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My patty

O Furacão Kim e o Domingo de Chuteiras

O apartamento de luxo em Seul parecia menor do que o habitual naquela tarde de domingo. A temperatura estava agradável lá fora, mas dentro daquelas paredes, o clima era de uma tempestade iminente. Jennie Kim estava sentada no sofá de couro branco, enrolada em uma manta de lã, apesar de não estar frio. Seus olhos felinos, geralmente brilhantes e astutos, estavam semicerrados em uma expressão de puro desdém e irritação.

O motivo? Lalisa Manoban estava em pé no meio da sala, vestindo seu uniforme de futebol, segurando uma chuteira em cada mão e com uma expressão de quem estava prestes a enfrentar um leão faminto.

— Nini, amor... — Lisa começou, sua voz saindo dois tons mais baixa que o normal, num tom de pura cautela. — Os meninos estão lá embaixo. É só uma partida rápida, eu juro por tudo que é mais sagrado.

Jennie nem sequer desviou o olhar da revista de moda que folheava com uma agressividade desnecessária, fazendo o papel estalar a cada página virada.

— Lalisa, se você disser mais uma palavra sobre futebol, eu juro que vou usar essas suas chuteiras como vasos de planta na varanda — Jennie sentenciou, sua voz fria e cortante. — Minha cabeça está explodindo, minhas costas doem e eu sinto que poderia incendiar este prédio apenas com o poder do meu ódio. E você quer me deixar aqui sozinha para ir correr atrás de uma bola com aqueles idiotas?

— Não são idiotas, Nini... são o Bambam, o Jackson, o Mark e o Lucas — Lisa tentou defender, mas recuou um passo quando Jennie finalmente levantou o olhar.

— Exatamente. Quatro idiotas que não têm nada melhor para fazer do que tirar minha namorada de perto de mim quando eu mais preciso de atenção — Jennie jogou a revista na mesa de centro com um baque seco. — Você não vai. Ponto final.

Nesse exato momento, o interfone tocou. Lisa estremeceu. Ela sabia que eram eles. Sabia que eles não desistiriam fácil, pois Lisa era a estrela do time e, sem ela, eles perderiam feio para o pessoal do bloco B.

— Não atenda — ordenou Jennie, cruzando os braços sobre o peito.

Lisa olhou para o interfone e depois para Jennie. O conflito interno era visível em seu rosto de um metro e oitenta. Ela amava futebol, mas ela temia — e adorava — a mulher de um metro e cinquenta e cinco à sua frente. Infelizmente para Lisa, os amigos dela eram desprovidos de qualquer senso de autopreservação. O interfone tocou novamente, de forma insistente.

— Lalisa Manoban, se você der um passo em direção a esse aparelho, você vai dormir no canil do Kuma por um mês — Jennie ameaçou, estreitando os olhos.

— Mas eles sabem que eu estou em casa, Nini! Eles viram a luz acesa!

Lisa, em um momento de fraqueza ou coragem suicida, apertou o botão do viva-voz.

— Lisa! — A voz de Bambam ecoou pela sala, estridente e animada. — Anda logo, branquela! O Lucas já reservou a quadra. Se você não descer em cinco minutos, a gente vai subir e te arrastar pelos pés!

Lisa arregalou os olhos, fazendo sinais frenéticos de "cortar o pescoço" para o aparelho, mas era tarde demais.

— Ah, é? — Jennie se levantou do sofá como uma rainha indo para a guerra. Ela caminhou até o interfone, empurrando Lisa para o lado com um quadril firme. — Escutem aqui, seus bando de desocupados!

Houve um silêncio repentino do outro lado da linha. Eles conheciam aquela voz. Era a voz que fazia até os seguranças do prédio tremerem.

— Oi, Jennie... — a voz de Jackson surgiu, agora muito mais contida. — Tudo bem? A gente só queria saber se a Lisa...

— A Lisa não está disponível — Jennie interrompeu, sua voz subindo uma oitava. — A Lisa está ocupada sendo uma namorada decente enquanto eu estou sofrendo com dores que vocês, homens inúteis, nunca entenderiam. Se vocês tocarem esse interfone mais uma vez, eu vou descer aí e garanto que ninguém mais vai conseguir chutar uma bola por pelo menos seis meses. Fui clara?

— Cristalinamente clara, rainha Kim — respondeu Lucas, a voz trêmula. — Já estamos indo. Bom domingo. Melhoras!

O estalo do interfone sendo desligado pareceu um trovão no silêncio que se seguiu. Jennie virou-se para Lisa, que ainda segurava as chuteiras como se fossem escudos.

— Satisfeita? — Jennie perguntou, arqueando uma sobrancelha.

— Eles só queriam jogar, Nini... — Lisa suspirou, derrotada.

— E eu só quero que você fique aqui, me faça uma massagem nos pés, troque a minha bolsa de água quente e me diga que eu sou a mulher mais linda do mundo a cada dez minutos. É pedir demais, Lalisa? É mais importante marcar um gol do que cuidar da sua namorada doente?

— Você não está doente, amor, você está de TPM — Lisa corrigiu baixinho, um erro fatal.

Jennie parou no lugar. O ar pareceu ficar mais pesado.

— O que você disse?

— Nada! Eu disse que você é... radiante! Mesmo sentindo dor! — Lisa disparou, jogando as chuteiras em um canto e correndo para o lado de Jennie. — Vem, senta aqui. Eu vou buscar o chocolate que eu escondi no armário de cima.

— Você escondeu chocolate de mim? — Jennie perguntou, a raiva agora se misturando com uma vontade súbita de chorar. — Você sabia que eu ia precisar e escondeu? Você é cruel, Manoban.

— Não! Eu escondi para garantir que teria quando você pedisse! — Lisa explicou desesperada, pegando Jennie pela cintura e a guiando de volta para as almofadas. — Fica aqui. Eu sou toda sua. Pau mandado oficial, às suas ordens.

Jennie bufou, mas se deixou ser acomodada. Lisa era rápida. Em menos de dois minutos, ela tinha voltado com uma barra de chocolate amargo, uma bolsa de água quente recém-preenchida e um copo de chá de camomila.

— Melhor? — perguntou Lisa, ajoelhando-se no chão em frente a Jennie, ficando na altura ideal para que a menor pudesse usá-la como apoio.

— Mais ou menos — Jennie resmungou, abrindo o chocolate. — Meus pés ainda estão frios.

Lisa prontamente pegou os pés pequenos de Jennie e os colocou por baixo de sua camiseta de time, contra a pele quente de seu abdômen. Jennie soltou um suspiro de satisfação, mas sua expressão ainda era de poucos amigos.

— Você ainda está chateada? — Lisa perguntou, fazendo um carinho suave nos tornozelos da namorada.

— Estou com ciúmes — Jennie admitiu, a boca suja de chocolate, o que a deixava adorável apesar da carranca. — Eu vi a Somi lá embaixo quando cheguei do mercado. Ela estava com um conjunto de ginástica ridículo, esperando perto da quadra.

Lisa sentiu um calafrio. Então era isso. Não era apenas a dor ou o cansaço; era a vizinha do 302 novamente.

— Nini, eu nem sabia que ela estava lá. Eu só ia jogar com os meninos.

— Ela sempre está onde você está, Lisa. E você é lerda demais para perceber que ela fica se alongando de propósito quando você passa — Jennie apertou os olhos. — Se você tivesse descido, ela estaria lá, torcendo por você, oferecendo água...

— Eu não aceitaria a água dela! Eu tenho a minha garrafa! — Lisa protestou.

— Não importa. O fato de ela ter a audácia de respirar o mesmo ar que você me irrita. E o fato de você querer sair de perto de mim para ir para um lugar onde ela está, me irrita dez vezes mais.

Lisa suspirou, inclinando-se para frente e apoiando o queixo nos joelhos de Jennie.

— Eu não quero ninguém além de você, impaciente. Você sabe que eu sou completamente sua. Se você quiser que eu nunca mais jogue futebol na vida para você se sentir segura, eu paro agora.

Jennie olhou para baixo, observando a devoção nos olhos de Lisa. A raiva começou a derreter, substituída por aquela possessividade doce que definia o relacionamento delas. Ela passou os dedos pelos cabelos curtos de Lisa, puxando-os levemente.

— Não seja dramática. Você pode jogar. Mas não hoje. E não quando aquela mulher estiver por perto.

— Combinado — Lisa sorriu, sentindo que tinha vencido uma batalha, mesmo tendo perdido a guerra do futebol. — Quer que eu peça comida?

— Quero comida tailandesa. E quero que você assista aquele dorama de época comigo. Aquele que tem dezesseis episódios e você diz que é parado demais.

Lisa fez uma careta interna. Ela odiava doramas de época. Eram lentos, cheios de intrigas políticas e quase nenhum beijo até o último capítulo. Mas ela olhou para Jennie — para o biquinho nos lábios dela e para o jeito que ela parecia tão pequena e vulnerável sob a manta — e soube que não tinha escolha.

— Tudo bem. Vamos assistir aos dezesseis episódios.

— Ótimo — Jennie sorriu, um sorriso vitorioso que mostrava suas gengivas. — Agora, me dê um beijo e vá buscar meu carregador de celular.

Lisa obedeceu. Ela sempre obedecia. Enquanto caminhava até o quarto, ouviu o celular de Jennie apitar.

— Quem é, amor? — Lisa perguntou do corredor.

— É o Bambam — Jennie respondeu, soltando uma risadinha malévola. — Ele mandou uma mensagem pedindo desculpas e perguntando se eu quero que eles tragam sorvete para se redimirem.

— E o que você respondeu?

— Que eu quero dois potes de pistache e que, se eles demorarem mais de vinte minutos, eu vou contar para a mãe do Bambam que ele quebrou o vaso da dinastia Ming da sala dela ano passado.

Lisa riu alto, voltando para a sala com o carregador.

— Você é terrível, Jennie Kim.

— Eu sou a sua rainha, Lalisa Manoban. E é bom você não esquecer disso — Jennie disse, puxando Lisa para o sofá e obrigando-a a deitar para que ela pudesse usar o peito da tailandesa como travesseiro.

A tarde seguiu em uma paz relativa. O dorama era, de fato, muito lento, mas Lisa não se importava. Ela tinha o calor de Jennie contra si, o cheiro de seu cabelo e a certeza de que, apesar das crises de ciúmes, do gênio difícil e das ordens constantes, não havia outro lugar no mundo onde ela preferiria estar.

Cerca de uma hora depois, a campainha tocou de forma tímida. Lisa fez menção de levantar, mas Jennie a segurou.

— Deixe que eles esperem um pouco. Para aprenderem a não interromper nosso momento — Jennie disse, os olhos fixos na TV.

Lisa sorriu, beijando o topo da cabeça de Jennie.

— Você manda, chefe.

Quando finalmente abriram a porta, os quatro amigos estavam lá, parecendo um grupo de crianças castigadas, segurando sacolas de sorvete e guloseimas.

— Aqui está o tributo para a deusa — disse Jackson, estendendo a sacola para Jennie com uma reverência exagerada.

Jennie pegou a sacola, inspecionou o conteúdo e finalmente deu um aceno de cabeça.

— Podem entrar. Mas se fizerem barulho enquanto o protagonista estiver declarando seu amor, eu expulso todos pela varanda.

Eles entraram em fila indiana, sentando-se no chão em frente ao sofá, enquanto Lisa permanecia em seu posto de "apoio oficial" para Jennie. O resto do domingo foi uma mistura de sorvete, comentários sarcásticos de Jennie sobre a atuação dos atores e os meninos tentando desesperadamente não irritar "a patroa".

Lisa olhava para a cena e sentia uma felicidade genuína. Ela podia não ter jogado futebol, podia estar com as costas doendo de ficar na mesma posição por horas e podia ter que aguentar mais dez episódios de um dorama chato, mas ela tinha tudo o que importava.

Jennie, sentindo o olhar de Lisa, virou-se um pouco e sussurrou apenas para ela:

— Você é uma boa menina, Lili. Talvez eu te deixe jogar no próximo domingo. Se você se comportar bem a semana toda.

Lisa sorriu, seus olhos brilhando.

— Eu vou ser a melhor do mundo, Nini.

— Eu sei que vai — Jennie piscou, voltando sua atenção para a TV e pegando mais uma colher de sorvete.

Naquele apartamento, a hierarquia era clara. No topo estava Jennie Kim, com suas vontades, seus ciúmes e seu coração imenso. E logo abaixo, feliz e devota, estava Lalisa Manoban, a gigante de um metro e oitenta que descobriu que não havia força física no mundo que superasse o poder de um olhar felino e um biquinho de TPM. O futebol podia esperar; a rainha, nunca.