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My rich girl

O Calvário das Sacolas e o Clube dos Namorados Adestrados

— Lalisa, você está ouvindo o que eu estou dizendo? — A voz de Jennie Kim cortou o ar condicionado do shopping como uma lâmina de seda, mas com o peso de uma bigorna.

Lalisa Manoban, que no campo de futebol era uma força da natureza de 1,80m capaz de derrubar defensores com um ombro, agora parecia um cabide humano de luxo. Ela carregava seis sacolas de grife no braço esquerdo, quatro no direito, e tentava equilibrar uma caixa de sapatos debaixo da axila enquanto segurava o smoothie de morango de Jennie com as pontas dos dedos livres.

— Estou ouvindo, Nini. Com toda a minha atenção — Lisa respondeu, a voz saindo um pouco abafada porque uma das alças das sacolas estava perigosamente perto do seu queixo.

— Ótimo. Porque eu estava dizendo para a Rosé que vocês, atletas, têm essa mania insuportável de achar que o mundo gira em torno do cronograma de treinos — Jennie continuou, parando em frente a uma vitrine de joias e analisando seu reflexo impecável. — Ontem mesmo, eu tive que buscar a toalha da Lisa em cima da cama pela terceira vez na semana. Eu não namoro um peixe, Lalisa. Se você se molha, você se seca e guarda a toalha.

Ao lado delas, Rosé, a capitã das líderes de torcida e melhor amiga de Jennie, assentiu vigorosamente enquanto BamBam, o melhor amigo de Lisa e namorado de Rosé, tentava não deixar cair uma sacola de cosméticos que parecia pesar o mesmo que um saco de cimento.

— Nem me fale, Jen — disse Rosé, cruzando os braços e lançando um olhar mortal para BamBam. — O BamBam tem esse hábito ridículo de deixar as chuteiras na entrada do apartamento. O cheiro de grama e suor infecta a sala inteira. Eu já disse que se eu tropeçar nelas de novo, elas vão parar no lixo orgânico.

BamBam olhou para Lisa com um pedido de socorro mudo nos olhos. Lisa apenas suspirou, tentando ajeitar a postura. Elas estavam no shopping há quatro horas. Quatro horas de um treinamento de resistência que nenhum técnico da NYU jamais seria capaz de elaborar.

— E o pior nem é a bagunça — Jennie retomou o fio da meada, voltando a caminhar com aquele passo elegante que fazia o chão parecer um tapete vermelho. — O pior é a distração. Outro dia, a Lisa ficou três minutos inteiros olhando para uma garota que passou por nós no corredor do prédio.

Lisa quase deixou o smoothie cair.

— Nini! Ela era a nossa vizinha do 402 e ela estava carregando uma televisão gigante sozinha! Eu só estava pensando se devia ajudar! — Lisa protestou, sentindo o suor frio escorrer pelas costas.

— Pensando se devia ajudar? — Jennie parou e virou-se, retirando os óculos escuros para olhar Lisa bem no fundo dos olhos. — Lalisa, se ela precisasse de ajuda, ela chamaria um carregador. Você não é o serviço de emergência do prédio. Você é a minha namorada. Seus olhos não têm que "pensar" em nada que envolva outras mulheres e eletrodomésticos.

— Exatamente — Rosé concordou, apontando o dedo para o peito de BamBam. — Igual ao BamBam na semana passada, curtindo a foto daquela instrutora de pilates. "É pelo ângulo da postura", ele disse. Ah, claro. Eu vou mostrar para ele um ângulo de postura quando eu bloquear o cartão dele.

Os rapazes do time de basquete, Jackson e Mark, que vinham logo atrás carregando as compras de suas respectivas namoradas (também líderes de torcida), aproximaram-se formando uma pequena procissão de homens derrotados. Jackson, que geralmente era o cara mais barulhento do campus, estava tão carregado de sacolas que parecia um arbusto de papelão ambulante.

— Cara — sussurrou Jackson para Lisa quando as meninas se afastaram um pouco para entrar na Sephora —, eu prefiro fazer mil agachamentos com o treinador gritando no meu ouvido do que passar mais dez minutos ouvindo a Jihyo reclamar que eu respiro muito alto quando estou jogando videogame.

— Pelo menos a sua reclama do videogame — Mark murmurou, tentando equilibrar uma bolsa de mão. — A minha diz que eu tenho "olhar de quem está planejando traição" quando eu fico em silêncio por muito tempo. Eu só estou tentando calcular o tempo de voo da bola, gente!

Lisa olhou para os amigos e depois para Jennie, que agora estava testando três tons de batom diferentes nas costas da mão de Lisa — já que as mãos de Jennie precisavam estar livres para segurar o espelho.

— Shhh — Lisa sibilou para os rapazes. — Elas têm ouvidos de morcego. Se elas ouvirem a gente reclamando, o jantar vai ser sermão com acompanhamento de gelo.

— Lalisa! — Jennie chamou, sem olhar para trás. — Vem aqui. Qual desses tons combina mais com o meu humor de "não me irrite hoje"? O Vermelho Paixão ou o Vinho Sangue?

Lisa se aproximou com a agilidade de um ninja carregado de pacotes. Ela analisou as cores com uma seriedade digna de uma tese de doutorado.

— O Vinho Sangue, com certeza, Nini. Ele destaca o brilho dos seus olhos e... hum... combina com a sua autoridade natural — Lisa respondeu, sendo estratégica.

Jennie sorriu, um sorriso pequeno e satisfeito que fez o coração de Lisa derreter, apesar da dor nos braços.

— Viu, meninas? — Jennie disse para as outras. — É tudo uma questão de adestramento. A Lisa era um pouco rústica no começo, mas com paciência e as punições certas, ela aprendeu a ter bom gosto.

— Punições? — BamBam sussurrou para Lisa, arqueando uma sobrancelha.

— Dormir no sofá por causa de um like no Instagram conta como punição — Lisa murmurou de volta, sentindo o peso das sacolas aumentar a cada segundo.

As quatro mulheres continuaram a caminhada triunfal pelo shopping, parando em cada loja de sapatos e perfumes, enquanto os quatro atletas da elite da universidade as seguiam como uma guarda de honra maltrapilha. O contraste era cômico: as meninas estavam impecáveis, saltos altos estalando no chão de mármore, risadas cristalinas ecoando, enquanto os rapazes estavam suados, descabelados e visivelmente à beira de um colapso físico.

— Sabe o que eu não entendo? — Rosé comentou, enquanto examinava um par de botas de couro. — Por que eles sempre ficam com essa cara de quem está carregando o peso do mundo? São só algumas sacolas. Eles levantam pesos de vinte quilos na academia todos os dias!

— É a falta de vontade, Rosé — Jennie respondeu, pegando o smoothie da mão de Lisa, tomando um gole e devolvendo-o logo em seguida. — Eles têm força para correr atrás de uma bola, mas para acompanhar o ritmo de uma mulher decidida, eles cansam rápido. É falta de preparo psicológico.

— E de foco — acrescentou Jihyo, a namorada de Jackson. — O Jackson, por exemplo. Se eu peço para ele comprar um leite desnatado, ele volta com um integral porque "a embalagem era parecida". É uma falta de respeito com a minha dieta.

— O meu foco está totalmente em não deixar cair esses quinhentos dólares em cremes que estão na minha mão, Jihyo! — Jackson explodiu, mas logo baixou o tom quando ela lançou um olhar que poderia congelar o inferno. — Quero dizer... eu estou focado, meu amor. Focado como um laser.

Lisa sentiu uma gota de suor escorrer pela têmpora. Ela olhou para o relógio de pulso, mas seu braço estava tão carregado que ela não conseguia levantá-lo.

— Nini, amor... — Lisa começou, tentando ser a voz da diplomacia. — Já são quase sete da noite. Nós não temos aquele compromisso com o pessoal do centro acadêmico?

Jennie parou de repente. Ela se virou para Lisa e colocou as mãos na cintura. O shopping inteiro pareceu prender a respiração.

— Lalisa Manoban, você está tentando encurtar o meu momento de lazer com as minhas amigas usando uma desculpa acadêmica? — Jennie perguntou, a voz perigosamente baixa.

— Não! De jeito nenhum! — Lisa gaguejou, quase derrubando uma sacola da Gucci. — Eu só... eu pensei que você não queria se atrasar. Você odeia atrasos.

— Eu odeio atrasos para coisas que eu quero fazer — Jennie corrigiu. — Para coisas que eu não quero, eu chego a hora que eu quiser. E agora, eu quero ir à praça de alimentação porque eu estou com fome. E você vai carregar essas sacolas até lá sem reclamar mais nenhuma vez.

— Sim, senhora — Lisa respondeu, abaixando a cabeça.

— E Lisa? — Jennie chamou, já voltando a andar.

— Sim?

— Se eu encontrar mais uma meia sua jogada embaixo do sofá quando chegarmos em casa, você vai passar o domingo lavando os uniformes de todo o time de torcida à mão. Entendido?

Lisa engoliu em seco. Ela visualizou a pilha de uniformes de trinta garotas.

— Entendido, Nini. Perfeitamente.

Na praça de alimentação, o cenário não era muito melhor. Enquanto as meninas ocupavam uma mesa grande, discutindo as tendências da próxima estação e fofocando sobre quem seria a próxima rainha do baile, os rapazes foram enviados para a fila do fast-food.

— Eu não aguento mais — BamBam disse, encostando a testa no balcão da lanchonete. — Minhas mãos estão marcadas pelas alças das sacolas. Eu acho que perdi a sensibilidade nos dedos.

— Pelo menos você não foi ameaçado com lavanderia comunitária — Lisa disse, olhando para as próprias mãos calejadas pelo esporte, agora vermelhas pelo peso das compras. — Mas quer saber? Olhem para elas.

Os quatro rapazes olharam para a mesa. Jennie estava rindo de algo que Rosé disse, o rosto iluminado pela luz do shopping, parecendo a criatura mais bonita que Lisa já vira na vida. Ela era mandona, ciumenta, marrenta e tinha um talento especial para fazer Lisa se sentir um gigante desajeitado, mas havia uma doçura escondida em cada ordem que ela dava.

— Elas são terríveis — Mark admitiu, suspirando. — Mas eu não trocaria a Jihyo por nenhuma garota "compreensiva" do mundo.

— É — Jackson concordou. — Tem algo naquela autoridade delas que... sei lá, faz a gente querer ser melhor. Ou pelo menos, faz a gente aprender a dobrar a toalha direito.

Lisa sorriu. Ela sabia exatamente do que eles estavam falando. Jennie Kim não era apenas a patricinha cobiçada do campus; ela era a pessoa que desafiava Lisa todos os dias, que não se impressionava apenas com sua altura ou seus gols, mas que exigia que ela fosse presente, cuidadosa e, acima de tudo, dela.

— Vamos levar os lanches — Lisa disse, recuperando a postura. — E tentem não errar os pedidos. Eu não quero nem imaginar o que acontece se a Jennie receber um hambúrguer com picles sendo que ela pediu sem.

— Morte instantânea — BamBam confirmou.

Eles voltaram para a mesa, servindo as namoradas com uma eficiência que faria garçons profissionais sentirem inveja. Jennie olhou para o seu sanduíche, abriu o pão, verificou a ausência de picles e depois olhou para Lisa.

— Bom trabalho, Lili — Jennie disse, pegando a mão de Lisa e dando um beijo rápido nos dedos marcados pelas sacolas. — Eu sei que eu sou um pouco exigente às vezes.

Lisa sentiu todo o cansaço desaparecer instantaneamente. Aquele pequeno gesto, aquele reconhecimento vindo da mulher que ela amava, valia mais do que qualquer troféu de campeonato.

— Você é perfeita, Nini — Lisa respondeu, sentando-se ao lado dela.

— Eu sei que sou — Jennie piscou, voltando ao seu modo imperatriz. — Agora, coma rápido. Ainda falta passarmos na loja de eletrônicos. Eu vi uma capa de celular que combina com a sua mochila nova e você vai comprar para a gente usar combinando.

Lisa olhou para BamBam, que estava sendo obrigado a dar comida na boca de Rosé porque ela "não queria borrar o batom", e depois para Jackson, que estava ouvindo um sermão sobre como ele mastigava muito rápido.

Lalisa Manoban, a nerd de 1,80m, a bolsista estrela e a mulher intersexual mais poderosa da NYU, apenas sorriu e pegou sua batata frita. Ela sabia que, para o resto do mundo, ela era uma gigante. Mas ali, sob o olhar vigilante e apaixonado de Jennie Kim, ela era apenas a Lisa. E ser a Lisa da Jennie, com sacolas, toalhas molhadas e sermões incluídos, era o melhor papel que ela poderia desempenhar.

— Sim, senhora — Lisa repetiu, pela centésima vez no dia, com o maior sorriso do mundo no rosto. — O que a patroa mandar, a gente faz.

Porque no final das contas, no complexo universo das relações na NYU, a física era simples: Jennie Kim mandava, e o coração de Lalisa Manoban obedecia com prazer.