My Only Problem
Marcas de Guerra e Pincéis de Sangue
O estúdio improvisado no sótão da mansão era o único lugar onde Charlotte Austin sentia que as paredes não estavam tentando esmagá-la. O cheiro de terebentina e tinta a óleo era seu refúgio, uma barreira química contra o odor constante de cigarro e vinho que parecia perseguir Engfa Waraha por todos os cantos. Naquela tarde, a luz alaranjada do pôr do sol filtrava-se pela claraboia, iluminando a tela onde Charlotte despejava tons de azul profundo e violeta, tentando traduzir o caos de seus sentimentos em algo que fizesse sentido.
Ela estava concentrada no movimento do pincel, tentando ignorar o vazio no estômago e a tensão que sempre a acompanhava desde que Engfa a confrontara na cozinha na noite anterior. O silêncio da casa era, no entanto, uma ilusão.
O som de passos pesados e irregulares subindo a escada de madeira fez o coração de Charlotte disparar. Ela conhecia aquele ritmo. Era o som de alguém que não estava apenas caminhando, mas invadindo um território.
A porta do sótão foi aberta com um solavanco, batendo contra a parede com um estrondo que ecoou pelo ambiente. Charlotte deu um pulo, o pincel sujando acidentalmente a parte branca da tela.
— Engfa! Você tem que parar de entrar assim... — As palavras de Charlotte morreram em sua garganta assim que ela se virou.
Engfa Waraha estava encostada no batente da porta, ofegante. Sua jaqueta da Ferrari estava aberta, e a camiseta branca por baixo estava manchada de um vermelho vivo e viscoso. Havia um corte profundo em seu supercílio e seus nós dos dedos estavam esfolados, alguns ainda sangrando. Mas o que mais assustou Charlotte foi o sorriso. Um sorriso maníaco, satisfeito, de quem acabara de retornar de uma caçada bem-sucedida.
— Está bonito — disse Engfa, ignorando o próprio estado e apontando com o queixo para a tela de Charlotte. — O quadro. Tem muito de você nele. Triste, mas... hipnotizante.
Charlotte largou o pincel sobre a paleta, as mãos tremendo.
— O que você fez, Engfa? Meu Deus, você está coberta de sangue!
Engfa deu alguns passos para dentro do estúdio, deixando rastros leves de poeira e sangue no chão limpo. Ela se aproximou de Charlotte, exalando aquele cheiro familiar de tabaco misturado agora com o odor metálico de ferro.
— Algumas pessoas na faculdade têm a língua comprida demais, Char — Engfa disse, a voz rouca, quase um sussurro. — Eu ouvi o que o grupo daquelas garotas do curso de moda estava falando de você no refeitório. Coisas sobre como você "subiu na vida" por causa do casamento da sua mãe. Coisas sobre o seu pescoço... sobre o lenço que você usa.
Charlotte sentiu o rosto queimar de vergonha e medo.
— Você brigou por causa disso? Engfa, eu já te disse para ignorar! Eu consigo lidar com elas!
— Não, você não consegue — Engfa rebateu, a agressividade voltando aos seus olhos enquanto ela se aproximava, encurralando Charlotte entre seu corpo e o cavalete. — Eu já te disse mil vezes. Ninguém fala de você. Ninguém encosta em você. Só eu tenho esse direito. Se elas abrem a boca para te diminuir, eu fecho a boca delas com o meu punho. É simples assim.
— Não é simples! — Charlotte exclamou, as lágrimas de frustração começando a surgir. — Você vai ser expulsa! Ou presa! Olhe para você, Engfa, você parece um monstro!
Engfa soltou uma risada curta e seca, segurando o queixo de Charlotte com a mão que não estava tão ferida. O toque era possessivo, deixando uma pequena mancha de sangue na pele clara da outra.
— Eu sou o seu monstro, não sou? — Engfa inclinou a cabeça, observando a reação de Charlotte. — E você odeia o fato de que eu fiz isso por você. Mas no fundo, bem lá no fundo, você se sente segura sabendo que eu destruiria o mundo para manter o seu nome limpo.
Charlotte tentou desviar o olhar, mas Engfa não permitiu. A dualidade a atingiu como um soco: o horror pela violência de Engfa e a dependência doentia de saber que era a única prioridade daquela mulher desequilibrada.
— Deixe-me cuidar disso — murmurou Charlotte, a voz perdendo a força. — Antes que o meu pai ou a minha mãe cheguem e vejam esse estado.
— No momento — Engfa disse, fechando os olhos por um segundo e encostando a testa na de Charlotte —, eu só preciso de você. De todas as formas possíveis. O sangue ainda está quente nas minhas mãos, Char... e a única coisa que pode me acalmar é você.
Charlotte a guiou até um pequeno divã que mantinha no sótão para descansar entre as sessões de pintura. Ela buscou uma bacia com água morna e um kit de primeiros socorros que guardava ali para emergências. Com mãos trêmulas, mas precisas, ela começou a limpar o rosto de Engfa.
— Por que você é assim? — perguntou Charlotte enquanto passava o algodão embebido em antisséptico no corte do supercílio de Engfa.
Engfa sibilou de dor, mas não se afastou. Seus olhos estavam cravados no rosto de Charlotte, observando cada detalhe com uma obsessão silenciosa.
— Porque o mundo é um lugar de merda, Charlotte. E as pessoas são cruéis. Eu só estou sendo mais cruel que elas para garantir que você não precise ser.
— Você não me protege, Engfa. Você me marca. Você me machuca tanto quanto elas, só que de um jeito diferente — Charlotte disse, limpando o sangue dos nós dos dedos da mais velha.
— Mas eu te amo — Engfa soltou a frase como se fosse uma arma carregada. — Do meu jeito torto, violento e possessivo. Eu te amo mais do que qualquer uma daquelas pessoas que sorriem para você e falam mal pelas costas.
Charlotte parou o movimento das mãos. Seus olhos encontraram os de Engfa, e por um momento, a máscara de bully caiu totalmente, revelando a garota de 21 anos que estava perdida em sua própria tempestade de raiva e desejo.
— Se você me ama — Charlotte sussurrou —, por que me faz sentir como se eu estivesse em uma gaiola?
— Porque se eu abrir a porta, você foge — Engfa respondeu com sinceridade brutal. — E eu prefiro te ver sofrer aqui dentro comigo do que te ver feliz longe de mim.
O silêncio que se seguiu foi pesado. Charlotte terminou de fazer os curativos, mas não se afastou. A tensão sexual que sempre pulsava entre elas estava ali, intensificada pelo cheiro de sangue e pela adrenalina que ainda corria nas veias de Engfa.
Engfa segurou as mãos de Charlotte, puxando-a para mais perto, até que Charlotte estivesse sentada em seu colo, entre suas pernas.
— Quer dar uma fugida da faculdade amanhã? — Engfa perguntou, a voz agora mais suave, mas ainda carregada de intenção.
Charlotte franziu a testa, confusa.
— Fugir? Temos aulas importantes, Engfa. Você já se meteu em briga hoje, não pode faltar amanhã.
— Que se dane a faculdade — Engfa murmurou, suas mãos subindo para a cintura de Charlotte, apertando-a por cima do avental sujo de tinta. — Vamos pegar o carro. Vamos para a casa de praia do meu pai, ou apenas dirigir até onde o combustível acabar. Eu quero fazer outras coisas com você... qualquer coisa. Longe desses muros, longe das regras, longe de todo mundo que ousa olhar para você.
Charlotte sentiu um arrepio percorrer sua espinha. A ideia de fugir com Engfa era aterrorizante e tentadora ao mesmo tempo. Era a promessa de liberdade dentro de uma prisão ainda maior.
— Você está sendo impulsiva de novo — Charlotte tentou protestar, mas sua voz falhou quando Engfa começou a beijar a base de seu pescoço, logo acima do lenço.
— Eu sou impulsiva por natureza, Char. E você é o meu único vício que eu não quero largar — Engfa subiu os beijos para a mandíbula de Charlotte, sua respiração quente contra a pele dela. — Diga que sim. Diga que você quer ir comigo.
Charlotte fechou os olhos, sentindo as mãos de Engfa explorando seu corpo com uma urgência que ela conhecia bem. O conflito interno a rasgava: ela deveria odiar aquela mulher, deveria denunciar a agressão, deveria se afastar daquela toxicidade que a consumia. Mas quando Engfa a tocava daquele jeito, quando a protegia com tanta violência, Charlotte se sentia vista. Sentia-se importante.
— Sim — Charlotte sussurrou, a palavra saindo como uma rendição. — Eu vou.
Engfa sorriu contra a pele dela, um sorriso de pura satisfação predatória. Ela se afastou apenas o suficiente para olhar nos olhos de Charlotte, sua mão subindo para a nuca da mais nova, os dedos se enroscando nos cabelos castanhos.
— Ótimo. Porque eu não aceitaria um não como resposta de qualquer maneira.
Engfa puxou Charlotte para um beijo profundo, um beijo que tinha gosto de ferro e desejo reprimido. Charlotte respondeu com a mesma intensidade, suas unhas cravando-se nos ombros de Engfa, logo acima das marcas de brigas anteriores. Ela sentia o calor do corpo de Engfa, a força de seus braços, e por um momento, o estúdio de pintura desapareceu.
Não havia mais telas, não havia mais pais, não havia mais faculdade. Havia apenas a necessidade mútua de se destruírem e se curarem ao mesmo tempo.
— Você está me sujando de tinta — Engfa murmurou entre os beijos, rindo baixinho enquanto via as manchas azuis da paleta de Charlotte passarem para sua jaqueta cara.
— E você está me sujando de sangue — Charlotte rebateu, o sarcasmo voltando à sua voz, embora seu corpo estivesse vibrando sob o toque de Engfa.
— É uma troca justa — Engfa disse, voltando a atacar os lábios de Charlotte com uma possessividade renovada. — Minhas marcas em você, suas marcas em mim. Sempre foi assim, não foi?
Charlotte não respondeu. Ela não precisava. Ela sabia que, enquanto estivesse nos braços de Engfa, ela estaria segura do resto do mundo, mesmo que não estivesse segura de si mesma.
Engfa a levantou do divã com uma facilidade impressionante, levando-a em direção à porta do sótão.
— Onde vamos? — Charlotte perguntou, a respiração errática.
— Para o meu quarto — Engfa ordenou, os olhos brilhando com uma chama perigosa. — Eu já cuidei de quem falou de você. Agora, eu quero que você cuide de mim... e eu vou te mostrar exatamente o quanto eu senti sua falta hoje, mesmo que estivéssemos no mesmo prédio.
Enquanto desciam as escadas, Charlotte olhou para trás, para sua tela inacabada. O borrão azul que o susto de Engfa causara agora parecia proposital, uma mancha de caos no meio da ordem. Era exatamente assim que sua vida se transformara desde que Engfa Waraha entrara nela: uma sucessão de manchas, marcas e cores violentas que, apesar de tudo, formavam a única obra de arte que ela não conseguia parar de pintar.
A noite seria longa, quente e carregada de tudo o que a sociedade chamaria de pecado. Mas para Engfa e Charlotte, o pecado era apenas o nome que as pessoas comuns davam para a forma como elas se pertenciam. E no labirinto de vidro e cinzas que habitavam, elas eram as únicas que sabiam o caminho para o fogo.