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my girl

O Último Sinal e o Pacto de Verão

O sol do meio-dia já castigava o asfalto do pátio, e o mormaço subia das quadras de cimento, fazendo as imagens ao longe parecerem onduladas. Aquele calor abafado era o anúncio definitivo: o ano letivo tinha acabado. O pátio, que horas antes estava deserto e silencioso, agora fervilhava com o barulho dos poucos alunos que restavam, todos com aquela energia caótica de quem está prestes a ser solto no mundo sem horários para acordar.

Eu estava sentada no banco de cimento, sentindo o suor leve na nuca, enquanto o Matheus Luiz brincava com uma das minhas unhas compridas. Ele parecia fascinado com o desenho que eu tinha feito nelas, passando o polegar com cuidado sobre o esmalte.

— Sabe, Hanna — ele começou, com a voz um pouco mais séria, ignorando a gritaria do Gabriel e do Matheus Gois logo atrás de nós —, agora que a gente oficializou, eu fico pensando... a gente mora longe pra caramba. Como é que vai ser nas férias?

Eu olhei para ele, percebendo uma pontinha de insegurança naqueles olhos castanhos. Era verdade. A escola era o nosso ponto de encontro, o lugar onde a gente se via todo dia por obrigação. Sem as aulas, a distância entre nossas casas parecia um oceano.

— A gente dá um jeito, Matheus — respondi, dando um sorriso confiante e apertando a mão dele. — Existe ônibus, existe Uber e, principalmente, existe o WhatsApp. Você não vai se livrar de mim tão fácil.

— Acho bom — ele riu, puxando minha mão para dar um beijo rápido. — Porque eu demorei tempo demais pra ouvir esse "sim" pra agora ficar só vendo você por figurinha no grupo.

— Ih, olha lá o melaço de novo! — gritou o Davi Henrique, passando por nós com uma bola de basquete debaixo do braço. — Matheus, larga a menina um pouco, vamos jogar um 21 antes de ir embora?

— Vai lá — eu disse, dando um empurrãozinho leve nele. — Eu vou ficar aqui com a Lorena, precisamos terminar de planejar nosso "cronograma de sobrevivência" às férias.

Matheus Luiz se levantou, deu uma piscadinha para mim e correu para a quadra com os meninos. Lorena, que estava sentada um pouco mais afastada conversando num tom de voz baixíssimo com o Hanan, percebeu o movimento e veio se sentar do meu lado, com uma expressão radiante.

— Amiga, eu não estou acreditando que tudo deu certo hoje — ela disse, suspirando e se abanando com a mão. — O Hanan é tão fofo. Ele me disse que quer me levar no cinema semana que vem.

— Viu só? E você aí toda cheia de dedo — brinquei, dando um cutucão nela. — Mas e aí, como é que vai ser? Você vai me abandonar por causa do novo "contatinho" oficial?

Lorena mudou a expressão na hora, fazendo aquela cara de indignação fingida que só ela sabia fazer.

— Nunca! Você sabe que você é minha prioridade absoluta. O Hanan sabe o lugar dele — ela riu, mas depois ficou séria. — Mas o Matheus Luiz... ele parece que quer te guardar num potinho. Você viu como ele ficou quando o Rodrigo mandou mensagem?

— Vi, né? — suspirei, olhando para as minhas unhas. — Ele é meio ciumento, mas eu acho que é porque ele estava nervoso com o pedido. Agora que a gente aceitou, acho que ele relaxa.

— Tomara — Lorena disse, pegando o celular. — Porque se ele começar a querer te controlar, ele vai ter que passar por cima de mim primeiro. E eu sou pequena, mas sou brava.

Ficamos ali por um tempo, observando os meninos na quadra. Era engraçado ver a diferença entre eles. O Matheus Luiz jogava sério, concentrado, enquanto o Gabriel e o Gois faziam palhaçada a cada cesta perdida. O Hanan jogava de um jeito mais tranquilo, sempre olhando de relance para onde a gente estava.

De repente, o som estridente e longo do sinal ecoou por toda a escola. Era o último sinal do ano. Aquele som que normalmente significava apenas o fim de mais um dia de tortura pedagógica, hoje soava como um hino de libertação.

— É ISSO! — gritou o Matheus Gois, jogando a bola de basquete para o alto e saindo correndo em direção ao portão. — FÉRIAS, BEBÊ!

Os meninos vieram em nossa direção, todos suados e ofegantes, mas com sorrisos de orelha a orelha. O Matheus Luiz chegou perto de mim e me puxou para um abraço, mesmo estando todo quente do jogo.

— E aí, pronta para ir embora? — ele perguntou, limpando o suor da testa.

— Pronta eu estou desde as 5:40 da manhã — respondi, rindo.

Caminhamos todos juntos em direção ao portão principal. A escola estava ficando vazia, os corredores agora eram apenas ecos de passos. Quando chegamos na calçada, o grupo parou para a despedida. Era aquele momento meio estranho, onde a gente percebe que a rotina vai mudar completamente.

— Bom, galera — disse o Gabriel, fazendo um sinal de paz com a mão —, nos vemos no grupo. Não sumam, senão eu vou na casa de cada um buscar.

— Eu vou é dormir por três dias seguidos — declarou o Davi Henrique, já se afastando. — Tchau pra vocês!

Hanan se aproximou da Lorena e, com muita timidez, deu um beijo rápido na bochecha dela, o que fez todos nós soltarmos um "UHHHH" coletivo.

— Te mando mensagem mais tarde? — ele perguntou, com as bochechas vermelhas.

— Com certeza — ela respondeu, sorrindo de um jeito que eu nunca tinha visto antes.

Depois que os outros meninos foram embora, ficamos apenas eu, a Lorena e o Matheus Luiz. O ônibus que a gente pegava para ir embora passava no mesmo ponto, mas o Matheus morava para o lado oposto.

— Bom, minha vez — disse o Matheus Luiz, segurando minhas mãos. — Hanna, sério... obrigado por hoje. Eu estava morrendo de medo de você dizer que não queria nada sério.

— Eu sou marrenta, Matheus, mas não sou boba — respondi, sorrindo para ele. — Eu só queria ter certeza de que você não ia desistir fácil.

— Nunca — ele disse, aproximando-se e me dando um beijo na testa, longo e carinhoso. — Me avisa quando chegar em casa? O trajeto é longo, fico preocupado.

— Aviso sim, pode deixar.

Ele se despediu da Lorena com um aceno de cabeça — eles ainda tinham aquela "rixa" amigável de quem era o dono da minha atenção — e começou a caminhar em direção ao ponto dele.

Eu e Lorena ficamos ali paradas por um segundo, olhando o movimento da rua. O body preto que eu escolhi de manhã agora estava guardado na mochila, e a regata leve deixava o vento bater nos meus braços.

— Amiga — Lorena disse, me cutucando com o ombro —, a gente sobreviveu ao oitavo ano.

— Sobreviveu e ainda saímos com namorados — completei, rindo. — Quem diria, hein? A gente que só vinha pra escola pra fofocar e mexer no celular.

— A fofoca evoluiu para a vida real — ela disse, enquanto a gente começava a caminhar para o nosso ponto de ônibus. — Mas olha, eu estava falando sério. Se o Matheus Luiz começar a te cobrar demais ou ficar com muito ciúme, você me fala.

— Pode deixar, Lolo. Eu sei me cuidar. E você sabe que eu sou brava quando preciso.

— Eu sei, eu sei. Coitado dele se pisar no seu calo com essas unhas grandes que você está. É uma arma branca!

Rimos juntas, aquela risada que só melhores amigas entendem. O ônibus finalmente apareceu ao longe, sacolejando no asfalto quente. Entramos e, como de costume, estava lotado, mas a gente nem ligou. Ficamos em pé, segurando na barra de ferro, dividindo um fone de ouvido.

No meio do caminho, meu celular vibrou. Era uma mensagem no grupo que o Gabriel tinha acabado de criar, chamado "8º Ano - Os Sobreviventes".

"Matheus Luiz: Já sinto falta da minha namorada. Alguém mais?"

"Gabriel: Cala a boca, Matheus! Não faz nem 15 minutos que a gente saiu!"

"Hanan: Pior que eu também sinto kkkk"

"Lorena: Vocês são muito carentes, credo. Deixem a gente em paz por uma hora!"

Eu olhei para a Lorena e ela piscou para mim, rindo da tela do celular. Eu digitei rapidamente:

"Hanna: Calma, meninos. As férias estão só começando. Guardem a energia para o que vem por aí!"

Bloqueei o celular e olhei pela janela do ônibus. A paisagem passava rápido, as casas, as árvores, as pessoas vivendo suas vidas. Eu me sentia leve, feliz e, pela primeira vez em muito tempo, animada para o futuro. Não era apenas o fim das aulas; era o começo de uma fase nova.

— Nana? — Lorena chamou, tirando o fone do ouvido.

— Oi?

— A gente vai ser amiga pra sempre, né? Mesmo se esses namoros não durarem até o nono ano?

Eu olhei para ela, a menina que acordava às cinco da manhã comigo, que aguentava meus humores e que me defendia de tudo.

— Lolo, namorados vêm e vão — eu disse, segurando a mão dela com firmeza. — Mas você é a minha pessoa. É claro que é pra sempre.

Ela sorriu, encostou a cabeça no meu ombro e voltamos a ouvir música enquanto o ônibus nos levava para longe da escola, em direção ao verão que prometia ser o mais inesquecível de todos. As férias tinham finalmente chegado, e eu estava pronta para cada segundo delas.