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My rich girl

Eclipse de Ciúmes e Holofotes

O sol de Nova York parecia brilhar com uma intensidade diferente naquela manhã de terça-feira. Para Lalisa Manoban, o trajeto até a NYU, que antes era uma marcha fúnebre em direção ao julgamento alheio, transformou-se em algo que ela nunca ousou imaginar. Dessa vez, ela não estava tentando se camuflar entre as sombras dos prédios. Ela caminhava de cabeça erguida, ainda que um pouco tímida, sentindo o calor da mão pequena de Jennie Kim entrelaçada à sua.

Jennie não estava apenas "andando" com Lisa. Ela desfilava. A capitã das líderes de torcida usava uma saia plissada preta, uma jaqueta de couro que exalava confiança e aquele olhar de quem era dona do mundo. Ao seu lado, Lisa, em sua imponente estatura de 1,80m, vestia uma calça jeans escura que acentuava suas pernas longas e uma camisa de botões levemente aberta no colarinho. Sem os moletons largos, a beleza "de outro mundo" de Lisa estava ali, exposta, como uma obra de arte que finalmente saiu de um porão empoeirado para a galeria principal.

Quando cruzaram os portões principais, o silêncio caiu sobre o pátio como uma cortina pesada. Jackson e seu grupo, que geralmente ficavam perto da entrada para intimidar os calouros, pararam no meio de uma frase. As risadas morreram. Os olhos de todos estavam fixos no par improvável.

— Respira, Lili — sussurrou Jennie, apertando a mão de Lisa. — Você está incrível. Deixe que olhem.

— Todo mundo está olhando, Nini — Lisa murmurou, sentindo o rosto esquentar, mas sem desviar o olhar. — É como se estivessem esperando a gente tropeçar.

— Pois vão esperar sentados — Jennie sorriu de canto, parando propositalmente no meio do corredor mais movimentado.

Ela se virou para Lisa, ignorando as centenas de pares de olhos, e ajeitou a gola da camisa da maior com um carinho possessivo.

— Te vejo no almoço? — perguntou Jennie, a voz alta o suficiente para que os curiosos ao redor ouvissem.

— Com certeza — Lisa respondeu, ganhando confiança.

Jennie ficou na ponta dos pés e deixou um beijo demorado na bochecha de Lisa antes de se afastar em direção ao bloco de artes, deixando para trás uma Lisa atordoada e um corredor em estado de choque.

O que Lisa não previu, no entanto, foi a velocidade com que o status social mudava naquela faculdade. No momento em que Jennie Kim, a "intocável", validou Lalisa Manoban publicamente, o rótulo de "nerd esquisita" foi incinerado e substituído por algo muito mais perigoso: "a nova obsessão do campus".

Ao longo das primeiras aulas, Lisa percebeu que o bullying agressivo de Jackson havia desaparecido, substituído por cochichos de outro tipo. Quando ela entrou na biblioteca para devolver alguns livros de física, não foi recebida com caretas, mas com olhares de admiração e sorrisos sugestivos.

— Oi, Lisa... — uma voz suave chamou.

Lisa se virou e encontrou Sarah, uma das garotas do curso de moda, encostada em uma das estantes. Sarah era conhecida por ser extremamente seletiva com quem falava.

— Oi? — Lisa respondeu, incerta.

— Eu nunca tinha reparado como essa armação de óculos combina com o formato do seu rosto — disse Sarah, aproximando-se e tocando levemente o braço de Lisa, onde o músculo era visível sob o tecido fino. — Você deveria aparecer na nossa festa na sexta. Pessoas... interessantes como você fazem falta por lá.

— Ah, eu... eu vou ver com a Jennie — Lisa gaguejou, sentindo-se desconfortável com a proximidade súbita.

— Por que com a Jennie? — Sarah deu um sorriso brincalhão, deslizando a mão pelo ombro de Lisa. — Você parece bem grandinha para tomar suas próprias decisões, não acha?

Lisa apenas acenou com a cabeça e saiu apressada, mas a cena se repetiu no corredor. Duas calouras pararam Lisa para pedir "ajuda com um endereço" que claramente sabiam onde ficava, apenas para ficarem admirando a altura e o sorriso tímido da bolsista. Lisa, em sua inocência crônica, não percebia que estava sendo alvo de uma caça ao tesouro, mas Jennie Kim, que tinha olhos em todos os cantos daquela faculdade, estava recebendo cada relatório em tempo real.

O clima pesou quando chegou a hora da aula de Literatura Inglesa, a única aula que Jennie e Lisa compartilhavam naquele dia.

Quando Lisa entrou na sala, já havia um pequeno grupo de garotas ao redor da sua mesa habitual. Rosé, a melhor amiga de Jennie, estava sentada por perto, observando a cena com uma sobrancelha erguida, sabendo que o desastre era iminente.

— Lisa! Senta aqui com a gente — convidou uma das garotas do time de vôlei, batendo na cadeira ao lado. — Estávamos comentando sobre como você é alta. Você pratica algum esporte? Com esse corpo, você seria uma estrela no time.

Lisa sorriu sem jeito, sentando-se enquanto era cercada.

— Eu só corro um pouco de manhã e faço alguns exercícios em casa — explicou Lisa, coçando a nuca.

— Exercícios em casa, é? — a garota riu, inclinando-se para frente de forma nada sutil. — Daria tudo para ver sua rotina de treino.

Foi nesse exato momento que Jennie Kim entrou na sala. O ar pareceu esfriar dez graus instantaneamente. Ela viu Lisa — sua Lisa — cercada por três garotas que pareciam leoas prontas para o bote. O que mais a irritou foi ver que Lisa estava sorrindo, sendo educada demais, como sempre era.

Jennie caminhou até sua mesa, que ficava logo atrás da de Lisa, e bateu sua bolsa de grife no tampo de madeira com um estrondo desnecessário.

— A aula vai começar. Não têm nada melhor para fazer do que ficarem babando em cima da mesa dos outros? — Jennie disparou, os olhos felinos brilhando com uma fúria mal contida.

As garotas se dispersaram rapidamente, murmurando desculpas, mas Lisa continuou com aquele sorriso confuso no rosto.

— Nossa, Nini, você chegou de mau humor? — perguntou Lisa, virando-se para trás para olhar para a namorada.

— Mau humor? — Jennie riu secamente, abrindo seu caderno com força. — Eu estou ótima, Lalisa. Só não sabia que agora você era a atração turística oficial da NYU.

— Do que você está falando? — Lisa franziu a testa, sua altura fazendo-a dominar o espaço mesmo sentada.

— Estou falando da Sarah na biblioteca. Das calouras no corredor. E dessas urubus que estavam aqui agora — Jennie sibilou, inclinando-se para frente para que apenas Lisa ouvisse. — Você é muito ingênua ou está gostando da atenção?

Lisa sentiu uma pontada de irritação. Ela passou anos sendo humilhada e, agora que as pessoas estavam sendo minimamente gentis, Jennie a atacava?

— Elas só estavam sendo legais, Jennie. Pela primeira vez na vida, ninguém tentou me derrubar ou me chamar de aberração. Qual o problema de eu ser educada de volta? — Lisa retrucou, a voz subindo um tom.

— O problema é que elas não querem ser suas amigas, Lisa! Elas querem o que eu tenho! — Jennie exclamou, esquecendo-se por um momento de que a sala estava começando a encher.

— Ah, claro. Tudo gira em torno de você, não é? — Lisa soltou uma risada amarga. — Você queria que eu fosse vista com você, mas agora que as pessoas me notam, você fica brava?

— Eu não fico brava por te notarem, eu fico brava por você ser uma idiota que não percebe quando alguém está dando em cima de você na minha cara! — Jennie se levantou, a cadeira arrastando no chão com um ruído estridente.

A sala de aula ficou em silêncio absoluto. O professor ainda não havia chegado, e todos os alunos assistiam ao embate entre a rainha do campus e a sua protegida.

— Eu não sou idiota, Jennie — Lisa disse, levantando-se também. Seus 1,80m faziam Jennie parecer minúscula, mas a presença da menor era tão esmagadora que a diferença de altura parecia irrelevante. — Talvez eu só esteja cansada de ser tratada como se eu fosse um troféu que você precisa esconder ou proteger o tempo todo.

— Um troféu? — Jennie deu um passo à frente, o dedo apontado para o peito de Lisa. — Eu passei meses cuidando de você! Eu briguei com metade dessa escola por você! E no primeiro dia em que você ganha um elogio de uma qualquer, você já acha que pode falar assim comigo?

— Eu nunca pedi para você brigar minhas batalhas! — Lisa exclamou, a mágoa transbordando. — Eu agradeço o que você fez, mas eu não sou sua propriedade. Se a Sarah ou qualquer outra pessoa quiser conversar comigo, eu vou conversar. Isso se chama ser um ser humano normal, algo que você parece ter esquecido por causa desse seu complexo de superioridade!

O rosto de Jennie ficou vermelho de raiva e humilhação.

— Complexo de superioridade? — a voz de Jennie tremeu. — Ótimo. Se você quer tanto ser "normal" e dar atenção para quem quiser, vá em frente. Mas não espere que eu fique aqui assistindo você ser feita de boba por gente que riria de você pelas costas ontem mesmo.

— Você é a única que está me fazendo sentir boba agora, Jennie — Lisa disse, a voz subindo para um nível de decepção que cortou o ar.

— Então por que você não vai se sentar com suas novas "amiguinhas"? — Jennie apontou para o outro lado da sala. — Eu não quero você perto de mim hoje.

— Com prazer — Lisa rebateu.

Ela pegou sua mochila com movimentos bruscos. Pela primeira vez, Lisa não se curvou. Ela caminhou com passos pesados até o fundo da sala, sentando-se bem longe de Jennie. O silêncio que se seguiu foi sufocante.

Jennie sentou-se, as mãos tremendo sobre a mesa. Ela queria chorar, mas o orgulho de Kim Jennie não permitia lágrimas em público. Ela sentia o peito arder de ciúmes, uma possessividade que ela não sabia que possuía até ver outras mãos tocando o que ela considerava sagrado.

Do fundo da sala, Lisa tentava se concentrar no quadro negro, mas as letras pareciam dançar. Ela estava furiosa, mas, acima de tudo, estava triste. Ela amava Jennie, amava o jeito que a garota a fazia se sentir segura, mas o ciúme possessivo de Jennie a sufocava.

Durante toda a aula, nenhuma das duas desviou o olhar para o lado. Rosé, sentada entre as duas, olhava de uma para a outra, suspirando.

— Vocês duas são inacreditáveis — Rosé sussurrou para Jennie quando o professor se virou para escrever no quadro. — Ela é louca por você, sua boba. Ela só é lerda.

— Ela chamou meu ciúme de complexo de superioridade, Rosie — Jennie murmurou, a voz embargada. — Ela não entende... ela não entende o que as pessoas fazem para subir na hierarquia dessa faculdade. Elas vão usar a Lisa para chegar em mim, ou pior, vão usá-la e depois descartá-la quando a novidade passar.

— E você acha que gritar com ela na frente de todo mundo ajudou a protegê-la? — Rosé perguntou, arqueando a sobrancelha.

Jennie não respondeu. Ela olhou pelo canto do olho para o fundo da sala e viu Lisa com a cabeça baixa, os ombros largos curvados novamente, mas dessa vez não era por timidez. Era por tristeza.

Quando o sinal finalmente tocou, Lisa foi a primeira a sair. Ela não esperou por Jennie, não olhou para trás. Ela precisava de ar. Ela caminhou em direção ao jardim do campus, tentando processar o que havia acontecido.

Enquanto caminhava, Jackson apareceu em seu caminho novamente. Mas, desta vez, ele não tinha o pé estendido para derrubá-la. Ele tinha um sorriso cínico.

— Problemas no paraíso, Manoban? — ele riu. — Parece que a coleira da Jennie Kim apertou demais, hein?

Lisa parou e olhou para ele. Ela não sentia medo. A raiva que sentia de Jennie havia se transformado em uma força fria.

— Sai da minha frente, Jackson — Lisa disse, sua voz saindo mais profunda e ameaçadora do que ela pretendia.

Jackson deu um passo atrás, surpreso com a mudança de postura.

— Calma, gênio. Só estou dizendo que, se você cansar de ser o projeto de caridade da patricinha, tem gente que saberia apreciar o que você tem a oferecer.

Lisa sentiu um nó na garganta. "Projeto de caridade". As palavras de Jackson ecoaram as suas próprias inseguranças. Será que era isso que ela era para Jennie?

Antes que ela pudesse responder, ela ouviu passos rápidos atrás de si.

— Eu mandei você sumir, Jackson! — a voz de Jennie ecoou, mas dessa vez não havia autoridade, havia apenas cansaço.

Jennie parou ao lado de Lisa, mas não tocou nela. Jackson deu de ombros e saiu andando, rindo baixo.

As duas ficaram sozinhas sob a sombra de um grande carvalho. O vento soprava frio, balançando os cabelos de ambas.

— Você veio para me dar mais ordens? — perguntou Lisa, sem olhar para Jennie.

— Eu vim pedir desculpas — Jennie disse, sua voz tão baixa que quase se perdeu no vento. — Eu agi como uma idiota possessiva.

Lisa finalmente olhou para ela. Jennie parecia pequena, os olhos castanhos marejados e o lábio inferior tremendo levemente.

— Você me humilhou, Jennie. Na frente de todo mundo.

— Eu sei. E eu sinto muito por isso — Jennie deu um passo hesitante em direção a ela. — É que... Lisa, eu passei a vida toda vendo como as pessoas são cruéis e interesseiras. Quando eu vi aquelas garotas em cima de você, eu entrei em pânico. Eu tive medo de que elas tirassem você de mim ou que fizessem você sofrer.

Lisa suspirou, sentindo sua raiva começar a derreter diante da vulnerabilidade de Jennie.

— Ninguém vai me tirar de você, Nini. Mas você precisa confiar em mim. Eu sou inteligente o suficiente para resolver equações de astrofísica, acho que consigo perceber se alguém está sendo mal-intencionado.

— Você é inteligente, Lili, mas seu coração é grande demais — Jennie finalmente tocou a mão de Lisa. — Você vê o melhor em todo mundo. E eu... eu só vejo os perigos.

Lisa entrelaçou seus dedos nos de Jennie, sentindo a familiar eletricidade.

— Eu não sou um projeto de caridade, Jennie. E eu não sou um troféu.

— Eu sei que não é — Jennie olhou nos olhos dela com uma sinceridade absoluta. — Você é a única pessoa que me vê de verdade. E eu morro de medo de perder isso.

Lisa puxou Jennie para um abraço, envolvendo-a completamente em seus braços longos e fortes. Jennie escondeu o rosto no pescoço de Lisa, respirando o perfume cítrico que tanto amava.

— A gente não pode brigar assim na sala de aula — Lisa murmurou contra o cabelo de Jennie. — Foi horrível.

— Eu sei. Prometo que vou tentar controlar minha vontade de socar qualquer um que chegue a menos de um metro de você — Jennie disse, arrancando uma risadinha de Lisa.

— Um metro? Acho que podemos negociar para trinta centímetros — Lisa brincou.

Jennie se afastou um pouco, olhando para o rosto de Lisa. Ela esticou a mão e tirou os óculos da maior, observando aqueles olhos castanhos intensos.

— Você é linda, Lisa. Se prepare, porque o ciúme vai ser um trabalho constante para mim agora que o mundo descobriu o que eu escondi por tanto tempo.

— Então é bom você começar a praticar — Lisa sorriu, inclinando-se para beijar Jennie.

Desta vez, não houve plateia, não houve sussurros, apenas o som das folhas balançando. Elas sabiam que a nova popularidade de Lisa traria desafios, que o mundo da faculdade era um campo minado de egos e aparências. Mas, enquanto estivessem juntas, a nerd e a patricinha eram uma força da natureza que nenhuma hierarquia social poderia destruir.

— Mas só para constar — Jennie disse, enquanto caminhavam de volta para o prédio —, se a Sarah falar com você de novo, eu vou furar os pneus do carro dela.

— Jennie! — Lisa exclamou, rindo.

— O quê? Eu disse que ia tentar, não disse que ia conseguir!

E assim, entre risos e promessas de paciência, elas seguiram em frente, prontas para enfrentar o próximo período, as próximas fofocas e, quem sabe, a próxima equação que a vida resolvesse colocar em seus caminhos.