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My Only Problem

O Eco do Passado e a Rendição do Orgulho

O retorno de Chompu à cidade foi como uma lufada de vento gelado em um dia de sol. Amiga de infância de Engfa, ela sempre carregara um "crush" não tão secreto pela herdeira dos Waraha. Chompu era o tipo de garota que a sociedade aprovava: rica, barulhenta, exibida e com um senso de direito que rivalizava com o de Engfa. Para ela, Charlotte Austin era apenas um detalhe inconveniente, uma "intrusa" que tivera a sorte de ter uma mãe esperta o suficiente para fisgar o Sr. Waraha.

Na tarde de terça-feira, o corredor principal da faculdade tornou-se o palco de um confronto que Charlotte tentara evitar a todo custo. Ela estava guardando seus livros quando Chompu a cercou, acompanhada por duas garotas que riam de cada palavra ácida que saía de sua boca.

— Veja só se não é a "irmãzinha" de caridade — Chompu disse, cruzando os braços e analisando Charlotte de cima a baixo com desdém. — Engfa me contou que você é bem silenciosa em casa. Deve ser difícil viver de aparências, não é? Onde está o lenço hoje? Tentando esconder as marcas de algum erro que cometeu?

Charlotte sentiu o sangue subir ao rosto, mas manteve a postura. A hipervigilância que desenvolvera convivendo com Engfa a tornava uma observadora silenciosa, mas Chompu estava cutucando uma ferida aberta.

— Eu não sabia que Engfa falava de mim para você, Chompu. — Charlotte fechou o armário com um estalo seco. — Mas, novamente, você sempre foi boa em inventar conversas que nunca existiram.

— Ora, sua... — Chompu deu um passo à frente, a voz subindo de tom. — Você é apenas uma agregada. Engfa gosta de coisas brilhantes e novas, e você é apenas um brinquedo velho que ela é obrigada a tolerar porque nossos pais são amigos. Eu e ela temos história. Você tem apenas um sobrenome emprestado.

Charlotte não respondeu. Ela viu, pelo canto do olho, a figura familiar de Engfa dobrando o corredor. O coração de Charlotte apertou. Ela esperava que Engfa a defendesse, mas o ciúme que sentira ao ver Chompu pendurada no pescoço de Engfa durante toda a manhã a fez querer apenas desaparecer. Charlotte virou as costas e saiu apressada, antes que Engfa pudesse dizer uma palavra.

Engfa Waraha, no entanto, vira o suficiente. Ela vira a expressão de mágoa no rosto de Charlotte e o sorriso vitorioso de Chompu.

— Engfa, querida! — Chompu exclamou, tentando passar o braço pelo ombro de Engfa. — Eu estava apenas colocando a sua meia-irmã no lugar dela. Ela é tão atrevida para alguém que vive de favores...

Engfa parou bruscamente, removendo o braço de Chompu com uma frieza que fez a temperatura do corredor cair dez graus. Seus olhos castanhos, geralmente cheios de sarcasmo, estavam escuros como uma tempestade.

— O que você disse para ela, Chompu? — a voz de Engfa era um sussurro perigoso.

— Ah, nada demais. Apenas a verdade. Ela precisa saber que não pertence ao nosso mundo...

— O "nosso mundo"? — Engfa soltou uma risada ríspida, dando um passo em direção à amiga de infância, forçando-a a recuar. — Escute bem, porque eu só vou dizer isso uma vez. Charlotte Austin é a única pessoa neste mundo que me pertence. Ela não é uma agregada, ela não é um brinquedo. Ela é minha namorada. E se você abrir a boca para humilhá-la de novo, eu vou garantir que você se arrependa de ter voltado para esta cidade.

Chompu empalideceu, o queixo caindo.

— Namorada? Engfa, você enlouqueceu? Ela é sua irmã! E eu... eu sempre estive aqui por você! Eu sou o seu tipo! Eu sou exibida, eu sou divertida, eu sou...

— Você é irritante — Engfa cortou, a crueldade brilhando em seu olhar. — Eu detesto garotas grudadas e exibidas como você. Você é um eco vazio, Chompu. Charlotte é arte. Ela é poesia. E você não chega aos pés do chão que ela pisa. Saia da minha frente.

Engfa não esperou pela resposta. Ela saiu à caça de Charlotte, mas a mais nova era mestre em se esconder.

Durante o resto do dia, Charlotte evitou Engfa com uma precisão matemática. Ela não atendeu as ligações, não respondeu às mensagens e almoçou escondida na biblioteca, entre as estantes de literatura clássica. O ciúme a corroía. Ela sabia que Engfa provavelmente repelira Chompu, mas a ideia de que o passado de Engfa estava cheio de garotas como aquela a fazia se sentir pequena e descartável.

Foi somente no final da tarde que Engfa finalmente a encurralou. A biblioteca estava quase vazia, mergulhada no cheiro de papel antigo e silêncio. Charlotte estava sentada em uma mesa isolada no fundo, escondida por uma pilha de livros sobre o Renascimento.

Engfa apareceu como uma sombra, puxando a cadeira ao lado de Charlotte e sentando-se de forma pesada. Ela parecia exausta, o cabelo bagunçado e a jaqueta da Ferrari jogada sobre o ombro.

— Você é muito difícil de encontrar quando quer, sabia? — Engfa começou, a voz baixa para não atrair a atenção do bibliotecário.

— Eu não queria ser encontrada — Charlotte respondeu sem tirar os olhos do livro. — Por que você não está com a sua amiga de infância? Tenho certeza de que ela tem muitas memórias divertidas para compartilhar.

Engfa suspirou, passando a mão pelo rosto. O vício em cigarros estava gritando em seus nervos, mas ela não podia fumar ali.

— Charlotte, olhe para mim. Por favor.

A vulnerabilidade no tom de Engfa fez Charlotte ceder. Ela fechou o livro e encarou a mulher que era seu maior tormento e seu único porto seguro.

— Eu humilhei a Chompu — Engfa disse, a voz firme. — Eu disse a ela, na frente de quem quisesse ouvir, que você é minha namorada. Eu disse que ela não é nada comparada a você.

— Você não deveria ter feito isso — Charlotte sussurrou, embora sentisse um calor reconfortante no peito. — Agora todos vão falar.

— Que falem! Eu não me importo com o mundo, Charlotte. Eu só me importo com o fato de que você passou o dia fugindo de mim. Esse seu ciúme... ele me mata, mas ele também me mostra que você ainda se importa.

Charlotte desviou o olhar, sentindo as lágrimas arderem.

— Eu odeio o quanto eu me importo, Engfa. Eu odeio ver essas pessoas do seu passado voltando e me lembrando de que eu sou apenas a "irmã" que apareceu do nada.

Engfa estendeu a mão, cobrindo a de Charlotte sobre a mesa. Sua pele estava quente, e o toque era um pedido de desculpas silencioso.

— Você não é "do nada". Você é o meu tudo. Eu sei que eu sou um desastre, Char. Eu sei que eu te machuco, que eu sou possessiva e que minhas crises de raiva te assustam. Mas eu estou implorando... não fique emburrada comigo. Eu não suporto o seu silêncio.

Charlotte soltou um riso amargo, as lágrimas finalmente caindo.

— Você, Engfa Waraha, implorando? A grande dominante da faculdade?

— Por você? — Engfa apertou a mão dela, os olhos brilhando com uma intensidade febril. — Por você eu faria qualquer coisa. Eu ficaria de joelhos aqui mesmo, no meio desta biblioteca, se isso fizesse você sorrir para mim de novo. Eu me rastejaria se fosse preciso para que você entendesse que não existe Chompu, não existe passado... só existe você.

Charlotte observou o rosto de Engfa. Ela viu a determinação, o orgulho ferido e a obsessão que as unia. A dualidade de seu amor tóxico estava ali, mais presente do que nunca. Engfa era o monstro que a feria, mas era também o monstro que se ajoelharia por ela.

— De joelhos, Engfa? — Charlotte provocou, limpando as lágrimas com as costas da mão. — Isso seria uma cena e tanto para os fofoqueiros da faculdade.

— Tente-me — Engfa desafiou, começando a se mover para sair da cadeira.

— Não! — Charlotte a segurou, rindo de verdade pela primeira vez no dia. — Não faça isso. Você é ridícula.

Engfa relaxou, um sorriso de alívio surgindo em seus lábios. Ela puxou a mão de Charlotte e a beijou, os nós dos dedos ainda levemente marcados pela briga do dia anterior.

— Então você me perdoa? — Engfa perguntou, a voz carregada de uma esperança quase infantil.

Charlotte suspirou, sentindo a dependência emocional vencê-la novamente. Ela nunca conseguiria ficar longe de Engfa por muito tempo. O magnetismo era forte demais.

— Eu tenho uma condição — Charlotte disse, inclinando-se para frente, o sarcasmo voltando à sua língua afiada.

— Qualquer coisa. Nomeie.

— Amanhã. Nossos pais vão estar fora o dia todo de novo. Eu quero um dia só nosso. Sem faculdade, sem jaquetas de F1, sem Chompus, sem telefones.

— Um dia fazendo o quê? — Engfa perguntou, já planejando como desmarcar seus compromissos.

— Qualquer coisa que eu quiser — Charlotte sorriu, um brilho travesso nos olhos. — Podemos ficar no sótão pintando, ou podemos dirigir sem rumo, ou podemos apenas ficar trancadas no quarto. Mas eu quero a sua atenção total. Sem bullying, sem provocações em público... apenas você e eu.

Engfa sentiu um calor percorrer seu corpo. A ideia de ter Charlotte inteiramente para si, sem as distrações do mundo que ela tentava controlar, era o seu maior desejo.

— Feito — Engfa selou o acordo. — Um dia de rendição total. Eu serei o que você quiser que eu seja, Char.

— Promete? — Charlotte estendeu o dedo mindinho, um gesto infantil que as fazia parecer apenas duas garotas apaixonadas, e não duas meias-irmãs presas em uma teia de desejo sombrio.

— Prometo — Engfa entrelaçou seu mindinho ao dela, puxando-a para um beijo rápido e roubado por cima da mesa da biblioteca.

O sabor de Charlotte era o único vício que Engfa não conseguia — e não queria — curar. Enquanto saíam da biblioteca, Engfa manteve o braço firmemente em volta da cintura de Charlotte, um aviso claro para qualquer um que cruzasse seu caminho. Chompu era apenas uma memória desbotada agora; a única realidade que importava era a garota teimosa ao seu lado, que tinha o poder de colocá-la de joelhos com apenas um olhar.

A noite caiu sobre a mansão com uma promessa de calmaria. Engfa não bebeu vinho naquela noite; ela ficou no quarto de Charlotte, observando-a ler, sentindo a paz que só a presença da outra proporcionava. O ciúme fora substituído por uma possessividade calma, uma certeza de que, apesar de todos os problemas externos e das regras sociais, elas eram o centro do universo uma da outra.

— Engfa? — Charlotte chamou, já quase dormindo nos braços da mais velha.

— Hum?

— Obrigada por me defender hoje.

Engfa apertou o abraço, deixando um beijo na nuca de Charlotte, onde uma marca leve ainda persistia.

— Eu sempre vou te defender, Char. Mesmo que o inimigo seja eu mesma.

Naquela noite, o labirinto de vidro e cinzas parecia um pouco menos perigoso. Elas sabiam que o dia seguinte seria um teste, um mergulho profundo na intimidade que tentavam entender. Mas, entre toques suaves e respirações sincronizadas, Engfa e Charlotte descobriram que, às vezes, a melhor parte do amor não era a luta pelo poder, mas a doce rendição de saber que você pertence a alguém que faria qualquer coisa para te ver feliz.

O sol nasceria em breve, trazendo consigo o dia que Charlotte planejara. E Engfa Waraha, a herdeira arrogante e controladora, mal podia esperar para ser governada por Charlotte Austin, a única pessoa capaz de transformar seu caos em arte.

Eles eram fogo e gasolina, sim. Mas naquela madrugada, eles eram apenas a luz suave que restava após o incêndio, brilhando intensamente no escuro da mansão que chamavam de lar.