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My rich girl

O Teorema da Paciência e o Caos das Sacolas

O Shopping Westfield World Trade Center era uma obra-prima da arquitetura moderna, com suas costelas brancas e curvas que lembravam o esqueleto de uma baleia colossal. Para a maioria das pessoas, era um lugar de consumo e lazer; para Lalisa Manoban, naquele exato momento, era um campo de testes para a sua sanidade mental.

Lisa, com seus 1,80m de altura e ombros que mal cabiam nos corredores mais estreitos das lojas de grife, parecia um cabide humano de luxo. Ela carregava seis sacolas de papel espesso no braço esquerdo, quatro no direito, e tentava equilibrar uma caixa de sapatos debaixo da axila enquanto segurava o smoothie de morango de Jennie com as pontas dos dedos que ainda estavam livres.

— Lalisa, você está me ouvindo ou está tentando calcular a trajetória de algum asteroide imaginário de novo? — A voz de Jennie Kim cortou o ar condicionado como uma lâmina de seda, mas com o peso de uma bigorna.

Lisa piscou, focando a visão na namorada. Jennie estava impecável em um conjunto de tweed preto e branco, óculos escuros de grife pousados no topo da cabeça e uma expressão que Lisa conhecia bem: o estágio quatro da irritação espontânea.

— Estou ouvindo, Nini. Com toda a minha atenção — Lisa respondeu, a voz saindo um pouco abafada porque uma das alças das sacolas da Gucci estava perigosamente perto do seu queixo.

— Não parece. Eu acabei de dizer que aquele tom de bege na vitrine da Prada é ofensivo para o meu tom de pele, e você simplesmente balançou a cabeça como se eu estivesse falando sobre o clima — Jennie parou de andar bruscamente, virando-se para encarar a maior. — Você está entediada? É isso? Minha companhia não é mais suficiente para manter seu cérebro de gênio ocupado?

— Não, claro que não! — Lisa se apressou em dizer, quase derrubando a caixa de sapatos. — Eu só... eu estava pensando que talvez devêssemos fazer uma pausa. Estamos andando há três horas e você não comeu nada além de duas fatias de maçã orgânica.

Jennie cruzou os braços, os olhos castanhos estreitando-se perigosamente.

— Ah, então agora a culpa é minha por estarmos aqui? Eu sou uma distração para a sua rotina de nerd? Você prefere estar na biblioteca cheirando livros velhos do que segurando as minhas compras?

Ao lado delas, Rosé, a capitã das líderes de torcida e melhor amiga de Jennie, soltou um risinho abafado enquanto BamBam, o melhor amigo de Lisa e namorado de Rosé, tentava não deixar cair uma sacola de cosméticos que parecia pesar o mesmo que um saco de cimento.

— Nem tente, Lisa — sussurrou BamBam, aproximando-se da amiga. — Quando elas entram no modo "caçadoras de erros", a única saída é a rendição total. Eu já levei bronca porque o meu passo estava "muito ruidoso" no mármore.

— Eu ouvi isso, BamBam! — Rosé exclamou, apontando o dedo para o namorado. — E o seu passo está ruidoso sim. Parece que você está marchando para a guerra em vez de passear com a sua namorada.

Jennie voltou sua atenção para Lisa, ignorando o drama secundário.

— E outra coisa, Lalisa. Por que você sorriu para aquela atendente na loja de perfumes?

Lisa sentiu o suor frio escorrer pelas costas.

— Nini... ela me deu um papelzinho com amostra de fragrância. Eu só fui educada. É o protocolo social básico.

— Protocolo social básico? — Jennie deu um passo à frente, forçando Lisa a recuar e quase bater em um manequim de vidro. — Ela era loira, Lisa. E ela olhou para os seus ombros como se estivesse analisando o cardápio de um restaurante. E você, em vez de manter a cara de "sou comprometida e perigosa", deu aquele seu sorriso de coelho que derrete até geleira.

— Eu não dei o sorriso de coelho! — Lisa protestou, a voz subindo uma oitava. — Foi um sorriso de "obrigado, mas eu já tenho perfume e uma namorada possessiva".

— Possessiva? — Jennie arqueou uma sobrancelha. — Agora eu sou possessiva? Rosé, você ouviu isso? Eu sou rotulada como possessiva só porque prezo pelo que é meu por direito?

— Um absurdo, Jen — Rosé concordou, examinando as unhas. — Eles não valorizam o cuidado que temos. O BamBam, por exemplo, acha que eu sou louca porque eu não quero que ele siga aquela instrutora de pilates que só posta fotos de "ângulo de postura".

— É pelo ângulo da postura, Rosé! — BamBam exclamou, desesperado. — Eu tenho escoliose!

Jennie ignorou os dois e continuou sua cruzada contra Lisa. Elas agora estavam no meio da praça central do shopping, e alguns turistas começavam a olhar. Lisa, com seus 1,80m, era difícil de ignorar, especialmente quando estava sendo repreendida por uma garota que mal chegava ao seu ombro, mas que emanava o poder de um imperador romano.

— E por que você está segurando o smoothie desse jeito? — Jennie apontou para o copo. — Está esquentando com o calor da sua mão. Eu pedi gelado, Lalisa. Gelado.

— Nini, eu estou tentando não derrubar seis mil dólares em seda no chão — Lisa explicou, tentando manter a calma que seu treinamento em astrofísica lhe ensinara. — A termodinâmica do seu smoothie é a última das minhas preocupações agora.

— Ah, agora estamos falando de termodinâmica? — Jennie soltou uma risada sarcástica que fez Lisa estremecer. — Você está sendo condescendente comigo? Só porque eu não sei a diferença entre um buraco negro e um buraco na meia, você acha que pode usar palavras difíceis para me calar?

— Eu nunca disse isso! — Lisa estava sentindo os braços começarem a tremer. — Eu amo que você não saiba nada de física, Jennie. Isso me faz sentir útil.

— Então eu sou um projeto de caridade para você? — Jennie disparou, as mãos agora na cintura. — "Pobre Jennie, tão bonita e tão leiga, deixe-me iluminar sua mente com a minha genialidade enquanto ela carrega minhas bolsas". É isso?

Lisa fechou os olhos por um segundo, respirando fundo. Ela sabia que Jennie estava apenas em um daqueles dias. Talvez fosse o cansaço da competição de torcida, talvez fosse a pressão da faculdade, ou talvez ela só quisesse atenção. Mas Lisa estava exausta.

— Jennie, meu amor — Lisa disse, baixando o tom de voz para aquele registro profundo e calmo que geralmente acalmava a namorada. — Meus braços estão doendo. Eu estou com fome. E eu adoraria que você parasse de brigar comigo por causa da cor de uma vitrine ou do sorriso de uma estranha. Eu estou aqui com você. Eu sou toda sua. Eu sou o seu cabide de luxo favorito, lembra?

Jennie parou. O fogo em seus olhos diminuiu um pouco, substituído por um brilho de hesitação. Ela olhou para as mãos de Lisa, que estavam vermelhas devido às alças pesadas das sacolas.

— Suas mãos estão marcadas — Jennie murmurou, a voz perdendo a agressividade.

— Estão — Lisa deu um sorriso fraco. — Mas eu não me importo, desde que você esteja feliz com as suas compras.

O silêncio caiu sobre o grupo. BamBam e Rosé se entreolharam, esperando o próximo movimento. Jennie Kim era imprevisível. Ela poderia pedir desculpas ou poderia encontrar um problema na forma como Lisa respirava.

— Você está tentando me manipular com esse olhar de cachorrinho abandonado, Manoban? — Jennie perguntou, mas já não havia veneno em suas palavras.

— Está funcionando? — Lisa inclinou a cabeça, o sorriso de coelho — o mesmo que causara a briga — aparecendo timidamente.

Jennie suspirou, revirando os olhos e pegando o smoothie da mão de Lisa.

— Está. Mas você ainda está em observação. E eu não gostei daquela sua resposta sobre a termodinâmica. Foi arrogante.

— Foi totalmente arrogante — Lisa concordou prontamente, disposta a aceitar qualquer culpa para encerrar o conflito. — Eu sou uma nerd insuportável.

— É sim — Jennie deu um gole no smoothie e fez uma careta. — E está morno. Viu? Eu estava certa.

— Você sempre está certa, Nini — Lisa disse, começando a caminhar novamente conforme Jennie indicava a direção da praça de alimentação.

— Lalisa? — Jennie chamou, alguns passos à frente.

— Sim?

— Se eu encontrar mais uma meia sua jogada embaixo do sofá quando chegarmos em casa, depois de todo esse estresse no shopping, eu juro que vou fazer você usar aquele uniforme de torcida reserva que sobrou no vestiário.

Lisa engoliu em seco, imaginando-se, com seus 1,80m e ombros largos, tentando caber em uma saia pregueada minúscula.

— Entendido, patroa. Nenhuma meia fora do lugar.

Jennie sorriu, um sorriso vitorioso e brilhante, e esticou a mão para trás. Lisa, mesmo carregada de sacolas, encontrou um jeito de entrelaçar seus dedos mindinhos enquanto caminhavam.

Para o resto do shopping, elas eram apenas a capitã popular e a nerd atlética em uma tarde de compras. Mas para Lisa, cada briga sem sentido e cada exigência de Jennie eram apenas partes da equação complexa que era amá-la. E, no final das contas, Lisa sempre fora muito boa em resolver problemas difíceis.

— Lisa? — Jennie chamou novamente, parando em frente a uma loja de eletrônicos.

— O que foi agora, Nini?

— Aquela capa de celular combina com a sua mochila nova. Nós vamos comprar para usarmos combinando. E não ouse dizer que é infantil.

Lisa olhou para BamBam, que estava sendo obrigado a carregar o casaco de Rosé nos dentes porque as mãos dele estavam ocupadas. Ela suspirou, mas o sorriso em seu rosto era genuíno.

— Sim, senhora. O que a patroa mandar, a gente faz.

Porque no universo de Lalisa Manoban, a gravidade não era a força mais poderosa; era o biquinho de Jennie Kim. E contra isso, não havia lei da física que pudesse competir.