Voltar ao resumo

my teacher

O Lapso da Língua e o Peso do Afeto

O ar na sala de Literatura 2-B estava tão denso que poderia ser cortado com uma folha de papel. Jennie Kim estava sentada em sua cadeira habitual, mas sua postura não era a de uma aluna atenta. Suas costas estavam retas demais, os braços cruzados sobre o peito e um dos pés, calçado em um mocassim de couro legítimo, batia ritmicamente contra o chão, produzindo um som seco que irritava os nervos de qualquer um.

Lalisa Manoban, parada à frente do quadro negro, tentava explicar as nuances do simbolismo coreano, mas sua voz falhava sutilmente a cada vez que seus olhos encontravam o par de fendas gélidas que eram os olhos de Jennie. A briga no corredor, minutos antes do sinal tocar, ainda ecoava na mente de ambas.

— Você não tem vergonha, Lalisa? — Jennie havia sibilado, prensando a professora contra os armários em um ponto cego do corredor. — Eu vi como você aceitou aquele relatório da professora Park. Suas mãos se tocaram por três segundos inteiros. Eu contei!

— Jennie, pelo amor de Deus, era um cronograma de reuniões pedagógicas! — Lisa tentara argumentar, a voz baixa e desesperada. — Chaeyoung é apenas minha colega.

— "Chaeyoung"? Agora você a chama pelo primeiro nome na frente de todo mundo? — Jennie deu um sorriso amargo, seus olhos brilhando com uma possessividade perigosa. — Talvez eu devesse contar ao meu pai que o laboratório de ciências está sendo usado para fins... extraoficiais.

Agora, dentro da sala, o silêncio de Jennie era pior do que seus gritos. Ela se recusava a abrir o livro. Recusava-se a anotar uma única palavra. Quando Lisa pediu que a turma formasse grupos para analisar um poema de Yi Sang, Jennie simplesmente permaneceu imóvel, como uma estátua de mármore esculpida pelo próprio desdém.

— Senhorita Kim — começou Lisa, tentando manter o tom profissional, embora seu coração estivesse martelando contra as costelas —, todos estão se organizando. Você precisa se juntar a um grupo.

Jennie levantou o queixo, um movimento lento e calculado que exalava arrogância.

— Não estou com vontade, professora Manoban. Talvez a professora Park possa vir aqui e me dar uma aula particular sobre como ser uma "colega atenciosa". Ouvi dizer que ela é ótima em... contatos manuais.

Alguns alunos na parte de trás da sala soltaram risadinhas abafadas. O boato da rivalidade entre a patricinha da escola e a nova professora de Literatura já circulava, mas ninguém entendia a profundidade da tensão que ali existia.

Lisa sentiu o sangue subir ao rosto. A paciência, que já estava por um fio desde a discussão no corredor, finalmente se rompeu. Ela caminhou até a mesa de Jennie, apoiando as mãos sobre a madeira, inclinando-se para que apenas a menina pudesse ver o fogo em seus olhos castanhos.

— Chega dessa infantilidade — murmurou Lisa, a voz vibrando com uma autoridade que geralmente fazia Jennie se derreter, mas que agora só alimentava sua fúria. — Abra o livro agora ou eu terei que tomar medidas disciplinares.

— Ah, é? — Jennie desafiou, levantando-se para ficar o mais próxima possível de Lisa, apesar da diferença de altura. — E quais seriam essas medidas? Vai me dar uma nota baixa? Vai me mandar para a diretoria falar com o meu pai? Ou vai me ignorar como fez hoje cedo para rir das piadinhas sem graça daquela loira oxigenada?

— Ela não é oxigenada e você está sendo injusta! — Lisa exclamou, esquecendo-se por um segundo de onde estava.

— Defendendo-a de novo? — O tom de Jennie subiu, atraindo a atenção total da sala. — Você é patética, Lalisa. Se gosta tanto dela, por que não vai dar aulas particulares na casa dela? Tenho certeza que ela adoraria sua "dedicação".

A sala estava em silêncio absoluto. Até o som do ventilador de teto parecia ter parado. Lisa sentia o peso de trinta pares de olhos sobre elas, mas a única coisa que via era o rosto magoado e furioso de Jennie. A possessividade da menina era exaustiva, mas a dor genuína que brilhava naqueles olhos felinos partiu o coração da professora. Lisa esqueceu as regras. Esqueceu o cargo. Esqueceu que o pai de Jennie era o homem que assinava seu contracheque.

— Jennie, para com isso, por favor — disse Lisa, e sua voz não era mais a da professora severa, mas a de alguém que estava perdendo a batalha contra o próprio sentimento. — Eu já te disse mil vezes que não existe nada entre eu e a Chaeyoung. Você sabe que eu só tenho olhos para você. Não faz isso com a gente, amor.

O silêncio que se seguiu não foi apenas absoluto; foi ensurdecedor.

A palavra "amor" pairou no ar como uma granada que acabara de ter o pino puxado. Lisa arregalou os olhos no instante em que percebeu o que havia dito. O pânico subiu por sua garganta, gelando seu sangue. Ela olhou ao redor e viu as expressões de choque puro nos rostos dos alunos. Alguns estavam de boca aberta, outros trocavam olhares frenéticos, e Kai, na última fila, deixou o estojo cair no chão com um baque surdo.

Jennie, por sua vez, congelou. Sua expressão de fúria foi substituída por um choque tão profundo que ela pareceu esquecer como respirar. O "amor" de Lisa, dito com tanta naturalidade e desespero na frente de todos, foi como um choque elétrico que desarmou todas as suas defesas.

— O que... o que você disse? — gaguejou um aluno na segunda fila, quebrando o transe.

Lisa deu um passo atrás, tropeçando nos próprios pés. Sua mente trabalhava a mil por hora, tentando encontrar uma saída, uma desculpa, qualquer coisa que pudesse salvar sua carreira e a reputação de ambas.

— Eu... eu quis dizer... — Lisa começou, mas sua voz sumiu. Não havia como explicar aquilo. Não havia "contexto pedagógico" para chamar a filha do diretor de "amor" no meio de uma discussão acalorada.

Jennie, recuperando-se do choque mais rápido do que Lisa, viu o pânico no rosto da professora. Por um momento, sua possessividade foi substituída por um instinto de proteção agudo. Ela olhou para os colegas, que já começavam a sussurrar.

— Ela disse... "a cor" — disparou Jennie, sua voz recuperando a arrogância habitual, embora estivesse levemente trêmula. — Ela disse: "Não faz isso com a cor do meu giz". Eu estava... eu estava riscando o quadro dela com caneta permanente e ela ficou histérica. Não foi, professora Manoban?

As cabeças se voltaram para o quadro. Não havia riscos de caneta permanente, mas a dúvida plantada por Jennie foi o suficiente para criar uma pequena rachadura na certeza dos alunos.

— Sim! — Lisa agarrou-se à mentira como se fosse uma tábua de salvação em um naufrágio. — Sim, a senhorita Kim estava... vandalizando o material escolar. Eu me exaltei. Peço desculpas pelo meu tom de voz.

A sala continuou desconfiada. Ninguém ali era burro, e a palavra "amor" tem uma fonética muito distinta de "a cor" em coreano, mas a autoridade de Jennie e o medo que os alunos tinham de seu pai eram ferramentas poderosas de silenciamento.

— Voltem ao trabalho! — Jennie ordenou, batendo com a mão na mesa. — Agora! Ou eu vou garantir que todos vocês terminem o semestre com um zero em comportamento!

Lentamente, os alunos voltaram a fingir que discutiam os poemas, embora os sussurros continuassem como um enxame de abelhas ao fundo.

Lisa caminhou trêmula até sua mesa e sentou-se, escondendo o rosto entre as mãos por um segundo. Ela sentia que sua vida estava desmoronando, mas sentiu uma mão pequena e firme pousar sobre seu ombro.

— Vai para a sua sala privada — sussurrou Jennie, inclinando-se sobre ela. — Diga que está passando mal. Eu vou logo atrás.

Lisa apenas assentiu. Ela se levantou, murmurou algo sobre uma enxaqueca súbita para a turma e saiu da sala quase correndo. Jennie esperou exatamente dois minutos, pegou sua bolsa e saiu sem dar explicações a ninguém.

Quando Jennie entrou na pequena sala de descanso dos professores, encontrou Lisa sentada em um sofá de couro, o rosto escondido nas mãos, os ombros tremendo levemente. Jennie trancou a porta silenciosamente e correu para o lado dela.

— Lili... — Jennie chamou, puxando as mãos de Lisa para longe do rosto.

— Eu acabei com tudo, Jennie — Lisa soltou um soluço seco, seus olhos castanhos transbordando lágrimas. — Eu chamei você de "amor" na frente de trinta pessoas. Seu pai vai saber antes do fim do dia. Eu vou ser demitida, talvez processada... eu fui uma idiota.

Jennie sentou-se no colo de Lisa, envolvendo o pescoço da professora com seus braços e forçando-a a olhar para ela. A raiva por causa da professora Park havia sumido completamente, substituída por uma adoração intensa e protetora.

— Shh, olha para mim — ordenou Jennie, limpando uma lágrima da bochecha de Lisa com o polegar. — Ninguém vai contar nada. Eles têm medo de mim. E se contarem, eu digo que foi um mal-entendido. Eu sou a dona daquela escola, lembra?

— Mas você ouviu como soou — lamentou Lisa, apoiando a testa no ombro de Jennie. — Foi tão... óbvio. Eu estava com tanto medo de te perder por causa daquele ciúme bobo que eu simplesmente... transbordei.

Jennie sorriu, um sorriso genuíno e doce que poucas pessoas tinham o privilégio de ver. Ela puxou o rosto de Lisa para um beijo calmo, tentando transmitir toda a segurança que podia.

— Você me chamou de amor — sussurrou Jennie contra os lábios de Lisa. — Foi a coisa mais perigosa e idiota que você já fez. E eu nunca estive tão apaixonada por você como estou agora.

Lisa soltou um riso nervoso, entre as lágrimas.

— Você é louca, Jennie Kim. Eu estou prestes a perder meu emprego e você está achando romântico?

— Eu sou possessiva, Lili — Jennie admitiu, apertando o abraço. — E saber que você me ama tanto a ponto de esquecer onde está... isso é melhor do que qualquer presente caro que meu pai já me deu. Mas escuta, nós vamos contornar isso.

— Como? — perguntou Lisa, ainda insegura.

— Eu vou falar com a Rosé — disse Jennie, e Lisa sentiu um calafrio. — Não, não desse jeito! Vou pedir para ela confirmar que vocês estavam discutindo um projeto e que eu entrei no meio para atrapalhar. Vou criar uma cortina de fumaça. E você... você vai ter que ser a professora mais fria do mundo comigo pelas próximas duas semanas.

Lisa fez uma careta, puxando Jennie para mais perto da curva de seu pescoço.

— Eu não sei se consigo ser fria com você agora.

— Você vai ter que conseguir — Jennie insistiu, embora estivesse distribuindo beijos suaves pela mandíbula de Lisa. — É o preço para podermos continuar com isso. Mas depois que as aulas acabarem... você é toda minha.

Lisa suspirou, sentindo a tensão começar a deixar seu corpo, substituída pelo calor da presença de Jennie. A natureza intersexual de Lisa sempre a fizera sentir que precisava ser mais forte, mais controlada, mas nos braços de Jennie, ela se permitia ser vulnerável.

— Eu odeio quando você tem razão — murmurou Lisa, as mãos descendo para a cintura de Jennie, apertando-a com possessividade. — Você é pequena, mas manda em mim como ninguém.

— Alguém tem que colocar ordem na sua vida, Manoban — Jennie brincou, mordendo levemente a orelha de Lisa. — E sobre a professora Park... se eu vir você rindo para ela de novo, eu não vou apenas brigar. Eu vou gritar para o mundo que você é minha e aí sim nós duas estaremos em apuros.

Lisa riu, desta vez de forma mais leve.

— Eu prometo, ciumenta. Só você. Sempre foi só você.

Elas ficaram ali por algum tempo, escondidas do mundo em seu pequeno refúgio. O perigo ainda rondava, os sussurros na sala 2-B provavelmente continuariam por dias, mas naquele momento, nada disso importava. O lapso da língua de Lisa havia exposto a verdade que ambas tentavam esconder sob camadas de verniz e profissionalismo: elas não eram apenas professora e aluna, e não eram apenas um caso proibido.

Eram o porto seguro uma da outra em meio ao caos de suas próprias vidas.

— Jennie? — Lisa chamou, quando a menina começou a se levantar para voltar às aulas.

— Sim?

— Eu te amo. De verdade.

Jennie parou à porta, olhou para trás e deu aquele sorriso de "Regina George" que escondia um coração totalmente entregue.

— Eu sei, amor. Agora limpa esse rosto e volta para lá. Você tem uma aula para terminar e um boato para abafar.

Jennie saiu da sala com a cabeça erguida, pronta para enfrentar qualquer um que ousasse questionar o que tinha acontecido. Ela era a protegida do diretor, a rainha do colégio e, agora mais do que nunca, a dona do coração da professora de Literatura. O jogo era perigoso, a corda bamba era alta, mas para Jennie Kim, o prazer estava justamente no risco de cair nos braços de Lalisa Manoban.