My rich girl
Sombras de Dúvida e a Redenção no Refeitório
A trégua entre Lalisa e Jennie no jardim do campus trouxe uma paz temporária, mas a atmosfera na Universidade de Nova York era como o clima de outono: instável e propensa a tempestades súbitas. Lisa, agora caminhando com uma postura mais ereta, sentia o peso de ser o novo centro das atenções. No entanto, o que ela não esperava era que o foco de Jackson mudasse de direção de forma tão estratégica e cruel.
Jackson, percebendo que não conseguia mais intimidar Lisa fisicamente ou através do bullying verbal, decidiu atacar onde mais doía: a segurança de Lisa em seu relacionamento. Ele começou a cercar Jennie nos corredores, usando o pretexto de "assuntos do comitê de atletas" ou "reuniões de líderes de torcida".
Naquela manhã de quinta-feira, Lisa estava saindo da biblioteca quando viu a cena que fez seu sangue ferver. Perto dos armários, Jackson estava inclinado sobre Jennie, um sorriso presunçoso no rosto, enquanto uma de suas mãos descansava casualmente na parede, logo acima da cabeça da garota. Jennie parecia desconfortável, tentando se esquivar, mas Jackson era persistente.
— Qual é, Jennie, você sabe que uma garota como você merece alguém que acompanhe seu ritmo — Jackson dizia, a voz alta o suficiente para ser ouvida por quem passava. — Alguém que não precise se esconder atrás de livros de física.
Lisa sentiu um nó cego se formar em seu peito. O ciúme, aquele sentimento que ela havia criticado em Jennie dias atrás, agora corria por suas veias como veneno. Ela se aproximou com passos pesados, sua altura de 1,80m projetando uma sombra imponente sobre o atleta.
— Algum problema aqui? — a voz de Lisa saiu mais rouca do que o normal, carregada de uma hostilidade que ela raramente demonstrava.
Jackson se virou, soltando uma risadinha anasalada ao ver a nerd.
— Ah, olha só, a guarda-costas chegou. Relaxa, Manoban, só estamos conversando sobre coisas que pessoas populares entendem. Coisas que estão além do seu... alcance intelectual.
— Lisa, não — Jennie interveio, percebendo o brilho perigoso nos olhos da namorada. — Vamos embora daqui.
— Não antes de ele tirar a mão de perto de você — Lisa retrucou, dando um passo à frente.
— E se eu não tirar? — Jackson desafiou, estufando o peito. — O que a bolsista vai fazer? Vai me explicar a teoria da relatividade até eu dormir?
A raiva de Lisa explodiu. Ela não partiu para a agressão física, mas o modo como ela avançou, invadindo o espaço pessoal de Jackson com uma expressão de puro desprezo, foi o suficiente para atrair uma pequena multidão.
— Você acha que é superior porque joga bola e humilha os outros? — Lisa sibilou. — Você é pequeno, Jackson. Tão pequeno que precisa tentar diminuir os outros para se sentir alguém. Fica longe da Jennie. Agora.
— Lisa, chega! — Jennie gritou, puxando o braço de Lisa com força.
A capitã das líderes de torcida arrastou Lisa para longe, mas o estrago estava feito. Os corredores já sussurravam sobre a "crise de ciúmes" da nerd. Quando chegaram a um canto vazio, Jennie soltou o braço de Lisa e se virou com fogo nos olhos.
— O que foi aquilo, Lalisa? — Jennie perguntou, a voz trêmula de frustração.
— Ele estava em cima de você, Jennie! Você não viu o jeito que ele estava te olhando? — Lisa gesticulava, a respiração ofegante.
— Eu sei me cuidar! — Jennie rebateu. — Eu passei a vida lidando com caras como o Jackson. Você agiu exatamente como eu agi na sala de aula, a diferença é que você me fez parecer uma donzela indefesa que precisa de proteção!
— Eu só estava te defendendo! — Lisa exclamou, sentindo a injustiça da situação.
— Não, você estava sendo possessiva! — Jennie rebateu, as lágrimas de raiva começando a surgir. — Você me criticou por ter ciúmes, mas na primeira oportunidade, você faz um espetáculo no meio do corredor. Eu não sou um troféu, lembra? Foi isso que você me disse!
Lisa abriu a boca para responder, mas as palavras morreram em sua garganta. A hipocrisia de sua atitude a atingiu como um soco no estômago. Ela tinha passado dias pregando sobre confiança e sobre como Jennie deveria ser mais segura, e no primeiro teste, ela falhou miseravelmente.
— Eu... eu não quis... — Lisa tentou começar.
— Eu não quero ouvir agora, Lisa — Jennie disse, limpando o rosto. — Você me envergonhou. E o pior é que você deu ao Jackson exatamente o que ele queria: uma reação.
Jennie saiu andando, deixando Lisa sozinha no corredor frio. O resto do dia foi um borrão de culpa para a mais alta. Ela mal conseguia se concentrar nas aulas. Cada vez que via seu reflexo em uma janela, ela via alguém que não reconhecia. Onde estava a Lisa racional? Onde estava a pessoa que acreditava que o amor era baseado na liberdade?
Ela passou a tarde na biblioteca, mas não estudou. Ela pensou em Jennie, no brilho de decepção em seus olhos felinos. Lisa percebeu que, para Jennie, a imagem pública era uma armadura, e ela tinha acabado de rachar essa armadura na frente de todos.
À hora do almoço, o refeitório estava lotado. Era o coração social da universidade, o lugar onde reputações eram feitas ou destruídas. Jennie estava sentada em sua mesa habitual com Rosé e as outras líderes de torcida. Ela parecia distante, mexendo na salada sem comer nada.
Lisa parou na entrada do refeitório. Seu coração batia contra as costelas como um pássaro enjaulado. Ela sabia o que precisava fazer. Não era sobre ser popular ou sobre manter as aparências; era sobre Jennie. Era sobre mostrar para a mulher que ela amava que ela era capaz de engolir o próprio orgulho por ela.
Com passos decididos, Lisa caminhou pelo corredor central do refeitório. O barulho das conversas foi diminuindo à medida que as pessoas notavam sua presença. Ela era alta, impossível de ignorar, e seu rosto carregava uma determinação que silenciou até as mesas mais barulhentas.
Ela parou diante da mesa de Jennie. As líderes de torcida pararam de falar. Rosé olhou para Lisa com uma mistura de surpresa e expectativa. Jennie levantou o olhar, a expressão cautelosa.
— Lisa? O que você está fazendo? — Jennie sussurrou, sentindo o peso de centenas de olhares sobre elas.
Lisa não respondeu de imediato. Ela olhou ao redor, vendo Jackson sentado a algumas mesas de distância, observando com um sorriso de escárnio. Ela respirou fundo e voltou sua atenção inteiramente para Jennie.
— Jennie Kim — Lisa começou, sua voz clara e firme, ecoando pelo refeitório agora silencioso. — Eu vim aqui porque eu cometi um erro. Um erro idiota e egoísta.
Jennie arregalou os olhos, a surpresa substituindo a cautela.
— Hoje cedo, eu deixei meu ciúme falar mais alto que o meu bom senso — continuou Lisa, sem desviar o olhar. — Eu agi de uma forma que eu mesma critiquei. Eu fui possessiva e desrespeitei a sua capacidade de se defender sozinha. Eu fui hipócrita, e por isso, eu peço desculpas.
Um murmúrio percorreu o refeitório. Ninguém nunca tinha visto alguém, muito menos uma bolsista nerd, pedir desculpas de forma tão pública e vulnerável para a rainha da escola.
— Eu não sou perfeita, Nini — Lisa disse, a voz suavizando, tornando-se íntima apesar da audiência. — Eu ainda estou aprendendo a lidar com tudo isso... com o que eu sinto por você, com o fato de que todo mundo agora vê o quão incrível você é. Mas eu nunca mais quero que meu ego ou minha insegurança te façam sentir mal. Você é a mulher mais forte que eu conheço, e eu tenho sorte de estar ao seu lado.
Lisa deu um passo mais perto, ignorando os flashes de celulares que começavam a surgir.
— Você me perdoa por ter sido uma idiota?
Jennie sentiu a garganta apertar. Ela olhou para Lisa — sua Lisa — que estava ali, expondo suas fraquezas na frente de toda a universidade apenas para consertar as coisas entre elas. O orgulho de Jennie, que antes era uma barreira, desmoronou completamente. Ela percebeu que o gesto de Lisa era a maior prova de amor que ela já recebera.
Jennie se levantou lentamente. O refeitório parecia prender a respiração.
— Você é mesmo uma nerd boba, Manoban — Jennie disse, um sorriso pequeno e radiante começando a surgir em seus lábios.
Ela contornou a mesa e, sem se importar com as convenções sociais ou com sua imagem de patricinha intocável, envolveu o pescoço de Lisa com os braços, puxando-a para baixo.
— É claro que eu te perdoo — murmurou Jennie contra os lábios de Lisa, antes de selar o perdão com um beijo apaixonado.
O refeitório explodiu em assovios e aplausos. Rosé batia palmas com entusiasmo, enquanto Jackson fechava a cara, percebendo que sua tentativa de separar as duas só havia servido para fortalecê-las.
Quando se separaram, Lisa tinha um sorriso bobo no rosto, as bochechas coradas.
— Isso foi... bem público — Lisa comentou, ajustando os óculos.
— Foi perfeito — Jennie corrigiu, segurando a mão de Lisa com firmeza. — Agora, senta aqui. Você vai almoçar na mesa principal hoje.
— Na mesa das líderes de torcida? — Lisa engoliu em seco. — Eu não sei se eu me encaixo aqui, Nini.
Jennie olhou para as amigas e depois de volta para Lisa, com um brilho travesso nos olhos.
— Lisa, depois desse discurso? Você é a pessoa mais comentada dessa faculdade. E além do mais — Jennie inclinou-se para sussurrar no ouvido dela —, eu gosto de ter minha nerd por perto para me explicar o Renascimento entre um treino e outro.
Lisa riu, sentindo o peso do mundo sair de seus ombros. Elas se sentaram juntas, e pela primeira vez, Lisa não se sentiu como uma intrusa. Ela percebeu que não precisava de proteção, e Jennie percebeu que não precisava de controle. O que elas precisavam era daquela honestidade crua, da capacidade de admitir erros e transformá-los em pontes.
Enquanto Rosé começava a bombardear Lisa com perguntas sobre astrofísica apenas para ver a maior se empolgar, Jennie descansou a cabeça no ombro de Lisa.
— Sabe, Lili — Jennie disse baixinho —, você fica muito atraente quando assume seus erros.
— É mesmo? — Lisa arqueou uma sobrancelha, um sorriso confiante surgindo. — Então talvez eu devesse errar mais vezes.
— Não abuse da sorte, Manoban — Jennie brincou, dando um tapinha leve em seu braço. — Mas se o Jackson tentar alguma coisa de novo, eu deixo você fazer aquele olhar de "eu vou te esmagar com meu conhecimento" outra vez. É um bom visual para você.
Elas riram juntas, um som que abafou qualquer fofoca ou olhar maldoso. Naquela tarde, a hierarquia da NYU não mudou apenas para Lisa e Jennie; ela mudou para todos que assistiram. Porque, no final das contas, não eram as roupas de grife ou as notas altas que definiam quem elas eram, mas a coragem de serem reais em um mundo de aparências.
E enquanto o sol de Nova York entrava pelas grandes janelas do refeitório, iluminando o casal improvável, Lisa soube que, não importava qual fosse a próxima equação difícil da vida, ela teria a melhor parceira do mundo para ajudá-la a resolver. O amor, afinal, era a única variável que tornava tudo o resto suportável.