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Namoro de METEntira

O Altar da Carne e o Silêncio das Estrelas

A biblioteca da faculdade estava silenciosa, mas não era o silêncio opressor das tardes de estudo. Era o silêncio da madrugada, aquele que só os alunos de engenharia e os desesperados conheciam. Eu, no entanto, não estava lá por causa das equações de Maxwell ou dos relatórios de termodinâmica. Eu estava lá porque Lee Felix, o meu "desastre de estimação", tinha decidido que o setor de arquivos históricos era o lugar perfeito para "conversar".

Passaram-se dois meses desde que o nosso namoro de mentira implodiu para se tornar algo que eu ainda tinha dificuldade em rotular. Eu, o nerd arrogante que desprezava qualquer coisa que não pudesse ser provada matematicamente, agora passava as madrugadas sendo o porto seguro de um garoto que usava o sarcasmo como armadura e a moda como arma de guerra.

Felix estava sentado em cima de uma mesa de carvalho maciço, suas pernas balançando no ar. Ele não estava de minissaia hoje. Usava uma calça de moletom larga que parecia grande demais para seu corpo delicado e um moletom meu, cujo perfume de amaciante barato ele dizia detestar, mas nunca tirava.

— Você está me encarando de novo, Hwang — disse ele, a voz rouca quebrando o silêncio. — Está tentando calcular a massa do meu ego ou só está com vontade de me calar?

— As duas coisas — respondi, aproximando-me e ficando entre suas pernas. — Mas a segunda opção parece mais eficiente no momento.

Eu o beijei. Mas não foi como das outras vezes. Não houve a agressividade desesperada da sala de aula ou a brutalidade possessiva do laboratório. Meus lábios tocaram os dele com uma leveza que me assustou. Eu não queria apenas possuí-lo; eu queria senti-lo.

— O que foi isso? — sussurrou Felix, os olhos arregalados enquanto eu me afastava apenas alguns centímetros. — Onde está o nerd bruto que me joga contra as paredes?

— Ele está cansado, Felix — eu disse, acariciando o rosto dele, sentindo as sardas sob meus dedos como se fossem constelações que eu precisava mapear. — Às vezes, a gente só precisa de calma.

Eu o guiei para o chão, onde havíamos improvisado um ninho com nossos casacos e alguns tapetes velhos da sala de descanso. O ambiente era frio, mas o calor que emanava de nós dois era o suficiente para desafiar qualquer lei térmica.

Desta vez, não houve pressa. Eu tirei sua roupa como se estivesse manuseando um manuscrito antigo e frágil. Felix estava quieto, sua respiração acompanhando o ritmo das minhas mãos. Quando nossos corpos se uniram, não houve o impacto violento de antes. Foi um encaixe fluido, uma dança lenta que fazia meu coração martelar contra as costelas de um jeito que nenhuma adrenalina de ser pego conseguia replicar.

— Hyunjin... — ele arfou, mas não era um gemido de dor ou de provocação. Era um som de puro reconhecimento.

Eu me movia com uma leveza que nunca pensei possuir. Eu olhava nos olhos dele, vendo o brilho das luzes da cidade refletido nas janelas altas da biblioteca. Eu via o Felix real, sem as máscaras de patricinha mimada, sem o orgulho ferido. E ele me via. Não o nerd chato, mas o homem que estava perdidamente rendido a ele.

— Você é lindo — eu disse, as palavras saindo antes que eu pudesse processar o quão "clichê" aquilo soava.

Felix sorriu, um sorriso pequeno e genuíno que não tinha nada de manipulador. Ele entrelaçou seus dedos nos meus, apertando com força enquanto o prazer subia por nós como uma maré calma, mas imparável.

Quando o ápice chegou, não foi uma explosão caótica. Foi um eclipse. Eu me derramei nele sentindo uma exaustão emocional que me deixou desarmado. Eu escondi meu rosto no pescoço dele, respirando o cheiro de cereja e pele quente.

— Eu te amo — sussurrou Felix.

O tempo parou. O silêncio da biblioteca pareceu se expandir para o universo inteiro. Eu congelei, meu coração errando uma batida. Felix nunca tinha dito aquilo. Nós nos odiávamos, nós nos comíamos com desprezo, nós brigávamos por causa de marcas de café e egos inflados. Mas "amor"? Isso era uma variável que eu não tinha incluído na minha equação.

— Felix... — eu comecei, levantando a cabeça para olhá-lo.

— Não precisa dizer nada, seu nerd idiota — ele disse, as bochechas coradas, tentando recuperar sua pose habitual, mas os olhos ainda entregavam tudo. — Só... não esquece disso.

Eu não disse nada. Apenas o beijei novamente, com uma promessa silenciosa que eu ainda não tinha coragem de verbalizar.

***

As semanas seguintes foram estranhas. Felix começou a faltar às aulas de Macroeconomia, o que era um milagre, já que ele adorava desfilar pelos corredores com suas roupas provocantes. Quando ele aparecia, estava pálido e evitava o refeitório, alegando que o cheiro da comida da faculdade era "um crime contra a gastronomia".

— Ele está estranho, não está? — perguntou Jisung, sentando-se à mesa comigo durante o almoço. — O Lee Felix recusando um convite para ir ao shopping é sinal de apocalipse.

— Ele disse que está com uma virose — respondi, embora minha intuição de nerd estivesse gritando que havia algo errado. — Deve ter comido algo estragado naquelas festas de luxo que ele frequenta.

— Ou talvez ele esteja grávido — brincou Jisung, rindo enquanto enfiava uma batata frita na boca. — Imagina? Um pequeno Hyunjin com o senso de moda do Felix. O mundo não está pronto para isso.

Eu ri, mas a piada ficou ecoando na minha mente. Era impossível. Felix era um homem. Sim, ele tinha aquela anatomia rara que às vezes aparecia em casos médicos que eu tinha lido por curiosidade puramente científica, mas as chances eram... astronômicas.

Três dias depois, eu perdi a paciência. Fui até o dormitório dele e bati na porta com a autoridade de quem não aceitaria um "não" como resposta.

— Felix, abre essa porta agora ou eu vou usar meus conhecimentos de física para arrombá-la — gritei.

A porta se abriu lentamente. Felix estava usando um pijama de seda azul e parecia ter chorado. Ele segurava um pequeno objeto de plástico na mão.

— Hyunjin... — a voz dele falhou.

Eu entrei, fechando a porta atrás de mim. Meu olhar caiu para o objeto na mão dele. Um teste de farmácia. Dois riscos vermelhos.

O silêncio que se seguiu foi pior do que o da biblioteca. Eu olhei para o teste, depois para a barriga dele, ainda plana sob a seda, e depois para os olhos dele, que transbordavam pavor.

— Isso é... — eu comecei, a voz falhando.

— É — ele me interrompeu, soltando um soluço. — Eu fiz três. Todos deram a mesma coisa. Eu sou um erro biológico, Hyunjin. Como eu vou contar isso pro Minho? Como eu vou contar pro mundo que a patricinha da faculdade engravidou do nerd que ele odiava?

Eu senti um turbilhão de emoções. Medo, choque, uma confusão mental absoluta. Mas, acima de tudo, senti uma proteção violenta.

— Ei — eu disse, aproximando-me e segurando os ombros dele. — Olha para mim.

Felix levantou o rosto, as lágrimas escorrendo livremente agora.

— Você não é um erro — eu continuei, minha voz ficando firme. — A biologia é complexa, e a gente sempre soube que não éramos normais. E quanto ao Minho e ao resto do mundo... que se fodam. Eles que tentem falar algo de você enquanto eu estiver por perto.

— Você não está bravo? — ele perguntou, a voz pequena. — Isso acaba com os seus planos, Hyunjin. Você quer ser um cientista renomado, não um pai universitário com um namorado problemático.

Eu soltei uma risada curta e o puxei para um abraço apertado.

— Meus planos mudaram no momento em que você sentou na minha mesa de biblioteca com aquela minissaia ridícula — eu disse, beijando o topo da cabeça dele. — Eu sou um nerd, Felix. Eu resolvo problemas. E se o "problema" for um mini-nós, eu vou estudar cada livro de paternidade até ser o melhor nisso.

Felix relaxou nos meus braços, chorando de alívio.

— Eu estava com tanto medo — ele confessou, a voz abafada no meu peito. — Achei que você ia dizer que era um erro de cálculo e ir embora.

— Eu nunca erro nos cálculos, Lix — eu sussurrei, afastando-me apenas o suficiente para olhar nos olhos dele. — E desta vez, o resultado é perfeito.

Ele sorriu entre as lágrimas, o primeiro sorriso real em dias.

— Então... você vai me ajudar a contar pro Minho? — perguntou ele, recuperando um pouco da sua audácia. — Porque ele provavelmente vai tentar te castrar com uma espátula de cozinha.

— Eu enfrento o Minho, o Chan e a faculdade inteira se for preciso — respondi, sentindo uma coragem que não vinha dos livros. — Mas primeiro, você vai comer algo que não seja apenas morangos e gelo.

— O bebê quer pizza — disse Felix, limpando o rosto e recuperando aquele brilho manipulador que eu tanto amava. — E ele quer que você pague.

— O bebê ou você? — perguntei, arqueando uma sobrancelha.

— Ambos — ele piscou para mim. — Agora anda, nerd do pau grande. Você tem um herdeiro para alimentar.

Eu balancei a cabeça, rindo. O caos estava longe de terminar. Na verdade, ele estava apenas entrando em uma nova fase, muito mais complexa e imprevisível. Mas enquanto eu olhava para Felix — meu namorado, meu maior desprezo e meu único amor — eu sabia que não havia nenhuma outra equação no mundo que eu preferiria resolver.

O futuro era incerto, mas pela primeira vez, eu não precisava de fórmulas para saber que tudo ficaria bem. Afinal, a vida, assim como o Lee Felix, não seguia regras. E eu estava finalmente aprendendo a gostar disso.