My patty
O Despertar da Realidade e o Calor do Amor
Lalisa Manoban acordou com um grito sufocado, o corpo coberto por uma fina camada de suor frio e o coração martelando contra as costelas como se estivesse prestes a explodir. Seus olhos castanhos vasculharam o quarto na penumbra da madrugada, procurando por correntes invisíveis, pelo colchonete duro no chão ou pelo olhar gélido de uma Jennie Kim que a tratava como um objeto de posse.
O silêncio do quarto era absoluto, interrompido apenas pelo som rítmico de uma respiração suave ao seu lado. Lisa sentiu um peso quente sobre o peito e, ao olhar para baixo, viu uma pequena mão com dedos delicados descansando ali.
— Lisa? — A voz veio como um sussurro sonolento, carregado de preocupação. — Ei, o que aconteceu? Você está tremendo.
Lisa virou o rosto e encontrou os olhos de Jennie. Mas não eram os olhos felinos e cruéis do seu pesadelo. Eram olhos doces, brilhando com uma preocupação genuína sob a luz fraca que vinha da rua. Jennie se sentou na cama, o lençol de seda deslizando por seus ombros, e tocou o rosto de Lisa com uma ternura que fez a tailandesa soluçar.
— Foi um pesadelo, Nini... — Lisa conseguiu dizer, a voz falhando enquanto as lágrimas de alívio começavam a descer. — Foi horrível. Você... você era diferente. Você me odiava. Você me humilhava.
Jennie franziu a testa, puxando Lisa para seus braços. Mesmo sendo muito menor, ela acolheu o corpo de 1,80m da namorada com uma força protetora, aninhando a cabeça de Lisa em seu pescoço.
— Eu te odiar? — Jennie soltou uma risadinha baixa, beijando o topo da cabeça de Lisa. — Lili, isso é impossível. Eu sou completamente louca por você. O que aconteceu nesse sonho maluco?
Lisa fechou os olhos, as imagens da "outra" Jennie ainda vívidas em sua mente. A Jennie que a fazia dormir no chão, que a proibia de jogar futebol, que a obrigava a se humilhar na frente de vizinhos.
— Você me tratava como um animal, Jennie — Lisa confessou, a voz abafada contra a pele da namorada. — Você tinha ciúmes da Somi e me punia por coisas que eu nem fazia. Você me fazia sentir pequena... de um jeito ruim. Eu tinha medo de você.
Jennie se afastou um pouco apenas para olhar nos olhos de Lisa, segurando seu rosto com as duas mãos. Sua expressão era uma mistura de choque e tristeza.
— Amor, olhe para mim — pediu Jennie com firmeza, mas com doçura. — Eu sou ciumenta? Sim, eu admito. Eu detesto o jeito que aquela vizinha olha para você porque eu sei que você é a mulher mais incrível do mundo e eu quero você só para mim. Mas eu nunca, em um milhão de anos, faria você se sentir menos do que a pessoa maravilhosa que você é.
Lisa respirou fundo, o ar finalmente parecendo preencher seus pulmões de forma completa. O cheiro de Jennie — uma mistura de creme de baunilha e o sabonete caro que ela usava — era o mesmo do sonho, mas a aura ao redor dela era o oposto. Ali, naquela realidade, Jennie era seu porto seguro, não seu carrasco.
— Eu sei — Lisa sussurrou, sentindo a paranoia do sonho começar a se dissipar. — Mas parecia tão real. Eu sentia a dor da humilhação. Eu sentia o frio do chão.
— Shh... já passou — Jennie começou a fazer carinho nos cabelos curtos de Lisa, puxando-a de volta para baixo dos cobertores. — Foi só a sua mente pregando peças. Talvez você esteja estressada com o trabalho ou com o torneio de futebol. Falando nisso, você não tem treino amanhã cedo?
Lisa piscou, confusa.
— Treino? Você... você vai me deixar ir?
Jennie riu alto desta vez, um som cristalino que iluminou o quarto.
— "Deixar"? Lisa, desde quando eu mando na sua agenda de esportes? Eu reclamo que você volta suada e que o Jackson fala demais, mas eu nunca proibiria você de fazer o que ama. Na verdade, eu até comprei aquela chuteira nova que você queria. Está guardada para o seu aniversário, mas se isso te fizer sentir melhor depois desse pesadelo, eu te dou agora.
Lisa sentiu um calor imenso invadir seu peito. Aquela era a sua Jennie. A mulher que podia ser mandona sobre qual restaurante escolheriam para o jantar ou qual filme assistiriam, mas que sempre apoiava seus sonhos e respeitava sua individualidade.
— Não precisa da chuteira agora — Lisa sorriu, sentindo-se boba. — Só de estar aqui com você, sabendo que tudo aquilo foi mentira, já é o suficiente.
— Bom — disse Jennie, acomodando-se novamente e puxando Lisa para que ela ficasse deitada de lado, de costas para ela, na clássica posição de "conchinha invertida" onde a pequena Jennie abraçava a grande Lisa. — Mas só para constar, se a Somi realmente tentar alguma gracinha, eu ainda vou dar um olhar mortal para ela no elevador. Isso eu não posso prometer mudar.
— Isso eu consigo aguentar — Lisa riu, sentindo os braços de Jennie rodearem sua cintura.
A manhã seguinte nasceu clara e ensolarada. Lisa acordou com o som de Jennie cantarolando na cozinha. O aroma de café fresco e panquecas flutuava pelo apartamento. Ela se espreguiçou, sentindo cada músculo do seu corpo de atleta relaxado. Não havia dor nos joelhos por ter limpado o chão, não havia marcas de punição. Havia apenas a vida real.
Ao entrar na cozinha, ela encontrou Jennie vestindo um de seus moletons grandes, que ficava como um vestido nela, mexendo algo na frigideira.
— Bom dia, dorminhoca — disse Jennie, virando-se com um sorriso radiante. — Preparei o café. E antes que você pergunte, sim, você pode ir ao futebol. Mas com uma condição.
Lisa sentiu um leve sobressalto, um resquício do sonho.
— Qual condição?
— Que você me traga aquele doce de morango da padaria da esquina na volta — Jennie piscou, apontando a espátula para ela. — E que você tome um banho antes de sentar no meu sofá branco.
Lisa soltou uma gargalhada alta, caminhando até Jennie e levantando-a do chão em um abraço de urso. Ela girou a namorada no ar, sentindo a leveza de Jennie e a força de seus próprios braços.
— Eu trago dez doces se você quiser, Nini! — Lisa exclamou, beijando as bochechas de Jennie repetidamente.
— Ei! Me coloca no chão, Lalisa! As panquecas vão queimar! — Jennie protestava entre risos, chutando as pernas no ar.
Lisa a colocou no chão, mas manteve as mãos em sua cintura, olhando-a com uma intensidade que fez Jennie corar levemente.
— Você é a mulher mais incrível do mundo, sabia? — Lisa disse seriamente. — Obrigado por ser você. Por me amar do jeito certo.
Jennie suavizou a expressão, colocando as mãos no pescoço de Lisa.
— Eu que agradeço por você ser esse "pau mandado" que eu amo tanto — brincou Jennie, usando o termo de forma carinhosa, como faziam às vezes. — Mas falando sério, Lili... eu sei que sou intensa. Eu sei que sou ciumenta e que gosto das coisas do meu jeito. Mas o nosso amor é baseado em respeito. Eu nunca faria nada para te machucar de propósito.
— Eu sei disso agora — Lisa suspirou. — Aquele sonho foi uma distorção de todas as minhas inseguranças, eu acho. O medo de que o seu gênio forte pudesse se transformar em algo sombrio.
— Pois pode esquecer isso — Jennie selou os lábios de Lisa com um beijo calmo e doce. — Agora come. Você precisa de energia para ganhar esse jogo. Eu quero ver você marcando muitos gols hoje.
O dia passou como um borrão de felicidade. No campo de futebol, Lisa jogou com uma liberdade que nunca sentira antes. Cada corrida, cada drible, cada interação com Bambam e Jackson era um lembrete de que ela era dona de sua própria vida.
— Ei, Lisa! — gritou Jackson durante o intervalo. — A Jennie deixou você vir hoje sem reclamar? Achei que ela ia te prender em casa depois daquela cena no mercado semana passada.
Lisa sorriu, lembrando-se da "cena" — Jennie apenas fazendo um bico porque Lisa tinha passado tempo demais conversando com a caixa sobre marcas de cereal.
— Ela não me "prende", Jackson — Lisa respondeu, bebendo água. — Ela só gosta de atenção. E eu gosto de dar atenção a ela. É um equilíbrio.
— Se você diz... — Jackson riu. — Mas você está jogando como se tivesse acabado de sair da prisão, cara. O que deu em você?
— Eu só percebi que tenho muita sorte — Lisa limitou-se a dizer.
Ao voltar para casa, Lisa parou na padaria e comprou não apenas o doce de morango, mas também um buquê de tulipas amarelas, as favoritas de Jennie. Quando entrou no apartamento, encontrou Jennie sentada no sofá, estudando alguns documentos de moda, mas ela largou tudo assim que viu Lisa.
— Meu doce! — Jennie exclamou, correndo para ela.
— E suas flores — Lisa entregou o buquê primeiro.
Jennie parou, os olhos brilhando.
— Tulipas? Por que isso agora?
— Porque eu percebi que não preciso de uma data especial para celebrar que eu tenho a melhor namorada do universo — Lisa disse, puxando Jennie para um beijo.
A noite caiu sobre Seul, e as duas se acomodaram no sofá para assistir a uma maratona de séries. Lisa estava sentada, e Jennie, como sempre, estava praticamente deitada sobre ela, usando as pernas longas de Lisa como apoio.
— Nini? — Lisa chamou depois de um tempo.
— Hum? — Jennie respondeu, concentrada na tela.
— Lembra daquela história do ar-condicionado da Somi no meu sonho?
Jennie começou a rir, virando-se para olhar para Lisa.
— O que tem?
— No sonho, eu traí você com ela porque você era malvada comigo.
Jennie parou de rir, sentando-se ereta. Ela olhou para Lisa com uma sobrancelha erguida, mas não havia fúria, apenas uma provocação divertida.
— Ah, é? Então no seu sonho eu sou a vilã e você é a coitadinha que cai nos braços da vizinha? Lalisa Manoban, você tem uma imaginação muito perigosa.
— Foi horrível, eu juro! — Lisa defendeu-se, rindo também. — Eu me senti tão culpada que acordei chorando.
— Bom — disse Jennie, aproximando-se e segurando o colarinho da camiseta de Lisa. — Só para você saber, na vida real, se o ar-condicionado da Somi quebrar, você vai me avisar, eu vou ligar para um técnico profissional, pagar a conta e garantir que você fique a pelo menos três andares de distância dela. Entendido?
— Entendido, senhora — Lisa brincou, fazendo uma continência.
— E se você sequer pensar em olhar para outra mulher daquele jeito — Jennie continuou, o tom agora mais baixo e sensual —, eu não vou te fazer dormir no chão. Eu vou te dar tanto amor e tanta atenção que você vai esquecer que outras mulheres existem. Esse vai ser o seu "castigo". O que acha?
Lisa sentiu o coração acelerar, mas desta vez era de puro desejo e felicidade.
— Eu acho que posso conviver com esse tipo de punição pelo resto da minha vida.
Jennie sorriu, aquele sorriso de "nini" que derretia qualquer defesa de Lisa. Ela se inclinou e beijou Lisa com paixão, um beijo que reafirmava o compromisso delas, a saúde do relacionamento e a verdade de seus sentimentos.
Naquela noite, Lisa não teve pesadelos. Ela dormiu o sono dos justos, abraçada à mulher que era sua igual, sua parceira e seu grande amor. Ela percebeu que a dinâmica de "mandonismo" de Jennie era apenas uma faceta de sua personalidade forte, uma brincadeira de poder que ambas aceitavam porque sabiam que, no fundo, o que as unia era uma admiração mútua.
Lalisa Manoban não era um "pau mandado" por medo ou submissão doentia. Ela era uma mulher que escolhia ceder porque amava ver o brilho de satisfação nos olhos de Jennie Kim. E Jennie, por sua vez, não era uma tirana; era uma mulher intensamente apaixonada que protegia o que era seu com unhas e dentes, mas que sempre deixava a porta aberta e o coração disponível.
O pescoço de Lisa estava livre de marcas de unhas de estranhas, e sua alma estava livre do peso da opressão. No pequeno universo que as duas construíram, a única regra era o amor. E essa era uma regra que Lisa estava mais do que disposta a seguir para sempre.
Ao fechar os olhos, a última imagem que Lisa teve foi a de Jennie sussurrando um "eu te amo" sonolento antes de apagar a luz. O pesadelo havia ficado para trás, perdido nas sombras de uma mente cansada. A realidade, no entanto, era muito mais brilhante e bonita do que qualquer sonho poderia ser. Elas eram Jenlisa, e nada — nem vizinhas intrometidas, nem pesadelos sombrios — poderia mudar a verdade do que sentiam.
— Boa noite, minha rainha — Lisa sussurrou no escuro.
— Boa noite, minha gigante — Jennie respondeu, apertando a mão de Lisa sob o cobertor.
E assim, em paz com a realidade, Lalisa Manoban finalmente descansou, sabendo que estava exatamente onde deveria estar: amada, respeitada e completa.