My Only Problem
Labaredas de Vidro e o Veneno do Ciúme
O campus da universidade parecia pequeno demais para o ego de Engfa Waraha. Vestindo sua jaqueta da McLaren naquela manhã, ela caminhava pelos corredores com a confiança de quem era dona do asfalto e das pessoas. Ela não precisava se esforçar nas aulas; o sobrenome Waraha e os generosos cheques que seu pai assinava para a instituição garantiam que suas notas nunca fossem um problema. Enquanto os outros alunos se descabelavam com prazos e teses, Engfa se preocupava apenas com o próximo cigarro e com quem seria sua próxima distração.
No pátio central, cercada por um séquito de admiradores e atletas, Engfa exibia seu poder. Ela estava sentada em uma mesa de pedra, com uma garota cujo nome ela sequer lembrava sentada em seu colo. O beijo era desleixado, público e carregado de uma indiferença que beirava a crueldade. Engfa não estava sentindo nada, mas gostava da plateia. Gostava de ser o centro das atenções.
Entretanto, sua postura relaxada vacilou quando, por cima do ombro da garota, ela avistou uma silhueta familiar.
Charlotte Austin caminhava a poucos metros dali, com seus livros pressionados contra o peito e o lenço de seda cuidadosamente amarrado no pescoço para esconder a marca arroxeada da noite anterior. Charlotte parou por um segundo, seus olhos castanhos encontrando os de Engfa no meio daquele beijo performático.
Houve um estalo de silêncio no mundo de Engfa. Por um breve momento, a máscara de superioridade caiu. Ela sentiu uma pontada desconfortável no peito — algo que se parecia muito com culpa, embora ela se recusasse a dar esse nome ao sentimento. Ela viu a mágoa rápida atravessar o rosto de Charlotte antes que a mais nova endurecesse a expressão e apressasse o passo, desviando o olhar.
Engfa empurrou a garota de seu colo com uma rispidez desnecessária, ignorando as reclamações confusas da jovem.
— Já chega. Tenho coisas para fazer — resmungou Engfa, limpando a boca com as costas da mão, o gosto do gloss de cereja da outra agora parecendo amargo como cinzas.
Ela seguiu Charlotte à distância, sua possessividade agindo como um bússola. Ela pretendia arrastá-la para os vestiários do ginásio, que àquela hora estariam vazios. Ela precisava sentir o corpo de Charlotte contra o seu, precisava reafirmar que, independentemente de quem ela beijasse no pátio, era em Charlotte que ela pensava. Era Charlotte quem ela queria marcar.
Mas, ao dobrar o corredor que levava à biblioteca, Engfa parou bruscamente.
Charlotte não estava sozinha.
Mew, o capitão do time de futebol e o garoto mais popular do campus, estava encostado nos armários, bloqueando o caminho de Charlotte de uma forma que pretendia ser charmosa, mas que para Engfa parecia uma declaração de guerra. Mew sorria, aquele sorriso perfeito e plástico de quem sabe que é desejado, e tocava levemente o braço de Charlotte.
— Eu estava pensando, Char... esse livro de poesia que você está lendo é bem complexo. Talvez possamos discutir sobre ele tomando um café mais tarde? — a voz de Mew era aveludada, carregada de segundas intenções.
Charlotte deu um sorriso educado, mas visivelmente desconfortável. Sua hipervigilância a fazia notar cada movimento ao redor, mas ela parecia não ter visto Engfa ainda, que observava a cena com as mãos cerradas dentro dos bolsos da jaqueta.
— Eu não sei, Mew... eu tenho muito o que estudar — Charlotte respondeu, tentando manter a distância.
— Ah, vamos lá. Só um café. Eu prometo que sou um bom ouvinte.
Engfa não aguentou mais. O sangue ferveu, subindo pelo pescoço e nublando sua visão. Ela caminhou em direção aos dois com passos pesados, o som de suas botas ecoando no piso de linóleo.
— Ora, ora. Se não é o nosso herói de chuteiras tentando usar o cérebro — a voz de Engfa saiu carregada de sarcasmo ácido. — Cuidado, Mew. Se você tentar ler um livro, seu neurônio solitário pode entrar em curto-circuito.
Mew se empertigou, sua expressão mudando de galanteador para defensivo ao ver Engfa. Charlotte, por outro lado, empalideceu, reconhecendo o tom perigoso na voz da "irmã".
— Waraha. O que você quer? — Mew perguntou, cruzando os braços. — Estamos apenas conversando.
— "Conversando"? — Engfa soltou uma risada seca e sem humor, parando bem entre os dois, forçando Mew a recuar um passo. — Você está babando no sapato dela, Mew. É patético. E você, Charlotte... desde quando aceita convites de caras que têm o QI de uma bola de futebol murcha?
— Engfa, não comece — Charlotte murmurou, os olhos suplicantes.
— Eu não estou começando nada, Char. Estou apenas lembrando ao nosso amigo aqui que você tem padrões. Ou pelo menos deveria ter — Engfa virou-se para Mew, o olhar escuro e ameaçador. — Saia daqui, Mew. Vá praticar seus chutes ou qualquer outra coisa que não exija que você fale. Você está incomodando a minha... irmã.
Mew bufou, claramente intimidado pela aura de violência que Engfa emanava, mas tentando manter as aparências diante de Charlotte.
— Você é louca, Waraha. Todo mundo sabe que você tem problemas de controle. A gente se fala depois, Charlotte.
Assim que Mew desapareceu no final do corredor, Engfa se virou para Charlotte, a raiva transbordando.
— O que foi aquilo? — ela sibilou, segurando o braço de Charlotte com força.
— Me solta, Engfa! — Charlotte puxou o braço, os olhos brilhando de fúria. — Você não tem o direito de falar assim comigo ou com qualquer pessoa que fale comigo.
— Eu tenho todos os direitos! — Engfa deu um passo à frente, prensando Charlotte contra os armários frios. — Você é minha, Charlotte. Esqueceu o que aconteceu ontem à noite? Esqueceu de quem é a marca que você está escondendo embaixo desse lenço ridículo?
— Eu não esqueci! — Charlotte rebateu, a voz subindo de tom. — Mas eu também vi você beijando aquela garota no pátio. Você faz o que quer, com quem quer, e espera que eu fique aqui, esperando por você como um animal de estimação?
Engfa travou o maxilar. O ciúme era uma fera indomável em seu peito.
— Aquilo não significou nada.
— Nada nunca significa nada para você, Engfa. Esse é o seu problema.
Charlotte o empurrou e saiu andando, sem olhar para trás. Engfa ficou ali, o coração batendo descompassado, sentindo o vício em nicotina implorar por um cigarro para acalmar os nervos.
***
A atmosfera na mansão naquela noite estava densa, como o ar antes de uma tempestade. Os pais delas haviam saído para um jantar de negócios, deixando o casarão mergulhado em um silêncio opressor.
Engfa estava na sala de estar, uma garrafa de vinho tinto aberta sobre a mesa de centro. Ela não havia trocado de roupa; ainda usava a jaqueta de F1, que agora cheirava a cigarro e ao perfume de Charlotte que havia ficado impregnado nela durante o confronto no corredor.
Quando ouviu os passos de Charlotte na escada, Engfa se levantou. Ela encontrou a mais nova na cozinha, pegando um copo de água. Charlotte parecia exausta, as olheiras leves denunciando mais uma noite mal dormida.
— Você gosta dele? — a pergunta de Engfa cortou o silêncio, direta e cortante.
Charlotte parou com o copo na mão, as costas voltadas para Engfa.
— Do que você está falando?
— Do Mew. Daquele idiota. Você gosta do jeito que ele olha para você? Você gosta de ser o troféu que ele quer exibir para o time?
Charlotte se virou, deixando o copo sobre a bancada. Ela soltou um riso amargo.
— Ele é educado, Engfa. Ele me trata como uma pessoa, não como uma possessão.
— Ele é um estúpido! — Engfa explodiu, chutando uma das banquetas da cozinha. — Ele não sabe nada sobre você. Ele não sabe que você odeia barulho quando está pintando. Ele não sabe que você morde o lábio quando está nervosa. Ele só quer te levar para a cama para contar vantagem.
Charlotte deu um passo à frente, desafiando a zona de conforto de Engfa.
— E você? O que você quer, Engfa? Você me humilha na frente de todos, me trata como lixo na faculdade e depois corre para o meu quarto no meio da noite. Você é pior que ele. Pelo menos o Mew não finge que eu não existo quando os amigos dele estão por perto.
— Eu não finjo que você não existe! Eu te protejo! — Engfa gritou, a voz rouca de frustração.
— Você me sufoca! — Charlotte rebateu. — Isso tudo é ciúmes, Engfa. Admita. Você está morrendo de ciúmes porque viu que outra pessoa pode me querer.
As duas estavam agora a centímetros de distância. A tensão sexual, sempre presente, misturava-se à raiva pura. Engfa respirava com dificuldade, os olhos fixos nos lábios de Charlotte.
— Ciúmes? — Engfa repetiu em um sussurro perigoso. — Eu não tenho ciúmes de lixo, Charlotte. Eu só não suporto ver alguém tocando no que pertence a mim.
— Eu não sou sua — Charlotte disse, embora seu corpo estivesse traindo suas palavras, inclinando-se inconscientemente para o calor de Engfa.
— É sim. Cada centímetro seu. Cada pensamento seu. Você pode tentar se convencer do contrário, pode tentar sair com o Mew ou com qualquer outro, mas no final do dia, é o meu nome que você sussurra quando está sozinha.
Engfa segurou o rosto de Charlotte com as duas mãos, os polegares pressionando as bochechas dela com uma intensidade controlada.
— Você é minha "irmã" para o mundo, Charlotte. E eu adoro isso. Adoro saber que ninguém pode imaginar o que fazemos quando as luzes se apagam. O proibido... ele é muito mais excitante, não acha?
Charlotte sentiu as pernas fraquejarem. O ódio que sentia por Engfa era a única coisa que a mantinha sã, mas o desejo era o que a mantinha viva.
— Você é um monstro — Charlotte murmurou, as mãos subindo para os ombros de Engfa, as unhas cravando-se no tecido da jaqueta.
— E você ama o seu monstro — Engfa sorriu, um sorriso sombrio e vitorioso.
Sem esperar por mais palavras, Engfa a beijou. Não foi um beijo de desculpas, mas um beijo de reivindicação. Era bruto, impetuoso e carregado de toda a possessividade que havia acumulado durante o dia. Charlotte gemeu contra a boca dela, seus dedos subindo para o cabelo de Engfa, puxando-os com força, arrancando um rosnado da mais velha.
Engfa a levantou, sentando-a na bancada de mármore da cozinha. As mãos de Engfa desceram para as coxas de Charlotte, apertando a pele com firmeza.
— Se eu vir você conversando com ele de novo... — Engfa disse entre beijos, descendo para o pescoço de Charlotte, encontrando a marca que ela mesma fizera e mordendo por cima dela — ...eu vou fazer muito pior do que quebrar o nariz dele. Eu vou destruir a vida dele, Charlotte. Eu não estou brincando.
— Você é louca... — Charlotte arfou, a cabeça jogada para trás, entregando-se ao toque agressivo e familiar.
— Louca por você — Engfa confessou, a voz vibrando contra a pele de Charlotte. — Só minha. Diga.
— Só sua — Charlotte repetiu, a derrota soando como um doce pecado em seus lábios.
Ali, na cozinha da casa que deveria ser um lar, mas era uma arena, elas se perderam uma na outra novamente. O ciúme de Engfa era o combustível, e a dependência de Charlotte era a chama. Elas sabiam que o amanhã traria mais dor, mais jogos de poder e mais segredos escondidos sob lenços e jaquetas de marca. Mas enquanto o vinho terminava de respirar na sala e o silêncio da noite as envolvia, nada mais importava.
Engfa deixaria novas marcas. Charlotte deixaria novos arranhões. E a sociedade continuaria a chamá-las de irmãs, sem jamais suspeitar que, por trás das portas fechadas, elas eram o próprio inferno e o paraíso, colidindo em uma sinfonia de possessividade e prazer distorcido. O jogo estava longe de acabar, e para Engfa Waraha, ganhar nunca foi uma opção, mas uma necessidade absoluta. E Charlotte Austin, em toda sua inteligência e teimosia, era o único prêmio que ela jamais aceitaria perder.