamborilavam na calça jeans dele. Lorena e Hanan estavam sentados um ao lado do outro, mas havia uma distância de segurança de uns dez centímetros que parecia um abismo de timidez.

Gabriel, que nunca perdia a chance de colocar lenha na fogueira, limpou o suor da testa e deu um sorriso de lado, olhando fixamente para os dois.

— Gente, na moral — começou Gabriel, chamando a atenção de todo mundo —, o Matheus Luiz e a Hanna já resolveram a vida deles. O clima de romance já tá até enjoando. Mas e vocês dois? Hanan e Lorena, quando é que vocês vão assumir o que todo mundo já sabe?

Lorena arregalou os olhos e começou a mexer freneticamente em uma mecha do cabelo, enquanto o Hanan subitamente achou que as formigas passando no chão eram a coisa mais interessante do mundo.

— Pois é! — eu exclamei, aproveitando o embalo. — Eu concordo plenamente com o Gabriel. Tá demorando muito, gente. O suspense já perdeu a graça, agora a gente quer a confirmação oficial.

— É... a gente... — Hanan gaguejou, trocando um olhar rápido e desesperado com a Lorena.

— A gente o quê, Hanan? — perguntei, rindo da cara dele. Como eu sou a melhor amiga da Lorena, eu sabia exatamente o que ela estava sentindo. Ela queria que ele falasse, mas não queria ter que falar primeiro.

Os dois se olharam por longos segundos. O silêncio deles era quase ensurdecedor. Os outros meninos — Matheus Gois e Davi Henrique — começaram a fazer barulhos de grilo para zoar a demora.

— Sabe de uma coisa? — eu disse, levantando um pouco a voz para cortar o silêncio. — Como eu sou uma ótima amiga e conheço os dois como a palma da minha mão, eu vou falar por eles. Eles estão gostando um do outro, sim, e só estão com vergonha porque esse bando de marmanjo fica pressionando. Acertei ou não?

Hanan deu um suspiro que pareceu tirar um peso de uma tonelada das costas dele. Ele olhou para a Lorena, que deu um sorrisinho de canto e assentiu de leve com a cabeça.

— É, a Hanna tá certa — disse Hanan, finalmente recuperando a voz. — Não tem por que esconder mais, né?

— Amém! — gritou Davi Henrique, jogando as mãos para o alto. — Achei que ia ter que esperar o ensino médio para ver isso acontecer.

A comemoração foi geral, com muitos tapas nas costas do Hanan e a Lorena escondendo o rosto no meu ombro por um segundo, morrendo de vergonha. Agora que o "casal secundário" estava devidamente exposto, o clima de fofoca estava no auge. Foi aí que o Matheus Gois teve uma ideia que, eu já deveria saber, ia terminar em confusão.

— Gente, já que estamos nesse clima de revelações, vamos brincar de um jogo diferente — sugeriu Gois, com um olhar malicioso. — Chama-se "Jogo da Verdade Anônima". Alguém fala uma verdade polêmica ou um segredo de uma pessoa do círculo, mas não diz quem é. O resto tem que adivinhar ou a pessoa tem que se entregar.

— Isso vai dar problema — comentou o Matheus Luiz, rindo baixo perto do meu ouvido. — Mas eu topo.

— Eu também! — eu disse, já sentindo a malícia da brincadeira.

Começamos a rodada. O Gabriel foi o primeiro.

— Tem uma pessoa aqui — começou ele, olhando para o teto da quadra — que já chorou no banheiro porque achou que ia levar bomba em Matemática, mas na verdade tirou um sete.

— Ah, isso é o Davi! — gritou Matheus Gois na hora.

— Mentira! — rebateu Davi, ficando vermelho. — Eu não chorei, eu só estava com o olho irritado por causa do cloro da piscina!

— Aham, sei — debochei, rindo da desculpa esfarrapada dele.

A brincadeira foi seguindo e, como previsto, a temperatura começou a subir. Verdades sobre quem tinha bafo de manhã no acampamento do ano passado ou sobre quem tinha mandado mensagem por engano para a professora começaram a surgir. Mas a coisa ficou séria quando chegou a minha vez.

Eu olhei para a Lorena e para o Hanan. Eu queria dar um empurrãozinho final, mas também queria ver o circo pegar fogo.

— Bom, a minha verdade é a seguinte — comecei, fazendo um suspense dramático e ajeitando meu body preto. — Existe um certo casal aqui que, antes mesmo de se assumir hoje, já ficava trocando mensagens de "boa noite com coração" escondido de todo mundo, achando que ninguém ia perceber a mudança no brilho do celular durante as aulas.

O silêncio caiu de novo. Lorena me olhou com uma expressão que misturava choque e traição. O Hanan simplesmente congelou.

— Eita! — exclamou Matheus Luiz, rindo. — Essa foi direta no alvo.

— Lorena? Hanan? — perguntou Gabriel, cutucando o braço do Hanan. — É de vocês que a Hanna tá falando?

— Hanna, você é uma fofoqueira! — exclamou Lorena, embora estivesse rindo. — Como você sabia disso? Eu apaguei as conversas!

— Amiga, eu sou inteligente e observadora — respondi, piscando para ela. — E suas unhas batendo na tela do celular têm um ritmo diferente quando você está apaixonada.

Os meninos caíram na gargalhada e começaram a zoar o Hanan.

— "Boa noite com coração", Hanan? — Matheus Gois imitava uma voz fina e romântica. — Que fofinho, ele é um poeta romântico!

— Ah, cala a boca, Gois! — Hanan retrucou, tentando dar um chute de brincadeira no amigo. — Pelo menos eu tenho alguém para mandar mensagem, diferente de você que só recebe notificação de atualização de jogo.

— Opa! — gritou Davi. — Agora o negócio esquentou!

A partir daí, a brincadeira virou uma sucessão de "diretas indiretas". O Matheus Gois, mordido pela piada do Hanan, resolveu atacar o Gabriel.

— Já que é assim, tem uma pessoa aqui que diz que é o pegador da escola, mas passou o intervalo inteiro da semana passada tentando falar com uma menina do 6º ano e levou um vácuo fenomenal.

Gabriel fechou a cara na hora.

— O quê? Ela era do 7º, pra começar! — ele se entregou, e todo mundo gritou "UUHHH!". — E não foi vácuo, ela só estava sem internet!

— Sem internet por três dias, Gabriel? — eu provoquei, rindo tanto que minha barriga começou a doer. — Essa desculpa é pior que a do Davi com o cloro no olho.

A discussão começou a se espalhar. O círculo de amigos, que antes era só paz e amor, agora parecia um campo de batalha de egos feridos. O Matheus Luiz tentava me proteger da agitação, mas ele mesmo não aguentava e soltava umas piadas ácidas no meio.

— O problema de vocês — disse Matheus Luiz, abraçando minha cintura com mais força — é que vocês não sabem perder. O jogo é de verdade, se não aguenta a verdade, pede pra sair.

— Falou o senhor perfeito porque agora tá namorando a Hanna — resmungou o Davi. — Mas a gente lembra muito bem de quando você ficava cobrando resposta dela todo dia e parecia um cachorrinho abandonado no corredor.

Eu olhei para o Matheus Luiz e ele deu um sorriso amarelo.

— É, essa doeu — ele admitiu. — Mas valeu a pena, não valeu, Hanna?

— Valeu — respondi, dando um beijo rápido no ombro dele, o que fez os meninos fazerem barulho de nojo de brincadeira.

No meio da confusão, a Lorena se levantou, ainda fingindo estar brava comigo por eu ter contado sobre as mensagens.

— Eu não acredito que minha melhor amiga me expôs desse jeito — ela disse, colocando as mãos na cintura e olhando para mim. — Matheus Luiz, você roubou ela de mim e ainda por cima ela ficou fofoqueira. Eu exijo reparação!

— Reparação nada, Lorena! — eu rebati, rindo e me soltando um pouco do abraço para gesticular. — Eu só ajudei o processo. Se não fosse por mim, você e o Hanan iam estar mandando coraçãozinho escondido até o terceiro ano do ensino médio!

— Ela tem um ponto, Lorena — comentou o Hanan, tentando apaziguar.

— Não defende ela, Hanan! — Lorena deu um tapa leve no braço dele. — Você é meu agora, tem que estar do meu lado na discussão!

A gente começou a rir de novo. A "briga" entre a Lorena e o Matheus Luiz pelo meu "tempo e lealdade" era uma piada interna constante. Ela dizia que eu era o amor da vida dela e ele dizia que o contrato de namoro tinha cláusulas de exclusividade.

— Quer saber? — disse Gabriel, levantando-se e limpando a poeira da calça. — Esse jogo já rendeu humilhação demais por um dia só. Vamos fazer alguma coisa útil. O recreio de três horas ainda tem muito tempo pela frente.

— Útil tipo o quê? — perguntou Davi. — Comer?

— Sempre — respondi por todos.

Nos levantamos da quadra, o sol agora batendo direto no topo das nossas cabeças. O clima de tensão da brincadeira se dissipou tão rápido quanto tinha surgido, sobrando apenas aquela sensação boa de amizade verdadeira, onde a gente pode se xingar e se expor, mas no minuto seguinte está todo mundo abraçado.

Caminhamos em direção ao pátio central. O Matheus Luiz não soltou o braço do meu pescoço, e a Lorena, para não ficar atrás, grudou no meu outro braço, fazendo questão de mostrar para o Matheus que ela ainda tinha direitos sobre mim. O Hanan vinha logo atrás, conversando com o Gabriel sobre alguma coisa de videogame, mas seus olhos não saíam da Lorena.

— Hanna — sussurrou o Matheus Luiz enquanto caminhávamos —, você sabe que essa história das mensagens foi golpe baixo, né?

— Eu sei — respondi com um sorriso travesso. — Mas olha para eles. Estão muito mais relaxados agora.

— É, você é terrível — ele riu e me apertou mais um pouco. — Minha marrentinha favorita.

— E você é o meu reclamão preferido — retruquei, sentindo que o último dia de aula estava sendo exatamente como deveria: caótico, barulhento e cheio de amor.

O corredor da escola, que costumava ser um lugar de pressa e preocupação com provas, hoje era nosso palco. Passamos pela porta da sala do 8º ano e nem olhamos para dentro. Hoje, a lição era sobre amizade, e essa a gente já tinha aprendido de cor.

— Próxima parada: cantina! — gritou Matheus Gois lá na frente. — E quem perdeu no jogo da verdade paga o primeiro salgado!

— Então o Gabriel tá falido! — gritei de volta, e a risada coletiva ecoou por toda a escola, avisando a quem quisesse ouvir que as nossas férias tinham começado da melhor maneira possível.