nao consigo viver sem voce
O Voo da Fênix e o Peso do Silêncio
O ar em Hogwarts estava ficando mais pesado, carregado com uma eletricidade estática que fazia os pelos dos braços de Lily Zneimer se arrepiarem constantemente. Não era apenas o frio que descia das montanhas da Escócia com a chegada do inverno; era algo sombrio, uma mancha que parecia se espalhar pelo horizonte. Os boatos nos corredores não eram mais sobre quem estava namorando quem, mas sobre marcas negras aparecendo no céu em vilarejos distantes e o desaparecimento de bruxos influentes. Lord Voldemort não era mais um sussurro de um passado enterrado; ele era uma sombra que crescia, pronta para engolir a luz.
Lily sentia isso mais do que qualquer um. O vazio em seu peito, que por um breve momento pareceu diminuir, agora pulsava com uma ansiedade que não era dela. Ela se sentava à mesa da biblioteca, tentando se concentrar em seu ensaio de Transfiguração, mas seus dedos traçavam obsessivamente a marca em seu pulso. A constelação na sua pele parecia estar viva, emitindo um calor latente que a mantinha aquecida mesmo quando as janelas da biblioteca batiam com o vento gélido.
— Lily, você está na mesma página há vinte minutos — observou Hermione, fechando seu próprio livro com um suspiro preocupado. — O que está acontecendo? Você está pálida.
— Eu só... estou com um pressentimento ruim, Mione — respondeu Lily, forçando um sorriso que não chegou aos seus olhos gentis. — Parece que algo está para quebrar. Como se o mundo estivesse segurando o fôlego.
— É o que todos estão sentindo — disse Harry, aproximando-se da mesa com Ron. O rosto de Harry estava tenso, as olheiras profundas denunciando noites mal dormidas. — Dumbledore tem estado fora do castelo com frequência. Os professores estão nervosos.
Lily olhou para Harry e sentiu uma onda de proteção brotar em seu peito, mas logo em seguida, uma sensação estranha a atingiu. Era como se uma voz, profunda e calma, ecoasse no fundo de sua mente, dizendo que ela não precisava temer, que ela estava segura. Mas como ela poderia estar segura se seus amigos corriam perigo?
Enquanto isso, longe dos olhares curiosos dos alunos e da vigilância dos monitores, um fenômeno singular ocorria nos céus acima da Floresta Proibida. Uma ave de plumagem magnífica, cujas penas brilhavam em tons de ouro e carmesim, cortava as nuvens com uma velocidade impossível. Não era uma fênix comum. Sua aura era tão vasta que as criaturas da floresta — os centauros, os testrálios e até as acromântulas — se encolhiam em suas tocas conforme a criatura passava.
A fênix mergulhou em direção à orla da floresta, onde a pequena e acolhedora cabana de Hagrid repousava sob a luz da lua. Com um bater de asas silencioso, a ave pousou suavemente diante da porta de madeira maciça. Em um lampejo de luz dourada que não produziu som, a forma da ave se dissolveu, alongando-se e solidificando-se até que um homem estivesse parado ali.
Oscar Piastri não parecia ter envelhecido um único dia desde que o mundo bruxo o declarara morto. Sua mandíbula era firme, seus cabelos escuros estavam levemente desalinhados pelo voo e seus olhos claros brilhavam com uma intensidade feroz. Ele vestia roupas escuras, práticas, que delineavam seus ombros largos e sua constituição forte. A calma que ele costumava emanar estava sendo duramente testada por uma agitação interna que ameaçava transbordar.
Ele não bateu na porta. Ele simplesmente a empurrou, entrando no ambiente quente e cheirando a chá e cachorro molhado. Hagrid, que estava sentado em sua poltrona gigante remendando uma rede de pesca, deu um pulo que quase derrubou seu bule.
— Pelas barbas de Merlin! — exclamou o meio-gigante, a voz falhando. — Oscar? Você quase me matou de susto, rapaz!
Oscar não respondeu imediatamente. Ele caminhou até a janela que dava para o castelo, seus punhos cerrados ao lado do corpo. Sua voz, quando finalmente saiu, era um barítono denso, carregado de uma urgência que Hagrid raramente ouvia.
— Ele está voltando, Hagrid. Eu sinto a marca dele se fortalecendo, sinto o cheiro da podridão dele no vento.
Hagrid suspirou, deixando a rede de lado e aproximando-se do homem que, apesar de ser muito menor em estatura, possuía uma presença que o fazia parecer um gigante.
— Dumbledore sabe, Oscar. Estamos todos em alerta. Mas você... você não deveria estar aqui. Se alguém te vir...
— Eu não me importo com o Ministério ou com quem me vê! — Oscar virou-se bruscamente, seus olhos fixos nos de Hagrid. — Eu sinto o medo dela, Hagrid. A cada segundo, eu sinto a confusão de Lily, o vazio que a consome porque ela não entende o que somos. E agora, com aquele monstro se reerguendo, ela é um alvo. Mesmo que ele não saiba quem ela é para mim, ele vai tentar atingir o Harry, e ela está sempre com ele.
— Ela está segura aqui, Oscar — tentou consolar Hagrid, colocando uma mão imensa no ombro do bruxo. — Dumbledore colocou proteções extras. E você sabe que nada consegue tocá-la. A sua própria magia a protege. Eu vi, outro dia na aula de Trato das Criaturas Mágicas... um Hipogrifo se descontrolou e avançou na direção dela, mas parou como se tivesse batido em uma parede de ferro. Era você, não era?
Oscar desviou o olhar, uma expressão de dor cruzando seu rosto jovem.
— Sim, era eu. Mas a minha proteção física não afasta o sofrimento dela. Ela se sente sozinha, Hagrid. Ela acha que é comum, que não pertence a este mundo. Eu sinto o coração dela apertar toda vez que ela olha para o pulso e não encontra respostas. Dói em mim como se fossem mil maldições Cruciatus.
Ele começou a andar de um lado para o outro no espaço limitado da cabana, a energia emanando dele fazendo com que os utensílios de cozinha de Hagrid começassem a chacoalhar nas prateleiras.
— Eu deveria ir até ela — murmurou Oscar, mais para si mesmo do que para Hagrid. — Eu deveria acabar com esse segredo, levá-la para longe daqui, onde Voldemort nunca a encontraria.
— Você não pode fazer isso! — Hagrid disse com firmeza, embora sua voz tremesse. — O vínculo de almas gêmeas é poderoso, Oscar, mas Lily ainda é uma criança de quinze anos. Se você aparecer agora, com todo esse poder, com toda essa história de que você é o bruxo mais poderoso do mundo que "morreu" para salvar a todos... você vai assustá-la. Ela precisa descobrir a própria força primeiro. Dumbledore tem razão nisso.
Oscar parou de andar e socou a palma da mão esquerda.
— Dumbledore e sua paciência eterna! Ele não sente o que eu sinto. Ele não está ligado a ela por cada fibra do seu ser. Se um fio de cabelo dela for tocado por um Comensal da Morte, eu juro, Hagrid, eu reduzirei este país a cinzas para encontrá-la.
— Eu sei que faria — disse Hagrid suavemente. — Mas olhe para o castelo, Oscar. Ela está lá agora, provavelmente estudando com os amigos, segura e aquecida. O seu sacrifício anos atrás deu a ela esses anos de paz. Não jogue isso fora por causa do medo.
Oscar respirou fundo, tentando controlar o fluxo de magia que ameaçava incendiar a cabana. Ele fechou os olhos e concentrou-se no vínculo. Imediatamente, a imagem mental de Lily apareceu. Ele a viu sentada na biblioteca, o rosto iluminado pela luz das velas, o olhar perdido em algum pensamento distante. Ele sentiu a doçura da alma dela, a bondade que emanava de cada gesto. E sentiu, acima de tudo, a marca no pulso dela pulsando em resposta à sua presença próxima.
— Ela sabe que estou por perto — sussurrou Oscar, sua voz suavizando. — Ela não sabe quem eu sou, mas ela sente que não está mais tão sozinha.
— Viu só? — Hagrid sorriu por entre a barba emaranhada. — Você é o anjo da guarda dela, rapaz. E ela é a sua âncora. Fique calmo. Voldemort pode estar voltando, mas ele não tem ideia do que o espera se ele ousar olhar na direção da garota Zneimer.
Oscar olhou para Hagrid, e por um momento, a máscara de guerreiro poderoso caiu, revelando apenas um homem profundamente apaixonado e aterrorizado pela ideia de perder sua outra metade.
— Eu vou vigiar as fronteiras da floresta esta noite — disse Oscar, sua determinação voltando. — Se qualquer coisa se aproximar dos portões de Hogwarts que não pertença a este lugar, não restará nada para Dumbledore interrogar.
— Oscar... — Hagrid começou a protestar, mas o bruxo já estava se transformando.
Em um redemoinho de chamas que não queimavam, a forma humana desapareceu, dando lugar novamente à fênix majestosa. Com um grito agudo que soou como uma canção de guerra e esperança, a ave disparou pela porta aberta, elevando-se acima das árvores da Floresta Proibida.
Longe dali, na biblioteca de Hogwarts, Lily Zneimer levantou a cabeça bruscamente.
— Vocês ouviram isso? — perguntou ela, o coração acelerado.
— Ouvimos o quê, Lily? — perguntou Ron, distraído com um desenho de um dragão em seu pergaminho.
— Esse som... parecia um pássaro, mas... parecia uma música. Uma música que eu conheço.
Hermione olhou para o pulso de Lily. A marca da constelação estava brilhando com uma intensidade que nunca haviam visto antes, uma luz prateada tão forte que atravessava o tecido da manga de seu uniforme.
— Lily, o seu pulso... — sussurrou Hermione, os olhos arregalados.
Lily olhou para a marca e, pela primeira vez, não sentiu medo ou confusão. Ela sentiu uma onda de calor e segurança tão absoluta que uma lágrima solitária escorreu por seu rosto. Ela não sabia quem ele era, não sabia onde ele estava, mas naquele momento, no meio da escuridão que ameaçava o mundo bruxo, Lily Zneimer teve a certeza absoluta de que era amada.
— Ele está aqui — sussurrou ela para si mesma, um sorriso doce e tímido finalmente florescendo em seus lábios. — Ele está me protegendo.
Nas sombras da floresta, a fênix circulava o castelo, um sentinela silencioso e invencível. Oscar Piastri podia não estar pronto para se revelar, mas ele era a tempestade que aguardava qualquer um que ousasse ameaçar a sua luz. E enquanto Lily estivesse dentro daquelas paredes, o bruxo mais poderoso do mundo seria o seu escudo invisível, o eco de um coração que nunca deixaria de bater pelo dela.