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My Only Problem

Labirinto de Chantilly e a Doce Rendição

A manhã de quarta-feira nasceu com uma luz diferente sobre a mansão Waraha-Austin. O sol atravessava as cortinas de seda do quarto de Charlotte, mas, pela primeira vez em muito tempo, a claridade não trouxe a habitual sensação de hipervigilância. Ao seu lado, Engfa ainda dormia. Sem a jaqueta de couro, sem o sarcasmo ácido e sem o cigarro entre os dedos, a herdeira dos Waraha parecia quase inofensiva. Suas feições, geralmente endurecidas pelo orgulho, estavam relaxadas, e um braço pesado cercava a cintura de Charlotte, reivindicando-a mesmo durante o sono.

Charlotte observou o rosto da "irmã" por alguns minutos. Era difícil conciliar a imagem da garota que espancara um veterano na semana passada com a mulher que, na noite anterior, pedira carinho com a voz embargada. Ela sabia que a relação era um campo minado, mas naquele dia, as regras seriam dela.

— Engfa, acorde. — Charlotte sussurrou, balançando levemente o ombro da mais velha. — Você prometeu.

Engfa resmungou, apertando mais o abraço e escondendo o rosto no pescoço de Charlotte, inalando o perfume de baunilha.

— Só mais cinco minutos, Char... — a voz de Engfa saiu rouca, enviando um arrepio involuntário pela espinha de Charlotte.

— Nem mais um segundo. — Charlotte sentou-se na cama, puxando os lençóis. — Você disse que eu governaria hoje. E eu decidi: vamos ao shopping. Quero que você carregue minhas sacolas, me pague um sorvete e não reclame de nenhuma loja de departamentos.

Engfa abriu um dos olhos, um sorriso preguiçoso e genuíno surgindo em seus lábios. Ela se espreguiçou, sentindo os músculos das costas — ainda marcados pelos arranhões de Charlotte — protestarem levemente.

— Ter alguém segurando minha coleira é uma sensação estranhamente boa quando essa pessoa é você — admitiu Engfa, sentando-se e passando a mão pelos cabelos bagunçados. — Tudo bem, princesa. Hoje eu sou sua.

O shopping estava movimentado, um contraste vibrante com a frieza silenciosa da mansão. Engfa, fiel à sua palavra, comportou-se de uma forma que deixaria qualquer um que a conhecesse na faculdade de queixo caído. Ela não usava sua jaqueta de F1 habitual, mas uma camisa de linho preta com os primeiros botões abertos, mantendo uma aura de elegância casual que ainda atraía olhares, mas sua postura era de total devoção a Charlotte.

Elas caminharam de braços dados. Engfa carregava três sacolas de uma livraria e duas de uma loja de materiais artísticos. Ela não reclamou quando Charlotte passou quarenta minutos escolhendo o tom exato de azul cobalto, nem quando pararam em uma loja de roupas vintage que cheirava a mofo e nostalgia.

— Você fica linda nesse chapéu — comentou Engfa, encostada no balcão de uma loja, observando Charlotte experimentar uma boina de feltro.

— Você só está dizendo isso porque prometeu ser legal — rebateu Charlotte, olhando-se no espelho com um sorriso travesso.

— Estou dizendo porque é a verdade. — Engfa aproximou-se, ignorando os funcionários da loja, e ajustou a boina na cabeça de Charlotte. — E porque eu adoro o jeito que seus olhos brilham quando você encontra algo que gosta.

O momento de doçura, porém, foi brevemente interrompido na praça de alimentação. Charlotte estava sentada em uma mesa redonda, esperando Engfa voltar com os cafés, quando um rapaz, visivelmente um estudante universitário, aproximou-se com um sorriso confiante demais.

— Oi, com licença — disse o rapaz, apoiando a mão no encosto da cadeira vazia de Engfa. — Eu não pude deixar de notar você desde a loja de livros. Você tem um estilo incrível. Será que eu poderia pegar o seu número? Quem sabe a gente não marca de tomar um café de verdade em um lugar menos... barulhento?

Charlotte sentiu o peso do silêncio que se seguiu. Ela viu, por cima do ombro do rapaz, Engfa se aproximando. A expressão de Engfa mudou instantaneamente. O brilho suave nos olhos foi substituído pela tempestade escura que Charlotte conhecia tão bem. Os nós dos dedos de Engfa ficaram brancos ao redor dos copos de café.

— O número dela? — a voz de Engfa cortou o ar como uma lâmina de gelo.

O rapaz virou-se, deparando-se com a figura intimidadora de Engfa. Ele tentou manter o sorriso, mas vacilou diante da intensidade do olhar da herdeira.

— Ah, eu só estava...

— Você estava se retirando — interrompeu Engfa, colocando os cafés na mesa com uma força desnecessária. — Antes que eu decida que a sua cara ficaria melhor decorando o chão desse shopping.

— Engfa! — Charlotte repreendeu em um sussurro, mas havia uma parte dela — a parte sombria e dependente — que vibrou com a possessividade.

— O que foi? — Engfa encarou o rapaz, ignorando Charlotte por um segundo. — Ela não está interessada. Ela já tem alguém que cuida muito bem das necessidades dela. Agora, suma daqui antes que eu perca a paciência que eu juntei o dia todo.

O rapaz, percebendo que não tinha chance contra a aura de violência controlada de Engfa, murmurou um pedido de desculpas e desapareceu na multidão.

Engfa sentou-se, bufando, e empurrou o café de Charlotte em sua direção.

— Eu odeio esse shopping. Odeio essas pessoas. — Engfa pegou um cigarro, mas lembrou-se de que era proibido fumar ali e o guardou com irritação.

— Você prometeu, Engfa — lembrou Charlotte, tocando a mão dela por cima da mesa. — E você foi incrível até agora. Não deixe um idiota estragar o nosso dia.

Engfa olhou para a mão de Charlotte sobre a sua. O contato a acalmou quase instantaneamente. Ela entrelaçou seus dedos, suspirando.

— É difícil, Char. É difícil ver alguém olhando para você como se pudesse ter uma chance. Eu sinto vontade de marcar seu rosto para que todos saibam que você é território proibido.

— Você já faz isso — Charlotte apontou para o próprio pescoço, escondido sob a gola da blusa. — E eu estou aqui, não estou? Eu escolhi passar o dia com você.

Engfa relaxou os ombros, a tensão deixando seu corpo.

— É. Você escolheu. — Ela deu um sorriso de canto. — O que mais a minha mestre deseja para o resto da tarde?

— Quero ir para casa — disse Charlotte, seus olhos encontrando os de Engfa com uma intensidade nova. — O shopping já deu o que tinha que dar. E eu comprei algo na seção de confeitaria que quero testar.

O trajeto de volta para a mansão foi silencioso, mas carregado de uma tensão sexual que parecia consumir o oxigênio dentro da Ferrari. Engfa dirigia com uma mão no volante e a outra firmemente apertada na coxa de Charlotte, seus dedos subindo ocasionalmente para a barra da saia dela.

Quando entraram na mansão, o silêncio era absoluto. Os pais não retornariam até o dia seguinte. A casa era delas. O labirinto era delas.

Engfa jogou as sacolas no chão do hall de entrada e prensou Charlotte contra a porta fechada, beijando-a com uma fome que fora contida durante horas de vitrines e sorrisos educados.

— Eu me comportei — sussurrou Engfa entre os beijos, suas mãos descendo para as curvas de Charlotte. — Fui a "irmã" perfeita. Carreguei sacolas. Não bati em ninguém... tecnicamente. Agora, eu quero minha recompensa.

Charlotte arfou, sentindo o calor de Engfa. Ela se afastou apenas o suficiente para pegar uma sacola pequena que carregara pessoalmente.

— Eu disse que tinha um plano, Engfa. Vá para o seu quarto. Eu estarei lá em cinco minutos.

Engfa obedeceu, a curiosidade e o desejo lutando por espaço em sua mente. Quando Charlotte entrou no quarto, Engfa estava sentada na cama, já sem camisa, os olhos brilhando na penumbra. Charlotte trazia consigo um frasco de chantilly pressurizado e um sorriso que Engfa nunca vira antes — algo entre a inocência e a perversão pura.

— O que é isso, Char? — Engfa perguntou, a voz falhando.

— Você disse que eu sou sua arte, não disse? — Charlotte caminhou até a cama, sentando-se à frente de Engfa. — E hoje, você disse que eu era a mestre.

Charlotte agitou o frasco e, com uma lentidão torturante, começou a aplicar o creme branco e doce sobre sua própria pele. Ela traçou uma linha de chantilly que começava na base de seu pescoço, descia pelo colo e desaparecia entre o início de seus seios, parcialmente revelados pelo decote do vestido. Depois, aplicou um pouco nos pulsos e na curva do ombro.

O som da respiração de Engfa era a única coisa que preenchia o quarto. Ela observava, hipnotizada, enquanto as nuvens brancas de açúcar adornavam o corpo de Charlotte como marcas de neve sobre seda.

— Você é meu prato hoje, Engfa — sussurrou Charlotte, encostando as costas na cabeceira da cama e abrindo os braços em um convite silencioso. — Pode se servir. Mas lembre-se... devagar. Eu quero que você saboreie cada pedaço.

Engfa não precisou de outro comando. Ela se aproximou, seus olhos fixos na linha de chantilly no pescoço de Charlotte. Quando sua língua tocou a pele doce, Charlotte soltou um gemido baixo, cravando as unhas nos ombros de Engfa.

O contraste entre o frio do creme e o calor da língua de Engfa era inebriante. Engfa saboreava Charlotte com uma devoção quase religiosa. Ela subiu para o pescoço, limpando cada rastro de açúcar, misturando o gosto do chantilly com o gosto salgado da pele de Charlotte.

— Você é deliciosa — murmurou Engfa, a voz vibrando contra o colo de Charlotte. — Muito melhor do que qualquer doce que aquele shopping poderia oferecer.

Engfa continuou sua descida, seus lábios e língua explorando cada marca que ela mesma deixara anteriormente, agora cobertas pelo creme. Charlotte arqueava o corpo, sentindo o controle de Engfa se transformar em uma adoração faminta. Não havia violência ali, apenas uma entrega mútua que transcendia a toxicidade habitual.

— Mais... — pediu Charlotte, os dedos enroscados nos cabelos de Engfa, puxando-a para mais perto.

Engfa subiu novamente, seus rostos se encontrando. Havia chantilly nos lábios de ambas.

— Eu adoro quando você me governa, Char — disse Engfa, os olhos fixos nos dela. — Adoro saber que, por trás de toda essa sua educação e seus livros, existe alguém tão faminta por mim quanto eu sou por você.

— Eu te odeio, Engfa — Charlotte sussurrou, puxando-a para um beijo que tinha gosto de açúcar e pecado.

— Eu sei. E eu te amo por isso.

O resto da noite foi uma sinfonia de toques açucarados e confissões sussurradas no escuro. Engfa usou Charlotte como seu banquete, e Charlotte usou o desejo de Engfa como sua tela. No final, o chantilly havia desaparecido, substituído pelo suor e pelo calor de dois corpos que não sabiam como existir um sem o outro.

Enquanto descansavam, exaustas e entrelaçadas sob os lençóis de seda, Engfa sentiu uma paz que o dinheiro ou o status nunca poderiam comprar. Ela percebeu que, embora adorasse o poder, nada se comparava à sensação de ser dominada por Charlotte.

— Amanhã voltamos ao normal? — perguntou Charlotte, a voz sonolenta, a cabeça descansando no peito de Engfa.

Engfa acariciou o braço de Charlotte, sentindo a suavidade da pele que ela tanto cobiçava.

— O que é o "normal" para nós, Char? — Engfa perguntou de volta. — Brigas no corredor? Ciúmes violentos? Provocações em público?

— Provavelmente.

Engfa deu um beijo no topo da cabeça de Charlotte.

— Então sim. Voltamos ao normal. Mas agora eu sei que, se eu for uma boa garota e carregar suas sacolas, eu ganho sobremesa.

Charlotte riu baixinho, fechando os olhos. O labirinto de vidro e cinzas ainda estava lá fora, esperando por elas. A sociedade ainda as chamaria de irmãs, os rivais ainda tentariam se aproximar, e a toxicidade de suas vidas continuaria a borbulhar. Mas ali, naquele quarto, envoltas pelo eco de um dia perfeito e pelo gosto doce que ainda permanecia em seus lábios, Engfa e Charlotte sabiam que haviam encontrado a melhor parte do amor: a rendição total à única pessoa que tinha o poder de destruí-las e salvá-las ao mesmo tempo.

— Boa noite, meu prato favorito — sussurrou Engfa, fechando os olhos e deixando-se levar pelo sono, protegida pela única pessoa que ela jamais permitiria que o mundo tocasse.