Namoro de METEntira
O Crepúsculo das Máscaras e a Inércia do Coração
O silêncio que se seguiu à pergunta de Felix foi tão denso que eu podia jurar que o oxigênio dentro do carro havia se tornado sólido. "E se você fosse meu namorado de verdade?". Aquelas palavras flutuavam entre nós, desafiando as leis da física que eu tanto amava. O mundo era regido por causas e efeitos, por ações e reações, mas ali, com o suor esfriando sobre a nossa pele e o cheiro de sexo impregnado no estofado de couro, a lógica parecia ter sofrido um curto-circuito.
Eu o encarei. Felix estava com os olhos úmidos, a boca entreaberta e aquela expressão de vulnerabilidade que ele tentava esconder atrás de camadas de gloss e sarcasmo. Por um segundo, o "nerd de primeira" e a "patricinha mimada" deixaram de existir. Sobrou apenas o Hwang Hyunjin, um cara que se escondia atrás de livros para não ter que lidar com pessoas, e o Lee Felix, um garoto que gritava por atenção porque tinha medo do vazio.
— Você está bêbado, Felix — eu disse, minha voz saindo mais rouca do que eu pretendia. — É o álcool da festa do Chan falando. Amanhã você vai acordar, colocar sua saia mais curta, gastar o dinheiro do seu pai e rir da ideia de estar preso a um cara como eu.
Felix não se moveu. Ele continuou sentado no meu colo, a união dos nossos corpos ainda quente, embora o desejo tivesse sido substituído por uma tensão emocional insuportável. Ele soltou um riso seco, sem humor, e desviou o olhar para o para-brisa embaçado.
— É isso que você pensa de mim, não é? — Ele voltou a me encarar, e agora havia uma centelha de raiva nos seus olhos. — Que eu sou um robô programado para ser fútil? Que eu não sinto nada além de tesão e vontade de comprar sapatos?
— Eu penso que você é um manipulador, Felix — respondi, tentando recuperar minha armadura de arrogância. — Você pediu minha ajuda porque precisava manter as aparências. Você me provoca porque gosta de ver o controle que exerce sobre as pessoas. Esse "namoro" é um contrato. Uma transação comercial.
— Então por que você me fode desse jeito? — Ele explodiu, empurrando meu peito com as mãos, embora não tenha saído de cima de mim. — Por que você me olha como se quisesse me desmontar átomo por átomo quando acha que eu não estou vendo? Se é só um contrato, por que você fica com esse ciúme doentio toda vez que o Jisung chega perto de mim?
— Eu não tenho ciúme — menti descaradamente, sentindo meu estômago dar um nó. — Eu só não gosto que mexam nas minhas coisas.
— "Minhas coisas" — Felix repetiu, a voz carregada de veneno. — Viu? É disso que eu estou falando. Você me trata como um experimento, Hyunjin. Mas a verdade é que você está morrendo de medo de admitir que a melhor buceta que você já comeu vem acompanhada de um coração que você não sabe como manejar.
Eu o segurei pelos quadris, apertando com força, sentindo a pele macia sob meus dedos. A raiva estava voltando, e com ela, a necessidade de silenciá-lo.
— Você quer a verdade, Lee Felix? — Eu o puxei para mais perto, nossos narizes se tocando. — A verdade é que eu odeio o fato de você estar na minha cabeça 24 horas por dia. Eu odeio que meu rendimento acadêmico tenha caído porque eu fico imaginando qual é a cor da calcinha que você não está usando. Eu odeio que você seja tão insuportável, tão mimado e tão... irresistível.
— Então para de odiar — ele sussurrou, a mão subindo para acariciar minha mandíbula, um gesto de carinho que me desarmou mais do que qualquer insulto. — Para de lutar contra o óbvio. Nós somos um desastre, Hyunjin. Mas somos o melhor desastre desse campus.
Eu fechei os olhos por um momento, encostando minha testa na dele. A geometria do nosso relacionamento era impossível. Ele era o caos, eu era a ordem. Ele era o brilho, eu era a sombra. Mas, naquele carro escuro, as cores se misturavam até virarem um cinza confuso e viciante.
— Se fizermos isso de verdade — eu disse, abrindo os olhos e encarando a imensidão escura dos dele —, não vai ter volta. Eu não sou um cara fácil, Felix. Eu sou possessivo, eu sou bruto e eu não vou tolerar seus joguinhos de manipulação se você for meu de verdade.
— E você acha que eu sou fácil? — Ele soltou um sorriso de lado, o brilho provocador voltando aos poucos. — Eu vou gastar todo o seu tempo, vou te arrastar para festas que você odeia e vou te chamar de nerd do pau grande na frente dos seus amigos se eu estiver com vontade.
— Você não ousaria — ameacei, embora um sorriso estivesse começando a surgir no canto dos meus lábios.
— Tente me impedir — ele desafiou.
Eu não tentei impedi-lo. Em vez disso, eu o beijei. Mas não foi um beijo de desprezo ou de luxúria pura. Foi um beijo que selava um pacto muito mais perigoso do que o anterior. O namoro de mentira tinha acabado. O que tínhamos agora era algo sem nome, sem regras e com um potencial de destruição em massa.
***
Na manhã seguinte, a faculdade parecia a mesma, mas tudo estava diferente. Eu cheguei cedo para a aula de Cálculo III, sentando-me no meu lugar habitual na frente. Eu estava tentando focar nas integrais triplas, mas minha mente voltava repetidamente para a sensação de Felix dormindo no meu ombro durante o caminho de volta para o dormitório dele.
A porta do auditório se abriu e o burburinho começou. Eu não precisei olhar para saber que ele tinha chegado. O som dos saltos das botas dele no chão de linóleo era como um metrônomo para o meu coração.
Desta vez, Felix não estava de minissaia. Ele usava uma calça de couro preta tão justa que parecia pintada no corpo, e uma camisa de seda vermelha entreaberta. Ele caminhou até a minha fileira, mas em vez de se sentar ao meu lado com um insulto, ele parou na minha frente e colocou um copo de café gelado sobre a minha mesa.
— Bom dia, gênio — disse ele, alto o suficiente para que metade da sala ouvisse. — Você esqueceu isso no meu quarto hoje cedo.
O auditório ficou em silêncio absoluto. Jisung, que estava entrando logo atrás dele, deixou o celular cair. Minho, sentado algumas fileiras atrás com Chan, arqueou as sobrancelhas de um jeito que dizia "eu sabia que ia dar merda".
Eu olhei para o café e depois para Felix. Ele estava sorrindo, aquele sorriso de quem acabou de lançar uma granada em uma sala fechada e está esperando a explosão.
— Eu não bebo café com tanto açúcar, Felix — eu respondi, tentando manter a calma, embora minhas bochechas estivessem queimando.
— Ah, eu sei — ele se inclinou, apoiando as mãos na minha mesa e aproximando o rosto do meu. — Mas você precisa de um pouco de doçura na vida. E como você é meu namorado, eu decidi que sou eu quem vai te dar isso.
— Namorado? — Seungmin perguntou lá do fundo, a voz carregada de choque. — Peraí, o namoro era de verdade? Eu achei que vocês se odiavam!
Felix se virou para a sala, abrindo os braços como se estivesse em um palco.
— Nós nos odiamos — ele declarou com um brilho malicioso. — Mas o sexo é tão bom que decidimos que o ódio era um preço pequeno a se pagar. Não é, Hyunjin?
Eu suspirei, fechando meu livro de cálculo. Não havia mais como esconder. A farsa tinha se tornado realidade, e a realidade era muito mais barulhenta.
— Senta logo, Felix — eu disse, agarrando-o pelo pulso e puxando-o para a cadeira ao meu lado. — Você já causou o espetáculo que queria.
— Só estou começando — ele sussurrou no meu ouvido enquanto se sentava, deslizando a mão pela minha coxa por baixo da mesa. — Espera só até a aula de laboratório. Eu soube que as bancadas de mármore são ótimas para... estabilidade.
A aula começou, mas eu não ouvi uma palavra do que o professor disse. Eu estava ocupado demais sentindo a mão de Felix subir pela minha perna e tentando ignorar os olhares de choque de todo o campus.
No intervalo, fomos cercados. Jisung foi o primeiro a chegar, com os olhos arregalados.
— Alguém me explica o que está acontecendo! — ele gritou. — Felix, você disse que o Hyunjin era um "nerd insuportável com hálito de enciclopédia". Hyunjin, você disse que o Felix era uma "ameaça à evolução humana".
— E ambos estão certos — respondi, ajeitando meus óculos. — Mas acontece que a evolução humana é superestimada.
— Eles estão transando — Minho disse, aproximando-se com Chan. — Dá para sentir o cheiro de feromônios daqui. Felix, eu avisei para você não se envolver com nerds. Eles têm essa mania de querer ser donos de tudo.
— E ele é — Felix respondeu, abraçando meu braço e encostando a cabeça no meu ombro, uma cena de carinho que parecia surreal vindo dele. — Mas eu também sou dono dele. É uma troca justa.
— Isso é nojento — disse Seungmin, abraçado a Jeongin. — Mas, honestamente? Vocês combinam. Dois egocêntricos que se acham o centro do universo. É um sistema binário perfeito.
— Exatamente — eu concordei, olhando para Felix.
Mas o momento "fofinho" durou pouco. Assim que os meninos se afastaram para o refeitório, Felix se virou para mim com aquele olhar de predador.
— O que foi? — perguntei, já sabendo que vinha problema.
— Eu quero ir para o seu dormitório agora — ele disse, a voz descendo uma oitava. — Essa calça de couro está me apertando nos lugares errados e eu preciso que você me ajude a tirá-la.
— Temos aula de Termodinâmica em dez minutos, Felix.
— Foda-se a termodinâmica, Hyunjin. Eu quero sentir a sua dinâmica. Agora.
Eu olhei para ele, para aquela boca de cereja que não parava de me desafiar, e soube que a minha vida acadêmica exemplar tinha acabado de sofrer um colapso irreversível.
— Se perdermos a chamada, a culpa é sua — eu disse, agarrando a mão dele e começando a caminhar em direção ao estacionamento.
— A culpa é sempre minha, nerd — ele riu, correndo para me acompanhar. — E você adora isso.
Chegamos ao meu dormitório em tempo recorde. Assim que a porta se fechou, a civilidade foi jogada pela janela. Eu o joguei contra a porta, minhas mãos encontrando o fecho daquela calça de couro impossível.
— Você não para, não é? — eu rosnei, beijando o pescoço dele com força, deixando uma marca que ele teria que esconder com maquiagem por uma semana.
— Por que eu pararia? — ele arfou, as mãos puxando minha camisa. — Eu tenho o nerd mais gostoso da faculdade só para mim. Eu quero aproveitar cada centímetro.
Eu o levantei, as pernas dele envolvendo minha cintura instantaneamente. Fomos para a minha mesa de estudos, derrubando pilhas de livros e anotações de física. Felix não se importou. Ele se deitou sobre os meus diagramas de circuitos elétricos, rindo enquanto eu abria a calça dele.
— Você está profanando a ciência, Felix — eu disse, admirando a visão dele entre os meus livros.
— A ciência nunca foi tão divertida — ele retrucou, puxando-me para baixo.
O sexo foi, como sempre, uma batalha. Mas havia algo novo ali. Entre as estocadas brutas e os insultos sussurrados, havia uma entrega que não tínhamos antes. Eu o fodi com a força de quem queria marcar sua posse, e ele recebeu cada movimento com uma manha que me fazia perder a cabeça.
— Hyunjin... — ele gritou quando eu o virei de costas, puxando o cabelo loiro dele para que ele olhasse para mim pelo reflexo do espelho da cômoda. — Olha o que você está fazendo comigo... olha como eu estou aberto para você...
— Você é meu, Felix — eu sibilei, o ritmo acelerando até o ponto de não retorno. — De verdade. Sem contratos. Sem mentiras.
— Sim... — ele soluçou, o corpo tremendo sob o meu. — Todo seu... seu nerd do pau grande... ah!
Quando gozamos juntos, manchando meus apontamentos sobre a teoria das cordas, o mundo pareceu finalmente fazer sentido. Não era uma equação elegante, não era um experimento controlado. Era o caos puro, mas era o nosso caos.
Depois, deitados na cama estreita de solteiro, Felix desenhava círculos no meu peito enquanto eu tentava recuperar o fôlego.
— Sabe — ele disse baixinho —, o Minho vai me matar quando descobrir que eu realmente me apaixonei pelo "nerd esquisito".
— Ele não vai te matar — respondi, beijando o topo da cabeça dele. — Ele vai estar ocupado demais tentando convencer o Chan de que o namoro deles ainda é segredo.
Felix soltou uma risada cristalina, a mesma risada que antes me irritava e que agora era o meu som favorito no mundo.
— Hyunjin?
— Oi.
— Você ainda me odeia?
Eu olhei para ele, para as sardas, para os olhos brilhantes e para a bagunça linda que ele era.
— Com cada fibra do meu ser — respondi, puxando o cobertor sobre nós.
— Ótimo — ele sorriu, fechando os olhos. — Eu também te odeio. Mas não ouse me deixar ir.
— Eu não vou — prometi.
E pela primeira vez na vida, Hwang Hyunjin não precisou de cálculos para saber que o resultado daquela equação era exatamente o que ele precisava. O namoro de mentira tinha acabado, mas a verdadeira guerra — aquela que se trava entre dois corações que se recusam a ceder — estava apenas começando. E eu pretendia vencer cada batalha ao lado do meu pequeno desastre loiro de minissaia.