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my girl

O Brilho da Cachoeira e o Pacto das Amigas

A manhã na chácara começou com o som estridente de um berrante que o pai do Matheus Gois resolveu tocar às sete da manhã para acordar todo mundo. Eu dei um pulo da cama, ainda meio grogue da madrugada intensa que tive com o Matheus Luiz. Olhei para o lado e ele estava rindo, tentando esconder o rosto debaixo do travesseiro para fugir do barulho.

— Sua família é louca, Matheus — eu disse, rindo e jogando uma almofada nele.

— Culpa do meu tio, ele acha que a gente está num acampamento militar — ele resmungou, com a voz ainda rouca de sono, me puxando para um último abraço antes de levantarmos.

Depois de um café da manhã reforçado, com direito a pão de queijo quentinho e muita fofoca entre os nossos pais, o grupo se reuniu para o plano do dia: uma trilha até a "Cachoeira do Véu", que ficava nos limites da propriedade. Eu estava usando um biquíni de amarrar por baixo de um short jeans curto e uma regata branca que deixava as alças do biquíni à mostra. Minhas unhas grandes, pintadas de um rosa clarinho agora, brilhavam sob o sol.

A trilha era íngreme e cheia de pedras. O Matheus Luiz, como sempre, não saía do meu lado. Ele segurava minha mão nas partes mais difíceis e, às vezes, aproveitava para me dar um beijo rápido quando os outros não estavam olhando. Mas quem estava realmente radiante era a Lorena. Ela e o Hanan caminhavam na frente, de mãos dadas, trocando segredos e risadinhas. Dava para ver que o pedido de namoro oficial tinha mudado a energia entre eles; o Hanan parecia mais confiante, e a Lorena... bom, a Lorena estava nas nuvens.

— Chegamos! — gritou o Gabriel, que estava na liderança com o Matheus Gois.

A cachoeira era linda. A água caía de uma altura de uns cinco metros, formando uma piscina natural cercada por rochas cobertas de musgo. O som da queda d'água era relaxante e o ar ali era muito mais fresco.

— Último a entrar é mulher do padre! — berrou o Gois, já tirando a camiseta e pulando de bomba na água gelada.

O grupo todo se jogou na água, entre gritos e risadas. O Matheus Luiz me puxou para debaixo da queda d'água, onde a pressão da água massageava nossos ombros. Ficamos ali, abraçados, sentindo o frescor da natureza, até que a Lorena me chamou para um canto, perto de umas pedras onde o sol batia mais forte.

— Nana, vem aqui! Preciso falar com você — ela disse, fazendo sinal com a mão.

Eu nadei até ela e nos sentamos nas pedras, deixando as pernas balançando na água. Os meninos ficaram do outro lado, tentando ver quem conseguia nadar até o fundo para pegar pedrinhas coloridas.

— E aí, como foi a noite? — ela perguntou, com aquele olhar de quem já sabia que algo tinha acontecido.

— Foi... intensa, Lolo — confessei, sentindo minhas bochechas esquentarem. — A gente ficou assistindo filme, conversando... e as coisas esquentaram um pouco. Ele é muito carinhoso, mas também muito possessivo, sabe?

— Eu sei bem como é — ela suspirou, olhando para o Hanan de longe. — O Hanan também tem esse lado. Ontem a gente ficou um tempo na varanda e ele não parava de dizer que eu era só dele. É estranho, né? Na escola eles pareciam tão mais... sei lá, imaturos. Aqui parece que tudo ficou mais sério.

— Verdade — concordei, ajeitando meu cabelo molhado. — Mas e você? Está feliz?

— Muito! — os olhos dela brilharam. — Mas eu estava pensando... a gente não pode deixar eles tomarem conta de tudo. A gente combinou, lembra? 90% do tempo de férias é nosso.

— Eu lembro — eu ri. — Mas está difícil cumprir a meta com esses dois grudados na gente 24 horas por dia.

— Por isso eu tive uma ideia — Lorena baixou o tom de voz, conspiratória. — Hoje à noite, depois que todo mundo for dormir, vamos fazer uma "noite das garotas" só nossa, na beira da piscina. Sem meninos, sem cobranças, só a gente, nossas fofocas e talvez algumas máscaras faciais que eu trouxe.

— Fechado! — eu disse, batendo na mão dela. — Vai ser bom pra gente colocar o papo em dia sem o Matheus Luiz perguntando de quem eu sou a cada cinco minutos.

Nesse momento, o Matheus Luiz nadou até nós, saindo da água como se fosse um modelo de comercial, jogando o cabelo para trás.

— O que as duas estão cochichando aí? — ele perguntou, apoiando os braços na pedra entre as minhas pernas, com aquele olhar de ciúmes disfarçado.

— Coisas de menina, Matheus. Coisas que você não entenderia — Lorena respondeu por mim, dando um sorrisinho debochado.

— Sei... — ele estreitou os olhos, me puxando levemente pelo tornozelo para eu voltar para a água. — Vem, Hanna, o Gabriel achou uma gruta pequena atrás da queda d'água, vamos lá ver.

Eu olhei para a Lorena, que piscou para mim, e me deixei levar pelo Matheus. A tarde na cachoeira foi perfeita. Exploramos a gruta, que era escura e úmida, o que deu ao Matheus a desculpa perfeita para me abraçar por trás o tempo todo "para me proteger". Tiramos fotos incríveis, fizemos vídeos para o TikTok que sabíamos que iam causar na escola e, por um momento, esquecemos de qualquer problema.

Quando voltamos para a chácara, o sol já estava se pondo, pintando o céu de laranja e roxo. O cansaço da trilha era real, mas a animação para a noite ainda era maior. Depois de um jantar maravilhoso feito pelas nossas mães — uma lasanha que estava divina —, os adultos começaram a se organizar para um jogo de cartas na sala principal.

Os meninos queriam montar uma partida de videogame, mas eu e a Lorena trocamos aquele olhar de "agora é a nossa hora".

— Meninos, a gente vai subir para tomar banho e dar uma hidratada na pele, estamos acabadas — eu disse, dando um beijo rápido no Matheus Luiz.

— Mas já? A gente ia jogar FIFA! — reclamou o Gabriel.

— Joguem vocês. A gente precisa de um tempo de beleza — Lorena completou, já me puxando pela escada.

Subimos, tomamos nossos banhos e, por volta das onze da noite, quando o som do videogame e das risadas dos meninos vinha lá de baixo, saímos de fininho pela porta dos fundos em direção à piscina. Levamos toalhas, as máscaras faciais da Lorena e alguns doces que tínhamos escondido na mochila.

A piscina estava iluminada por luzes de LED azuis, criando um reflexo mágico na água parada. Sentamos nas espreguiçadeiras e aplicamos as máscaras — a minha era de carvão ativado e a dela de argila rosa. Ficamos parecendo dois monstros, o que nos rendeu os primeiros dez minutos de risadas incontroláveis.

— Ai, minha cara está repuxando! — Lorena disse, tentando não rir muito. — Mas sério, Nana... você acha que o namoro vai durar depois que as aulas voltarem? No nono ano tudo muda, né? Vem o pessoal novo, as pressões do ensino médio chegando...

— Eu não sei, Lolo — respondi, olhando para as estrelas. — Eu gosto muito do Matheus, de verdade. Mas às vezes eu sinto que a gente é muito novo para tanta intensidade. Mas quer saber? Eu não quero pensar no nono ano agora. Eu quero pensar em amanhã, e depois, e em como a gente vai arrasar no Réveillon.

— Você tem razão — ela suspirou, relaxando na cadeira. — O Hanan me prometeu que vai me levar para ver os fogos na praia. Eu nunca fiz isso com um namorado.

Ficamos ali conversando sobre tudo: sobre os meninos da sala que a gente achava bonitos antes, sobre os planos para o futuro, sobre como a nossa amizade era a coisa mais estável das nossas vidas. Era o momento que eu precisava para me sentir "eu mesma" de novo, sem ser a "namorada do Matheus".

De repente, ouvimos um barulho de arbustos se mexendo perto da cerca.

— Quem está aí? — perguntei, sentindo o coração acelerar.

— Somos nós, suas fujonas! — a voz do Matheus Luiz surgiu da escuridão, seguida pelo Hanan.

Eles apareceram na luz da piscina e pararam mortos de rir quando viram nossas caras cobertas de máscara.

— Meu Deus, o que é isso no rosto de vocês? — Hanan perguntou, rindo tanto que precisou se apoiar no ombro do Matheus.

— É skin care, seus ignorantes! — Lorena gritou, jogando uma almofada neles. — O que vocês estão fazendo aqui? Era nossa noite das garotas!

— A gente sentiu falta — Matheus Luiz disse, aproximando-se de mim e sentando na beira da minha espreguiçadeira. — O videogame perdeu a graça sem vocês por perto.

Ele olhou para mim, mesmo com aquela máscara preta no rosto, e seus olhos brilharam com aquele carinho que eu já conhecia.

— Você fica linda até de monstro de carvão, sabia? — ele sussurrou, passando o dedo de leve no meu nariz, sujando-se um pouco.

— Matheus, você vai estragar minha máscara! — eu reclamei, mas estava sorrindo.

O Hanan sentou ao lado da Lorena e começou a implicar com a máscara rosa dela, e em poucos minutos, a nossa "noite das garotas" virou uma "noite de casais". Eles acabaram entrando na brincadeira e a Lorena convenceu os dois a passarem um pouco de máscara também. Ficamos os quatro ali, sentados na beira da piscina, com os rostos pintados, rindo das nossas próprias figuras.

— Sabe de uma coisa? — eu disse, olhando para o grupo. — Eu achei que queria ficar sozinha com a Lorena, mas ter vocês aqui... até que não é tão ruim.

— Admitiu que me ama, finalmente! — Matheus Luiz comemorou, me puxando para um abraço desajeitado.

— Não se gaba, Matheus. É só o efeito da argila no meu cérebro — brinquei, mas encostei minha cabeça no ombro dele.

A noite terminou com a gente mergulhando na piscina de roupa e tudo, lavando as máscaras na água e fazendo uma guerra de espirros. Quando voltamos para o quarto, exaustos e molhados, eu sabia que a Lorena tinha razão sobre os 90%, mas também sabia que esses meninos tinham se tornado uma parte essencial das nossas vidas.

Deitei na cama e o Matheus Luiz me puxou para perto, já meio dormindo.

— Hanna? — ele murmurou.

— Oi?

— Amanhã você é só minha de novo?

— Amanhã, Matheus... amanhã a gente vê — respondi, fechando os olhos com um sorriso.

Eu sabia que, independentemente do que acontecesse no nono ano ou depois das férias, aquele momento era nosso. E nas férias da minha escola, entre cachoeiras, máscaras faciais e namorados ciumentos, eu estava exatamente onde deveria estar.